29 de janeiro de 2018

Capítulo 13

Yrene ofegou, suas pernas esparramadas diante dela no tapete, as costas apoiadas contra o sofá em que Lorde Chaol agora ofegava também.
Sua boca estava seca como areia, seus membros tremiam com tanta violência que mal conseguia manter suas mãos inertes sobre o colo.
Um som cuspido e um pequeno baque lhe disseram que ele havia se livrado do couro.
Ele rugira apesar do couro. Seus gritos eram quase tão ruins quanto a própria magia.
Era um vazio. Era um inferno novo e escuro.
Sua magia era uma estrela pulsante que se acendia contra o muro que a escuridão criara entre o alto da coluna e o restante. Ela sabia, sabia sem testar que, se ela ignorasse o ferimento e pulasse diretamente para a base da espinha... também o encontraria lá.
Mas ela forçou. Forçou e forçou, até que estava lutando para respirar. Ainda assim, aquele muro não se moveu.
Parecia apenas rir, silenciosa e sibilantemente, o som atado a frio antigo e malícia.
Ela lançou sua magia contra a parede, deixando seu enxame de luzes brancas ardentes atacarem em onda após uma onda, mas nada.
E só no final, quando sua magia não encontrou nenhuma rachadura, nenhuma fenda para deslizar... apenas quando ela estava pronta para recusar, aquela parede escura pareceu se mover.
Se transformar em algo... outra coisa.
A magia de Yrene tinha ficado frágil antes disso. Qualquer chama de desafio despertada pela morte da curandeira tinha esfriado. E ela não podia ver, não se atrevia a olhar para o que sentia que se juntava, o que enchia a escuridão de vozes, como se estivessem ecoando por um longo salão.
Mas tinha surgido, e ela deslizara um olhar por cima do ombro.
A parede escura estava viva. Nadando com imagens, uma após a outra. Como se estivesse olhando pelos olhos de alguém. Ela sabia por instinto que não pertenciam a Lorde Chaol.
Uma fortaleza de pedra escura se erguia em meio a montanhas arenosas e escarpadas, suas torres afiadas como lanças, bordas e parapeitos duros e cortantes. Além dela, cobrindo os vales e as planícies em meio às montanhas, um exército se afastava à distância, mais fogueiras do que podia contar.
E ela conhecia o nome para este lugar, o anfitrião dali. Ouviu o nome no trovejar em sua mente como se fosse a batida de um martelo na bigorna.
Morath.
Ela se puxou para fora. Puxou-se de volta à luz e ao calor.
Morath, se era alguma lembrança verdadeira, deixada por qualquer que fosse o poder que o atingira; se era algo que a escuridão evocava de seus próprios terrores mais sombrios...
Não era real. Pelo menos não nesta sala, com a luz do sol e a fonte vibrando no jardim além. Mas se fosse de fato um verdadeiro retrato dos exércitos que Lorde Chaol mencionara no dia anterior...
Era o que ela enfrentaria. As vítimas desse hospedeiro, possivelmente até os soldados dentro dele, estariam muito mal.
Era o que a esperava em casa.
Não agora, ela não pensaria nisso agora, com ele aqui. Preocupar-se com isso, lembrar-lhe do que ele deveria enfrentar, o que poderia varrer seus amigos enquanto estavam sentados aqui... nada disso seria útil. Para qualquer um deles.
Então Yrene sentou-se no tapete, forçando seus estremecimentos a diminuírem a cada respiração profunda que ela tomou pelo nariz e soltou pela boca, deixando sua magia se acalmar e reabastecer dentro dela enquanto acalmava sua mente. Deixou Lorde Chaol arquejar no sofá atrás dela, nenhum deles dizendo uma palavra.
Não, esta não seria uma cura usual.
Mas talvez atrasar seu retorno, permanecer aqui para curá-lo pelo tempo que demorasse... poderia haver outros como ele nos campos de batalha, sofrendo ferimentos semelhantes. Aprender a enfrentar tudo agora, por mais angustiante que fosse... sim, esse atraso poderia tornar-se frutífero. Se ela tivesse estômago, se pudesse suportar aquela escuridão de novo. Encontrar algum jeito de destruí-la.
Vá onde você teme pisar.
De fato.
Seus olhos se fecharam. Em algum momento, a criada retornara com os ingredientes que Yrene inventara. Deu um olhar para eles e desapareceu.
Já fazia horas. Dias.
A fome era um nó apertado em sua barriga, um sentimento estranhamente mortal em comparação com as horas passadas atacando aquela escuridão, apenas meio consciente da mão que colocara nas costas dele, dos gritos que vieram dele cada vez que sua magia forçava a parede.
Ele não pediu uma vez para parar. Não implorou por indulto.
Dedos trêmulos roçaram seu ombro.
— Você... está... — cada uma de suas palavras arranhava para sair. Ela teria que trazer chá de menta com mel. Deveria chamar a criada, se apenas pudesse se lembrar de como falar. Usar a própria voz — ... bem?
Yrene abriu as pálpebras quando a mão se acomodou no ombro dela. Não por qualquer carinho ou preocupação, mas porque a exaustão era tão forte que ele não conseguiria movê-la novamente. E ela estava drenada o suficiente para não conseguir reunir forças para afastar esse toque, como fizera mais cedo.
Eu deveria perguntar se você está bem — ela conseguiu dizer, a voz rouca. — Alguma coisa?
— Não. — A falta de emoção por trás da palavra disse a ela o suficiente de seus pensamentos, sua decepção. Ele fez uma pausa por alguns batimentos cardíacos antes de repetir: — Não.
Ela fechou os olhos novamente. Poderia levar semanas. Meses. Especialmente se ela não encontrasse alguma maneira de afastar a parede da escuridão.
Ela tentou e não conseguiu mover as pernas.
— Eu deveria pegar para você...
— Descanse.
A mão apertou em seu ombro.
— Descanse — ele disse novamente.
— Terminamos por hoje — disse ela. — Sem exercício adicional...
— Eu quero dizer... você. Descanse. — Cada palavra lutava para sair.
Yrene arrastou o olhar para o grande relógio na lareira. Piscou uma vez. Duas vezes.
Cinco.
Eles estavam aqui fazia cinco horas.
Ele suportou todo esse tempo. Cinco horas de agonia.
Apenas o pensamento a fez mover as pernas. Gemendo enquanto apoiava uma mão na mesa baixa e recuperava as forças, levantando-se até que estivesse de pé. Oscilando, mas mantendo-se de pé.
Os braços dele deslizaram para baixo do corpo, os músculos de suas costas tremendo enquanto ele tentava se erguer.
— Não — ela disse.
Ele o fez mesmo assim. Os músculos consideráveis em seus braços e peito não falharam enquanto ele se empurrava para cima, até que estava sentado. Olhando para ela, os olhos vidrados.
Yrene respondeu:
—Você precisa de chá.
— Kadja.
O nome foi pouco mais que um suspiro. A criada apareceu imediatamente. Rápido demais.
Yrene a estudou de perto quando a garota entrou. Ela estava ouvindo. Esperando. Yrene não se incomodou em sorrir enquanto dizia:
— Chá de menta. Muito mel.
Chaol acrescentou:
— Duras xícaras.
Yrene lhe lançou um olhar, mas afundou no sofá ao seu lado. As almofadas estavam ligeiramente úmidas – de suor, ela percebeu quando viu gotículas brilhando nos contornos do peito bronzeado dele.
Ela fechou os olhos apenas por um momento.
Não percebeu quanto tempo passou até que Kadja estava colocando duas xícaras delicadas diante eles, uma pequena chaleira de ferro ardente no centro da mesa. A mulher forneceu quantidades generosas de mel para os dois e a boca de Yrene estava seca demais, com a língua muito pesada, para incomodar-se em dizer-lhe para parar ou ela os deixaria enjoados com tanto doce.
A criada misturou ambos em silêncio, depois entregou a primeira xícara a Chaol. Ele simplesmente a passou para Yrene.
Ela estava cansada demais para objetar enquanto envolvia suas mãos em torno da xícara, tentando reunir forças para erguê-la até a boca.
Ele pareceu perceber.
Pediu a Kadja que deixasse sua xícara na mesa. Dispensou-a.
Yrene assistiu através de uma janela distante enquanto Chaol pegava a xícara de suas mãos e a levava até os lábios dela.
Ela debateu tirar a mão do rosto dela.
Sim, ela trabalharia com ele; não, ele não era o monstro que ela inicialmente suspeitava que fosse, não da maneira como vira homens serem; mas deixá-lo se aproximar dessa maneira, deixá-lo cuidar dela assim...
— Você pode beber — ele falou, sua voz um grunhido baixo — ou podemos ficar sentados aqui durante as próximas horas.
Ela deslizou os olhos para ele. Encontrou seu olhar fixo, apesar do esgotamento. Ela não disse nada.
— Então, essa é a divisão — murmurou Chaol, mais para si mesmo do que para ela. — Você pode esvair-se me ajudando, mas não posso devolver o favor. Ou não posso fazer nada que vá além da sua ideia do que... de quem eu sou.
Ele era mais astuto do que a maioria das pessoas provavelmente lhe dera crédito.
Tinha a sensação de que a dureza em seus ricos olhos castanhos estava espelhada nos dela.
— Beba. — Puro comando inundou sua voz, um homem que costumava ser obedecido, a dar ordens. — Ressinta-se de mim por tudo o que quiser, mas beba o maldito chá.
E o leve cintilar de preocupação em seus olhos...
Um homem que costumava ser obedecido, sim, mas um homem também inclinado a cuidar dos outros. Olhar por eles. Levado a fazer isso por uma compulsão que não conseguia abandonar, não podia se ver livre. Não poderia ser arrancado dele.
Yrene abriu os lábios, um rendimento silencioso.
Com suavidade, ele colocou a xícara de porcelana contra sua boca e inclinou-a. Ela sorveu uma vez. Ele murmurou em encorajamento. Ela sorveu novamente.
Tão cansada. Ela nunca se vira tão cansada em sua vida...
Chaol entornou o copo contra sua boca pela terceira vez, e ela tomou um gole grande.
Bastava. Ele precisava mais do que ela...
Ele sentiu que era provável que ela rosnasse, então afastou a xícara de sua boca e simplesmente bebeu dela. Um gole. Dois.
Ele acabou e pegou a outra, oferecendo-lhe novamente os primeiros goles antes de engolir todo o resto.
Homem insuportável.
Yrene deve ter dito em voz alta, porque um meio sorriso surgiu de um lado do rosto dele.
— Você não é a primeira a me chamar assim — ele comentou, sua voz mais suave. Menos rouca.
— E não serei a última, tenho certeza — ela murmurou.
Chaol simplesmente deu a ela aquele meio sorriso novamente e esticou o braço para encher as duas xícaras. Ele mesmo acrescentou o mel – menos do que Kadja. A quantidade certa. Então misturou, suas mãos firmes.
— Eu posso fazer isso — Yrene tentou dizer.
— Assim como eu — foi tudo o que ele disse.
Ela conseguiu segurar a xícara desta vez. Ele se certificou de que ela conseguia se virar bem com sua xícara antes de levar a dele para seus lábios.
— Eu deveria ir. — O pensamento de sair do palácio, caminhar até a Torre, então subir a escada para seu quarto...
— Descanse. Coma... você deve estar morrendo de fome.
Ela olhou para ele.
— E você não?
Ele tinha se exercitado pesadamente antes de sua chegada; ele deveria estar faminto.
— Estou. Mas não acho que consiga aguardar o jantar. Você poderia se juntar a mim — ele acrescentou.
Uma coisa era curá-lo, trabalhar com ele, deixá-lo servir seu chá. Mas jantar com ele, o homem que serviu aquele açougueiro, o homem que trabalhara para ele enquanto aquele exército sombrio massacrava em Morath... Ali estava. Aquele cheiro de fumaça em seu nariz, o crepitar de chama e gritos.
Yrene inclinou-se para frente para colocar a xícara sobre a mesa. Então parou. Todo movimento era rígido, dolorido.
— Eu preciso voltar para a Torre — ela falou, os joelhos tremendo. — A vigília começa ao pôr-do-sol. — Ainda faltava uma boa hora a partir de agora, felizmente.
Ele notou que ela se tremia e tentou alcançá-la, mas ela desviou.
— Eu deixarei os suprimentos. — Porque o pensamento de levar aquela sacola de volta...
— Deixe-me pedir uma carruagem para você.
— Posso pedir no portão da frente — disse ela. Se alguém a estava caçando, ela optaria pela segurança de uma carruagem. Ela teve que segurar nos móveis enquanto se levantava. A distância até a porta parecia infinita.
— Yrene.
Ela mal se aguentava de pé na porta, mas fez uma pausa para olhar para trás.
— A lição amanhã. — O foco já havia retornado naqueles olhos castanhos. — Onde quer que eu a encontre?
Ela debateu dispensá-lo. Perguntou-se o que estava pensando, pedindo a ele, de todas as pessoas, que viesse.
Mas... cinco horas. Cinco horas de agonia, e ele não quebrou.
Talvez fosse só por isso que ela tivesse recusado o jantar. Se ele não tinha quebrado, então ela também não o faria, não pararia de vê-lo como qualquer coisa além do que ele era. O que ele servira.
— Eu o encontrarei no pátio principal no nascer do sol.
Juntar forças para andar foi difícil, mas ela fez isso. Colocou um pé na frente do outro. Deixou-o sozinho naquela sala, ainda olhando para ela.
Cinco horas de agonia, e ela sabia que não era tudo físico.
Ela sentiu, empurrando contra a parede, que a escuridão também lhe mostrava coisas do outro lado.
Às vezes sentia tremores por ela. Nada que pudesse entender, mas pareciam... pareciam lembranças. Pesadelos. Talvez ambos.
No entanto, ele não pediu que ela parasse.
E uma parte de Yrene se perguntou, enquanto atravessava o palácio, se Lorde Chaol não pediu que parasse não apenas porque aprendera a suportar a dor, mas também porque sentia que a merecia.




Tudo doía.
Chaol não se deixou pensar sobre o que tinha visto. O que tinha passado por sua mente à medida que a dor o dominara, queimara, esfolara e quebrara. O que... e quem ele tinha visto. O corpo na cama. O colar na garganta. A cabeça que havia rolado.
Ele não podia escapar deles. Não enquanto Yrene tinha trabalhava.
Então a dor o atravessava, aí ele via as imagens repetidamente.
Então ele rugia, gritava e berrava.
Ela parou apenas quando deslizou para o chão.
Ele tinha ficado vazio. Drenado.
Ela ainda não queria passar mais do que o tempo necessário com ele.
Ele não a culpava.
Isso não importava. Embora tenha lembrado a si mesmo que ela pedira sua ajuda no dia seguinte.
Da maneira como pudesse.
Chaol fez sua refeição no mesmo lugar em que Yrene o deixara, ainda vestindo comente suas cuecas. Kadja não pareceu notar ou se importar, e ele estava cansado demais para incomodar-se com modéstia.
Aelin provavelmente teria rido ao vê-lo. O homem que se afastou do quarto depois de ela ter declarado que seu ciclo havia chegado agora estava sentado nesta sala fina, na maior parte desnudo.
Nesryn voltou antes do pôr-do-sol, o rosto corado e o cabelo soprado pelo vento. Um olhar para o sorriso tentador lhe disse o suficiente. Pelo menos, ela tivera um pouco de sucesso com Sartaq. Talvez ela conseguisse fazer o que parecia que ele próprio falhava: convencer um de seus anfitriões a voltar com eles para casa.
Ele queria falar com o khagan naquele mesmo dia – sobre a ameaça que o ataque da noite anterior representava. O que significava, e, no entanto, já estava atrasado o bastante para impedir a organização de tal reunião.
Ele mal escutou Nesryn enquanto ela sussurrava sobre a possível simpatia de Sartaq. Sobre o passeio em seu ruk magnífico. A exaustão pesava nele com tanta força que dificilmente conseguia manter os olhos abertos, mesmo que imaginasse os ruks estraçalhando as bruxas Dente de Ferro e suas serpentes aladas, mesmo enquanto debatia quem poderia sobreviver a tais batalhas.
Mas ele conseguiu dar a ordem que se enrolava em sua língua: Vá à caça, Nesryn.
Se um dos valg menores de Erawan realmente tivesse ido para Antica, o tempo não estava do lado deles. Cada passo, cada requisição poderia ser relatado a Erawan. E se eles estivessem perseguindo Yrene, quer por ler sobre valg, quer por curar a Mão do Rei de Adarlan... Ele não confiava em ninguém aqui o suficiente para pedir-lhes para fazer isso. Qualquer um que não fosse Nesryn.
Nesryn assentiu com a cabeça a seu pedido. Tinha entendido por que ele quase não conseguiu falar. Deixá-la enfrentar o perigo, caçar esse tipo de perigo...
Mas ela já havia feito isso em Forte da Fenda. Ela o lembrou disso... gentilmente. O sono acenou, tornando o corpo estranho e pesado, mas conseguiu fazer o seu pedido final: Tenha cuidado.
Chaol não resistiu quando ela o ajudou a subir na cadeira e depois o levou para o quarto. Ele tentou e não conseguiu içar-se para a cama, e estava apenas vagamente consciente dela e Kadja transportando-o como um pedaço de carne.
Yrene, ela nunca fazia isso. Nunca o rodeava quando ele conseguia sozinho. Dizia-lhe constantemente para onde se mover em vez disso.
Ele se perguntou por quê. Estava muito cansado de se perguntar por que.
Nesryn falou que apresentaria suas desculpas no jantar e foi se arrumar. Ele se perguntou se os criados ouviram o gemido das lâminas contra a pedra do lado de fora.
Ele estava dormindo antes que ela partisse, o relógio na sala de estar batendo as horas ao longe.




Ninguém percebeu Nesryn muito atenta no jantar naquela noite. E ninguém lhe prestou mais atenção depois, quando pegou as facas e a espada, arco e aljava e entrou nas ruas da cidade.
Nem mesmo a esposa do khagan.
Quando Nesryn passou por um grande jardim de pedra ao sair do palácio, um brilho branco chamou sua atenção e a fez se esconder atrás de um dos pilares que flanqueavam o pátio.
Em um instante, ela tirou a mão da longa lâmina em seu quadril.
Revestida de seda branca, a longa cortina de cabelos escuros soltos, a grande imperatriz caminhava, silenciosa e grave como um fantasma, descendo uma passarela atravessando as formações rochosas do jardim. Somente o luar encheu o espaço, luz do luar e sombra, enquanto a imperatriz caminhava só e despercebida, seu vestido simples fluindo atrás dela como se fosse um vento fantasma.
Branco para o sofrimento, para a morte.
O rosto da grande imperatriz não possuía adornos, sua coloração muito mais pálida do que a de seus filhos. Nenhuma alegria iluminava seus traços; nenhuma vida. Não havia sentimento nenhum.
Nesryn se demorou nas sombras do pilar, observando a mulher se afastar cada vez mais, como se estivesse vagando pelos caminhos de uma paisagem de sonhos. Ou talvez algum inferno vazio e estéril.
Nesryn perguntou-se se era algo semelhante ao que ela mesma tinha caminhado durante os primeiros meses após a morte de sua mãe. Perguntou-se se os dias também sangraram juntos para a grande imperatriz, se a comida era como cinza na língua e o sono era ansioso e evasivo.
Somente quando a esposa do khagan foi para trás de uma grande rocha, desaparecendo da vista, que Nesryn continuou, seus passos um pouco mais pesados.
Antica sob a lua cheia era um mar de azul e prata, interrompida pelo brilho dourado de lanternas penduradas em restaurantes públicos e nos carrinhos de vendedores de kahve e guloseimas. Alguns artistas tocavam melodias em alaúdes e tambores, alguns talentosos o suficiente para fazer Nesryn desejar parar para ouvir, mas sigilo e velocidade eram seus aliados esta noite.
Ela atravessou as sombras, categorizando os sons da cidade.
Vários templos estavam intercalados entre as vias principais: alguns feitos de pilares de mármore, outros embaixo de telhados de madeira e colunas pintadas, uns meros pátios preenchidos com fontes, jardins de rocha ou animais adormecidos. Trinta e seis deuses vigiavam esta cidade, e havia três vezes mais templos espalhados por ela.
E a cada um que Nesryn passava, ela se perguntava se aqueles deuses espiavam pelos pilares ou atrás das rochas esculpidas; se eles observavam dos beirais do telhado inclinado, ou por trás dos olhos do gato malhado semiadormecido nos degraus do templo.
Ela rezou a todos eles para que seus pés fossem rápidos e silenciosos, para guiá-la aonde ela precisava ir enquanto fazia sua ronda pelas ruas.
Se um agente valg tivesse vindo para este continente – ou pior, um possível príncipe valg... Nesryn examinou os telhados e o pilar gigantesco da Torre. O branco como osso brilhava à luz da lua, um farol vigiando esta cidade, com os curandeiros dentro.
Chaol e Yrene não haviam feito nenhum progresso nesse dia, mas... tudo bem. Nesryn lembrava-se, uma e outra vez, de que estava tudo bem. Essas coisas levavam tempo, mesmo que Yrene... Era claro que ela tinha algumas reservas pessoais quanto à herança de Chaol. Seu antigo papel no império.
Nesryn fez uma pausa perto da entrada de um beco enquanto um grupo de jovens foliões cambaleava, cantando canções sujas que certamente fariam com que sua tia lhes desse uma bronca. E mais tarde, murmurasse consigo mesma.
Ao monitorar o beco, os telhados fronteiriços e planos, a atenção de Nesryn se fixou em um entalhe áspero na parede de tijolos de barro. Uma coruja em repouso, suas asas fechadas, aqueles grandes olhos largos e eternamente sem piscar. Talvez não mais do que vandalismo, mas ela roçou uma mão enluvada sobre a ave, seguindo as linhas gravadas na parede do prédio.
Corujas de Antica. Estavam em toda parte nesta cidade, uma homenagem a talvez a deusa mais adorada do que qualquer outro dos trinta e seis. Nenhum deus principal governva o continente do sul, mas Silba... Nesryn novamente estudou a poderosa torre, mais brilhante do que o palácio no extremo oposto da cidade. Silba reinava incontestada aqui. Para qualquer um entrar na Torre, matar uma das curandeiras... eles tinham que estar desesperados. Ou totalmente insanos.
Ou ser um demônio valg, sem medo dos deuses, apenas da ira de seu mestre caso falhasse. Mas se ela fosse um valg nesta cidade, onde se esconder? Onde espreitar?
Canais corriam abaixo de algumas casas, mas não era como a vasta rede de esgoto de Forte da Fenda. Mas, talvez, se ela estudasse as paredes da Torre...
Nesryn se virou para a construção brilhante, a Torre se aproximando a cada passo. Ela parou nas sombras ao lado de uma das casas do outro lado da rua da parede sólida que encerrava todo o complexo da Torre.
Tochas queimavam ao longo de suportes na parede pálida, guardas estacionados a cada poucos metros. E acima dela. Guardas reais, a julgar pelas suas cores, e guardas da Torre em seu azul e amarelo-milho, muitos para que alguém conseguisse passar sem ser visto. Nesryn estudou os portões de ferro, agora selados pela noite.
— Eles foram abertos ontem à noite, é a resposta que nenhum guarda quer dar.
Nesryn girou, sua faca em prontidão.
O príncipe Sartaq estava inclinado contra a parede do prédio a poucos metros dela, olhando para a Torre em ascensão. Espadas gêmeas despontavam acima de seus ombros largos, e longas facas pendiam do cinto. Ele havia mudado das roupas do jantar de volta para seus couros de voar, novamente reforçados com aço nos ombros, manoplas de prata em seus pulsos e um lenço preto no pescoço. Não, não lenço, mas um pano para cobrir sua boca e nariz quando o pesado capuz de sua capa estivesse erguido. Para permanecer anônimo, sem ser notado.
Ela embainhou sua faca.
— Você estava me seguindo?
O príncipe lançou seus olhos escuros e calmos para ela.
— Você não tentou ser discreta quando saiu pelo portão da frente, armada até os dentes.
Nesryn virou-se para as paredes da Torre.
— Não tenho motivos para esconder o que estou fazendo.
— Você acha que quem atacou os curandeiros vai simplesmente uma volta? — suas botas eram quase um sussurro contra as pedras antigas quando ele se aproximou ao seu lado.
— Pensei em investigar como eles poderiam ter entrado. Obter uma melhor visão e onde provavelmente achariam atraente se esconder.
Uma pausa.
— Você soa como se conhecesse sua presa de perto. — E não pensou em mencionar isso para mim durante nosso passeio hoje de manhã, era o que estava subentendido.
Nesryn olhou de soslaio para Sartaq.
— Eu gostaria de poder dizer o contrário, mas sim. Se o ataque foi feito por quem suspeitamos... passei grande parte desta primavera e verão caçando seu tipo em Forte da Fenda.
Sartaq observou a parede por um longo minuto. Ele perguntou calmamente:
— Quão ruim foi?
Nesryn engoliu enquanto as imagens tremeluziam: os corpos, os esgotos e o castelo de vidro explodindo, uma parede de morte voando sobre ela.
— Capitã Faliq.
Um chamado suave. Um tom mais suave do que se esperaria de um príncipe guerreiro.
— O que seus espiões lhe disseram?
O maxilar de Sartaq se apertou, sombras cruzando o rosto antes de dizer:
— Eles relataram que Forte da Fenda estava cheio de terrores. Pessoas que não eram pessoas. Besta dos sonhos mais sombrios de Vanth.
Vanth... Deusa dos Mortos. Sua presença nessa cidade antecedia até mesmo os curandeiros de Silba, seus seguidores uma seita secreta que até mesmo o khagan e seus predecessores temiam e respeitavam, apesar de seus rituais serem completamente diferentes do Céu Eterno ao qual o khagan e o Darghan acreditavam que voltariam um dia.
Nesryn passou rapidamente pelo templo de pedras escuras de Vanth, a entrada marcada apenas por um conjunto de degraus de ônix descendo para uma câmara subterrânea iluminada com velas brancas.
— Posso ver que nada disso lhe parece estranho — disse Sartaq.
— Um ano atrás, poderia ter sido.
O olhar de Sartaq varreu suas armas.
— Então você realmente enfrentou tais horrores.
— Sim — admitiu Nesryn. — Por qualquer bem que tenha feito, considerando que a cidade está infestado deles. — As palavras saíram tão amargas quanto ela sentia.
Sartaq considerou.
— A maioria teria fugido, ao invés de encará-los.
Ela não sabia como confirmar ou negar tal afirmação, sem dúvida, dita para consolá-la. Um esforço amável de um homem que não precisava fazer isso. Ela se viu dizendo:
— Eu... eu vi sua mãe mais cedo. Andando sozinha através de um jardim.
Os olhos de Sartaq se fecharam.
— É? — uma pergunta cuidadosa.
Nesryn perguntou-se se talvez devesse ter contido a língua, mas continuou:
— Eu só mencionei, caso... caso seja algo que você possa precisar, possa querer saber.
— Havia um guarda? Uma criada com ela?
— Não que eu tenha visto.
Ali havia preocupação tensionando seu rosto enquanto ele encostava as costas contra o edifício.
— Agradeço por avisar.
Não tinha por que contar sobre isso para ninguém, e certamente não para a família mais poderosa do mundo. Mas Nesryn disse calmamente:
— Minha mãe morreu quando eu tinha treze anos. — Ela olhou para a torre quase incandescente. — O antigo rei... você sabe o que ele fez com aqueles que usavam magia. Com os curandeiros dotados com ela. Então, não havia ninguém que pudesse salvar minha mãe da doença que a tomou. O curandeiro que conseguimos encontrar admitiu que era provável que a doença estivesse crescendo dentro do peito de minha mãe. Que ele poderia ter sido capaz de curá-la se a magia não tivesse desaparecido. Antes de ser proibida.
Ela nunca contara esta história a ninguém fora de sua família. Não tinha certeza de por que realmente estava contando para ele agora, mas continuou:
— Meu pai queria levá-la para um barco e navegar até aqui. Estava desesperado. Mas a guerra explodiu de uma ponta a outra em nossas terras. Os navios foram recrutados por Adarlan, e ela estava fraca demais para arriscar uma viagem por terra por todo o caminho até Eyllwe para tentar navegar de lá. Meu pai procurou em todos os mapas, todas as rotas comerciais. Quando encontrou um comerciante que navegaria com eles, apenas os dois, para a Antica... Minha mãe estava tão doente que não podia ser movido. Ela não teria conseguido isso aqui, mesmo que tivessem conseguido pegar o barco.
Sartaq a observava, o rosto ilegível, enquanto ela falava.
Nesryn colocou as mãos nos bolsos.
— Então ela ficou. E estávamos todos lá quando ela... quando acabou. — Aquela velha dor envolveu-a, fazendo seus olhos queimarem. — Levou alguns anos para eu me sentir bem novamente — ela falou após um momento. — Dois anos atrés, comecei a perceber coisas como o sol no meu rosto, ou o gosto da comida, comecei a me divertir novamente. Meu pai... ele nos manteve unidos. Minha irmã e eu. Se ele lamentou, não nos deixou ver. Encheu nossa casa de tanta alegria quanto podia.
Ela ficou em silêncio, sem saber como explicar o que queria dizer ao iniciar esta conversa.
— Onde eles estão agora? Depois do ataque a Forte da Fenda? — Sartaq perguntou finalmente.
— Eu não sei — ela sussurrou, soltando o ar. — Eles fugiram, mas... eu não sei para onde, ou se conseguiram chegar aqui com tantos horrores enchendo o mundo.
Sartaq ficou em silêncio por um longo minuto, e Nesryn passou cada segundo desejando que ela tivesse mantido a boca fechada. Então o príncipe falou:
— Enviarei a palavra com discrição. — Ele afastou-se da parede. — Para que meus espiões fiquem atentos à família Faliq e que a ajude a seguir seu caminho da forma que puderem para portos mais seguros.
Seu peito apertou o ponto de doer, mas ela conseguiu responder.
— Obrigada. — Era uma oferta generosa. Mais do que generosa.
— Sinto muito por sua perda — Sartaq acrescentou. — Tão antiga quanto é. Eu... Como guerreiro, cresci caminhando de mãos dadas com a morte. E ainda esta... tem sido mais difícil de suportar do que as outras. E o sofrimento da minha mãe talvez seja ainda mais difícil de enfrentar do que o meu. — Ele balançou a cabeça, o luar dançando em seu cabelo preto e disse com leveza forçada: — Por que acha que eu estava tão ansioso para segui-la esta noite?
Nesryn, apesar de si mesma, ofereceu-lhe um leve sorriso em troca.
Sartaq levantou uma sobrancelha.
— Embora ajudasse saber o que, exatamente, eu deveria estar procurando.
Nesryn debatia o que dizer a ele... debatia a própria presença dele aqui.
Ele deu uma risada baixa e macia quando sua hesitação foi um momento mais longo.
— Pensa que fui eu quem atacou aquela curandeira? Depois de te contar sobre o ocorrido esta manhã?
Nesryn inclinou a cabeça.
— Não quero ser desrespeitosa — mesmo que ela tivesse visto outro príncipe escravizado nesta primavera, e tivesse disparado uma flecha contra uma rainha para mantê-lo vivo. — Seus espiões estavam certos. Forte da Fenda estava... eu não gostaria de ver Antica sofrer por qualquer mal semelhante.
— E está convencida de que o ataque na Torre foi apenas o começo?
— Estou aqui fora, não?
Silêncio.
— Se alguém, familiar ou estrangeiro, oferecer-lhe um anel ou colar negro, se vir alguém com algo parecido... não hesite — Nesryn acrescentou. — Nem por um segundo. Seja rápido e sucinto. A decapitação é a única coisa que os mantém mortos. A pessoa dentro deles se foi. Não tente salvá-los, ou será você quem acabará sendo escravizado.
A atenção de Sartaq se dirigiu para a espada em sua cintura, o arco e a aljava presos às costas.
— Conte-me tudo o que você sabe — ele disse calmamente.
— Eu não posso.
A recusa por si só poderia acabar com sua vida, mas Sartaq assentiu pensativo.
— Conte-me o que pode, então.
Então, ela contou. De pé nas sombras além dos muros da Torre, ela explicou tudo o que pôde, menos sobre as chaves e os portões, a escravidão de Dorian, bem como a do antigo rei.
Quando terminou, o rosto de Sartaq não mudou, embora ele tenha esfregado o maxilar.
— Quando planejavam contar isso a meu pai?
— Assim que ele nos concedesse uma reunião privada.
Sartaq praguejou baixo.
— Com a morte da minha irmã... ficou mais difícil para ele do que ele admitirá voltar ao nosso ritmo habitual. Ele não aceitará o meu conselho. Nem de ninguém mais.
Foi a preocupação com o tom e a tristeza do príncipe que fez Nesryn dizer:
— Sinto muito.
Sartaq balançou a cabeça.
— Eu devo refletir sobre o que você falou. Há lugares dentro deste continente, perto da pátria do meu povo... — ele esfregou seu pescoço. — Quando eu era menino, contavam histórias de horrores semelhantes — ele disse, mais para si mesmo do que para ela. — Talvez seja hora de eu visitar minha mãe. Ouvir suas histórias novamente. E como essa antiga ameaça foi tratada, há muito tempo. Especialmente se agora ela está se movendo mais uma vez.
Um registro de valg... aqui? A família dela nunca lhe contou histórias, mas eles tinham saído de um ponto distante do continente. Se os cavaleiros ruk de alguma forma conhecessem os valg ou até mesmo os tivessem enfrentado...
Passos soaram na rua, e eles pressionaram as costas na parede do beco, as mãos sobre as espadas. Mas era apenas um bêbado tropeçando para casa pela noite, saudando os guardas da Torre ao longo dos muros enquanto passava, ganhando risos em troca.
— Existem canais aqui embaixo – esgotos próximos que podem se conectar à Torre? — sua pergunta era pouco mais que um murmúrio.
— Eu não sei — admitiu Sartaq no mesmo tom. Ele sorriu com dureza quando ele apontou para uma grade antiga no chão do beco. — Mas seria uma honra acompanhá-la para descobrir.

13 comentários:

  1. Sabe o que mata? Eu sei que não se pode confiar em ninguém, mas essa falta de dialogo isso é esconder informações... É um mato sem cachorro. Revele tudo e corra o risco de ser pego numa arapuca esconda coisas valiosas e corra o risco de ter uma avalanche de problemas. Não sei o que é pior.
    Desculpa, mas shippo muito esses dois. #Nestaq

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  2. Estou sentindo um ship no ar
    E já tô shippam!!

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  3. Estou suspeitando desse Sartaq



    -Lrissa

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  4. "O rosto da grande imperatriz não possuía adornos, sua coloração muito mais pálida do que a de seus filhos. Nenhuma alegria iluminava seus traços; nenhuma vida. Não havia sentimento nenhum."

    Se eu estou desconfiada dessa imperatriz? Sim ou com certeza? Talvez seja o luto, sei bem a dor causada por isso, mas ainda assim não consigo confiar.


    Eu tô shippando horrores esses dois, se Sartaq for do mal eu vou bater em alguém.

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    1. Muito suspeito essa Imperatriz

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    2. Mano acho q é luto mas vc me deixou de sobreaviso. Véi sera muito triste se a propria mae possuida tiver matado a filha... puts muito triste mesmo...

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    3. Também desconfiei quando estava lendo

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  5. não sei não, mas eu não tô confiando é nesse Khasin ae
    ele está muito pelas beiradas da história, todo mundo falando que ele é o bonzinho, que ele não está interessado no trono
    tô achando que ele vai ser o cara do mau nesse história u.u


    Ass: Ana Rajaram Belikov Herondale Warner da Corte Noturna <3

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  6. Tbm estou desconfiando do Kashin. Muito bonzinho e preocupado com a irmã. Mas até agora não moveu uma palha. E a mãe dele tá muito estranha, mesmo pra alguém de luto!

    Flavia

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  7. Maven destruiu minha fé. Todo mundo pode trair todo mundo hahahha

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    1. Gente Maven tava na CARA!!!!!!

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  8. Oficial novo chipe!!!!! Num curtia Chaol e Nesryn mesmo.

    Mas uma coisa q aprendi com história é que quando envolve política de suscessão principes e princesas nao tem escrúpulos. Ou seja nao vou nem me apegar pq podem ser um bando de fdp com jogos de poder e traição...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!