15 de janeiro de 2018

Capítulo 13. Infeliz reaparecimento

Em frente à delegacia, a rua estava completamente atravancada pelos veículos da televisão, das rádios e dos jornais de São Paulo, além da multidão de curiosos que sempre aparece nessas horas.
— Acharam! Enfim encontraram!
— Quem?
— Um dos meninos desaparecidos. O Ricardinho Medeiros Tremembé!
— Encontraram? Que bom!
— Bom? Bom coisa nenhuma! O menino está morto!
A sala da delegacia, cercada por sofás de couro já bem gasto, parecia minúscula para tanta gente. Depois de muita insistência, os jornalistas tinham conseguido uma entrevista coletiva.
Envolvido e empurrado pelos repórteres, o detetive Andrade estava meio cego pelos refletores da televisão e pelos flashes das máquinas fotográficas. Os repórteres enfiavam-lhe microfones junto ao rosto, todos esperando alguma grande revelação:
— O Ricardinho estava com tiros pelo corpo inteiro, não é?
— Ouvimos dizer que os pulsos do menino estavam amarrados com arame, é verdade?
— Isso não está parecendo uma execução feita pelo Esquadrão da Morte, detetive Andrade?
— O senhor acha que há gente da própria polícia envolvida nesses crimes?
Andrade suava como nunca e se sentia sufocado por aquele abafamento:
— Não! Acho que isto não tem nenhuma ligação com o Esquadrão da Morte!
— Será que o menino pertencia a alguma quadrilha?
— A polícia acha que os outros desaparecidos vão ser assassinados também?
— Nada disso! Estamos trabalhando dia e noite e logo vamos encontrar todos eles...
Do fundo da sala veio a pergunta de um repórter recém-chegado:
— É verdade que desapareceram mais dois garotos do Colégio Elite?
Aquela era uma novidade, e uma novidade capaz de aumentar ainda mais a fervura daquela sala:
— Como?!
— Mais dois?
— Quem?
— O Miguel, o presidente do Grêmio do Elite. E mais um, que chamam de Calú!
— O que a polícia tem a informar sobre isso, detetive Andrade?
— Calma, calma! Estamos investigando. Vai ver os dois garotos
só saíram para uma farrinha e logo...
— Para uma farrinha?! — interrogou alguém. — Mas nós ouvimos dizer que havia um desconhecido na casa do Calú. Alguém que se fazia passar por um criado.
— É isso mesmo! —confirmou outro. —Dizem que era um sujeito de óculos, de bochechas grandes...
Andrade não sabia o que responder. Não sabia mais o que fazer para acalmar aquele tumulto.
— Estamos investigando, estamos investigando...

* * *

Quando Andrade finalmente conseguiu livrar-se da imprensa, viu-se novamente envolvido por outra multidão. Eram os pais e os advogados dos estudantes desaparecidos. A morte de Ricardinho levara aquelas pessoas ao desespero. Cada um imaginava que o seu filho seria o próximo a aparecer baleado no meio de algum monte de lixo. Todos exigiam providências da polícia e Andrade escapou por pouco de ser agredido por uma das mães mais nervosas.
Quando conseguiu fechar uma porta atrás de si e deixar toda aquela confusão do outro lado, Andrade estava exausto como um jogador de futebol depois de uma final de campeonato.
À sua frente, porém, o detetive Rubens parecia pronto para ir a um casamento. Seu terno permanecia impecável e seu cabelo não tinha um fio fora do lugar.
— Como é, Andrade? Tudo bem com a entrevista à imprensa?
O palavrão que ia começar a ser dito por Andrade foi interrompido pela entrada do médico legista:
— Já terminei a autópsia, detetive Andrade.
Os dois detetives voltaram-se ansiosos para o médico:
— Qual a conclusão, doutor?
— A que horas ocorreu a morte? O médico começou a falar:
— A vítima morreu ontem, entre 16 e 18 horas, mais ou menos...
— Quer dizer que balearam o garoto ontem à noite?
— Não, eu não disse isso — desmentiu o médico. — Ele morreu ontem à tarde, mas...
— Caramba! — exclamou Andrade. — Quer dizer que, baleado daquele jeito, o Ricardinho ainda demorou a morrer?
— Eu também não disse isso.
A paciência de Andrade já tinha acabado, e ele berrou com o médico do jeito que gostaria de ter gritado com os repórteres:
— E o que é que o senhor disse, exatamente, doutor? Já estou cansado desse jogo de adivinhações!
— Eu disse que o menino morreu à tarde, mas não morreu por causa dos tiros. Ele foi baleado depois de morto!
— Barbaridade! — Andrade deixou-se cair numa cadeira. Aquela era demais! — Os malditos estão brincando com a gente. Estão fazendo a gente perder tempo. Quiseram fazer crer que esta era uma execução do Esquadrão da Morte. E todo mundo sabe que o Esquadrão da Morte é coisa de policiais corruptos que matam gente por dinheiro. Esses bandidos querem jogar a opinião pública contra a polícia!
— E parece que já conseguiram, não é, Andrade? Andrade não respondeu à provocação do detetive Rubens.
A prioridade era outra:
— E qual foi a causa mortis, doutor? O médico parecia confuso:
— O senhor não vai acreditar, Andrade. O garoto morreu em consequência de um esforço físico exagerado. O coração dele não aguentou!
— Como?!
— O Ricardinho morreu de exaustão, detetive Andrade!
O barulho das chaves sendo manipuladas traduzia o nervosismo de todos eles.

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