25 de janeiro de 2018

Capítulo 12. A outra testemunha do inferno

Ferenc Gábor era um velho aprumado, elegantíssimo e desenvolto, que ostentava o sucesso financeiro que vinha obtendo como curador da obra de Davi Segai. Desfilou entre os presentes como se fosse o próprio pintor e subiu à plataforma iluminada. O dono da galeria fez as apresentações, excitado pela rara oportunidade de ter, no Brasil e em seu estabelecimento, uma exposição tão importante. O velho aproximou-se de outro microfone, agradeceu o discurso do anfitrião, cujas palavras ele naturalmente não entendera, e falou num francês perfeito, mas ainda repleto de sotaque, enquanto suas palavras eram traduzidas pelo dono da galeria.
— Je sais que vous avez vennu ici...
— Sei que os senhores vieram aqui para ouvir falar de arte. Mas, para falar da arte de Davi Segai, é preciso, primeiro, falar de morte...
Um sussurro de estranhamento percorreu a assistência.
— Há muitos anos, no pior momento da minha vida, eu conheci Davi Segai. Todos vocês só pensam em Segai como o gênio da pintura expressionista. Mas poucos pensam que só a morte transformou a arte de Segai no que ela representa para vocês, para todo o mundo. O artista que todos admiram hoje não foi reconhecido por ninguém enquanto estava vivo e ansiava pelo reconhecimento do mundo. Só recebeu desprezo enquanto pintava a alma da Europa sofrida. Enquanto jogava na tela toda a revolta que teria impedido o crescimento do nazismo, se todos sentissem e percebessem o que ele sentia, percebia e transmitia com sua arte...
A voz do velho era grave, compungida, e penetrava no espírito da plateia, revolvendo culpas há muito acomodadas dentro de cada um.
— Por isso, agora, eu devo falar na morte. Na morte do povo judeu, na morte da Europa. Na loucura que só os artistas percebem enquanto todos se acomodam, tapam os próprios olhos e ouvidos e calam as palavras que poderiam sair de suas gargantas para impedir a ação do Mal. Foi o protesto contra a insanidade de uma sociedade assassina que fez de Segai o artista que vocês conhecem. E foi só com a própria morte de Segai que o mundo descobriu a tremenda verdade que havia nestas telas...
O velho Gábor apontou para as telas, como se apresentasse seu amigo vivo, ali, à frente de todos:
— Aqui está Davi Segai, senhoras e senhores. Ambos nascemos na Alemanha, de famílias judaicas. Com ele, eu dividi o pão da desgraça no campo de extermínio de Sobibor, na Polônia ocupada pelo nazismo. Juntos fugimos daquele inferno e juntos fomos recapturados por alguém que nenhuma mulher deveria ter gerado: o SS Leutnant Kurt Kraut, que passou para a História como o Todesengel, o “Anjo da morte”. Kurt Kraut estava a ponto de fuzilar Davi Segai quando chegaram as tropas soviéticas e jogaram uma granada no porão onde nós estávamos.
O canalha nazista e Davi Segai foram estraçalhados pela explosão, junto com outro companheiro que havia fugido conosco de Sobibor. Somente eu sobrevivi. Quando me recuperei dos ferimentos, jurei dedicar minha vida ao restabelecimento da memória artística de Davi Segai, cuja arte falava por todos nós. Por mim, por todos os judeus, por todos os injustiçados, por todos os massacrados...
A seleta plateia não tinha ido ali para ouvir um discurso tão sério, tão emocionado. A inauguração parecia um velório.
— Vim ao Brasil para mostrar as últimas telas pintadas em vida por Davi Segai. São trabalhos feitos no campo de Sobibor, quando Segai já era testemunha e vítima do horror que vinha combatendo...
Ferenc Gábor continuou falando da obra de Davi Segai, dos quadros que ele pintara febrilmente durante todos os anos da guerra até ser preso pelos nazistas. Falou da injusta incompreensão de todos para com a obra do artista, só reconhecido depois de sua morte. Comparou-o com Van Gogh, com Modigliani. Falou de sua miséria e comparou-a com a valorização que chegara tarde para Davi Segai. 
A consternação da plateia refletia-se num silêncio absoluto, que paralisara até mesmo os garçons e o tilintar das taças do coquetel. Depois daquele discurso, cada quadro valeria o dobro do que os mais ricos ali estariam dispostos a pagar. Mas quem pudesse pagar levaria junto com a tela todo um pedaço da História, desenhado com revolta e sofrimento. Ferenc Gábor explicou a motivação contida em cada tela, em cada detalhe de cada tela, em cada pincelada de cada detalhe. Ninguém conhecia tanto a obra do artista assassinado quanto ele.
Terminou a explanação com lágrimas nos olhos, e foi com lágrimas nos olhos que todos aplaudiram, em verdadeiro delírio.
Ferenc Gábor desceu da plataforma iluminada e foi cercado por pessoas que faziam questão de apertar-lhe a mão, de dar-lhe um tapinha nas costas. Era como se Gábor fosse o próprio Davi Segai que tivesse voltado da morte para apresentar-se no Brasil.
Magrí, cotovelando, abriu caminho até a frente do grupo que cercava o velho.
— Schònes Mãdchen. Quelle beauté! — observou Gábor, com um sorriso, ao ver a menina, deslumbrante em seu vestido de festa. Alegre e descontraído, o velho misturava expressões em alemão à língua francesa, que ele adotara tão bem.
Miguel e Calú já estavam ao lado de Magrí. Crânio e Chumbinho tentavam abrir passagem para Andrade.
— Adorei o seu discurso — cumprimentou Magrí, em francês, com um sorriso encantador. — Eu e os meus amigos gostamos muito da obra de Davi Segai. Já tínhamos ouvido falar muito de Segai e do senhor...
— Cest vrai? Danke, mein liebes Fràulein... Je vous remercie... — agradeceu o velho Gábor, misturando a língua natal com a língua adotiva.
— Este aqui é meu amigo Calú — apresentou Magrí, sempre em francês. — Ele conheceu muito bem o outro prisioneiro que fugiu com o senhor e com Segai do campo de Sobibor...
— Comment?! — o velho empalideceu na mesma hora e seus olhos se esbugalharam.
— O que eles estão dizendo? — perguntou Andrade a Crânio, quando conseguiram chegar perto da conversa.
— Não foi só o senhor que sobreviveu à explosão da granada russa naquela noite, no fim do verão de 44, senhor Gábor — explicou Calú, também num francês perfeito. — Solomon Friedman também sobreviveu.
— Solomon Friedman? — balbuciou Gábor. — Comment vous avez su?
— O que eles estão dizendo, Crânio? — Andrade suava novamente.
— Ele esteve no Brasil todos estes anos, senhor Gábor.
Foi meu professor de teatro. Mas, infelizmente, ele não pôde comparecer a esta inauguração. Solomon Friedman foi assassinado ontem à noite...
— Solomon Friedman... — o velho parecia desnorteado. — Solomon Friedman... assassine... je...
— O senhor pode nos ajudar, senhor Gábor. Talvez o senhor se lembre de algo que...
Andrade sentia o mal-estar daquela conversa, mas não conseguia entender o que se passava:
— O que eles estão dizendo, Crânio? Pelo amor de Deus, o que é que eles estão dizendo?
— Pardon... Excusez-moi, mon ami... excusez-moi...
O velho deu meia-volta e encaminhou-se de cabeça baixa para uma porta lateral. Andrade tentou segui-lo, mas o dono da galeria interrompeu-o, delicadamente:
— Desculpe, cavalheiro...
Levantou o braço e falou alto, para todos na galeria:
— O senhor Gábor precisa repousar um pouco. A viagem foi muito cansativa para um homem na idade dele. Logo ele estará refeito e nós o teremos conosco...
Enquanto isso, divirtam-se! Esta é uma noite especial.
Uma noite gloriosa para o movimento artístico deste país. Divirtam-se e apreciem a obra do grande Davi Segai. O preço de cada tela pode ser discutido diretamente comigo...
Os garçons voltaram a circular e as taças tilintaram novamente, acompanhando as risadinhas que outra vez ocupavam o salão. A música suave do perfeito sistema de som ambiente da galeria ajudou a restabelecer a frivolidade necessária ao sucesso da noite.
Andrade aceitou todos os salgadinhos que lhe eram oferecidos enquanto ouvia um resumo da conversa entre os meninos e Ferenc Gábor.
— Coitado do velho! — comentava Magrí. — A surpresa de saber que Solomon também sobrevivera foi demais para ele... Ainda mais com o assassinato... Um choque! Foi mesmo um choque para o velho.
— Vamos esperar um pouco, Andrade. Não podemos sair daqui sem falar com Gábor. Se o assassinato do velho Sol tem alguma ligação com o panfleto amarelo que ele recebeu, talvez Gábor saiba de alguma coisa que...
Um estampido ressoou por toda a galeria, interrompendo Calú.
Uma taça caiu sobre o mais caro dos tapetes.
Andrade forçou caminho às cotoveladas, apressando-se na direção de onde viera o estampido. Calú já abrira a porta ao lado da plataforma e Andrade entrou atrás, acompanhado pelos outros Karas. 
Havia um corredor e várias outras portas. Uma delas estava aberta. O detetive atravessou o corredor rapidamente e entrou. Aquele deveria ser o escritório do dono da galeria.
Uma lufada de vento entrou pela janela aberta.
Calú estava abaixado ao lado do corpo de Ferenc Gábor.

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