15 de janeiro de 2018

Capítulo 10. Meninos obedientes

A porta traseira da perua foi aberta e a luz forte da tarde penetrou no interior do veículo, cegando Chumbinho por um instante. Quando sua vista acostumou-se à claridade, o menino viu-se no pátio interno de uma espécie de pavilhão bem grande, parecendo uma fábrica.
— Saia! — ordenou uma voz.
Era o mesmo grandalhão animalesco que o havia trazido até ali. Outros dois gorilas do mesmo estilo aproximaram-se. Um deles colocou um bracelete de esparadrapo no pulso esquerdo do menino. No bracelete estava escrito D. 0.20.
Chumbinho estranhou aquelas iniciais D.O., mas sorriu por dentro ao ler o número 20: sua hipótese se confirmava. Se haviam sido sequestrados três estudantes de nove diferentes colégios, mais o Bronca e mais ele, Chumbinho, seu número deveria ser 29. Ah!... mas agora ele estava entendendo por que tinha recebido o bracelete com o número 20!... Eram só vinte os sequestrados. Os outros nove que faltavam, não faltavam.
E os outros Karas? Teria algum deles encontrado a mensagem em código que ele deixara no banheiro? Teriam entendido o Chumbinho tentara dizer com tanta pressa?
— Você agora é o Vinte — falou um dos grandalhões dirigindo-se a ele. — Sempre que chamarem pelo Vinte, você atende. Certo?
— Sim, senhor.
— Venha comigo.
Chumbinho seguiu o grandalhão documente, fazendo ainda sua carinha de estúpido. Até ali, a representação ia funcionando direito. Mas até quando funcionaria? E se aqueles brutamontes descobrissem a farsa que o menino estava representando? O que fariam com ele?
O menino seguiu o grandalhão, entrando no pavilhão da tal fábrica e atravessando um corredor comprido. Tudo estava muito limpo e arrumado. Parecia até um hospital.
Chegaram a uma sala ampla, cheia de arquivos. Chumbinho viu-se frente a uma secretária que nem olhou para o seu lado. O grandalhão entregou à mulher um papel e ela pôs-se a datilografar furiosamente uma ficha. Nada perguntou a Chumbinho, mas, por via das dúvidas, o menino continuou imóvel e apalermado.
Por uma porta lateral entraram em um vestiário onde havia prateleiras cheias de roupas. O brutamontes estendeu-lhe um macacão azul, sapatos, meias, cueca e mandou que ele se trocasse. Chumbinho obedeceu à ordem. O macacão e os sapatos serviam direitinho!
“Que gente mais organizada!”, pensou o menino. “Já sabiam até o número que eu calço e que eu visto!”
No peito e nas costas do macacão, estava bordado o número 20 depois das letras D. O.
“Outra vez o D.O. ... O que será isso?”, cismou o garoto, muito mais curioso e excitado com o que estava conseguindo descobrir do que assustado, como deveria ficar qualquer garotinho da idade dele.
Mas ele agora era um Kara, e um Kara não tinha o direito de ter medo.

* * *

Vestido e fichado, o número 20 foi levado até uma sala em cuja porta estava escrito: D.O. — Testes.
A sala era muito grande. Um salão, como o de uma academia de ginástica. Lá estavam outros dezenove jovens, todos numerados e com as letras D.O. às costas.
Estava também o Bronca, com o número 19 bordado no macacão.
“O Bronca! Encontrei o Bronca!”, pensou Chumbinho, animado com os progressos na investigação, mas sem saber para que serviriam aquelas descobertas, com ele preso, numerado e fortemente vigiado, igualzinho aos outros.
Chumbinho olhou fixamente para o colega do Elite, mas Bronca não deu o menor sinal de reconhecê-lo. Parecia um idiota, e não estava fingindo como Chumbinho. Bronca estava idiotizado mesmo, como idiotizados estavam todos os outros rapazes e moças de macacão azul numerado.
Um garoto, com o número 6, estava caído no chão, no meio do salão de testes. Estava imóvel, com o rosto voltado para o chão. Um homem de avental branco dirigiu-se a uma espécie de televisor que havia no fundo do salão. Apertou algumas teclas e o vídeo iluminou-se, mostrando a silhueta de alguém.
— Resultado do teste de eficiência 141/06, Doutor Q.I. — informou o homem de avental branco, falando para a silhueta.
— Pode relatar — ordenou uma voz metálica, vinda do vídeo, certamente deformada por alguma espécie de filtro de som.
Chumbinho arrepiou-se:
“A voz deformada, a figura em silhueta... Este deve ser o chefão da coisa toda. E é claro que não quer ser reconhecido!” O homem do avental branco começou:
— Primeira conclusão: a Droga da Obediência...
“Droga da Obediência!”, espantou-se Chumbinho. “Então é isso que significam as iniciais D.O.T?”
— ... a Droga da Obediência aumenta o desempenho físico, sem limites, Doutor Q.I. Precisamos estabelecer, portanto, quais os níveis de esforço suportáveis pelas cobaias. A cobaia número 6 repetiu a ordem sem demonstrar cansaço nem desejo de parar.
— Até quando? — perguntou a voz metálica vinda do vídeo.
—Até o limite da ruptura física, Doutor Q.I. Perdemos a cobaia número 6.
— Muito bem. Procedam com a cobaia morta do jeito que planejamos.
— Será feito, Doutor Q.I.
— De que modo foi usada a droga?
— Em comprimidos, Doutor Q.I. Mas o efeito da Droga da Obediência é o mesmo, qualquer que seja a forma de usá-la. Já experimentamos em pó, em comprimidos, em líquido, injetada, cheirada, aspirada e até fumada, na forma de cigarros. E os resultados foram sempre bons.
— Ótimo. Quero a repetição do teste 141 com a cobaia número 11.
A ordem deve ser suspensa antes de completar-se o período de tempo em que perdemos a número 6. Precisamos saber até onde chega a eficiência da Droga da Obediência sem a perda da cobaia. Quero novo relatório amanhã, bem cedo.
A tela apagou-se fazendo desaparecer a sinistra silhueta, que falava da morte de um menino como se falasse de números e frações. Horror! Chumbinho mal podia acreditar no que estava presenciando. Temeu até que sua expressão denunciasse o que lhe passava pelo pensamento. Aquela gente usava vidas humanas como cobaias e ninguém parecia preocupado com a morte estúpida de um garoto que, talvez há poucos dias, era um alegre estudante de algum colégio de São Paulo!
À sua volta, todas as outras cobaias humanas estavam impassíveis, como se nada estivesse acontecendo. Chumbinho viu um garoto com o número 11 ser chamado para o centro da sala.
De repente, tudo aquilo misturou-se em sua mente, sentiu-se enjoar, entontecer... Chumbinho desmaiou.

* * *

— Só pode ter sido isso, Doutor Q.I. A cobaia número 20 não foi alimentada depois que foi trazida para cá. Por isso desmaiou. Já o alimentamos com soro e o eletrocardiograma dele está normal. Deve acordar em poucos minutos.
Aquela voz entrou pelos ouvidos do Chumbinho como num sonho. O menino percebeu que estava deitado, e fez um esforço para não abrir os olhos até colocar suas ideias em ordem.
Diabo! Ele tinha desmaiado e quase punha tudo a perder. Por sorte a voz que ouvira tinha encontrado uma desculpa perfeita para o desmaio. Por enquanto eles desconheciam que Chumbinho não estava sob o efeito da tal Droga da Obediência.
Já recomposto, o menino abriu os olhos. Estava em uma enfermaria, deitado e com uma agulha em sua veia do braço esquerdo. A agulha estava ligada a um canudinho que trazia o soro alimentar de um frasco dependurado ao seu lado.
O homem que falava, provavelmente um médico, olhava para a tela de um televisor igual ao que o menino vira na sala de testes. Da tela vinha a mesma voz metálica:
— Idiotas! Vocês sabem muito bem que eu não admito falhas. As cobaias devem ser alimentadas regularmente, conforme o planejado.
Sob o efeito da Droga da Obediência, nenhuma cobaia manifesta desejo algum. Se não a alimentarem, a cobaia pode sofrer danos. Que isso não se repita!
— Desculpe, Doutor Q.I....
A silhueta apagou-se da tela antes que o médico pudesse completar as desculpas.

* * *

Chumbinho foi levado a um refeitório onde já se encontravam as outras dezoito cobaias. O médico o havia examinado e devia ter concluído que tudo ia bem com a cobaia número 20. Assim, o menino foi normalmente reintegrado ao grupo.
Comeu quando recebeu a ordem para tanto e procurou fazer tudo do jeito que faziam as outras cobaias humanas.
Chumbinho olhava para a cadeira vazia onde provavelmente costumava sentar-se o pobre menino número 6, quando um funcionário colocou alguma coisa à sua frente.
Era um vidrinho com outra dose da Droga da Obediência. “Quer dizer que o efeito da droga é passageiro?”, pensou Chumbinho. “Vai ver todas as cobaias têm de tomar um reforço da droga dtempos em tempos. Era quase meio-dia quando eu fingi tomar a primeira dose. Agora deve ser mais ou menos oito da noite. Então o efeito dura cerca de oito horas... Quer dizer que tenho oito horas para agir...”
Uma ideia começou a crescer na cabeça do Chumbinho, enquanto ele fingia tomar a droga e a escondia dentro do macacão azul.
“Todos pensam que eu estou idiotizado como os outros. Por isso ninguém vai ficar me vigiando. Ótimo! Agora é só esperar que as luzes se apaguem. Tenho de saber mais. Preciso conhecer melhor este lugar maldito!”
Esperou um pouco e, quando todas as cobaias adormeceram, esgueirou-se silenciosamente para fora da cama.

4 comentários:

  1. Ah moleque esperto. ...

    Flavia

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  2. "Bronca estava idiotizado mesmo, como idiotizados estavam todos os outros rapazes e moças de macacão azul numerado."

    Estou Idiotizada com tudo isso!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!