20 de janeiro de 2018

Capítulo 13. Nos dentes da morte

Os pulmões de Crânio retorciam-se à procura de oxigênio quando o garoto se sentiu agarrado em seu mergulho para a morte. Deveriam ser piranhas, ou jacarés, que vinham transformar seu afogamento em uma morte mais rápida.
Crânio apertou os olhos, preparando-se para o que não podia ser evitado. Era um jacaré, na certa, que abocanhara o saco e agora o arrastava pela correnteza. Parecia puxá-lo para cima, à tona. Subitamente, uma lufada de ar entrou pela boca do saco, enchendo-lhe os pulmões, trazendo-lhe mais alguns segundos de vida.
Por que o jacaré não mordia logo, para acabar de uma vez com aquela agonia? Sentiu um baque. Um choque contra alguma coisa dura. E um dente comprido  cortou o saco. Pelo rasgão, o ar e a luz invadiram. A luz fez o “dente” brilhar.
Era uma faca!
Crânio entendeu que a morte era aquilo, e que o demônio que viera buscá-lo era um velho “jacaré”, de faca na mão, olhando fixamente para ele. Desligou-se daquela morte, fechando os olhos e mergulhando profundamente em um rio mais calmo, feito de febre e exaustão.

* * *

Crânio não se lembrava de sonhos. Sua última lembrança era a imagem assustadora da morte, que agora se misturava a uma frase muito estranha impressa em uma camiseta, à sua frente: “South Dakota University”!
Aos poucos, acima da frase, um rosto sorridente, de óculos escuros, parecia feliz em olhar para o rapazinho, como se admira um bebê que acaba de nascer.
— Robson! índio Robson!
— Moço novo! Resolveu acordar para a vida? Robson está contente!
— Então eu não estou...
— Morto? Quase. Por oito dias esteve quase... Crânio olhou as próprias mãos.
Eram duas trouxas amarradas com trapos que seguravam camadas de folhas gordurosas.
— O cemitério de jacarés... você desapareceu... você... me tirou do rio...
— Não. Foi Pacaman.
— Quem?
— Você está na aldeia dos Taí-pitá, moço novo. Os dois brancos que o carregavam estão no fundo do rio. Pacaman não erra uma flecha.
— Oh, Robson, o que é tudo isso? Você precisa me expli...
— Agora não, moço novo. Descanse. A infecção foi muito grande. Teve uma semana de canto e pajelança pra tirar você da morte. Agora durma. Desta vez você escapou.
A palhoça era escura e Crânio adormeceu novamente, lembrando-se que  aquela era a segunda vez que ele sobrevivia ao Pantanal.
Parecia entardecer quando Crânio abriu novamente os olhos. Ergueu-se da rede, com dificuldade. Estava numa palhoça. Sob seus pés, uma esteira cheia de pedras redondas, uma sacola de lona, gamelas com unguentos estranhos, penas, cachimbos e uma moringa d'água. Bebeu quase toda a água. Sentou-se sobre as pernas e sentiu saudades de sua gaitinha. O que teria acontecido com Bezerra? O que teria feito o Centurião ao descobrir a troca de “cadáveres”? Bezerra teria conseguido salvar-se? Teria falado com a polícia?
Abriu a sacola de lona. Uma lanterna, um facão, uma bússola, fósforos e uma infinidade de analgésicos, antitérmicos e antibióticos. Ergueu a pontinha da trouxa de trapos de uma das mãos. Por baixo das folhas e dos unguentos, havia um curativo perfeito de gaze e esparadrapo!
— Robson já ajudou na enfermaria da Funai, moço novo — a figura do índio de óculos escuros recortava-se contra a entrada da palhoça. — Os Taí-pitá foram buscar a sacola lá na chalana afundada. Robson achou que a penicilina podia dar uma ajuda aos cantos e à pajelança...
Crânio sorriu. Pensava nunca mais tornar a ver aquele índio. E agora devia sua vida a ele.
— Quem são esses Taí-pitá?
— Veja por você mesmo, moço novo. Você já está melhor. Venha comigo. Peorê mandou buscá-lo.
— Peorê? Quem é Peorê?

* * *

No centro de um círculo formado pelas palhoças da aldeia, um pequeno grupo de índios esperava pelo garoto.
Crânio esfregou os olhos. A claridade era pouca para ofuscar-lhe a visão. Mas o que ele via ofuscava por completo as ideias que sempre fizera sobre os índios do Brasil.
Era um grupo de velhos. O mais novo deles, um gigante, aparentava uns sessenta anos. Mas parecia forte como um jovem. Todos cobriam-se parcialmente com peles de jacaré em tiras, e a cabeça do animal, como um capacete, emoldurava-lhes os rostos, que apareciam encaixados na bocarra escancarada dos jacarés. Pinturas de urucum e jenipapo cobriam-lhes os corpos. Estavam paramentados para alguma guerra. Contra quem?
Ao lado do garoto, Robson cochichou:
— Estes são os Taí-pitá, moço novo. Uma tribo de velhos. Talvez nem seja uma tribo, pois cada um vem de um povo diferente. São terenas, caidiveus, guaranis, guatós, paiaguás, guaicurus... Só estão juntos por causa de Peorê.
O olhar de Crânio focalizou o centro do grupo. Não era preciso apontar quem era Peorê. Poderia ter cem anos. Ou mais. Ninguém saberia definir. Mas ninguém podia negar a autoridade que emanava aquela figura impressionante. A figura de um líder. Daqueles que quando dizem “vamos!” todos vão, sem perguntar aonde nem por quê.
— Como você veio parar aqui, Robson? — perguntou Crânio, bem baixinho.
— Peorê mandou buscar Robson. Afundaram nossa chalana. Agarraram Robson e deixaram o moço novo sozinho.
— Por quê? O que os Taí-pitá queriam com você?
— Peorê é o pai do avô de Robson...
— Seu bisavô?
— Peorê é um guaicuru, como Robson. Os guaicurus foram índios cavaleiros no passado. Peorê é um dos poucos que restam. Um dos poucos que não andam bêbados, pelas vilas, pedindo esmolas...
— Onde estão os moços, Robson? Onde estão as crianças da tribo?
— Não há crianças. Não há jovens. Os Taí-pitá estão desaparecendo. Como os jacarés. Como o Pantanal, que eles defendem...
O grupo de velhos índios estava estático, como em um quadro. Crânio e Robson cochichavam entre si como se estivessem num museu, observando aquele quadro. O rapaz lembrou-se do Senador e da comparação que fez dos índios pantaneiros com um quadro de Van Gogh que estaria desaparecendo do mais completo museu do mundo.
Como se o quadro falasse, a voz do índio centenário quebrou aquela expectativa.
— Araguaçu!
Era um chamado. Uma ordem. Robson avançou, vacilante, e postou-se ao lado de Peorê.
Então o verdadeiro nome de Robson era Araguaçu? Então aquele guia alegre, de óculos escuros, radinho de pilha e camiseta impressa com o nome de uma universidade americana era bisneto de um rei da cultura pantaneira, quase em extinção? Então aquele índio fantasiado de branco era um príncipe? Araguaçu tinha virado Robson? Seria este o destino dos índios do Brasil?
Peorê falou. Mas não era possível compreender as palavras. Tudo o que Crânio pôde entender foi a segurança e a decisão de seu discurso. O gigante falou também. Sua fala era arrogante, agressiva, dura. Entre os dois, assustado, Robson parecia um recém-formado advogado que defendia sua primeira causa, mas já sentia o gosto da derrota.
— O moço novo é gente boa. Não é um coureiro.
A fala do gigante, que Crânio logo percebeu ser Pacaman, voltou agressiva, discordante, agora já uma ameaça. E o gênio dos Karas entendeu contra quem era aquela ameaça.
— Fale português, Pacaman, para o moço novo entender — pediu Robson.
Quem falou foi Peorê.
— Índio que esquece a própria língua fica mudo!
— Mas todos aqui sabem português — argumentou o guia índio. — Todos já viveram nas cidades. Por que então...
— Porque índio na cidade dos brancos deixa de ser índio e não consegue virar branco, Araguaçu! — cortou Peorê. — Você é neto do filho de Peorê. Você é um guaicuru. Não virou branco tentando viver como um branco. E deixou de ser índio. O que você é agora, Araguaçu? Você não é mais nada!
Robson tentou falar. Mas seus argumentos travaram-se na garganta.
— Por que tapa o sol com vidros negros, Araguaçu? De que se esconde, Araguaçu? Da luz? A luz sabe que você é um guaicuru. Você tem vergonha de ser um guaicuru? A luz não tem vergonha de ser luz, mesmo quando ela tem de desaparecer, à noite. A luz sabe que o dia voltará, e ela será luz novamente. Saia dessa noite, Araguaçu. Seja luz novamente!
O guia índio estava nervoso, mas não baixava a cabeça. Não sabia mais como tratar a si mesmo. Se Robson ou Araguaçu. Resolveu ficar no meio. Pela primeira vez, tratou a si mesmo como “eu”.
— Peorê viveu a vida toda junto com os brancos, como eu. Foi guia no Pantanal, como eu. Aprendeu tudo do mundo dos brancos, como eu. Por que tenho de me envergonhar por fazer as mesmas coisas que Peorê?
— Peorê ensinou Araguaçu a ser guia no Pantanal — falou o velho índio, pausadamente. — Araguaçu aprendeu muito bem. Agora, Peorê mandou Taí-pitá pegar Araguaçu no cemitério dos jacarés porque tem coisas mais importantes para ensinar. Mas Araguaçu tem de mudar. Peorê quer que Araguaçu volte a ser gente. Quer que Araguaçu volte a ser um guaicuru. Que volte a ser um índio. Peorê quer que Araguaçu seja o novo guardião do segredo Taí-pitá!
O gigante Pacaman trovejou, em protesto.
— O novo guardião do segredo Taí-pitá deve ser Pacaman! Peorê sacudiu a cabeça.
— Pacaman é violento. A guarda do segredo Taí-pitá não pode ser feita com sangue!
— Derramar o sangue dos brancos é a única maneira de impedir que seque o sangue dos índios!
— Não é matando que se vive, Pacaman. É sobrevivendo que se vive!
Peorê estava imóvel, como uma estátua falante. Mas Pacaman usava o corpo todo para argumentar. Batia com a lança no chão, curvava-se, agitava os braços. A expressão de seu rosto encaixado entre os dentes do jacaré era negra e vermelha, de tinta e de raiva.
— O Pantanal ensinou Pacaman a ser um índio. Mas Pacaman viveu muito tempo servindo os brancos. Pacaman aprendeu muito com os brancos. Aprendeu até a ser um índio melhor. O índio tem de ser como o homem branco e tem de ser como a onça. Para avançar silenciosamente, tem de ser a onça. Para matar, tem de ser o homem branco e saber usar a zagaia. Pacaman aprendeu que tem de ser a fera silenciosa da natureza e a fera assassina da civilização dos brancos. Para sobreviver, tem de matar!
Peorê falou, como uma sentença definitiva:
— O segredo Taí-pitá não é um segredo de morte. É um segredo de vida. É a única saída para a sobrevivência dos índios. Peorê recebeu esse segredo das mãos do avô. Peorê guarda esse segredo toda a vida, mas agora está na hora de passar a guarda para outro.
A voz do gigante respondeu, ameaçadora:
— Para Pacaman! Pacaman saberá guardar o segredo Taí-pitá, como sabe guardar a vida dos jacarés. Os coureiros estão destruindo os jacarés. Pacaman destrói os coureiros e enche a boca deles com formigas, para que os outros aprendam o que lhes acontecerá!
Os coureiros mortos no cemitério de jacarés! O coureiro magro, com formigas carnívoras na boca, morto perto da fazenda do Senador! Fora Pacaman! Então... os Formigas-paradas! Aqueles eram os Formigas-paradas! Taí-pitá queria dizer Formigas-paradas! Crânio estava em poder dos espíritos assassinos do Pantanal!
— Pacaman já andou demais pelos caminhos da morte!
Por um instante, Crânio sentiu uma ponta de frustração. Ele deduzira errado. Os Formigas-paradas não tinham nada a ver com o Ente. Os coureiros não estavam sendo mortos pelos bandidos do Centurião. Aqueles velhos índios nada tinham a ver com o crime organizado. Eles eram as vítimas que tentavam se organizar para morrer com dignidade...
Crânio passara uma pista falsa ao piloto Bezerra. “Mas isso não tem importância!” — pensou. — “O que importa é que eu sei quem é o Ente! Ah, isso eu sei!”
Peorê desafiava o gigante.
— Pacaman pode matar todos os homens brancos?
— Pacaman pode morrer tentando!
Crânio sabia que ele era o centro daquela discussão, embora ninguém olhasse para ele. Sabia que sua vida estava em jogo. Peorê e Pacaman discutiam um com o outro, mas não pretendiam, com seus argumentos, convencer um ao outro. Era o grupo inteiro que eles pretendiam convencer, como se aquele grupo de índios velhos fosse o corpo de jurados de um julgamento e o garoto o réu!
Quase imperceptivelmente, o grupo se movia. Em pouco tempo, Crânio foi cercado pelos Taí-pitá. Ficou no centro do círculo, com sua vida nas mãos de Peorê. Ou de Pacaman...
A lança curta de Pacaman zunia em volta de Crânio, perigosamente manipulada em círculos pelo velho gigante, que girava em volta do garoto com uma expressão incendiada pelo urucum.
— Pacaman tirou o menino coureiro do rio. Pacaman cantou, Pacaman dançou, Pacaman fez pajelança e os espíritos do rio não levaram a vida do menino coureiro. Agora, a vida do menino coureiro é de Pacaman!
A ponta da lança foi encostada na garganta de Crânio. Imóvel, Pacaman tinha terminado seu discurso. A palavra agora era de Peorê.
O índio centenário estava de pé. Sua figura encarquilhada tinha a imponência de um deus. Sua voz firme tinha a segurança de um sábio que tudo aprendeu da vida, e chegou ao fim dela com todas as dúvidas.
— O homem branco está matando os jacarés. O homem branco está matando o Pantanal. O homem branco está expulsando o índio e cercando a liberdade das terras. Por isso Peorê voltou para a aldeia. Por isso Peorê reuniu os Taí-pitá.
Com o braço estendido, o velho índio apontou por toda a sua volta, como que incluindo a natureza em sua argumentação.
— Mas de que adiantou reunir essa nova tribo? Os Taí-pitá são velhos e poucos como os jacarés. Peorê aprendeu a falar a língua dos jacarés. Mas Peorê não fala mais a língua guaicuru. Nenhum índio mais fala a língua guaicuru.
Talvez as últimas palavras do meu povo estejam perdidas entre as árvores, sendo repetidas pelos papagaios. Mas os papagaios não sabem o que falam. Não podem transmitir a sabedoria guaicuru para as crianças. Não podem manter unida nossa tribo.
Crânio permanecia imóvel. Olhos nos olhos de Pacaman, não conseguia ler seu destino. Só podia esperar.
— Peorê reuniu índios como ele só para que todos morram juntos como morrem as velhas árvores que não deixaram sementes? Não. Peorê chamou todos os índios que não aceitaram o mundo dos brancos. Todos que queriam voltar a ser índios. E a esses Peorê ofereceu uma esperança. A esperança do segredo Taí-pitá!
O que seria o segredo Taí-pitá? O que seria o segredo dos Formigas-paradas?  A ponta da lança na garganta e o medo impediam Crânio de engolir, mas não o impediam de pensar. De dentro do manto de tiras de pele de jacaré, Peorê tirou um pacote. Um pacote embrulhado também em couro de jacaré escurecido pelo tempo.
— Durante todos esses anos, até mesmo durante o tempo em que viveu entre os brancos, Peorê guardou o segredo Taí-pitá. A esperança Taí-pitá. O feitiço que o avô de Peorê deixou antes de morrer. Peorê não conhece o segredo, mas sabe que aqui está o feitiço que impedirá que o índio desapareça. Aqui está o segredo que fará com que o índio volte a ser forte, volte a ser muitos, volte a caçar livremente pelo Pantanal!
A voz do velho índio alteou-se.
— Este é o feitiço da vida, Pacaman! Não o feitiço da morte. Enfrentar o branco é o mesmo que justificar o assassinato do índio. Morrer lutando não é tentar viver. Viver tentando é resistir. Pacaman tirou duas vezes este menino do espírito da morte. Então Pacaman sabe dar a vida. A vida do menino é de Pacaman. Pacaman deve devolver a vida ao menino!
A lança tremeu apoiada no pescoço de Crânio quando aquele discurso foi interrompido pela invasão de mais alguém, que chegava falando excitadamente.
Pacaman voltou-se para a voz recém-chegada, retirando a lança. Crânio quase desfaleceu nos braços de Robson, que correu a ampará-lo. Quem falava agora era uma índia, tão velha quanto os outros.
Abraçando o prisioneiro, Robson traduziu:
— A mulher diz que tem mais gente presa no lugar de onde você fugiu. Menino pequeno, menina bonita, homem gordo, sem cabelos... Homem gordo chora, enxuga careca com pano...
Crânio afastou-se do abraço de Robson e cambaleou, tonto pela fraqueza e pela revelação. Eram seus amigos! Só podiam ser seus amigos! Tinham vindo salvá-lo e caíram nas garras do Centurião!
— São meus amigos, Robson! Me ajude a salvá-los! Me leve até lá!
Fez-se silêncio na mesma hora. Era a primeira vez que os Taí-pitá ouviam a voz de Crânio. A todos pareceu estranho que o prisioneiro não implorasse pela própria vida, mas pedisse ajuda para socorrer outros condenados.
Crânio voltou-se para o centenário líder dos Formigas-paradas.
— Peorê falou em vida. Me ajude! Me ajude a salvar a vida dos meus amigos!
A febre parecia voltar. Sua excitação não era normal. Agarrou a lança de Pacaman e enfrentou o olhar gelado do velho gigante.
— Minha vida é sua, Pacaman. Seja então dono de mais três vidas! Depois faça o que quiser com a minha!
A noite já tinha caído completamente sobre a aldeia, e os olhos de Pacaman ressaltavam-se como duas luas no negro-rubro de seu rosto.
— Pacaman vai!
O guia índio amparou novamente o rapaz.
— Robson vai, moço novo!
A voz calma de Peorê coroou a decisão.
— Os Taí-pitá vão!

Um comentário:

  1. Uhulll🎉🎉🎉
    Partiu resgateeee!!!

    Primeira a comentar...
    Que solitário 😢

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Boa leitura, E SEM SPOILER!