20 de janeiro de 2018

Capítulo 1. Um crime brutal

Tinha sido um professor. Um ser humano. Dos melhores. Agora nem parecia um homem. Era apenas um cadáver brutalmente massacrado. Uma massa de sangue, retorcida e pisoteada, jogada na calçada como um fardo de roupa suja.
Naquela manhã de junho, as aulas no Colégio Elite começavam de modo trágico demais. Alguém lembrou-se de cobrir o corpo com jornais. As manchetes falavam da violência urbana. Amparada por um colega, uma estudante vomitou.
Do grupo de curiosos, um rapazinho afastou-se. Pouco depois, de dentro do colégio, ouviu-se o som triste de uma gaita.

* * *

A bordo do Boeing que cortava o ar em direção ao misterioso Pantanal Matogrossense, Miguel tirou do bolso a pequena gaita prateada. A gaitinha. A marca registrada de Crânio, o companheiro desaparecido. A gaitinha, agora completamente muda, longe do sopro do amigo. Longe de Crânio, o gênio dos Karas.
Os Karas! O avesso dos coroas, o contrário dos caretas! Aquele grupo secreto de alunos do Colégio Elite reunido por Miguel só pela farra, pela aventura, mas que logo acabaria se envolvendo em perigos reais. Perigos que nem mesmo ele, Miguel, o líder dos Karas, poderia ter imaginado. Como aquele que os cinco adolescentes haviam enfrentado na luta contra o sinistro Doutor Q.I. e sua Droga da Obediência. Os cinco Karas: Miguel, Calu, Chumbinho, Magri e... e Crânio!
Miguel falou baixinho, como um desabafo, para Magri, sentada na poltrona a seu lado:
— Ele pode estar morto. A esta hora, Crânio pode estar morto...
A garota apertou a mão do amigo.
— Ele está vivo, Miguel. Tenho certeza.
O calor da menina trouxe uma sensação gostosa que percorreu todo o corpo do rapazinho. Um conforto especial de que ele precisava. Um conforto que só poderia ser oferecido por Magri, a única garota do grupo dos Karas.
— A culpa é toda minha, Magri. Eu estava errado. Não quis acreditar no que Crânio dizia. Ele ficou sozinho. Eu o abandonei...
— Não se culpe, Miguel. As ideias de Crânio pareciam malucas mesmo. Eu também não acreditei nas teorias dele sobre o assassinato do professor Elias. Chega de fossa. Tenha confiança. Nós vamos encontrá-lo!
Miguel cerrou os dentes, tentando disfarçar o pessimismo. Ele não se perdoaria se os outros percebessem seu momento de fraqueza.
Os “outros” eram Calu e Chumbinho, e ocupavam as duas poltronas atrás de Miguel e Magri. Examinavam um mapa do Mato Grosso do Sul, e Chumbinho apontava para fora, tentando localizar pequenas vilas em meio ao cerrado.
— Sabe, Calu, meu pai importou um novo simulador de voo para o meu computador. É um programa de treinamento para os pilotos da NASA. Já estou dominando perfeitamente. Passar por cima de uma serrinha como esta, por exemplo, seria uma moleza. Um cálculo fácil. Era só subir os flaps suavemente, sem que...
— Ora, Chumbinho, você só pensa em computador e vídeo game!
Na poltrona à frente de Miguel havia mais um “outro”, do qual só se podia ver a careca e ouvir o ronco de seu sono agitado. O detetive Andrade, aquele amigo dedicado, persistente, sempre suando quando tinha sobre os ombros algum problema dos grandes. Um problema como aquele. Por isso o detetive estava suando, mesmo durante o sono.
Miguel apertou a gaitinha prateada entre as mãos, como se assim pudesse abraçar o dono dela. E lembrou-se da última vez que ouvira o som da gaitinha, no forro do imenso vestiário do Colégio Elite, o esconderijo secreto dos Karas.

* * *

Tirando uma melodia preguiçosa da gaita, meio na sombra, meio iluminado pela luz do entardecer que entrava pelas poucas telhas de vidro do forro do vestiário, Crânio confundia-se com a sombra de Calu, o colega e ator inigualável, e com a elegância de Magri. Ao lado da garota, Miguel sentia-se envolvido por aquele perfume que sempre o fazia sonhar. Entrando pelo alçapão, a figura menor de Chumbinho, o último dos Karas, veio juntar-se ao grupo, com aquele sorriso maroto.
— Emergência máxima, Karas? O que houve? O Doutor Q.I. fugiu da cadeia?
— Espero que não, Chumbinho — respondeu Calu, demonstrando que uma emergência máxima dos Karas não era ocasião para piadas. — Vamos ouvir por que Crânio nos convocou.
À frente do gênio dos Karas havia uma misteriosa caixa de metal.
Crânio parou de soprar a gaitinha quando percebeu que toda a atenção estava concentrada nele e no que ele tinha a dizer. Bateu a gaitinha na coxa para enxugá-la e falou, sem olhar diretamente para ninguém:
— A polícia está errada. Andrade está errado. O assassinato do professor Elias é um trabalho para os Karas.
Num relance, todas as tensões da luta contra a Droga da Obediência voltaram à memória de Miguel. Todas as tensões vividas pelos cinco Karas ao lado do detetive Andrade. Todos os sustos. Todos os riscos. Agora, depois de tanta dedicação, depois de tanta eficiência provada pelo gordo detetive, ele e toda a polícia estariam errados a respeito do assassinato do professor Elias!
— Todo mundo está errado, não é, Crânio? E o que você sabe que a polícia não descobriu?
— Por enquanto não sei de nada, Miguel. Mas tenho certeza que não encontraremos pistas aqui em São Paulo. A resposta está em Mato Grosso do Sul. Está no Pantanal.
— Onde?! — riu Chumbinho. — Crânio, você ficou maluco?

* * *

Miguel voltou a cabeça para olhar pela vigia do Boeing e, nesse movimento, seu rosto encontrou os cabelos de Magri, que descansava a cabeça em seu ombro. Miguel desejou que ela estivesse dormindo, para não sair daquela posição.

* * *

— Ora, Crânio — reclamou Calu, do meio das sombras do forro do vestiário — você convocou uma emergência máxima dos Karas para vir com essa história? Pode explicar o que tem a ver o Pantanal de Mato Grosso com um professor de matemática? O que tem a ver um professor de São Paulo com os jacarés e as piranhas do Pantanal? O que tem a ver um assassinato em pleno asfalto paulista com aquela natureza fantástica? Pode explicar?
Crânio não respondeu, esperando que a avalanche de objeções terminasse. Mas, por dentro, sorriu, seguro de sua inteligência. Como sempre.
— Você era o aluno predileto do professor Elias — argumentou Miguel — mas isso não o obriga a ser o detetive que vai solucionar esse bárbaro assassinato. Nós estamos chocados, mas a verdade é uma só: nosso professor é mais uma vítima dessa brutalidade toda. Foi mais um latrocínio nojento, sem razão, sem explicação...
— Ele foi assassinado por causa de alguns trocados que trazia no bolso —
acrescentou Magri. — Nem era dia de pagamento. Isso é São Paulo...
Crânio lembrava-se da genialidade do professor Elias, aquele homem magro, mal vestido, sempre de sandálias, que vivia a contar tostões em troca de educar os jovens das famílias mais ricas da cidade. Lembrava-se da originalidade do professor e de sua estranha teoria: para o professor Elias, a matemática era a única ciência verdadeiramente humana. Como? Para ele, isso era claro: a natureza cria seus fenômenos físicos, químicos, biológicos e geográficos independentemente da ação do homem, mas a natureza não cria teoremas, equações, nem logaritmos. Isso são criações humanas. A natureza produz laranjas, por exemplo, mas não soma ou subtrai laranjas.
Isso é uma abstração da inteligência humana. Portanto, a matemática é a única ciência inventada pelo homem. Então por que a maioria dos estudantes tem problemas com a matemática? Bem, talvez isso ocorra com a maioria, mas nunca com os alunos do professor Elias. Para eles, a matemática era uma ciência fascinante e o professor Elias um verdadeiro ídolo.
— Eu me sinto na obrigação de descobrir o assassino do professor Elias,  recomeçou Crânio. — Foi como se tivessem trucidado alguém da minha família.
— Mas o que o Pantanal tem a...
— Em primeiro lugar, Chumbinho, por que tanta brutalidade no assassinato do professor? Por que surrá-lo daquela maneira para roubar alguns trocados? Ele não teria reagido. Não era um homem de briga. Por isso eu acho que ele não foi morto perto do colégio, onde o corpo foi encontrado. Ele foi levado para algum lugar distante e torturado.
— Torturado? Mas que bobagem! Por que alguém torturaria um professor de matemática? Para descobrir o quê? As respostas da próxima prova?
— É o que precisamos descobrir, Calu. O professor Elias devia saber alguma  coisa, alguma coisa muito importante. Por isso foi torturado e morto. Depois abandonaram seu corpo na calçada do Colégio Elite, para dar a impressão de um crime comum, cometido por um assaltante qualquer.
— Um assalto comum, seguido de morte. Essa foi a conclusão da polícia, Crânio. Foi o que nos disse o Andrade. Não há outra explicação.
— Há mais uma coisa, Miguel: a malinha do professor estava abandonada ao lado do corpo. Fui visitar a viúva dele, ontem à tarde. Ela me recebeu muito bem, procurando parecer conformada, mas...
Crânio pegou a caixa de metal, procurando concentrar-se na questão principal.
— Vocês sabem que o Elias trabalhava de vez em quando como fotógrafo para ganhar algum dinheiro extra, não sabem? A viúva me deixou examinar a malinha dele. Tudo parecia em ordem, como verificou a polícia. Junto com outras coisas havia esta caixa de slides. São fotos do Pantanal feitas pelo professor durante os feriados da semana santa. Ele estava tentando vendê-las para alguma revista.
O rapazinho levantou a tampa da caixa. Era um classificador especial para slides, onde eles ficavam em ordem, com uma fenda para cada um.
— O professor Elias era muito organizado. A ordem era para ele uma verdadeira mania. Examinei cuidadosamente todos os slides. Eles estão arquivados na sequência em que foram fotografados, seguindo um roteiro de viagem. Há somente uma exceção: estes três slides que mostram passageiros descendo a escada de desembarque de um avião, no aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Pela lógica deveriam estar no fim, mas estão bem no meio da série.
— Estamos vendo. E daí?
— Eu só posso chegar a uma conclusão, Miguel. Aqui havia três fotos que comprometiam alguém. As fotos foram retiradas apressadamente e, em seu lugar, foram colocadas as três últimas. Alguém matou Elias para roubar as fotos, depois de torturá-lo para descobrir se ele sabia mais alguma coisa. Só que esse alguém não queria que a polícia descobrisse qualquer ligação entre os slides e o crime. Por isso o criminoso substituiu os slides. Pode haver outra explicação?
— Pode haver dezenas delas, Crânio. E a sua me parece a mais forçada.
— É apenas a mais lógica, Magri. O professor Elias fotografou alguma coisa suspeita. Algo tão grave que ele não poderia continuar vivo...
— Está bem, Crânio! — concordou Miguel. — Vamos supor que você tenha razão. Mas, se os slides roubados são a única pista, como vamos segui-la? Como vamos descobrir o que o professor Elias fotografou?
— Seguindo a mania de ordem dele. Se os slides estão em sequência, não será difícil ver o que o professor fotografou.
— Ver?! Como?
— Se as fotos estão classificadas pela ordem em que foram tiradas; é só percorrer o mesmo roteiro que o professor fez. É só ir visitando os mesmos lugares que ele visitou e localizar aqueles que fotografou antes e depois das três que foram roubadas. Desse modo, talvez dê para descobrir pelo menos onde teriam sido fotografados os três slides que faltam!
Miguel sorriu, divertido, como se estivesse falando com uma criança, e não com o mais brilhante dos alunos do Colégio Elite.
— Parece lógico, Crânio. Mas de uma lógica totalmente maluca. Vamos supor que as três fotos sejam de um barco, no meio de um rio. Mesmo que você descubra o tal rio, como vai ficar sabendo que havia um barco passando por ali naquele momento? E, depois, como vai descobrir o que estava acontecendo naquele barco? E se as fotos forem da cara de alguém? Você até poderia descobrir o cenário, mas nunca quem foi fotografado à frente dele.
— Pode ser, Miguel. Mas os slides são nossa única pista. Foram feitos no Pantanal e é lá que temos de conseguir a resposta. Tenho uma tia que é fazendeira no Mato Grosso do Sul, mais ou menos na mesma região que o professor visitou, às margens da rodovia Transpantaneira. É a tia Matilde, uma parente distante que eu nunca conheci. Ela viveu muito tempo nos Estados Unidos e casou-se por lá. Depois que o marido morreu, voltou para o Brasil e instalou-se na região do Pantanal. Já telegrafei pra ela dizendo que nós...
— Um momento, Crânio — interrompeu Miguel. — Nós não vamos para o Pantanal seguir uma pista sem pé nem cabeça. Deixe que a polícia...
— A polícia está atrás de algum assaltante desconhecido. Nunca vai chegar a conclusão nenhuma!
— Também estou arrasado com o assassinato do professor Elias, Crânio. Mas esse não é um trabalho para os Karas, é um trabalho para a polícia.
Crânio olhou um a um os quatro companheiros durante o silêncio que se seguiu à decisão de Miguel. Os olhares que recebeu de volta aconselhavam a desistir.
Levantou-se e encolheu os ombros, reconhecendo a derrota.
— Então tenho de ir sozinho. É só conseguir uma autorização do meu pai para viajar, e acho que dá para embarcar logo.
— Mas as férias ainda não começaram. Você vai perder os exames finais do  primeiro semestre!
— Já fechei todas as médias, Chumbinho.
— Só que ganhará um zero em cada prova, não é? E, pela primeira vez, você vai perder o primeiro lugar no Colégio Elite.
— Valerá a pena se eu descobrir o assassino do Elias!
— Então, boa viagem, Crânio — encerrou Miguel, sorrindo. — Deixe o número da caixa postal de sua tia. Telegrafaremos quando a polícia solucionar o crime. Boas férias. Dizem que o Pantanal é lindo, ainda mais agora, no meio do ano…

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Mas o crânio estava insistindo em pistas q pareciam nada.....

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    2. Eu entendo o ponto de vista do Miguel, mas acho q ele foi duro demais

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  2. Miguel foi meio duro...

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  3. Miguel foi corretíssimo. Usando as pistas que lhe pareceu mais lógicas.

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  4. Miguel foi corretíssimo. Usando as pistas que lhe pareceu mais lógicas.

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