20 de janeiro de 2018

Capítulo 11. O formigueiro do crime

Andrade desistira de tentar impedir que os quatro Karas viessem para o  Pantanal, em busca de Crânio. Eles teriam vindo de qualquer modo, com ou sem a companhia do detetive. Assim, o jeito fora trazê-los junto. Que remédio? Pelo menos, desse modo, ele poderia ficar de olho neles e proteger aqueles capetinhas que se metiam em tudo!
— Sua ideia de nos inscrevermos nessa excursão para o Pantanal foi ótima, Chumbinho — cumprimentou Andrade. — Só assim os pais de vocês concordaram com esta viagem de “férias”. Ainda mais que a agência de turismo pertence a um tio da Magri...
— Não é só isso, Andrade — raciocinou Chumbinho.
— Misturados a um grupo barulhento de turistas, não despertaremos a atenção do maldito Ente. Os homens dele devem estar espalhados por todos os lados!
— Ele deve ser um formigão mesmo — acrescentou Miguel. — Uma espécie de formiga-rainha desse formigueiro do crime no comando de centenas de formigassoldados, que cumprem fanaticamente suas ordens...
— Um formigueiro de criminosos que protegem toneladas de ouro como as formigas defendem o fungo com que se alimentam... — comparou Miguel. — Onde estará escondido esse ouro? Debaixo da terra, como em um formigueiro?
— Que se dane o ouro! — explodiu Andrade. — Eu quero é encontrar o Crânio!
Para o gordo detetive, Crânio valia mais que todo o ouro do mundo.

* * *

Depois de uma baldeação em Campo Grande, o grupo de turistas embarcou em outro voo para Corumbá. Agora, os excursionistas desciam o rio Paraguai em um barco grande e confortável, em direção às desembocaduras dos rios Taquari e Capivari. Os turistas vibravam com cada detalhe.
— Have a look, Cindy Lou darlin'! Had ya ever dream with a view like that?
— Oh, Norman! I'm afraid of the alligators...
— Don't worry! I'm here, ain't I? I’11 kill some alligators with my bare hands and make a purse for ya!
E o turista, branquelo e obeso, de camisa florida, deu um berro de Tarzan, para tranquilizar a sua gorducha Cindy Lou. Todos riram da piada do americano, até mesmo aqueles brasileiros que não entendiam uma palavra de inglês.
Estava na hora de a turma ver-se livre daquelas piadas sem graça. Magri fingiu-se de doente, e os cinco abandonaram a excursão quando o barco passou pela cidade de Nhecolândia.
Andrade decidiu que o hotelzinho onde se hospedaram seria a base das operações.
— Precisamos saber o que a polícia local descobriu sobre o assassinato do piloto e o que estão fazendo para localizar o Crânio. Vou ver se arranjo algum barqueiro que me leve rio acima, pelo Taquari, até a vila de São Francisco. O cadáver do piloto foi levado pra lá. É lá que devem estar investigando.
Miguel olhou rapidamente para cada um dos outros três Karas. Só o olhar para Calu baixou duas vezes até o chão. Os três entenderam as ordens.
— Quero ir com você, Andrade — convidou-se Chumbinho.
— Eu também — juntou-se Magri.
— Então vamos todos — propôs Andrade. — Estaremos de volta no fim da tarde. O passeio deve ser uma beleza.
— Eu fico — recusou Miguel. — Dou uma volta pela cidade e espero por vocês.
Calu entrou no jogo de Miguel:
— É, não adianta ir todo mundo. Eu espero também, com Miguel.
Andrade olhou para os dois rapazes e enxugou a careca com o lenço. Não haveria mal algum em deixá-los no hotel, por algumas horas. Mesmo que aqueles capetinhas tivessem algum plano maluco, nada poderia lhes acontecer de mau numa cidadezinha como aquela.

* * *

Assim que os três amigos saíram, Miguel voltou-se para Calu:
— Kara, vai ser perda de tempo correr todo o Pantanal atrás do tal Ente.  Andrade é o tipo do sujeito que acredita nas providências oficiais. Por aí não vamos chegar a lugar nenhum. Esse Mike Sierrabrava, como chefão do crime organizado,  está mais bem protegido que o Papa. Se nem a polícia internacional conseguiu qualquer pista sobre ele, não seremos nós que vamos descobrir.
— E o que faremos, então? — protestou Calu. — Vamos ficar tomando laranjada no hotel esperando que Crânio se vire sozinho?
Miguel tinha um plano e não aceitou a provocação.
— Se não podemos encontrar Mike Sierrabrava, Kara, vamos fazer com que Mike Sierrabrava nos encontre!
— Você quer atrair os bandidos? Como?
— Eles devem estar por toda parte, Calu. Devem ter informantes por todos os lados. Meu plano é o seguinte: vou espalhar recados para Mike Sierrabrava em todos os bares, padarias e pontos de táxi. O recado há de chegar aos ouvidos de Mike Sierrabrava, pode ter certeza.
Calu não gostou da ideia.
— Bela maneira de fazer a gente desaparecer do mesmo jeito que sumiu o Crânio!
— Você trouxe a malinha de maquiagem, como eu falei?
— Trouxe.
— Então vamos mostrar a esse Mike Sierrabrava quem são os Karas! Você vai criar um bom disfarce para mim, Calu. Espalharei os recados disfarçado. Assim, por mais que os bandidos procurem depois por mim, nunca desconfiarão que um jovem turista hospedado no hotel é o sujeito que anda espalhando os recados.
Calu cocou a cabeça.
— Não estou entendendo, Miguel. Você vai espalhar os recados sob disfarce para que os bandidos não nos localizem. Mas nós queremos que eles nos localizem! Senão, para que os recados?
— Se nós dois cairmos nas mãos deles, tudo irá por água abaixo, Calu. Apenas um de nós deverá sacrificar-se para que o outro possa descobrir a pista dos bandidos. O disfarce vai impedir que os bandidos botem a mão em mim na hora que quiserem, quero que eles me descubram quando eu quiser.
— Que história é essa?
— Nos recados, eu pedirei um encontro com Mike Sierrabrava em algum lugar, onde irei com o disfarce. Você estará vigiando e poderá me seguir, caso eles tentem qualquer coisa.
— Muito arriscado...
— É o único jeito, Calu. A ideia é apresentar-me a eles como alguém que quer trabalhar com drogas. Vou bancar o pequeno traficante de São Paulo que resolveu “subir” na vida do crime!
— Eles podem não acreditar.
— De qualquer jeito vão perder algum tempo investigando o que eu disser. É o tempo de que você precisa.
— Essa gente é muito perigosa, Miguel. Você pode ser morto...
— Morrer não fará muita diferença se eu não puder encontrar o Crânio...
— Está bem, então. Eu topo. Mas quem vai deixar os recados sou eu.
Miguel olhou para o amigo. Não adiantava discutir com a coragem de um Kara como Calu.
— Vamos tirar na sorte. Par ou ímpar?
— Impar!
Deu três. Calu ganhou. Ele seria a isca.

* * *

— Eita, barbudinho perguntador! — comentou o dono do boteco para o magrelo que queria saber quem era aquele sujeito de barbas que acabara de sair.
— E que gente estranha é essa que ele quer encontrar?
— Sei lá... um tal Serrabraba... Aqui não tem ninguém com esse nome, não. Foi o que eu disse pra ele. O barbudinho quer encontrar o tal Serrabraba na igreja e ele quer que eu dê o recado. Mas como vou dar um recado pra alguém que eu nunca vi?
— Mike Sierrabrava? Não conheço ninguém com esse nome, não senhor — estranhou o açougueiro.
— Eu gostaria de me encontrar com ele na igreja, às seis horas. Se aparecer alguém com esse nome, por favor, dê o recado — pediu o barbudinho.
— É incrível! — o detetive estava espantadíssimo, enxugando a careca suada pela preocupação e pelo calor, naquela vila chamada São Francisco. — Não há nenhuma ocorrência registrada sobre o desaparecimento de Crânio. O inquérito sobre a morte de Bezerra foi arquivado como de autoria desconhecida, e o que ele disse antes de morrer foi encarado como delírio de um moribundo!
— E as palavras? — perguntou Magri. — Foram aquelas mesmo?
— Isso é o mais estranho! A anotação das últimas palavras do Bezerra desapareceu da pasta do inquérito!
Magri suspirou, desolada:
— Pelos caminhos oficiais só vamos encontrar as providências de Mike Sierrabrava, Andrade. Temos de investigar sem o auxílio da polícia. Vamos nos reunir novamente a Miguel e Calu. Talvez eles tenham descoberto alguma coisa.

* * *

O motorzinho da lancha roncava ao longo do Taquari quando Andrade, Magri e Chumbinho encontraram aquele barco grande, com três homens que acenavam para eles, pedindo que se aproximassem.
O sol já se escondia por trás de um bálsamo que espalhava seu perfume pelo ar e parecia perfumar até as aves, que se levantavam em revoada como um protesto contra o ruído do motor que perturbava o equilíbrio sonoro do paraíso. Em meio a tanta beleza, Andrade não podia esperar o cano de três fuzis Browning de repetição apontados para eles, de cima do barco.

* * *

— O barbudinho anda deixando recados malucos em tudo que é canto — informou o magrelo.
— Mas recados para quem?
— Para Mike Sierrabrava...
— O quê!? — o vozeirão daquele homem enorme fez tremer a magreza do informante.

* * *

— Quietos! — um dos homens deu uma ordem com um movimento de cabeça para seus comparsas. Tragam os três. O barqueiro pode ir embora.
Os outros dois bandidos praticamente arrancaram Andrade da lancha, enquanto o que dera a ordem mantinha seu fuzil apontado. Chumbinho saltou para o barco grande, agarrou-se à camisa de Andrade e começou a fazer escândalo.
— Papai! Larguem o papai!
O homem que dava as ordens baixou o fuzil e agarrou Chumbinho.
— Fique quieto, menino!
— Papai! Quero papai! Quero ir pra casa!
Magri aproveitou o momento de distração que Chumbinho tinha provocado.  Usando o Código Vermelho dos Karas, rabiscou rapidamente um papel e enfiou-o no bolso do barqueiro. Foi o tempo certo. Um dos bandidos agarrou-a pelo braço e puxou-a da lancha.

* * *

Calu saiu desiludido do mercado de Nhecolândia. Parecia que ninguém tinha ouvido falar em Mike Sierrabrava. Parecia que tudo não passara de um delírio do piloto moribundo. Procurava um local isolado onde pudesse retirar o disfarce, quando sentiu alguém agarrando-lhe o braço.
— Por favor, quer me acompanhar?
— O que é isso? Me largue!

* * *

— Desculpe trazê-lo pra cá desse jeito — falou o grandalhão, educadamente. — Mas preciso fazer-lhe algumas perguntas.
— Recuso-me a falar sob pressão! — bronqueou Calu, acobertado pelo disfarce. — Tenho meus direitos! Isso é uma violência! Ou é uma brincadeira!
— Uma brincadeira? — sorriu o grandalhão, aproximando-se. — Se alguém está brincando não sou eu!
Com um movimento rápido, o grandalhão arrancou a barba postiça de Calu.
— Eu não dizia? Afinal, você é bem jovem. Como é seu nome, garotão? Por que anda por todos os lados, com esse disfarce, fazendo perguntas sobre Mike Sierrabrava?
O plano não tinha dado certo. Calu fora apanhado longe da vigilância de Miguel. Não abriria a boca. Ele era um Kara!
— Vamos, garotão. Você pode confiar em mim!
A voz do homem era educada, mas era grossa demais, como a de um barítono de ópera.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!