20 de janeiro de 2018

Capítulo 12. O hálito do demônio

Na hora do desembarque, Magri tinha conseguido enganchar um lenço vermelho em um galho. Sob a mira dos fuzis, Andrade, Magri e Chumbinho foram obrigados a entrar em um jipe descoberto. Depois de uma boa meia hora de solavancos de uma viagem pelo meio das árvores, o jipe passou pela guarda de dois homens fortemente armados, entrando em um acampamento à beira de um aeroporto rasgado no meio da mata.
À espera dos prisioneiros, um homem magro sorria, mostrando cacos de dentes amarelos.
— Aqui estão os três perguntadores de São Francisco, Centurião. O barqueiro entregou direitinho a encomenda.
Então era isso! Enquanto percorriam a pequena vila em busca de pistas de Crânio, o barqueiro os havia traído, comunicando-se com aqueles bandidos!
“Isso, pelo menos, tem uma vantagem” — pensava Andrade, enxugando a careca. “Se nos prenderam porque fizemos perguntas sobre Crânio, isto quer dizer que estes bandidos são os responsáveis pelo desaparecimento dele. Só não vejo o que adianta saber isso agora. Ninguém em São Paulo tem ideia do que eu vim fazer aqui. Para todos os efeitos, eu estou de licença. Não posso contar com a ajuda de ninguém. E agora?”
— Mira que bela chica este barquero há entregáo! O desdentado olhava para a blusa rasgada de Magri.
Pedaços daquele tecido tinham ficado ao longo do caminho. Mas aquele olhar não perturbou a menina. Magri estava furiosa pensando no barqueiro que nunca levaria o bilhete a Miguel e Calu. Ao contrário: sua ideia só serviria para entregar seus dois amigos aos bandidos! Estavam sozinhos.
— Que violência é essa? — protestou Andrade, indignado. — Eu e meus filhos viemos aqui para...
— Tu e tus hijos? — cortou o Centurião, aproximando-se de Andrade. — Pelo que sê, tu eres ei detetive Andrade, de São Paulo, y no tienes hijos. Solo no sê por que essos dos chicos vieram contigo...
— Como sabe de tudo isso?
Novamente aquele sorriso pavoroso.
— Soy um hombre dei Ente. Y ei Ente sabe de tudo, detetive Andrade...
O Ente! Andrade sentiu-se gelar, apesar do forte calor. Tinham caído na pior arapuca criminosa do universo!
— Ente? — disfarçou o detetive. — De que o senhor está falando? Somos turistas, não sabemos de nada. Estávamos indo para...
— Quero ir pra casa da tia Matilde, papai... — choramingou Chumbinho, oferecendo uma ideia ao detetive.
— Est... estávamos indo para a fazenda de dona Matilde. Não temos nada com...
O Centurião soltou uma gargalhada sinistra, bafejando um fedor dos demônios sobre o detetive.
— Dona Matilde? Quieres decir tia Matilde?
— Qual é a graça? — enfureceu-se Andrade. — A fazenda de dona Matilde deve ficar perto daqui. Exijo que nos levem para lá! Senão eu juro que...
— Lo juras? No estás em condiciones de jurar nada, detetive. Después que yo receba Ias ordenes dei Ente, ya no estarás en condiciones de hacer nada. Solo de divertir-se con la compania de las minhocas, bajo la tierra! Por ahora, ustedes van a passar la noche en la casita... Levem-nos!
Chumbinho e Andrade foram empurrados para dentro de uma gaiola de bambu. O desdentado aproximou-se de Magri.
— Que bela chica! Es una pena quedarse en la casita...
Andrade jogou-se contra as barras de bambu e sacudiu violentamente a jaula, que acabara de ser trancada a cadeado.
— Maldito! Largue a menina!
O Centurião riu-se, antegozando o prazer que aquela linda menina poderia lhe trazer e saboreando a raiva do detetive.
— Cale a boca, gordalhón! Quieres que Ia chica pegue um resfriado en la casita? Ela ficará mucho mais confortable en la barraca dei Centurião! Ahora tienes un namorado, chiquita!
— Magri!... Não! Solte a menina!... Não!
Enquanto o Centurião arrastava Magri para longe, Andrade começou a chorar, desesperado.

* * *

Entardecia.
Os homens que levaram Calu até o casarão não agiam com brutalidade, mas também não admitiam diálogo. Nem resistência. O casarão, já um tanto malhado pelo tempo, era cercado por um muro muito alto, como uma prisão.
Calu olhava pela janela, atrás do homem grande, cuja figura recortava-se em silhueta à sua frente, como o demônio principal do inferno. De um inferno do qual o ator dos Karas planejava escapar, na primeira oportunidade. O problema era descobrir como, pois a janela era gradeada e os dois homens que o trouxeram montavam guarda além da porta.
— Quem é você, garotão?
A voz do grandalhão trovejava, mas não parecia agressiva. Havia, porém, uma enorme pressa e ansiedade em suas perguntas. O homem não queria perder tempo.
— O que você sabe sobre Mike Sierrabrava? Por que perguntar por ele sob disfarce? De quem você está se escondendo? Por que veio de São Paulo até aqui para...
— Como sabe que eu vim de São Paulo?
— Não é difícil adivinhar. Com esse sotaque...
Calu tentava raciocinar depressa. Ele estava sendo tratado sem agressividade, até com uma certa gentileza. Quem seriam então aquelas pessoas que o haviam capturado porque ele perguntara sobre Mike Sierrabrava? Calu lembrou-se do que tinha dito Miguel: “Uma espécie de formiga-rainha desse formigueiro do crime...”. A formiga-rainha! O grande formigão! Grande como...
— Você não quer falar, não é, garotão? Nem o seu nome? Bem, então deixe que eu me apresente. Todo mundo me conhece como Senador, aqui no Pantanal. Estou no comando de uma grande operação que deveria ser secreta, mas cada dia fica mais difícil manter o segredo. Aposto que você já sabe o que estamos fazendo aqui, não sabe? Senão por que estaria metendo o nariz num negócio que não é da sua conta? Senão por que estaria calado agora?
O rapaz resolveu seguir com o jogo que Miguel tinha planejado. O silêncio não o levaria a nada.
— E se eu soubesse mesmo de tudo isso? E se eu quisesse me juntar a essa operação?
O grandalhão soltou uma gargalhada, num volume alto demais para quem pretende se manter secreto:
— Você está me pedindo emprego, garotão?
— Vamos supor que sim, Senador. Ou devo chamá-lo de “O Ente”?
O homem parou subitamente de rir e olhou com estranheza para o prisioneiro.
— Como disse?
— Eu disse “O Ente”...
O Senador ficou subitamente ansioso:
— O que sabe sobre o Ente? O que sabe sobre Mike Sierrabrava? Vamos, diga logo! Eu preciso saber. O que sabe de Crânio?
O nome do amigo soou como uma sirene de alerta aos ouvidos de Calu. Aquele homem poderia ser o responsável pelo desaparecimento de Crânio. Seria um risco Calu admitir qualquer ligação entre os dois.
— Crânio? Nunca ouvi falar...
O Senador levantou-se e quase colou o seu rosto ao de Calu.
— Acho que você sabe. Você também é de São Paulo. Tem a mesma idade. É tão enxerido quanto ele. O que você está escondendo?
Nesse momento, o telefone soou. O Senador atendeu, sem desviar os olhos de Calu.
— Sim, sou eu... Como? A entrevista no rádio? Tinha esquecido... Já estou indo. Precisamos de toda a publicidade que pudermos conseguir...
Desligou e voltou-se para o prisioneiro.
— Vou ter de sair. Há livros e uma lata de bolachas ali, sobre o móvel, garotão. Pode ficar à vontade. Só não aconselho tentar sair desta sala. Talvez eu demore um pouco. Depois retomaremos nossa alegre conversação.
Abriu a porta e saiu.
O ator dos Karas tinha ganho algum tempo. Estaria aí uma oportunidade. Era preciso fugir dali, sem demora. Era preciso encontrar Miguel. Juntos poderiam tentar alguma coisa, comunicar-se com Andrade, tentar a ajuda da polícia, qualquer coisa! Mas como fugir do casarão? Como passar pelos dois bandidos na porta? Como saltar aquele muro alto? Mas havia um jeito. Ah, sim, havia uma saída! Só o Senador o vira sem barba, sem o disfarce. Nenhum dos bandidos que o guardavam tinha visto seu rosto, ou sequer suspeitava que havia um rapazinho naquela sala. O Senador saíra apressado. Talvez não tivesse tido tempo de contar que o homem barbado que ali entrara era falso. Ele talvez tivesse uma chance!
Teria de representar. Era sua especialidade. Vasculhou toda a sala à procura de uma ideia salvadora. Havia um banheiro anexo. Calu tirou o paletó, todo com enchimentos, que o fazia parecer mais velho e mais gordo. Sujou a camisa e a calça com terra de um vaso com um antúrio já murcho. Ajoelhou-se sob a pia e começou pacientemente a desatarraxar os canos e o sifão.

* * *

O barqueiro já estava quase chegando a Nhecolândia quando descobriu o bilhete no bolso, ao procurar fumo para fazer um cigarro. Não sabia ler, mas sabia que aquele bilhete deveria ser entregue sem demora ao Ente, ou sua vida não valeria um tostão. O barqueiro saiu sem receber um tostão como gorjeta pelo serviço, enquanto o intermediário do terrível Ente desdobrava o papelzinho.
— “Fombermombers caisptufterraisdombers nomber rinisomber. Sinisgaism Penterquenternomber Pomberlentergaisr. Entregar para Miguel, em Nhecolândia, no hotel...”. Que língua mais estranha! Como é que eu vou... Bom, o jeito é perguntar ao Ente.
Ligou um sofisticado aparelhamento de rádio.
— O Ente está em Nhecolândia — informou a voz que o atendera. — Use a frequência daí mesmo.
Mais alguns minutos e o intermediário estava falando pelo rádio com outro agente da quadrilha.
— Quer dizer que o bilhete foi entregue pela menina que está conosco lá no acampamento do Centurião?... Ê?... Um momento...
Depois de algum tempo, a voz se fez ouvir novamente.
— O Ente diz que esse detetive deve fazer parte de algum plano maior. Senão não estariam usando códigos, como espiões. O Ente diz que não vai adiantar nada capturar o tal Miguel agora. Precisamos saber quais são as outras ligações dessa turma. Deixem a mensagem no hotel, como a espiãzinha pediu, e não façam mais nada. Nosso grupo vai ficar de olho e seguir esse Miguel. Ele deve ser apenas um agentezinho sem importância. Precisamos saber quais os peixões que estão por trás dele. Entendido?
A porta do escritório do Senador se abriu, e um jovem, com a roupa toda suja, carregando um sifão e alguns pedaços de cano, saiu e foi logo falando:
— Já terminei o serviço. O banheiro está desentupido. Agora quero meu dinheiro!
— Como? — perguntou um dos vigias, meio confuso.
— Como o quê? Meu serviço está pronto. Agora quero o combinado. São cinco pacotes!
— Tudo isso? Mas eu não sabia...
O rapaz ficou enfurecido:
— Não sabia?! Que história é essa? Vão querer me enrolar, é?
Pela porta atrás do “encanador” via-se uma poltrona de costas e o cotovelo de um paletó. Fumaça de cigarro subia do outro lado da poltrona, como que mostrando que o prisioneiro não estava interessado nem um pouco naquela discussão.
O “encanador” não desistia.
— Quero meu dinheiro! Daqui não saio sem o meu dinheiro!
— Veja como fala, rapaz! — advertiu um dos homens. — Se o Senador combinou esse conserto, eu não sei de nada. É melhor você voltar amanhã e falar com ele.
— O quê?! Voltar amanhã? Uma vírgula! Vocês pensam que podem me enrolar? Quero minhas cinco notas! Quero agora, ou daqui não saio, daqui ninguém me tira!
Os homens foram se irritando com a malcriação do “encanador”.
— Seu moleque sem educação! Vamos mostrar se você sai ou não sai daqui!
— Não saio! Nem por bem, nem por mal! Sem o meu dinheiro, vou ficar aqui até...
O “encanador” foi agarrado pelo colarinho e expulso do casarão com maus modos.
— Mas que garoto atrevido! — ouviu-se uma voz atrás do portão maciço, que acabara de fechar-se às costas de Calu.
O ator dos Karas escondeu o sifão e os canos numa touceira e correu para o hotel, em busca de Miguel, sorrindo com a antevisão da cara que fariam aqueles dois bandidos quando encontrassem o paletó do “barbudinho” recheado com bolos de papel e cuidadosamente montado na poltrona, onde ele tinha deixado um cigarro aceso no cinzeiro... O que diria Mike Sierrabrava? Bem, aquela era apenas a primeira das surpresas desagradáveis que Calu estava disposto a aprontar para o Ente!

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!