15 de janeiro de 2018

Capítulo 12. Assalto ao banco!

Através das vidraças do laboratório de bioquímica dava para avistar todo o pátio interno da Pain Control. E foi por ali que Márius Caspérides viu caminhando rapidamente, em direção ao laboratório, os três horríveis encarregados da segurança da indústria. Caspérides nunca soube como se chamavam, mas, para si mesmo, costumava pensar neles como o Coisa, o Animal e o Fera, pois, pelo jeito, aqueles homens não eram de brincadeira.
E, pelo modo como se aproximavam, iluminados pelo dia que chegava, o Coisa, o Animal e o Fera não estavam para brincadeiras. Cansado pela noite sem dormir, atordoado pela conversa com o Doutor Q.I., Márius Caspérides viu uma luz vermelha acender-se dentro de sua cabeça: perigo, perigo, perigo!
Sim, sim, sim. Ele havia gritado com o Doutor Q.I., ele havia se colocado contra o Doutor Q.I. Pelo tom de voz daquele chefe sem nome e sem rosto, havia perigo no ar. A humanidade estava em perigo com o uso da Droga da Obediência que ele, o bioquímico Márius Caspérides, havia criado. E ele, o bioquímico Márius Caspérides, estava agora em perigo por ter-se oposto ao uso da droga aue ele mesmo criara.
Tentou raciocinar. Ele só conhecia os três capangas de vista. Nem sabia o nome deles. Na certa, os três também não o conheciam direito e poderiam muito bem confundi-lo com qualquer um dos inúmeros técnicos que trabalhavam na Pain Control.
Foi o tempo de decidir-se, guardar os óculos no bolso, pegar uma vassoura esquecida a um canto, e os três brutamontes abriram a porta violentamente.
— Ei, você aí! — berrou o Animal. — Onde está o tal Mário Caspa-não-sei-de-quê?
— Hum, é comigo? — perguntou Caspérides, fazendo-se de desentendido e fingindo que varria o chão.
— É claro que é com você, seu idiota!
— Sim, sim, sim, desculpe... Acho que ele está lá, no fim do corredor, no laboratório de engenharia genética. Trabalhou a noite toda, coitado...
Os três correram para onde apontava o falso faxineiro e Márius Caspérides saiu rapidamente pela porta por onde eles tinham entrado.

* * *

Nem os perseguidores nem o perseguido notaram o pequeno vulto de macacão azul e curativo no dedo que se espremia contra as paredes, escondendo-se nas sombras.

* * *

No pátio, iluminado pela luz da manhã, o bioquímico Caspérides teve certeza de que não ia ser fácil escapar do prédio da Pain Control.
Certamente todas as portarias tinham sido alertadas pelo Doutor Q.I. e era bem possível que algum dos porteiros fosse menos burro que os três capangas.
Naquela hora, pela portaria de entrada, chegavam os operários do turno da manhã e, pela outra, ao lado, saía o pessoal do turno da noite. Caspérides misturou-se aos que saíam, embora soubesse que seria facilmente detido na hora de identificar-se. Misturado no meio daqueles operários exaustos, o bioquímico passou, sem que ninguém percebesse, para o grupo dos que entravam.
Virou-se e começou a andar para trás.
Quem olhasse para aqueles grupos de operários veria todos virados de frente para a fábrica como se chegassem, e nem suspeitaria de que um deles estava andando para trás como um caranguejo.
A ideia deu certo. Em pouco tempo, Caspérides estava na rua. Enfiou-se no primeiro ônibus que passava e deu uma última olhada para o prédio da Pain Control.
Na calçada, o Coisa, o Animal e o Fera apontavam furiosos para o ônibus, aos gritos.

* * *

O ônibus chegava ao centro da cidade quando um automóvel negro bloqueou a rua. De dentro dele, três homens corpulentos saltaram ainda a tempo de ver o pobre bioquímico que escapava por uma das janelas do ônibus e corria, para misturar-se à multidão.
Para onde ir? Como fugir? Como escapar da poderosa organização comandada pelo sinistro Doutor Q.I.?
O Coisa, o Animal e o Fera viram-se cercados pela multidão de paulistanos que chegava para o trabalho naquela manhã. O tal Mário das Caspas não poderia escapar. Perseguiram o bioquímico pela rua da Quitanda, abrindo caminho com brutalidade. Quando chegaram na 15 de Novembro, estava acontecendo uma confusão dos diabos. Correria pra todo lado, parecia até...
— Um assalto! — gritou alguém. — Estão assaltando o banco!
— O banco? Que banco?
— Aquele lá!
— São muitos?
— Não sei, mas parece que prenderam um deles. Veja!
De dentro do banco vinha uma balbúrdia danada. Os guardas de segurança do banco tentavam dominar o tal assaltante, que se debatia e gritava:
— Podem me prender! Ah, ah, ah, não há cadeia que me segure! Eu sou o perigoso Zé da Silva! Procurado no país inteiro! Sou Zé da Silva!
Alertados pelo alarma do banco, vários carros da polícia chegaram com as sirenes abertas. No primeiro deles, o assaltante Zé da Silva foi levado aos pescoções.
No último, três grandalhões foram presos também, pois haviam sido encontrados com armas na mão, correndo em plena rua 15 de Novembro.

* * *

Naquela manhã, num matagal em Taboão da Serra, a molecada encontrou o cadáver de um menino, meio mergulhado num córrego imundo.
O cadáver estava picado de balas.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!