29 de janeiro de 2018

Capítulo 1

Chaol Westfall, antigo capitão da guarda real e agora mão do recém-coroado Rei de Adarlan, descobrira que odiava um som acima de todos os outros.
Rodas.
Especificamente, o som de rodas sobre as tábuas as quais passara as últimas três semanas navegando pelas águas revoltas de tempestade. E agora o chacoalhar e o barulho sobre os brilhantes pisos de mármore verde e intrincados mosaicos que cobriam o palácio brilhante do Khagan do Continente do Sul em Antica.
Sem nada para fazer além de ficar sentado na cadeira de rodas que ele considerava tanto a sua prisão quanto o seu único meio de ver o mundo, Chaol absorveu os detalhes do palácio empoleirado em uma das incontáveis colinas da capital. Cada peça ali tinha sido levada e construída em homenagem ao poderoso império khagan:
Aqueles pisos verdes polidos em que sua cadeira agora rolava sobre foram talhados de pedreiras no sudoeste do continente. Os pilares vermelhos moldados como poderosas árvores, seus ramos superiores se estendendo através dos tetos abobadados encimando tudo, fazendo parte de um salão de entrada infinito, haviam sido transportados dos desertos ardentes a nordeste.
Os mosaicos que interrompiam o mármore verde foram montados por artesãos de Tigana, outra das cidades prezadas do khagan no extremo sul montanhoso do continente. Cada um retratava uma cena do passado rico, brutal e glorioso do khaganato: os séculos passados com os cavaleiros nômades nas estepes gramadas das terras orientais do continente; o surgimento do primeiro khagan, um senhor da guerra que unificou as tribos dispersas em uma força conquistadora que tomou o continente parte por parte, empunhando astúcia e estratégias brilhantes para forjar um vasto império; e depois as representações dos três séculos seguintes – os vários khagans que expandiram o império, distribuindo a riqueza de uma centena de territórios em todas as terras, construindo inúmeras pontes e estradas para conectá-los, governando o vasto continente com precisão e clareza.
Talvez os mosaicos forneçam uma visão do que Adarlan poderia ter sido, pensou Chaol enquanto os murmúrios da corte reunida flutuavam entre os pilares esculpidos e as cúpulas douradas à frente. Ou seja, se Adarlan não tivesse sido governado por um homem controlado por um rei demoníaco inclinado a transformar este mundo em uma festa por suas hordas.
Chaol virou a cabeça para olhar para Nesryn, e viu o rosto como pedra atrás dele enquanto empurrava sua cadeira. Somente seus olhos escuros, passando por cada rosto, janela e coluna, revelaram qualquer tipo de interesse na casa do khagan.
Eles tinham guardado o melhor conjunto de roupas para aquele encontro, e o recém-nomeado Capitão da Guarda estava realmente resplandecente em seu uniforme carmesim e dourado. De onde Dorian desenterrara um dos uniformes que Chaol um dia usara com tanto orgulho, ele não tinha ideia.
Ele inicialmente queria vestir preto, simplesmente porque cores... Ele nunca se sentiu confortável com cores, exceto o vermelho e o dourado de seu reino. Mas preto tornara-se a cor dos guardas tomados por valg de Erawan. Eles usavam aqueles uniformes pretos sobre preto e aterrorizaram Forte da fenda. Enquanto circulavam, torturavam e depois matavam seus homens.
Então os fincavam ao longo dos portões do palácio para balançar ao vento.
Ele mal conseguiu olhar para os guardas de Antica por que passavam no caminho para lá, tanto os das ruas quanto os do palácio – orgulhosos e alertas, espadas presas às costas e adagas nas cinturas. Mesmo agora, ele resistiu ao desejo de olhar para onde sabia que eles estariam parados no corredor, exatamente onde ele teria posicionado seus próprios homens. Onde ele mesmo, sem dúvida, estaria de pé, monitorando tudo, enquanto os emissários de um reino estrangeiro chegavam.
Nesryn encontrou seu olhar, os olhos de ébano frios e sem piscar, os cabelos negros na altura dos ombros balançando a cada passo. Nenhum rastro de nervosismo escapava pelo rosto lindo e solene. Sem indícios de que eles estavam prestes a encontrar um dos homens mais poderosos do mundo – um homem que poderia alterar o destino de seu próprio continente na guerra que certamente agora atravessava Adarlan e Terrasen.
Chaol voltou a olhar para frente sem dizer uma palavra. As paredes, pilares e portas arqueadas tinham ouvidos, olhos e bocas, ela o avisara.
Foi apenas esse pensamento que impediu Chaol de se mexer dentro das roupas pelas quais ele havia finalmente decidido: calças marrom claras, botas de cor castanha até o joelho, uma camisa branca da seda mais fina sobreposta por uma casaca verde petróleo. A casaca era simples o suficiente, seu custo apenas revelado pelas finas fivelas de bronze na frente e pelo vislumbre de um delicado fio de ouro bordado no colarinho e nos punhos. Nenhuma espada pendia do cinto de couro – a ausência desse peso reconfortante era como um membro fantasma.
Ou pernas fantasmas.
Duas tarefas. Ele tinha duas tarefas enquanto estivesse ali, e ainda não tinha certeza de qual seria a mais impossível: convencer o khagan e os seus seis futuros herdeiros a emprestar seus consideráveis exércitos para a guerra contra Erawan... ou encontrar um curandeiro em Torre Cesme que pudesse descobrir uma maneira de fazê-lo andar de novo.
Para – ele pensou com uma pequena onda de desgosto – consertá-lo.
Ele odiava aquela palavra. Quase tanto quanto o ruído das rodas. Consertar. Mesmo que fosse o que ele suplicaria aos lendários curandeiros que fizessem por ele, a palavra fez seu estômago revirar.
Ele empurrara a palavra e o pensamento para longe de sua mente enquanto Nesryn seguiu o grupo quase silencioso de criados que os levaram das docas, através das ruas serpenteantes e empoeiradas de Antica, por todo o caminho pela avenida inclinada até os domos e os trinta e seis minaretes do próprio palácio.
Tiras de pano branco – de seda a feltro a linho – estavam pendurados em inúmeras janelas, lanternas e portas. Provavelmente devido a algum oficial ou membro distante da realeza que morrera recentemente, Nesryn murmurara. Os rituais de morte eram variados e, muitas vezes, misturavam-se nos inúmeros reinos e territórios agora governados pelo khaganato, mas o tecido branco era um antigo remanescente dos séculos em que o povo do khagan percorria as estepes e pousava seus mortos para descansar sob o vigilante céu aberto.
A cidade ainda não estava escura enquanto eles passavam por ela, as pessoas ainda se apressavam em roupas de vários estilos, os vendedores ainda gritavam seus produtos, acólitos estavam em templos de madeira ou pedra – todo deus tinha uma casa em Antica, Nesryn explicara – ainda acenavam para aqueles que estavam na rua. Tudo isso, mesmo o palácio, vigiado pela torre brilhante e pálida acima de uma das suas colinas do sul.
A Torre. A torre que abrigava os melhores curandeiros mortais do mundo. Chaol tentou não olhar muito tempo para ela através das janelas da carruagem, mesmo que a enorme torre pudesse ser vista de quase todas as ruas e esquinas de Antica. Nenhum dos criados a mencionou ou apontou a presença dominante que parecia rivalizar até mesmo com o palácio do khagan.
Não, os criados não haviam dito muito sobre a caminhada até ali, nem mesmo no que dizia respeito às bandeiras de luto que balançavam ao vento seco. Cada um deles permaneceu em silêncio, homens e mulheres, seus cabelos escuros lisos e brilhantes, cada um vestindo calças largas e blusas fluidas cor de cobalto com ouro pálido. Criados domésticos – mas descendentes dos escravos que já haviam pertencido à linhagem do khagan. Até o khagan anterior, um visionário e um ativista, proibiu a escravidão há uma geração como uma de suas inúmeras melhorias para o império. O khagan libertou seus escravos, mas os manteve como criados remunerados – assim como a seus filhos. E agora os filhos de seus filhos.
Nenhum deles parecia subnutrido ou pouco remunerado, e nenhum deles demonstrara um lampejo de medo enquanto escoltavam Chaol e Nesryn do navio para o palácio. O atual khagan, ao que parecia, tratava seus criados bem. Esperançosamente, seu herdeiro não escolhido faria o mesmo.
Ao contrário de Adarlan ou Terrasen, o herdeiro do império era decidido pelo khagan – não por ordem de nascimento ou gênero. Ter tantas crianças quanto possível para oferecer uma ampla gama de escolha era um tanto pretensioso. E a rivalidade entre os filhos da realeza... Era praticamente um esporte sangrento. Tudo destinado a provar aos pais que eram os mais fortes, os mais sábios, os mais adequados para governar.
O khagan era obrigado por lei a ter um documento selado junto a um tesouro escondido e não revelado. Tal documento nomeava o seu herdeiro, caso a morte alcançasse o governante antes que seu sucessor pudesse ser formalmente anunciado. Poderia ser alterado a qualquer momento, mas a lei fora projetada para evitar a única coisa que o khaganato temia desde que o primeiro khagan havia reparado os reinos e territórios deste continente: o colapso. Não por forças externas, mas por conflitos interiores.
O primeiro khagan de muito tempo atrás fora bastante sábio. Nenhuma vez, durante os trezentos anos do khaganato, ocorreu uma guerra civil.
E quando Nesryn o empurrou para além das mesuras graciosas dos criados e parou entre duas enormes colunas, a sala de trono se mostrando exuberante e ornamentada e se abrindo diante deles com suas dezenas de pessoas reunidas ao redor do estrado dourado reluzindo ao sol do meio-dia, Chaol perguntou-se qual das cinco figuras de pé diante do homem sentado no trono seria escolhida um dia para governar este império.
Os únicos sons vinham das roupas das quatro dezenas de pessoas – ele contou no decorrer de poucas piscadas casuais – reunidas ao longo de cada lado daquele estrado reluzente, formando uma parede de seda e carne e joias, uma verdadeira avenida através da qual Nesryn o levou.
Farfalhar de roupas – e o rangido das rodas. Ela as lubrificara esta manhã, mas semanas no mar tinham desgastado o metal. Cada giro e raspagem era como unhas arranhando pedra.
Mas ele manteve a cabeça erguida.
Nesryn parou a uma distância saudável do estrado – da parede de cinco filhos reais, todos em seu auge, homens e mulheres, parados entre eles e seu pai.
A defesa de seu imperador: o primeiro dever do príncipe ou da princesa. A maneira mais fácil de provar sua lealdade, para ser herdeiro. E os cinco diante deles...
Chaol manteve seu rosto neutro enquanto contava novamente. Apenas cinco. Não os seis que Nesryn havia descrito.
Mas ele não examinou o corredor para procurar o irmão real desaparecido enquanto se curvava na cintura. Ele praticara e praticara o movimento na última semana no mar, enquanto o clima ficava mais quente, o ar se tornando seco e abafado de sol. Fazer isso sentado na cadeira ainda parecia antinatural, mas Chaol inclinou-se para baixo – até que estivesse encarando suas pernas que não respondiam e suas botas marrons e os pés que ele não podia sentir, não podia mover.
Pelo farfalhar de roupas à sua esquerda, ele sabia que Nesryn viera ao seu lado e também curvava-se profundamente.
Eles se curvaram durante o tempo de três respirações que Nesryn afirmou serem necessárias.
Chaol usou essas três respirações para se tranquilizar, expulsar o peso do que estava sobre eles. Ele já fora habilidoso em manter uma compostura inabalável. Servira o pai de Dorian por anos, os homens seguiam suas ordens sem piscar. E antes disso, suportou seu próprio pai, cujas palavras tinham sido tão cortantes quanto seus punhos. O verdadeiro e atual Lorde de Anielle.
O Lorde agora antecedendo o nome de Chaol era uma zombaria. Uma zombaria e uma mentira que Dorian se recusara a abandonar apesar dos protestos de Chaol.
Lorde Chaol Westfall, Mão do Rei.
Ele odiava isso. Mais do que o som das rodas. Mais do que o corpo que ele agora não conseguia sentir abaixo dos seus quadris, o corpo cujo silêncio ainda o surpreendia, mesmo após todas essas semanas.
Ele não era senhor de nada. Senhor dos quebradores de juramento. Senhor das mentiras.
E quando Chaol ergueu o tronco e encontrou os olhos curvados para cima do homem de cabelos brancos naquele trono, a pele morena do khagan enrugou em um pequeno sorriso astuto. Chaol se perguntou se o khagan sabia disso também.

12 comentários:

  1. Ahhhhhhhh
    Louca pra lê

    ResponderExcluir
  2. Já me apaixonei por esse continente.
    Torcendo para que a curandeira lá do livro extra apareça

    ResponderExcluir
  3. Eu só queria noticias da Aelin, mas eles estão tão longes. Espero que aquela curandeira que a Celaena ajudou quando estava indo encontrar os assassinos silenciosos apareça 💚💚💚

    ResponderExcluir
  4. Gente, esse livro promete, e eu vou chorar muito com o Chaol.. </3

    ResponderExcluir
  5. E assim eu acabo lendo o livro duas vezes agora e quando lançar, mas o legal de ler aqui no blog é que podemos interagir. Pena que os comentários não aparecem na hora pra gente ir lendo e comentando. Eu já sinto que vou arrumar mais crushes literários por aqui aí, aí... Esse sistema de escolha de herdeiro me lembrou a Rebelde do Deserto embora lá a escolha não seja assim também não é no estilo padrão onde o primogênito do rei herda o trono
    Karina você e sua turma são demais.

    ResponderExcluir
  6. Chaol foi para mim, durante o 1° livro, uma das minhas personagens favoritas. Depois começou a ser um bastante chato com o termino do seu relacionamento com Celaena. Agora, um livro inteirinho com a sua jornada em Antica, vamos lá ver se me volto a apaixonar por ele!!!
    Anna!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Faço de suas palavras as minhas, acabaram com esse personagem desde o término dele com Celaena. 🤷🏻‍♀️ Em pensar que ele foi meu favorito no começo. :/
      Eu tô lendo esse livro mesmo mais por causa do último livro de Trono de Vidro que terá alguma ligação com esse, igual foi a Lâmina da Assassina. Mas pelo Chaol mesmo que não é, pq ele me decepcionou muito. Só espero também que nesse ele esteja melhorzinho.

      Excluir
  7. Esse livro vai acabar com o meu emocional

    ResponderExcluir
  8. Lendo e já amando!!!!
    Obrigada Karina

    ResponderExcluir
  9. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa socorro, só li o primeiro capítulo e já quero desistir 😂💔 sério mano, socorro. Senhor daí-me paciência pra ler esse livro, ele é extremamente necessário para mim poder ler o último. Amém.

    Apesar de odiar o Chaol, eu espero realmente que ele consiga cumprir essas duas tarefas

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!