25 de janeiro de 2018

Capítulo 13. Pouco mais que uma criança

Sangrando, no Mercedes-Benz do dono da galeria de arte, Ferenc Gábor chegou ao hospital com a cabeça no colo de Magrí.
Depois que o velho foi levado para a sala de emergência, o hospital virou uma confusão. Dois carros da Polícia Federal chegaram cantando os pneus, repletos de agentes.
O cônsul francês apareceu numa limusine cheia de bandeirinhas, muito preocupado com o estado de saúde daquele velho que já passara mais anos de sua vida como francês do que como alemão. Repórteres de televisão, de rádio e de jornais invadiram o hospital com suas câmeras, máquinas fotográficas, gravadores e perguntas a esmo.
A sala dos médicos foi invadida por um grupo de homens com expressão carregada que agiam como se fossem os donos do mundo. No meio deles, com o terno manchado pelo sangue da vítima que ajudara a socorrer, o detetive Andrade enxugava o suor da careca, desta vez na condição de testemunha.
O líder do grupo identificou-se como Doutor Pacheco e sentou-se à frente de Andrade. Ninguém conseguia entender por que, àquela hora da noite, o agente precisava de óculos escuros.
— O que fazia o senhor, detetive Andrade, na inauguração de uma exposição de arte? Está querendo renovar a decoração de sua sala? O seu salário na Polícia Estadual dá para isso?
O gordo detetive não se deixou intimidar. Respondeu, procurando olhar dentro dos olhos que o fitavam por trás das lentes escuras:
— Sua posição não lhe dá o direito de vir com gozação, Doutor Pacheco. Eu estava na galeria de arte a serviço. Estou investigando o assassinato de Solomon Friedman...
— De quem?
— Do ator, morto ontem à noite. Eu tinha razões para pensar que o senhor Ferenc Gábor...
— Que ligação pode haver entre os dois casos, detetive Andrade?
— Os dois fugiram juntos do campo de concentração de Sobibor, em 1944...
— Na Segunda Guerra Mundial? O que está dizendo?
— Estou dizendo que pode haver uma ligação entre os dois atentados, Doutor Pacheco. Talvez a mesma pessoa “precisasse” da morte de Solomon Friedman e de Ferenc Gábor...
O agente federal levantou-se e sorriu, com a superioridade de um galã de filme de espionagem, que parece muito valente olhando para a câmera, mas que é sempre substituído por um dublê nas cenas de maior perigo.
— Um caso político, hein? Se o senhor desconfiava que este poderia ser um caso político, por que não passou o caso para nossas mãos? Não lhe ocorreu que a Polícia Federal está mais bem aparelhada para enfrentar estes casos e que poderia ter evitado a tentativa de assassinato contra Ferenc Gábor?
Andrade suspirou. Seu salário era na certa muito menor do que o do emproado agente, mas ele não trocaria seus velhos métodos pelo tal “aparelhamento” dos federais.
— Durante uma investigação, nunca me ocorre a ideia de livrar-me dela, Doutor Pacheco. Solomon Friedman e Ferenc Gábor eram judeus. Fugiram juntos do campo de extermínio de Sobibor, mas viveram separados, um no Brasil, outro na França, durante todos esses anos. Se há alguma ligação entre os dois atentados, ela não será pessoal, uma vez que eles sempre estiveram afastados. O único elo que os une é o passado comum, vivido à beira da morte, em um campo de extermínio nazista. Por isso creio que este pode ser um caso político. Solomon Friedman vinha recebendo panfletos ameaçadores de alguma org...
O agente de óculos escuros interrompeu:
— Panfletos? Que espécie de panfletos?
Andrade tirou do bolso o impresso amarelo amarrotado e estendeu-o para o agente federal.
— Desta espécie, Doutor Pacheco. Solomon Friedman estava lendo este impresso minutos antes de morrer. Depois do assassinato, o panfleto foi encontrado no cesto de papéis do camarim da vítima.
O Doutor Pacheco arrancou o papel amarelo da mão de Andrade, passou os olhos por ele e pareceu empalidecer. Por um momento, quase tirou os óculos escuros. Recuperou-se e sorriu para Andrade:
— Muito obrigado por sua colaboração, detetive Andrade. É só, por enquanto. Agora vá para casa e deixe o caso em nossas mãos.
Andrade suspirou novamente. Ajeitou-se na cadeira, correu os olhos em volta e sorriu para o agente.
— Doutor Pacheco, ninguém me manda para casa quando eu estou no meio de uma investigação. Este é um caso meu e o senhor não vai me afastar dele. Eu estou no caso e nele vou permanecer!
— Isto está fora de cogitação, detetive Andrade — respondeu o agente, em um tom definitivo. — Agradecemos sua colaboração, mas eu insisto que tudo fique agora sob responsabilidade federal.
Andrade levantou-se com esforço, como se a decisão fosse difícil de ser tomada.
— Está bem, então. Os jornalistas já estão aí fora. O senhor me obriga a explicar a eles, tintim por tintim, todas as pistas que eu já localizei...
O Doutor Pacheco não teve outro jeito senão ceder à chantagem do gordo detetive, porque a Polícia Federal tinha razões para manter a imprensa fora do caso. Quando o médico responsável entrou na sala, o detetive Andrade já estava novamente sentado, desta vez mais à vontade, como um integrante da equipe de agentes federais.
— Acabamos o procedimento cirúrgico — relatou o médico. — O senhor Ferenc
Gábor não corre nenhum perigo. O projétil penetrou pouco acima da cintura, rasgando apenas a carne e saindo no flanco sem atingir o baço. O paciente deve ficar em observação somente devido à sua idade, mas não-há nada imediato que justifique preocupações.
— Obrigado, doutor.
Andrade recordou-se da cena que presenciara ao entrar no escritório da galeria de arte. O velho Gábor caído, com o lado esquerdo do paletó ensanguentado, pressionando um lenço contra o ferimento, à beira do desmaio. A arma do crime era uma pequena pistola calibre 22, que o criminoso deixara cair perto da janela por onde provavelmente fugira. A pistola já fora levada pela perícia, mas o detetive não tinha esperanças de que fossem encontradas impressões digitais.
O médico retirou-se e Andrade novamente insistiu:
— Muito bem, Doutor Pacheco. Já contei o que sabia. Agora, que o senhor tão gentilmente me convidou para participar das investigações, eu gostaria de tomar conhecimento do que a Polícia Federal sabe. Principalmente quero saber por que o senhor ficou tão pálido ao ler o panfleto amarelo encontrado no camarim de Solomon Friedman...
O Doutor Pacheco sentou-se à frente de Andrade e entregou os pontos-.
— Está certo. O senhor é um profissional e, se vai trabalhar conosco, deve saber de tudo. O caso pode ser muito mais grave, muito mais abrangente do que o senhor pensa. Pelo jeito, o atentado contra Ferenc Gábor e o assassinato de Solomon Friedman fazem parte de uma conspiração maior, cujos membros vão continuar matando.
Panfletos como este, com exatamente o mesmo texto, têm sido enviados em várias línguas a judeus influentes de todo o mundo...
— Até aí não há muita novidade, Doutor Pacheco — comentou Andrade. — Fanáticos neonazistas ameaçam mas não incomodam muito, desde o fim da guerra. São cães que ladram mas não mordem...
— Parece que agora esses cães estão dispostos a morder — continuou o agente federal. — Investigações internacionais vêm descobrindo uma série de pequenas pistas que apontam todas para uma mesma direção: os neonazistas de todo o mundo não mais agem desordenadamente. Estão reunidos sob um comando centralizado que se chama simplesmente Organização. Desta vez deve haver um plano que ultrapassa a simples propaganda. Agora vão partir para a ação direta. Até há pouco tempo não tínhamos ideia desse plano. Mas, aos poucos, foi possível reunir algumas pistas e traçar um quadro mais claro. Detetive Andrade, estamos às vésperas da instalação do IV Reich!
Andrade escarafunchou seus conhecimentos de História. O IV Reich fora o império de Frederico, o Grande. O SS tinha sido a unificação alemã, no século XIX. O 3Q, de triste memória, foi mesmo aquele, o de Adolf Hitler.
— A Organização se estrutura em bases imperiais. Sabíamos que, em alguma parte do mundo, estava a pessoa que a Organização preparava para assumir o comando mundial do IV Reich. Não seria mais um movimento alemão, com características nacionalistas. Tratava-se agora de algo universal, sem pátria e, portanto, muito mais perigoso, pois suas pretensões incluiriam o domínio sobre o mundo inteiro!
— O senhor disse que estamos às vésperas do início da ação direta dessa tal Organização. Como sabe disso?
— As investigações foram centralizadas na descoberta de quem seria esse grande líder, essa pessoa que contaria com a confiança de todo o movimento neonazista internacional. E acabamos descobrindo. Essa pessoa é chamada pela Organização de “O Esperado”, e é aguardada para reinstaurar o Império do Mal sobre a Terra, como muitas religiões esperam o Messias para uma missão oposta.
— Descobriram? E quem é esse Esperado?
Por trás das lentes escuras, o olhar do Doutor Pacheco pareceu mais penetrante quando ele disse:
— É um menino, detetive Andrade. Pouco mais que uma criança!

* * *

Os preparativos para a recepção ao Esperado faziam fervilhar o Castelo Wachenfeld. Como um alucinado, cuidando de cada detalhe, o velho Komandant não dava um minuto de sossego aos seus “soldados”:
— Achtungl Se alguma coisa sair errada, muitos de vocês vão pagar o erro com a própria vida!
— Jawohl, mein Komandant! Tudo vai dar certo, mein Komandant!
O Komandant estava exultante. Dentro de poucas horas ele teria o Esperado sob sua guarda, e o novo Fuhrer haveria de cumprimentá-lo ao tomar conhecimento do segredo. Ah, ele guardara aquele segredo durante tantos anos!
O Esperado ficaria contentíssimo!

* * *

A surpresa de Andrade correspondeu ao que esperava o agente federal. O Doutor Pacheco deixou o suspense mais um pouquinho no ar e recomeçou:
— Um menino! É um garoto chamado Max Godson.
Somente não sabemos por que um menino seria o grande Guia capaz de unificar os malucos neonazistas e possibilitar uma reviravolta no movimento, fazendo-os abandonar sua cretina política de provocação e propaganda para passar à ação direta. O tal Max Godson é mantido pela Organização, sob cuidados muito especiais, em Durban, na África do Sul.
— E por que a Polícia Federal brasileira estaria mais interessada nesse garoto do que...
— Eu disse que a Organização vai partir para a ação direta, não disse? Pois parece que essa ação deve começar pelo Brasil, detetive Andrade. O tal Max Godson deve estar se preparando para levantar voo de Durban a esta hora, acompanhado de um rapaz que tem sido seu companheiro inseparável na África do Sul e que deve ser um jovem agente da Organização, naturalmente. O avião trazendo o Esperado deve aterrissar no aeroporto de Cumbica amanhã à tarde!
As luzes da reportagem de televisão acenderam-se quando a porta da sala dos médicos se abriu. Repórteres com microfones na mão cercaram o Doutor Pacheco e o detetive Andrade, todos fazendo perguntas ao mesmo tempo.
Andrade procurou defender-se da claridade tapando os olhos com as mãos. Atrás do grupo de repórteres estavam os cinco meninos que aguardavam ansiosos na recepção do hospital. Protegida pelos óculos escuros, a visão do Doutor Pacheco estava menos afetada pelas luzes do que a de Andrade, e o agente federal ordenou, olhando para o grupo dos cinco Karas:
— Prendam aquele menino!
Seu olhar estava fixo em Chumbinho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!