25 de janeiro de 2018

Capítulo 11. Já ouvi esse nome...

Ao longe, vindo das avenidas que circundam o Parque do Ibirapuera, o ruído dos automóveis era só o que se ouvia. O grupo permaneceu mudo após o relato de Calú, como se esperasse uma continuação.
—Que história! — exclamou Andrade, baixinho.
— Mas o que isso tudo tem a ver com....
Magrí interrompeu o pensamento do detetive:
— Esperem um pouco! Agora sei o que me chamou a atenção no folheto amarelo que Calú encontrou no cesto de papéis do camarim. Empreste um pouco o papel, Andrade!
O gordo detetive retirou o papel amarelo amarrotado do bolso e o estendeu para a menina. Magrí correu os olhos pelo impresso e apontou:
— Vejam! Aqui!
Todos olharam o parágrafo para onde apontava o dedo de Magrí. Entre as calúnias mais sórdidas, havia uma que dizia:
Os judeus desejam eterna vingança, pois até hoje perseguem velhos sargentos e tenentes que apenas cumpriam ordens na Segunda Guerra Mundial.
— Estão vendo? “Velhos sargentos e tenentes”... O Anjo da morte era um tenente! E se ele tivesse sobrevivido ao ataque russo naquela noite, no porão do armazém? E se o velho Sol soubesse disso? Kurt Kraut tentaria matá-lo, não tentaria?
— Solomon Friedman não sabia disso, Magrí — lembrou Crânio. — De acordo com o que Calú nos contou, Kurt Kraut morreu naquela noite. Os russos informaram que só havia dois sobreviventes: Solomon Friedman e Ferenc Gábor.
Kurt Kraut tinha trocado de identidade com Davi Segai. Se os sobreviventes fossem Solomon Friedman e Davi Segai, isso quereria dizer que o Anjo da morte teria sobrevivido, na pele do pintor. Mas pelo jeito só os dois que estavam amarrados nas traves do porão conseguiram escapar, malferidos pelas granadas soviéticas. Os dois que estavam de pé, no meio do porão, foram mortos. Quando a granada caiu, o nazista voou pelos ares, despachado de volta para o inferno que o gerou!
— E Davi Segai também — lembrou Calú. — Como eu disse, o velho Sol contou que havia o corpo de um oficial nazista, todo queimado, sobre o fogareiro. Era o pobre Davi Segai...
Chumbinho meteu seu bedelho na conversa:
— Somente Sol e Gábor sobreviveram, não é? Sol está morto e, se o outro sobrevivente era o tenente nazista Kurt Kraut, então Ferenc Gábor deve ser Kurt Kraut!
— Você se esquece de que Sol foi assassinado ontem perene Gábor só deve chegar ao Brasil hoje, Chumbinho! — lembrou Andrade.
— Ferenc Gábor...Ferenc Gábor... — falou Chumbinho, vasculhando a memória em busca de uma certa lembrança. — Já ouvi esse nome... Tenho certeza... eu já ouvi... esse nome em algum lugar... Onde terá sido? Acho que foi no Colégio Elite... Acho que foi no laboratório...
Para Miguel, ser líder dos Karas significava sempre tentar ordenar as intermináveis discussões:
— Temos somente a história de Sol, narrada de memória por Calú...
— O que há de errado com a minha memória, Miguel?
Não se esqueça que eu sou um ator, acostumado a decorar qualquer tipo de texto!
— Não estou duvidando da sua memória, Calú. Mas o que você nos apresentou foi o relato de um dos sobreviventes do porão do armazém, na União Soviética, no distante ano de 1944. Que tal agora ouvirmos a versão do outro sobrevivente?
— Ferenc Gábor?
— E quem mais?
Sentindo-se deslocado em um lugar como aquele, Andrade suava, apesar do ar condicionado que emprestava ao ambiente uma atmosfera europeia. Ao lado de Magrí, no salão ricamente decorado, o gordo detetive tentava passar despercebido no meio da nata da sociedade paulistana que lotava a sofisticada galeria de arte.
Depois da reunião no Parque do Ibirapuera, os Karas e Andrade haviam se separado, combinando reencontrar-se naquela mesma noite, na galeria onde seria inaugurada a exposição da obra de Davi Segai.
Cobertas de joias, mulheres de casacos de pele tilintavam suas taças e trocavam risadinhas com homens elegantemente vestidos, que exibiam suas prósperas barriguinhas. O coquetel de abertura da exposição da obra de gênio do grande Davi Segai era apenas um pretexto, uma das ocasiões em que a alta sociedade comparece mais para ser vista do que para ver.
Miguel pensou que aquele era o público errado para a obra do grande Segai, o pintor judeu-alemão que eternizara em tela e tinta o sofrimento e a miséria dos esquecidos, dos marginalizados, dos massacrados. Aquelas pessoas elegantes sequer podiam imaginar o que fosse miséria, o que fosse fome, o que fosse o Holocausto, o que quer que fosse. Pessoas como aquelas é que provocavam a miséria, a fome, a marginalização, o holocausto dos esquecidos.
Iluminadas por fortíssimos refletores, cerca de trinta telas destacavam-se, artisticamente organizadas sobre uma larga plataforma coberta por tapetes persas tão caros quanto as telas. Ali estava parte do talento enfezado de Davi Segai.
Ali estavam as massas escuras, os protestos sombrios à humana, a denúncia desesperada do suplício de milhões que pereceram nas câmaras de gás do regime político mais demente da História. Era impossível permanecer tranquilo enquanto se via um daqueles quadros. Eles faziam pensar, faziam pulsar mais forte os corações, faziam os rostos corarem de vergonha.
Os cinco Karas e o detetive Andrade tinham conseguido convites para a inauguração com um tio de Magrí, um especialista em arte. Mas, por mais fantásticos que fossem, os quadros de Davi Segai não conseguiam afastar da mente daquelas seis pessoas o assassinato de Solomon Friedman. Dentro em pouco, conheceriam o outro sobrevivente do campo de extermínio de Sobibor. O companheiro de Solomon Friedman que o ator nunca mais vira, desde aquela noite fatídica na União Soviética.
Um murmúrio mais concentrado anunciou a chegada do principal convidado da noite.

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