25 de janeiro de 2018

Capítulo 1. Um grito de pavor

— K! Inismenterdinisaistaismentertenter!Nomber enterscomberndenterrinis jomber sentercrentertomber. Aisvinissenter Craisninisomber enter Chuftermbinisnhomber...
Miguel ouviu o clique do telefone que estava sendo desligado do outro lado. Esfregou os olhos para afastar o sono.
Era a voz de Magrí. De sua querida Magrí. Falando em código. No Código Vermelho dos Karas.
O garoto olhou para o relógio. O telefonema o acordara meia hora antes de o despertador tocar. Agora, ele teria de chegar ao Colégio Elite bem antes do início da primeira aula.
Uma sensação de mal-estar tomou conta do líder dos Karas. Na noite anterior, Magrí tinha ido com Calú à estreia de uma peça. Algo de muito grave deveria ter acontecido no teatro...

* * *

A plateia estava lotada.
Sussurros ansiosos denunciavam a expectativa do momento mágico em que os refletores seriam acesos e as pesadas cortinas de veludo vermelho-escuro seriam abertas, revelando o cenário para dar início ao primeiro ato do Rei Lear, de William Shakespeare.
Uma campainha estridente ecoou por todo o teatro.
Era o primeiro sinal, que anunciava os últimos cinco minutos antes do início da peça.
Durante toda a semana, a imprensa comentara entusiasmada: aquela seria uma encenação muito especial da famosa tragédia, e a presença do grande ator Solomon Friedman no papel-título era mais uma garantia de um espetáculo inesquecível. Por isso tantos haviam pago tão caro pelo direito de estar ali, na mágica noite de estreia, para sofrer e refletir sobre o drama imortal do velho rei enlouquecido e solitário.
Ao lado do palco, uma porta levava aos camarins.
Discretamente, a porta abriu-se para dar passagem a um jovem que voltava para a plateia. Pouco mais que um menino, mas tão alto quanto um adulto.
O rapaz afastou-se para o lado, evitando esbarrar em um homem que vinha entrando em direção aos camarins enquanto ele saía.
De cabeça baixa, o homem desapareceu porta adentro.
O jovem dirigiu-se ao seu lugar, na primeira fileira, bem no centro, ao lado de uma garota que brilhava como uma jovem estrela de cinema. Formavam um lindo casal, mais na idade de espetáculos de música popular do que de estreias de Shakespeare.
— Que rapaz lindo! — comentou baixinho uma senhora para o marido.
— Que gato! — extasiou-se um sussurro feminino, bem mais jovem.
Mesmo sob as luzes mornas da penumbra em que estava a plateia, o rapaz se destacava. Era um daqueles jovens que todas as garotas gostariam de ter como namorado e que todas as mães gostariam de ter como filho.
— Você voltou rápido, Calú — disse a garota, com um sorriso de iluminar a meia-noite. — Como está o velho Sol?
— Está ótimo, Magrí.
Uma ou duas fileiras atrás, um suspiro fez-se ouvir.
Calú sentou-se ao lado da menina que sorria, acostumada a ouvir suspiros e comentários apaixonados sobre a beleza do amigo. Calú era, sem dúvida, o garoto mais bonito do Colégio Elite, onde os dois estudavam.
— O velho está feliz, Magrí. Absolutamente preparado. Vai estrear como se nada de excepcional estivesse por acontecer. Como se encarnar um dos mais difíceis papéis do teatro universal fosse a tarefa mais natural do mundo...
A campainha estridente tocou duas vezes. Era o segundo sinal. O espetáculo começaria dentro de três minutos, no máximo.
Magrí enlaçou o braço do amigo. As luzes da plateia diminuíram um pouco, quase imperceptivelmente. O rapaz sentiu um perfume suave, delicado, e voltou-se para a menina como se pela primeira vez tivesse percebido quanto ela era linda. Magrí encostou o rosto no ombro de Calú, quase que só para fazer inveja à desconhecida que suspirara há pouco. Como o roçar de uma pétala, a leve maquiagem soltou seu pólen perfumado e manchou um pouquinho o ombro do blusão do rapaz.
Calú cerrou os olhos e apoiou a cabeça no encosto da poltrona, deixando-se levar pelo prazer daquele momento. Da proximidade quente da amiga, seu pensamento divagou, até voltar a Solomon Friedman. Dentro da memória, reavaliou a figura querida do seu velho professor de teatro, todo maquiado, com uma longa barba, fina e grisalha, que o fazia parecer mais velho ainda.
Solomon Friedman! Se em um templo o sacerdote transmite a palavra de Deus, no teatro o ator transmite a palavra do Homem. Para Calú, o teatro era religião e o velho Sol seu sumo sacerdote.
Solomon Friedman: o ator húngaro que escolhera o Brasil como nova pátria desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O professor de duas gerações de atores brasileiros. O professor de interpretação que ensinava a Calú os segredos do método de Stanislávski. O método complexo de interpretação em que o ator tem de “viver” o personagem, encarná-lo e sofrer com ele, como se fosse o próprio personagem.
Calú fora cumprimentá-lo nos bastidores. O velho ator estava lendo algo em uma folha de papel amarelo e guardou-a sob alguns livros quando o rapaz entrou no camarim.
O discípulo abraçou o mestre e desejou-lhe sorte daquele modo original com que os atores incentivam os colegas antes de uma estreia:
— Merda pra você!
— Obrigado, Calú...
Voltara logo ao seu lugar, pois sabia que não deveria interromper a preparação do querido Sol. Naquele momento, o velho ator já vivia o Rei Lear. Já era o Rei Lear, um personagem criado há quatrocentos anos, que, de tempos em tempos, voltava à vida
Através da voz e do talento de poucos grandes atores capazes de enfrentar um desafio como aquele. Atores como o velho Sol.
Calú já assistira a vários ensaios e sabia que aquela seria uma noite de arrepiar. Ao lado de Magrí, aguardava o acender dos refletores como se ele mesmo estivesse para entrar ali, no espaço religioso do palco.
O aluno adorava o professor e o professor adorava o aluno. O velho Solomon Friedman tinha planos para Calú.
Planejava encenar, no ano seguinte, Romeu e Julieta, a tragédia clássica do amor impossível. E já escolhera o jovem ator que faria o papel de Romeu. Seria a estreia de Calú no teatro profissional.
“Ano que vem... a minha estreia!”, pensou Calú, extasiado com a oportunidade de encarnar um dos maiores papéis do teatro universal, numa idade em que ainda se precisa de autorização escrita dos pais para se dar qualquer passo sozinho.
A campainha soou três vezes, despertando a plateia da realidade para mergulhá-la num mundo de sonho. Do sonho maravilhoso do teatro.
O murmúrio dos espectadores cessou por completo e as luzes da plateia diminuíram suavemente.
Escuridão completa. Som de enormes tambores.
Com batidas ritmadas, graves, surdas, numa cadência aterradora, o som foi crescendo. Já reboava por todo o teatro.
As cortinas abriram-se pesadamente.
Os refletores acenderam-se lentos, dirigindo as atenções para o centro do palco.
Como a marcar a pulsação de todos os corações, os tambores continuaram, dando tempo para os espectadores acostumarem-se ao cenário e ao clima solene da tragédia inglesa.
Pararam subitamente.
No silêncio que se seguiu, cada espectador pensou estar ouvindo as batidas do próprio coração.
Dos bastidores, correspondendo ao envolvimento arrepiante que já tomava conta da plateia, um grito de pavor sobrepôs-se a tudo.
— Ahhhhhh...
Foi como se todos os corações parassem de pulsar por um segundo, à espera do que viria a seguir.
Um crítico especializado ajeitou-se na poltrona. Rei Lear era uma peça que começava de modo leve, quase alegre, para, aos poucos, desenvolver sua trama de tragédia e morte. Por isso, o crítico julgou genial aquela inovação criada pelo diretor da peça.
Por mais pavoroso que seja, um grito em uma peça de teatro não deve surpreender ninguém, já que o palco é o lugar certo para gritos, gargalhadas, alucinações e desesperos. Mas, na plateia, o grito pegou Calú de surpresa.
— Ei! Senta aí! — protestou uma voz na segunda fileira.
Calú estava de pé. Pelo que assistira nos ensaios, ele sabia que aquele grito não fazia parte do espetáculo.
Dos bastidores, uma voz de mulher foi claramente ouvida:
— Meu Deus! Ele está morto!
Ninguém entendeu quando, como um gato, o belo jovem da primeira fileira pulou para o palco e correu em direção aos bastidores.

* * *

Era fácil traduzir o Código Vermelho. Mentalmente, Miguel repassou a mensagem telefônica de Magrí: era só trocar “ais” por “a”, “enter” por “e”, “inis” por “i”, “omber” por “o” e “ufter” por “u”:
“K! Imediatamente! No esconderijo secreto. Avise Crânio e Chumbinho... “
Magrí tinha dito K! O sinal de emergência máxima dos Karas!
Miguel sairia de casa meia hora antes do habitual.
Seus pais ainda estariam dormindo. Algo de muito grave deveria ter acontecido para que Magrí convocasse uma reunião de emergência máxima dos Karas àquela hora.
Porque os Karas...
Os Karas! Aquele pequeno grupo de alunos do Colégio Elite! Tinha sido o espírito de aventura que fizera Miguel criar o grupo secreto dos Karas. A ideia começara quase como uma brincadeira inocente, mas a realidade tinha feito com que os cinco amigos acabassem enfrentando perigos tremendos. Perigos que os Karas jamais procuravam, mas que pareciam atrair.
Sim, Miguel sabia onde Magrí queria a reunião. O esconderijo secreto: o forro do enorme vestiário do Colégio Elite.
O que teria acontecido no teatro? Miguel não pudera ir à estreia do Rei Lear, mas Calú não perderia aquele espetáculo por nada deste mundo. Magrí tinha ido ao teatro com ele.
Miguel apertou o gancho do telefone, aguardou o sinal de linha livre e discou para Crânio. Em seguida, ligou para Chumbinho. Os cinco Karas deveriam se reunir. Mais uma vez.

5 comentários:

  1. Incrível como um hino de livro desses não tem comentários. Os Karas é a melhor saga brasileira que já li. Relendo O anjo da morte pela quarta vez ❤

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    1. tbm não entendo o pq de poucos leitores

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    2. É uma saga tão boa

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  2. Após 10 de ler todos os livros, lendo novamente com todo prazer

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  3. Sem dúvidas e uma das melhores sagas que eu já li! Amo, amo, amo ♡

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Boa leitura, E SEM SPOILER!