29 de janeiro de 2018

Capítulo 10

Uma tempestade de verão chegou do Mar Estreito logo antes da meia-noite.
Mesmo escondida na biblioteca que tomava a base da Torre, Yrene sentiu cada tremor de trovão. Clarões ocasionais de relâmpagos cortavam os corredores estreitos, perseguidos por um vento que atravessava as rachaduras na pedra pálida, apagando as velas à sua volta. A maioria estava protegida em lanternas de vidro, os livros e rolos muito preciosos para arriscar com chamas. Mas o vento os encontrou ali também – e deixou as lanternas de vidro penduradas nos tetos arqueados balançando e gemendo.
Sentada em uma mesa de carvalho construída em uma alcova longe das luzes mais brilhantes e das áreas mais movimentadas da biblioteca, Yrene observou o lampião metálico pendurado no arco acima dela balançar naquele vento de tempestade. Estrelas e luas crescentes haviam sido cortadas dos lados e estavam cheias de vidro colorido que lançavam manchas de azul, vermelho e verde na parede de pedra diante dela. As manchas balançavam e mergulhavam, um mar vivo de cores.
Um trovão rebentou, tão alto que ela se encolheu, a cadeira antiga sob seu pés rangendo em objeção.
Alguns gritos femininos soaram, e então risos abafados.
Acólitos – estudando tarde para seus exames na próxima semana.
Yrene soltou uma risada, mais para si mesma, e balançou a cabeça enquanto voltava a se concentrar nos textos que Nousha havia achado para ela horas atrás.
Yrene e a bibliotecária-chefe nunca foram próximas, e Yrene certamente não estava inclinada a ir atrás da mulher caso a visse no refeitório, mas... Nousha era fluente em quinze idiomas, alguns deles extintos, e havia treinado na famosa Biblioteca Parvani na costa ocidental, aninhada entre as terras exuberantes e ricas em especiarias, nas cercanias de Balruhn.
A Cidade das Bibliotecas, eles chamavam Balruhn. Se Torre Cesme era o domínio dos curandeiros, Parvani era o domínio do conhecimento. Mesmo a grande estrada que ligava Balruhn à poderosa Estrada-Irmã, a principal artéria do continente que fluía de Antica até Tigana, tinha sido nomeada por causa dela: a Estrada dos Estudiosos.
Yrene não sabia o que trouxera Nousha até aqui todas essas décadas atrás, ou o que a Torre lhe oferecera para ficar, mas ela era um recurso inestimável. E por toda a sua natureza insensível, Nousha sempre encontrava para Yrene a informação que ela precisava, não importava quão estranho fosse o pedido.
Esta noite, a mulher não pareceu satisfeita quando Yrene se aproximou dela no refeitório, desculpas irrompendo de seus lábios por interromper a refeição da bibliotecária. Yrene podia ter esperado até de manhã, mas ela tinha lições no dia seguinte, e Lorde Westfall depois disso.
Nousha havia encontrado Yrene ali depois de terminar a refeição, e ouvira, com seus longos dedos dobrados na frente de suas roupas cinzentas, a história de Yrene – e suas necessidades:
Informação. Qualquer uma que pudesse encontrar.
Feridas causadas por demônios. Feridas de magia negra. Feridas de recursos não naturais. Feridas que deixavam ecos, mas não pareciam continuar a causar estragos na vítima. Feridas que deixavam marcas, mas não cicatrizes.
Nousha havia encontrado. Pilha após pilha de livros e rolos de pergaminhos. Ela os empilhara na mesa em silêncio. Alguns estavam em halha. Alguns na própria língua de Yrene. Alguns em Eyllwe. Alguns estavam...
Yrene coçou a cabeça para o pergaminho que ela manteve aberto com pedras de ônix lisas vindo de garrafas que ficavam em cada mesa da biblioteca.
Mesmo Nousha admitiu não reconhecer as estranhas marcas – runas de algum tipo. De onde, ela também não tinha a mínima ideia, somente que os pergaminhos haviam sido colocados ao lado dos volumes de Eyllwe em um nível da biblioteca tão profundo sob a terra que Yrene nunca se arriscara a ir lá.
Yrene passou o dedo sobre a marca diante dela, tracejando suas linhas retas e arcos curvos.
O pergaminho tinha idade suficiente para que Nousha ameaçasse esfolar Yrene viva se ela derrubasse comida, água ou bebida sobre ele. Quando Yrene perguntou quantos anos o pergaminho tinha, Nousha sacudira a cabeça.
Cem anos? Yrene perguntara.
Nousha deu de ombros e disse que, a julgar pela localização, o tipo de pergaminho e o pigmento de tinta, estava mais para dez vezes isso.
Yrene se encolheu ante o papel que ela tocava tão flagrantemente, e aliviou as pedras que faziam peso nos cantos. Nenhum dos livros em sua própria língua tinha produzido nada valioso – eram mais advertências de velhas esposas sobre os mal-intencionados e espíritos de vento e podridão.
Nada como o que Lorde Westfall descrevera.
Um clique distante ecoou das trevas à sua direita, e Yrene ergueu a cabeça, olhando para escuridão, pronta para pular em sua cadeira ao primeiro sinal de um rato correndo.
Parecia que até os amados Gatos de Bastet da biblioteca – trinta e seis fêmeas, não mais, nem menos – não conseguiam evitar todos os, apesar de terem esse nome em homenagem à deusa guerreira.
Yrene novamente observou a escuridão à sua direita, encolhendo-se, desejando que ela pudesse convocar um dos gatos de olhos berilos para caçar.
Mas ninguém convocava um gato de Bastet. Ninguém. Eles apareciam quando e onde queriam, e não um momento antes.
Os gatos de Bastet moravam na biblioteca da Torre desde que ela existia, mas ninguém sabia de onde eles tinham vindo, ou como eram substituídos quando a idade os reivindicava. Cada um era tão diferente quanto qualquer humano, exceto por aqueles olhos cor de berilo que enfastiavam a todos, e o fato de que todos estavam tão propensos a se enrolar em algum colo como de se esquivar de companhia. Algumas das curandeiras, velhas e jovens, juravam que os gatos podiam pisar em piscinas de sombra e aparecer em outro nível da biblioteca; algumas juravam que os gatos foram pegos virando as páginas dos livros abertos com suas patas – lendo.
Bem, certamente seria útil se eles se importassem em ler menos e caçar mais. Mas os gatos não respondiam a ninguém e a nada, exceto talvez a sua deusa homônima, ou qualquer outro deus que tivesse encontrado um lar tranquilo na biblioteca, dentro da sombra de Silba. Ofender um gato de Bastet seria insultá-los a todos, e embora Yrene amasse a maioria dos animais – com exceção de alguns insetos – ela havia se certificado de tratar os gatos gentilmente, ocasionalmente deixando pedaços de comida ou esfregando suas barrigas e orelhas sempre que eles permitiam.
Mas não havia nenhum sinal desses olhos verdes brilhando no escuro, ou de um rato correndo, então Yrene soltou a respiração e colocou o pergaminho antigo cuidadosamente na borda da mesa antes de puxar um volume de Eyllwe em sua direção.
O livro estava encadernado em couro preto, pesado como um batente de porta. Ela conhecia um pouco da língua de Eyllwe por viver tão perto de sua fronteira e graças a uma mãe que a falava fluentemente – certamente não do pai que havia ido embora de lá.
Nenhuma das mulheres Towers havia se casado, preferindo os amantes que as deixavam com um presente que chegava nove meses depois ou que talvez ficassem um ano ou dois antes de seguir em frente. Yrene nunca havia conhecido seu pai, nunca soube quem ele era além de um viajante que parou na cabana de sua mãe durante a noite, buscando abrigo de uma tempestade selvagem que varreu a planície gramada.
Yrene passou os dedos sobre o título dourado, enunciando as palavras na língua que ela não havia falado ou ouvido em anos.
— A... A... — Ela tocou o título. Ela deveria ter perguntado a Nousha. A bibliotecária já havia prometido traduzir alguns outros textos que chamaram sua atenção, mas... Yrene suspirou novamente. — A... — Melodia. Ode. Poema. — Canção — ela suspirou. — A Canção do... — Começo. Início. — Princípio.
A Canção do Princípio.
Os demônios – os valg – eram antigos, Lorde Westfall havia dito. Eles esperaram uma eternidade para atacar. Parte de mitos quase esquecidos; pouco mais do que histórias para dormir.
Yrene abriu a capa e se encolheu diante da escrita desconhecida no índice. O padrão em si era antigo, o livro nem mesmo era impresso. Manuscrito. Com algumas variações de palavras que há muito haviam desaparecido.
Relâmpago reluziu novamente, e Yrene esfregou a têmpora enquanto passava as páginas mofadas e amareladas.
Um livro de história. Isso era tudo.
Seu olho passou por uma página, e ela parou, voltando até a ilustração reaparecer. Havia sido feito em cores escassas: preto, branco, vermelho e um amarelo ocasional.
Tudo pintado à mão por um mestre, sem dúvida uma ilustração do que estava escrito embaixo. A ilustração mostrava um rochedo estéril, um exército de soldados de armadura negra, ajoelhando-se diante dele. Ajoelhados perante o que estava no topo do penhasco.
Um portão imponente. Nenhum muro flanqueando-o, nada por trás dele. Como se alguém tivesse construído o portão de pedras negras a partir do nada.
Não havia nenhuma porta dentro do arco. Somente um turbilhão negro de nada. Pedaços dessa escuridão eram lançados, uma desagradável decomposição do sol, caindo sobre os soldados ajoelhados diante dele.
Ela piscou para as figuras em primeiro plano. Seus corpos eram humanos, mas as mãos que seguravam as espadas. Feridas. Retorcidas.
— Valg — Yrene sussurrou.
Um trovão retumbou em resposta. Yrene franziu o cenho para o lampião que balançava enquanto as reverberações do trovão ecoavam sob seus pés, subindo por suas pernas.
Ela folheou as páginas até que a próxima ilustração apareceu. Três figuras estavam paradas diante do mesmo portão, o desenho muito distante para reconhecer algo além de seus corpos masculinos, altos e poderosos. Ela correu um dedo pela legenda abaixo e traduzida:
Orcus. Mantyx. Erawan.
Três Reis Valg.
Os detentores das Chaves.
Yrene mastigou o lábio inferior. Lorde Westfall não havia mencionado tais coisas. Mas se houvesse um portão... então precisaria de uma chave para abrir. Ou várias.
Se o livro estivesse correto.
A meia-noite soou no grande relógio do átrio principal da biblioteca.
Yrene vasculhou as páginas, em busca da próxima ilustração. Estava dividida em três quadros.
Tudo o que o lorde havia dito – ela havia acreditado nele, é claro, mas... era verdade. Se a ferida não fosse prova suficiente, esses textos não ofereciam outra alternativa.
Porque no primeiro quadro, amarrado sobre um altar de pedra escura... um jovem desesperado esforçava-se para se libertar da aproximação de uma figura escura coroada. Algo girava em torno da mão da figura – uma víbora de névoa negra e pensamento perverso. Não era uma criatura real.
O segundo quadro... Yrene se encolheu.
Pois havia aquele jovem, com os olhos arregalados em súplica e terror, a boca forçada a permanecer aberta enquanto aquela criatura de névoa negra deslizava por sua garganta.
Mas foi o último quadro que fez seu sangue gelar. Um relâmpago reluziu novamente, iluminando a ilustração final.
O rosto do jovem ficou imóvel. Insensível. Seus olhos... Yrene olhou para os desenhos anteriores e o último. Seus olhos eram prata nos dois primeiros.
No último... eles ficaram pretos. Aceitáveis como olhos humanos, mas a cor prata tinha sido apagada e substituída por obsidiana profana.
Não estava morto. Pois na imagem ele se eruia, as correntes removidas. Não era uma ameaça.
Não – seja lá o que colocaram dentro dele...
Trovão ressoou novamente, e seguiram-se mais gritos e risadinhas. Juntamente com o barulho dos acólitos que saíam para dormir.
Yrene examinou o livro diante dela, as outras pilhas que Nousha trouxera.
Lorde Westfall havia descrito colares e anéis para manter demônios valg dentro de um hospedeiro humano. Mas mesmo depois de serem removidos, ele disse, eles poderiam permanecer. Eram apenas dispositivos de implantação, e se eles permanecessem por muito tempo, alimentando-se de seu hospedeiro...
Yrene balançou a cabeça. O homem no desenho não tinha sido escravizado – ele havia sido infestado. A magia veio de alguém com esse tipo de poder. Poder demoníaco.
Um choque de relâmpagos, então o trovão imediatamente nos seus calcanhares.
E então outro clique soou – fraco e oco – das pilhas escuras à sua direita. Mais perto agora do que antes.
Yrene voltou a olhar para a escuridão, os pelos em seus braços se eriçando.
Nenhum movimento de um rato. Ou mesmo o arranhar de garras felinas em pedra ou estante de livros.
Ela nunca havia temido por sua segurança, não desde o momento em que colocara o pé dentro dessas paredes, mas Yrene encontrou-se imóvel enquanto olhava para aquela escuridão à sua direita. Então, lentamente, olhou por cima do ombro.
O corredor cheio de estantes era um caminho direto em direção a um corredor maior, que a levaria, a três minutos de caminhada, de volta ao átrio principal brilhante e constantemente monitorado. Cinco minutos no máximo.
Somente sombras, couro e poeira a cercavam, a luz tremendo e inclinando-se com os lampiões balançantes.
A magia de cura não oferecia defesa. Ela descobriu da maneira mais difícil.
Mas durante aquele ano na Porco Branco, ela havia aprendido a ouvir. Aprendeu a ler uma sala, a sentir quando o ar mudava. Homens também podiam desencadear tempestades.
O barulho do trovão desapareceu, e apenas o silêncio permaneceu no lugar. O silêncio e o rangido dos antigos lampiões ao vento. Nenhum outro clique emitido. Tola – tola por ler essas coisas tão tarde. E durante uma tempestade.
Yrene engoliu em seco. Os bibliotecários preferiam que os livros permanecessem dentro da biblioteca, mas...
Ela fechou A Canção do Princípio, empurrando-o para dentro de sua bolsa. A maioria dos livros ela já julgara inúteis, mas talvez houvesse ainda mais seis, uma mistura de Eyllwe e outras línguas. Yrene empurrou aqueles em sua bolsa, também. E gentilmente colocou os pergaminhos nos bolsos de seu manto, fora de vista.
Todo o tempo mantendo um olho sobre o ombro – no corredor atrás dela, nas pilhas à direita.
Não teria dívida alguma se usasse um pouco de bom senso. A jovem estranha havia falado aquilo para ela naquela noite fatídica – depois de ter salvado a vida de Yrene. As palavras haviam demorado, mordendo profundamente. Como as outras lições que ela tinha aprendido com aquela garota.
E embora Yrene soubesse que riria de si mesma pela manhã, embora talvez fosse um dos gatos de Bastet perseguindo algo nas sombras, Yrene decidiu escutar aquele puxão de medo, aquele frio na espinha.
Embora ela pudesse cortar caminho por corredores escuros para alcançar o corredor principal mais rápido, ela se manteve na luz, seus ombros para trás e a cabeça erguida. Assim como a garota lhe havia dito. Faça parecer como se fosse boa de briga – aparente dar mais trabalho do que na verdade dá.
Seu coração pulsava com tanta força que podia senti-lo em seus braços, sua garganta. Mas Yrene fez de sua boca uma linha rígida, seus olhos brilhantes e frios. Aparentando estar tão furiosa quanto nunca, seu ritmo cortado e rápido. Como se tivesse esquecido algo ou alguém não havia conseguido encontrar um livro para ela.
Cada vez mais perto, ela se aproximou do cruzamento desse corredor largo e principal. Para onde as ajudantes estariam caminhando em direção a cama em seu acolhedor dormitório.
Ela limpou a garganta, preparando-se para gritar.
Nada de estupro, roubo, nada do que os covardes prefeririam se esconder, a estranha instruiu-a. Uma ameaça para todos. Se você for atacada, grite sobre um incêndio.
Yrene havia repetido as instruções tantas vezes nos últimos dois anos e meio. Para tantas mulheres. Assim como a estranha lhe ordenara. Yrene pensou que nunca mais precisaria recitá-las para si mesma.
Yrene acelerou os passos, com a mandíbula inclinada. Ela não tinha armas, exceto por uma faca pequena que usava para limpar feridas ou cortar ataduras – atualmente no fundo de sua bolsa.
Mas essa bolsa, carregada de livros... Ela envolveu as tiras de couro em torno de seu pulso, conseguindo uma boa pegada.
Uma bolsada bem colocada derrubaria alguém.
Mais perto e mais perto da segurança do corredor...
Pelo canto do olho, ela viu. Percebeu.
Alguém no próximo acervo. Andando paralelamente a ela.
Ela não ousou olhar. Reconhecer sua presença.
Os olhos de Yrene queimaram, mesmo quando ela lutou contra o terror que escalava seu corpo.
Vislumbres de sombras e escuridão. Perseguindo-a. Caçando-a.
Acelerando o ritmo para agarrá-la – pegá-la naquele corredor e puxá-la para o escuro.
Senso comum. Senso comum.
Se corresse, ele saberia. Aquilo saberia que ela estava ciente. Poderia atacar. Seja lá o que fosse.
Senso comum.
Faltavam trinta metros até o corredor, sombras se juntavam entre as luzes dos lampiões, as luzes agora ilhas preciosas num mar de escuridão.
Ela poderia jurar que dedos ondulavam levemente sobre os livros do outro lado da prateleira.
Então Yrene ergueu mais o queixo e sorriu, rindo alegremente enquanto olhava para o corredor.
— Maddya! O que está fazendo aqui tão tarde?
Ela acelerou seu ritmo, especialmente porque seja lá quem fosse diminuiu em surpresa. Hesitação.
O pé de Yrene bateu em algo macio – macio e rígido ao mesmo tempo – e ela engoliu seu grito – ela não havia visto a curandeira caída ao seu lado nas sombras ao longo da prateleira.
Yrene curvou-se, mãos buscando os braços finos da mulher, seu corpo esguio o suficiente para que ela o virasse...
Os passos começaram mais uma vez, enquanto ela virava a curandeira. Enquanto ela engolia o grito que tentava sair dela.
Bochechas moreno-claras se transformaram em pele escavada, os olhos manchados de roxo por baixo, os lábios pálidos e rachados. Um simples vestido de curandeira que provavelmente servia nela naquela manhã agora pendia solto, sua forma esbelta agora emaciada, como se algo tivesse sugado a vida dela...
Ela conhecia aquele rosto, magro como estava. Conhecia o cabelo dourado, quase o gêmeo de seu próprio. A curandeira do Útero, aquela que ela havia confortado apenas algumas horas antes...
Os dedos de Yrene tremiam enquanto ela tentava pegar um pulso, a pele coriácea e seca.
Nada. E sua magia... Não havia vida através da qual se mover. Nenhuma vida.
Os passos do outro lado do acervo se aproximaram. Yrene ergueu-se com os joelhos tremendo, respirando com força enquanto se forçava a andar de novo. Forçou-se a deixar aquela curandeira morta no escuro. Forçou-se a levantar sua bolsa como se nada tivesse acontecido, como se estivesse mostrando a bolsa para alguém à frente.
Mas com o ângulo das pilhas – aquilo não sabia disso.
— Apenas terminando minha leitura da noite — ela falou para sua salvação invisível à frente. Ela enviou uma oração silenciosa de agradecimento a Silba por sua voz se manter firme e alegre. — Cook está me esperando para uma última xícara de chá. Quer se juntar a nós?
Fazer parecer com que alguém estava esperando por ela: outro truque que ela aprendera.
 Yrene deu mais cinco passos antes de perceber que seja lá o que fosse havia parado de novo. Caindo em sua artimanha.
Yrene percorreu os últimos passos do corredor, avistou um grupo de acólitas que emergia de um novo corredor de pilhas e se precipitou em direção a elas.
Seus olhos se arregalaram com a aproximação de Yrene, e tudo o que ela sussurrou foi:
— Vão.
As três garotas, com mais ou menos catorze anos, avistaram as lágrimas de terror em seus olhos, a provável palidez de seu rosto, e não olharam para trás de Yrene. Elas não desobedeceram.
Elas estavam na sua classe. Ela as treinava há meses agora.
Elas viram as tiras de sua bolsa enroladas em torno de seu punho e fecharam as fileiras ao redor dela. Sorriram amplamente, como se nada estivesse errado.
— Venham até a Cook para tomar chá — disse Yrene, lutando para evitar que seu grito saísse dela. Morta. Uma curandeira estava morta. — Ela está me esperando.
E soará o alarme se eu não chegar.
Para crédito delas, aquelas garotas não tremeram, não demonstraram um pingo de medo enquanto caminhavam pelo salão principal. Enquanto se aproximavam do átrio, com seu fogo ardente e trinta e seis candelabros e trinta e seis sofás e cadeiras.
Uma gata preta de Bastet descansava em uma dessas cadeiras bordadas junto ao fogo. E quando se aproximaram, ela saltou, sibilando tão ferozmente quanto sua homônima felina homenageada. Não para Yrene ou às meninas... Não, aqueles olhos de cor berilo estavam estreitados para a biblioteca atrás delas.
Uma das garotas apertou o braço de Yrene. Mas nenhuma delas saiu do lado de Yrene enquanto ela se aproximava da enorme mesa da bibliotecária-chefe. Atrás delas, a gata de Bastet manteve-se no chão, enquanto a bibliotecária substituta, de plantão para a noite, olhou por cima de seu livro por causa da agitação.
Yrene murmurou para a mulher de meia-idade com túnica cinza:
— Uma curandeira foi gravemente atacada nos acervos do corredor principal. Retire todas daqui e chame a guarda real. Agora.
A mulher não fez perguntas. Não hesitou nem se agitou. Ela apenas acenou com a cabeça antes de alcançar o sino na borda da mesa.
A bibliotecária o tocou três vezes. Para um estranho, não era mais do que uma última chamada.
Mas para aquelas que moravam aqui, que sabiam que a biblioteca estava aberta dia e noite...
Primeiro toque: Ouça.
Segundo: Ouça agora.
A bibliotecária substituta tocou pela terceira vez, alto e claro, o barulho ecoando pela biblioteca, em todos os cantos e corredores escuros.
Terceiro toque: Saia.
Yrene perguntara uma vez, quando Eretia explicara sobre o alarme no primeiro dia aqui, depois de ter feito um voto de nunca repetir o significado para um estranho. Todas tiveram que fazer isso. E Yrene perguntara por que era necessário, quem o havia instalado.
Há muito tempo, antes que o khaganato tivessem conquistado Antica, esta cidade havia passado de mão em mão, vítima de uma dúzia de conquistadores e governantes. Alguns exércitos invasores foram gentis. Outros não.
Túneis ainda existiam sob a biblioteca – utilizados para fugas – desde muito tempo já fechados.
Mas a campainha de alerta para aquelas que estavam dentro permaneceu. E por mil anos, a Torre a manteve. Ocasionalmente tinha exercícios com ele. Apenas para o caso de ele soar.
O terceiro toque ecoou por pedra, couro e madeira. E Yrene poderia ter jurado que ouviu o som de inúmeras cabeças virando na direção de onde elas estavam. Ouviu o som de cadeiras sendo empurradas para trás e livros caindo.
Corram, ela implorou. Mantenham-se nas luzes.
Mas Yrene e as outras ficaram em silêncio, contando os segundos. Os minutos. A gata de Bastet acalmou o silvo e monitorou o corredor além do átrio, a cauda negra batendo na almofada da cadeira. Uma das garotas ao lado de Yrene correu para os guardas junto aos portões da Torre. Que provavelmente ouviram o sino e já estavam correndo em direção a elas.
Yrene tremia quando passos rápidos e roupas farfalhando se aproximaram. Ela e a bibliotecária substituta marcaram cada face que surgiu – cada rosto de olhos arregalados que saía da biblioteca.
Acólitas, curandeiras, bibliotecárias. Ninguém fora do lugar. A gata de Bastet parecia também verificá-las todas – os olhos de berilo que talvez vissem coisas além da compreensão de Yrene.
Passos fortes e decididos, e Yrene liberou o alívio em forma de lágrimas à aproximação de meia dúzia de guardas da Torre que agora seguiam pelas portas abertas da biblioteca, as acólitas em seus calcanhares.
A acólita e suas duas companheiras permaneceram com Yrene enquanto ela explicava. Enquanto os guardas pediam reforços, enquanto a bibliotecária substituta convocava Nousha, Eretia e Hafiza. As três garotas permaneceram, duas segurando as mãos trêmulas de Yrene.
Elas não a soltaram.

30 comentários:

  1. Pelos deuses malditos ! Merda, merda, merda ...

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  2. Ui ui ui... Será que os valg tentaram conquistar esta terra antes?

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  3. Biblioteca + noite + informações de monstros perigosos = algo provavelmente vai te seguir, meu bem.

    Mas nossa, é quase uma da manhã e eu aqui lendo isso... assustador >.<

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    1. Bateu medo cara.Pqp quando comecou os trovões eu pensei" Merda.A desgraçada tá lendo numa biblioteca,Sozinha,tudo escuro,trovejando e ainda acha um corpo.

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    2. eu lendo aqui no escuro, sozinha e chovendo... Tive q rezar pq tava dando muito medo haha (só faltava os trovões)

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  4. Só percebi que estava segurando a respiração quando a Yrene finalmente se sentiu segura. Que medoooo

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  5. Adoro quando ela relembra das coisas que a Celaena ensinou pra ela 😍

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  6. Medo! Vocês já repararam que essas coisas amam bibliotecas? Agora toda vez que eu entrar em uma biblioteca... (Pausa para oração) E se existem três valgs... Erawan sabemos onde está, mas e os outros?

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    1. Eu trabalho em uma..kkkk a noite..kk

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    2. Kkkk. Mais que sorte a sua anônimo.

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    3. Os outros reis valg estão mortos, eu acho que a Yrene vai encontrar a localização do portal de Wyrd,seria muito doido se isso acontecesse


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  7. Gente alguma coisa não está me cheirando bem, a pessoa que estava na biblioteca com certeza é poderosa tipo um dos príncipes ou o próprio khagan, pq tem acesso a torre e ao palácio, não confio em ninguém.

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  8. Pq nessa serie tudo de ruim e estranho acontece em uma biblioteca??
    medo😨😨

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  9. Poxa, Sarah, assim eu pego trauma de entrar em bibliotecas.

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  10. Aaaaaaaaaaaaaa meu Deus, a primeira morte já aconteceu, pqp mano. Tempestades e biblioteca não combinam a noite, tô começando a ficar traumatizada. Só uma pergunta pra esse ser que estava na biblioteca atrás da Yrene: SAMARA,É VOCÊ? 😨

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    1. a primeira morte não, a segunda morte pq a primeira foi da princesa.

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    2. Acho que podem ter tentado por um valg na princesa, mas ela se matou antes de perder todo o controle. Por isso foi atestado que ela se matou. 😫😫😫

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    3. Faz sentido! Eu não tinha pensado nisso

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  11. Medoooooo, prendi a respisraca com esse capitulo. Ufaaaa!

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  12. Affff, quase tive um ataque cardíaco, medo por Caol, Yrene

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  13. Isso me faz lembrar quando a Aelin os pesquisar na biblioteca do Castelo, que medo!!!

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    1. Também lembrei kkk e a Celaena também ouvia barulhos estranhos (mas depois viu que era o Chaol que fazia, para assustar ela). Kkk

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  14. Dá a entender que o epsiries valg está vagando por ai, e não dentro de alguém como Chaol está procurando. Ou seja, possa ser que todos sejam inocentes -
    porr enquanto - ou não. Vai saber pow!

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  15. Acho que esse valg não tem corpo, feito de escuridão e sombras, só acho

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  16. Eu também lembrei de quando a Cel estava na biblioteca procurando algo sobre marcas de wyrd... Sempre tem algo escondido em uma biblioteca.
    Sobre o olho de Elena que salvou o Chaol, penso que ele é "ativado" quando o portador pretendo se sacrificar, porque de todo o tempo que a Cel ficou com ele nunca fez nada contra os valgs, mas quando o Chaol estava com rei, ele não pretendia sair vivo, um sacrifício para dar tempo aos amigos, por isso acho que o olho só funciona com isso, com sacrifícios, e não com coragem como havia dito a Aelin...


    **Karina amo seu blog, muito obrigado por todos esses livros e pelo trabalho que você tem por manter tudo funcionado e atualizado...

    -No one, bjsss

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  17. Tudo de ruim sempre acontece nas bibliotecas antigas.
    Primeiro a Celaena tá pesquisando uns trem lá e descobre uma passagem secreta muito antiga que só a mete em problemas.
    Segundo a Yrene tá nuna biblioteca super antiga, à noite, durante uma tempestade e pesquisando sobre os Valg. Então, claro que vai dar merda, e já deu porque ela achou um corpo, e tambetvale enfatizar que foi revelado que a biblioteca possui passagens secretas, então, eu não duvido que a Yrene um dia vai explorar uma e vai acabar se metendo em muita merda.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!