15 de janeiro de 2018

Capítulo 11. Uma droga mais que perfeita

Sozinho no laboratório da grande indústria multinacional de produtos farmacêuticos Pain Control, o bioquímico Máriu Caspérides ajeitou os óculos e conferiu mais uma vez suas notas. Tinha passado a noite inteira submetendo os coelhos aos mais diferentes testes, e agora não tinha tempo para sentir sono. Incrível, mas parecia que as suas piores suspeitas se confirmavam.
Os coelhos estavam imóveis na gaiola, em frente às mais gostosas cenouras e folhas de alface. Mesmo depois de um dia inteiro sem alimento, os coelhos não se dirigiam à comida sem uma ordem. Assim tinha sido com os porquinhos-da-índia, com os cães, com os gatos e com os macacos.
“Sim, sim, sim... a droga funciona bem. Aliás, funciona completamente bem, aliás funciona completamente...”, pensava o bioquímico Caspérides, ajeitando os óculos a toda hora. “Sim, sim, sim... Isso é mau, muito mau... Preciso avisar o Doutor Q.I.... é urgente, muito urgente... sim, sim, sim, o Doutor Q.I. precisa saber disso!”
Levantou-se apressadamente da bancada de trabalho, deixando a portinhola da gaiola dos coelhos. Mas essa distracão de Márius Caspérides não traria problemas. Sem uma ordem expressa, nenhum coelho ousaria sair da gaiola.
Já na porta, o bioquímico Caspérides parou para mais uma olhada no laboratório. De todas as gaiolas, lotadas com os mais diferentes animais, não saía nenhum som, não se percebia nenhum movimento, como se todos os bichos estivessem mortos. Mas eles estavam vivos, bem vivos, com os olhos parados, olhando para nada...

* * *

Quando parou em frente ao vídeo do intercomunicador mais próximo do laboratório, o bioquímico Márius Caspérides não reparou na pequena sombra de macacão azul que se ocultava a um canto.

* * *

O bioquímico sabia que não era difícil falar com o Doutor Q.I. Só era difícil ver o Doutor Q.I. Para falar com ele, bastava procurar qualquer dos intercomunicadores que se espalhavam por toda a indústria de medicamentos Pain Control. Se o Doutor Q.I. estivesse em sua sala, a chamada seria atendida na hora.
Ninguém sabia em que parte da grande indústria ficava a sala do Doutor Q.I. e tampouco havia alguém que soubesse qual era o verdadeiro nome do poderoso dirigente da Pain Control, que não mostrava o rosto nem no vídeo do intercomunicador. Nem a voz dele era conhecida. Tudo o que os funcionários da Pain Control conheciam do Doutor Q.I. era uma silhueta e uma voz modificada por um filtro de som. O vídeo iluminou-se e a silhueta apareceu ao mesmo tempo emque se ouvia a tal voz metálica.
— Meu caro Márius Caspérides! Que prazer inesperado! A que devo a surpresa de sua chamada?
— Sim, sim, sim... —gaguejou Caspérides. —Bom dia, Doutor Q.I.... é sobre a droga. É que eu descobri...
— A droga! A maravilhosa Droga da Obediência! — interrompeu a voz do Doutor Q.I. — A fantástica droga que você descobriu, Márius Caspérides!
— Sim, sim, sim... mas é que eu continuei com os testes e...
— Algum problema, Caspérides? Seus testes demonstraram algum problema com a nossa maravilhosa Droga da Obediência?
— Sim, sim, sim... não, não, não! Sim e não... Lá, na sala que ninguém sabia onde ficava, a imagem trêmula do bioquímico, no vídeo do aparelho, deve ter irritado o poderoso chefe a Pain Control.
A voz agora era fria, era dura.
— Ou sim ou não, meu caro Caspérides. Ou você descobriu um problema com a droga, ou não descobriu.
— Sim, sim, sim, eu descobri. A droga funciona bem. Bem até demais. Muito demais, exageradamente demais. As cobaias se acalmaram e obedecem como esperávamos, mas...
— Mas o quê?
O nervosismo do bioquímico Márius Caspérides crescia cada vez mais ao falar para uma tela de vídeo que não mostrava o rosto do interlocutor. Era como falar para as paredes de uma sala vazia. Uma sala que tinha voz, que tinha o poder absoluto.
— Com a droga, as cobaias obedecem totalmente, Doutor Q.I. Mas parece que perdem a vontade própria, a capacidade de iniciativa. Sim, sim, sim! Ficam incapazes de fazer qualquer coisa voluntariamente. Ficam inertes, à espera de alguma ordem, como se fossem máquinas que só funcionam quando são ligadas e só param de funcionar quando alguém as desliga!
Depois de um breve silêncio, a voz do Doutor Q.I. pareceu aliviada:
— Ufa, ainda bem! Por um momento tive medo de que houvesse algum problema com a Droga da Obediência!
— Sim, sim, sim, Doutor Q.I., parece que o senhor não entendeu direito. Existe um problema, um problema muito grande. Como o senhor sabe, há anos eu venho pesquisando uma droga capaz de combater os casos de loucura mais rebeldes, mais furiosos...
— E com o financiamento, com o patrocínio da Pain Control para suas pesquisas, seu sucesso foi absoluto, Caspérides! — cortou a voz do Doutor Q.I. — Com a Droga da Obediência, haverá grandes progressos no tratamento dos louros furiosos
— Sim, sim, sim, desculpe, Doutor Q.I., mas parece que eu não estou sendo claro. O que eu quero dizer é que a droga tem um efeito devastador sobre a personalidade das cobaias. Parece que a vontade se anula! É claro que eu pretendo agora fazer alguns testes com outros animais maiores. No entanto...
— Outros animais maiores, Caspérides? Que tipo de animais?
— Estou pensando nos grandes orangotangos, em cavalos, touros e
até feras, como ursos, leões...
— E seres humanos? — perguntou o Doutor Q.I.
O bioquímico  Márius Caspérides assustou-se.
— Como? Seres humanos? Gente? Não, não, não, Doutor Q.I. É muito cedo para testar a Droga da Obediência em seres humanos. Ainda mais agora que eu...
— Pois você está atrasado, meu caro Caspérides. Já dei a ordem, e a Droga da Obediência está sendo aplicada em quem deve ser. Nada de ratos, camundongos ou papagaios. Gente, Caspérides, gente!
— Gente?! O senhor já mandou testar a droga nos loucos?
— Loucos? Loucos coisa nenhuma! Essa droga maravilhosa está sendo testada nos jovens mais saudáveis que pudemos encontrar!
Caspérides empalideceu:
— Gente? E gente sã? Mas esta é uma droga perigosa. Só poderia ser aplicada com ordem médica. E a ética proíbe ao médico aplicar medicamentos em um corpo são!
— Ética médica, Caspérides? — riu-se o Doutor Q.I. — A única ética que me importa é a da Pain Control!
— Não, não, não! Isso é um absurdo! Eu não vou permitir...
— Permitir? Ora, Caspérides, quem é você para permitir ou proibir qualquer coisa aqui na Pain Control?
O bioquímico Márius Caspérides agarrou-se ao intercomunicador, gritando desesperado:
— Não, não, não! Por favor! Não pode fazer isso! Com gente, não! Não desligue! Não!!
Suavemente o vídeo do intercomunicador apagou-se.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!