25 de janeiro de 2018

Capítulo 10. E o pintor não sobreviveu

Um estrondo sacudiu todo o armazém.
Solomon Friedman abriu os olhos, percebendo que aquilo era muito mais do que o disparo de uma pistola.
Uma claridade vermelha iluminava todo o porão e fazia tremer o armazém. Explosões ensurdecedoras ocupavam tudo.
— São as granadas russas! — berrou Ferenc Gábor, com a alegria da vingança. — Você vai morrer junto com a gente, cachorro nazista!
Num décimo de segundo, o porão encheu-se de chamas, como se a terra se abrisse e o porão fosse tragado para as profundezas do inferno!
Solomon sentiu o corpo sacudir-se ao mesmo tempo que outra granada explodia no porão. Suas pernas bambearam e a maior promessa do teatro europeu da década de 40 não viu mais nada.
— Ah, Calú! E como é que eu estou aqui? Tive sorte! Tive sorte, meu menino, tive muita sorte! Fui ferido por uma granada russa e perdi os sentidos. Fiquei em choque, à beira do estado de coma durante vários dias. Mas felizmente nenhum estilhaço tinha atingido qualquer ponto vital...
— E os outros, Sol? O carrasco nazista sobreviveu fazendo-se passar por Davi Segai?
— Foi o que me apavorou, logo que consegui sair do estado de choque causado pelos ferimentos. Kurt Kraut tinha tatuado o número de Davi Segai em seu próprio braço e tinha obrigado Segai a vestir a farda das SS. O Anjo da morte sabia que só poderia ter esperanças de escapar ao julgamento da História se os russos pensassem que o cadáver encontrado era o dele, Kurt Kraut. O plano era perfeito, naquele instante desesperador: o Anjo da morte nos mataria e cairia nos braços dos russos, dizendo-se Davi Segai, um fugitivo de Sobibor que escapara por um triz da morte durante o ataque dos russos. Ele só não apertou o gatilho da Luger porque naquele momento a granada russa explodiu dentro do porão...
Calú seguia a narrativa como se assistisse a um filme.
Só que a emoção era maior.
— No momento da explosão, não pude ver nada.
Custei a me recuperar, mas, logo que abri os olhos e tomei consciência de mim mesmo, minha única preocupação foi tentar desmascarar o canalha. Se eu sobrevivera, o Anjo da morte também poderia ter sobrevivido à granada. Kurt Kraut poderia estar solto, na pele do meu amigo Davi Segai. Até seus companheiros de farda, que poderiam reconhecê-lo, ele enviara para a morte naquela noite. Restava somente eu sobre a Terra para desmascarar o Anjo da morte!
— E os russos? O que informaram eles?
— Os russos me disseram que só haviam encontrado dois cadáveres: um oficial SS, caído sobre o fogareiro, todo queimado e ferido pela explosão da granada, e um soldado nazista. O soldado era o pobre Fritz, que o Anjo da morte assassinara covardemente. O outro, com a farda de oficial das SS, eu sabia que era Davi Segai. Mas os russos falaram em dois ou três sobreviventes. Aí eu me alarmei: no caso de dois sobreviventes, o outro poderia ser Gábor ou Kurt Kraut; no caso de três, isso significava que os dois haviam sobrevivido! Eu tinha sido enviado para um hospital distante, e as informações que eu conseguia obter eram imprecisas demais. Ah, a burocracia soviética!
Mas, se os russos podiam dizer quem havia morrido, por que não informavam quem sobrevivera?
— Os russos não sabiam me dizer quem era o outro ou os outros dois sobreviventes, mas insistiam que Kurt Kraut estava morto, pois o cadáver encontrado vestia uma farda SS. Eu tentei mostrar a eles que aquele não era o carrasco nazista, que eu o vira obrigar Davi Segai a vestir a farda.
Que procurassem pelo homem que se fazia passar por Davi Segai, que desmascarassem o Anjo da morte, que...
— Mas eles não ligavam para o que você dizia?
— Depois de muita insistência, consegui que a burocracia russa se abrisse um pouquinho: para meu alívio, não havia registros de qualquer sobrevivente que se dissesse chamar Davi Segai. Encontraram anotações daquela noite que mostravam apenas dois nomes de sobreviventes: Solomon Friedman e Ferenc Gábor. O nome de Ferenc Gábor estava inclusive anotado duas vezes. Isso significava que o maldito Kurt Kraut morrera com a explosão! As granadas russas tinham feito justiça e riscado da face da Terra o terrível Anjo da morte. Deveriam então ser três e não dois os cadáveres encontrados no porão: o soldado Fritz, Kurt Kraut, vestindo os trapos de Davi Segai, e o próprio Davi Segai, com a farda de Kurt Kraut.
Solomon Friedman abriu os braços, num gesto de conformismo:
— A granada havia matado também Davi Segai, um dos maiores pintores do século XX... Pobre homem! Morreu vestindo a vergonhosa farda dos assassinos do seu povo... todo queimado... como um mártir!
— E Ferenc Gábor? Você o encontrou?
— Não... Nunca mais o encontrei. Mas tenho notícias dele. É ele quem cuida da memória de Davi Segai.
Ferenc Gábor, desde o fim da guerra, é o curador da memória artística do maior pintor expressionista do mundo! O teatro é uma profissão maravilhosa, Calú. Só não presta para se ganhar dinheiro. Como é que um ator como eu vai conseguir dinheiro para viajar para a Europa em busca de um antigo companheiro de campo de concentração nazista?
— Quer dizer que, com a explosão, só morreram Kurt Kraut e Davi Segai?
— Sim, Calú, Davi Segai morreu naquela noite. Só a sua arte sobreviveu ao Holocausto. Sobreviverá para sempre, como a mais perfeita testemunha do mais hediondo crime da Humanidade. Depois de morto, Davi Segai foi descoberto pelo mundo. Hoje ele é considerado o maior pintor expressionista da primeira metade do século.
Muitas de suas telas apareceram depois da guerra.
Quem possui uma delas, Calú, possui uma fortuna! Segai viveu pouco, mas deve ter produzido muito em seu pouco tempo de vida. Eu tenho acompanhado pela imprensa o sucesso que o meu companheiro de campo de extermínio fez depois de morto. E eu me orgulho tanto dele, Calú, tanto...
— Você viveu muito tempo na União Soviética?
— Na verdade, Calú, não era possível alguém como eu viver muito tempo na União Soviética. Eu era um sobrevivente do inferno, mas parece que os russos me achavam um incômodo, quase como se fosse melhor que eu não tivesse escapado. Eu era um estrangeiro.
Era um judeu. E o preconceito contra os judeus continuava. A paz chegou, mas o pesadelo do Shoah, o Holocausto, continuou pairando sobre toda a Europa, sobre todo o mundo...
Solomon Friedman levantou-se, como se fosse o fim do espetáculo...
— Era preciso encontrar uma nova pátria, Calú. E a nova pátria que eu descobri foi esta, foi este Brasil. Aqui voltei a ser ator, aqui voltei a respirar, aqui voltei a ser um homem! Agora, Calú, eu sou brasileiro! Ah, e que orgulho eu tenho de ser brasileiro! Como é bom estar vivo, Calú!
Como é bom ser brasileiro! Aqui, numa terra que eu nem sabia direito onde ficava antes da guerra, reencontrei a mim mesmo, reconstruí minha arte. Como é bom estar vivo, Calú! Sorria, meu menino! Sorria comigo!

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!