15 de janeiro de 2018

Capítulo 1. Os Karas

A campainha do Colégio Elite não soou dando o sinal para o recreio porque o Colégio Elite não tinha campainha. Um colégio especial como aquele, para estudantes muito especiais, não precisava de sinal. Todas as decisões no Elite contavam com a participação direta dos alunos, que, por isso, cumpriam as regras sem precisar de qualquer comando. As regras eram deles.
Naquele momento, porém, Miguel não estava pensando nas regras democráticas do colégio, embora fosse um dos mais entusiasmados oradores das assembleias semanais. Não estava também ligado nas suas responsabilidades como presidente do Grêmio do Colégio Elite.
Enquanto andava apressado, depois de passar pela sala do diretor, a preocupação de Miguel era bem outra. Na biblioteca, examinou a coleção de jornais dos últimos meses e separou algumas matérias. A copiadora rapidamente lhe forneceu duplicatas dos trechos escolhidos.
Com a pasta de cópias debaixo do braço direito, Miguel entrou silenciosamente no anfiteatro do Elite. De frente para o palco, onde ensaiava o elenco de teatro do colégio, ele mostrou rapidamente a palma da mão esquerda. Nela, alguém viu um K desenhado a tinta.

* * *

A professora de arte ficou chateada quando o ator principal da peça pediu para deixar o ensaio, pois não aguentava mais de dor de cabeça.
— Está bem, Calú*. Vá tomar um comprimido.


* Chamamos a atenção para a grafia dos nomes Magrí e Calú. Embora gramaticalmente incorreta, a acentuação desses nomes visa evitar pronúncia diferente daquela pretendida pelo autor.

* * *

Ninguém entendeu quando Crânio abandonou aquela partida de xadrez, reconhecendo uma derrota que não existia, já que seu adversário estava irremediavelmente perdido, com um bispo a menos e o rei encurralado, em posição de levar xeque-mate em poucos lances. Mas o xadrez tinha de esperar, porque o jovem gênio do Colégio Elite tinha visto um K desenhado na palma da mão que se abrira na entrada da sala de jogos.
Quando Magrí viu aquele K, estava no meio de uma cortada fulminante que não pôde ser aparada pelas jogadoras do outro time. E o professor de Educação Física teve de lamentar a saída da melhor jogadora de vôlei do Colégio Elite. Afinal, a garota tinha se queixado de uma torção no tornozelo. Era melhor não forçar, pois o campeonato intercolegial começaria no próximo mês, e o time não era nada sem a Magrí. A garota saiu mancando da quadra até se ver fora das vistas do professor. Aí, não precisando mais fingir, correu para o esconderijo secreto dos Karas.

* * *

Na entrada dos vestiários do Colégio Elite, havia um quartinho onde eram guardadas as vassouras e outros materiais de limpeza. Um cantinho sem lâmpada, escuro mesmo de dia. Por isso ninguém podia ver o pequeno alçapão que havia no forro.
Com a agilidade de um gato, Magrí saltou, agarrando a beirada do alçapão. Afastou a tampa e jogou o corpo para cima como um trapezista.
Estava no esconderijo secreto dos Karas: todo o vasto forro do imenso vestiário do Colégio Elite, iluminado no centro por algumas telhas de vidro por onde passava a luz do dia, deixando todo o resto mergulhado na escuridão.
Bem no centro da pequena área iluminada, estava Miguel, sentado sobre os calcanhares. A sua frente, espalhadas pelo chão, havia várias cópias de matérias de jornal. Ao seu lado, Crânio e Calú esperavam em silêncio. Magrí fechou o alçapão e agachou-se junto aos amigos, sem uma palavra.
O grupo dos Karas estava completo. Haviam sido convocados pelo K desenhado na mão esquerda de Miguel, o sinal de emergência máxima. Crânio tirou sua famosa gaitinha do bolso e ficou passando-a pelos lábios, sem soprar, lentamente. Calú quebrou o silêncio, sem se preocupar com o tom de voz, pois o forro do vestiário era bem espesso e não deixava vazar nenhum som:
— O que houve, Miguel?
Com os olhos nas cópias de jornal, ainda sentado como um sacerdote budista, Miguel falou pausadamente:
— É uma emergência máxima. Está na hora de os Karas... Um ruído veio do alçapão. Por um décimo de segundo, os Karas se entreolharam. O grupo estava completo. Quem estaria invadindo o esconderijo?
Obedecendo a um sinal de cabeça do líder, Crânio, Magrí e Calú saltaram para longe da luz, escondendo-se silenciosamente na escuridão. Estariam descobertos? Ou seria algum servente do colégio que resolvera subir no forro do vestiário por alguma razão inocente?
A tampa do alçapão foi afastada. Os Karas puderam perceber que havia alguém pendurado na beirada, esforçando-se para subir. Parecia ser um corpo bem mais leve do que o de qualquer um dos serventes.
Magrí estendeu o braço e apertou a mão protetora de Miguel. Uma cabecinha apareceu na abertura do alçapão e uma vozinha brincalhona invadiu o forro:
— Vamos, Karas, apareçam! Eu sei que vocês estão aí!
O dono da vozinha e da cabeça pulou para dentro do esconderijo, fechou o alçapão e avançou até a área iluminada.
Os Karas puderam ver a carinha sorridente do Chumbinho.

* * *

— Como é, Karas? Eu sei quem vocês são, o que vocês são e sei que esta deve ser uma reunião importante.
Dos cantos escuros não veio nenhuma resposta. O pequeno intruso continuou:
— Que surpresa, hein? Eu sei tudo sobre vocês. Há muito tempo eu estou de olho em todos os seus movimentos. Mas não precisam esquentar a cabeça: só eu sei de vocês, não contei nada a ninguém!
O silêncio novamente respondeu ao menino.
— E então? Querem brincar de esconde-esconde? Ah, ah, ah! Eu pensava que os Karas se reuniam para coisas mais importantes!
Calú mordeu o lábio e Magrí apertou um pouco mais a mão de Miguel, enquanto Chumbinho continuava com a brincadeira, saboreando o seu triunfo:
— Querem que eu encontre vocês? Quem vai ser o primeiro? A Magrí-magricela? O Crânio? O Calú? Ou vamos começar pelo chefão? Hein, Miguel? O que você me diz? Eu sei ou não sei quem são vocês?
Lentamente, cada um dos Karas saiu da escuridão. Chumbinho logo estava cercado pelos quatro, bem debaixo da luz que se escoava pelas telhas de vidro. O menino era um palmo mais baixo que o menor dos Karas, mas seu sorriso era o de um gigante:
— Olá, pessoal! Por essa vocês não esperavam, hein?
Magrí agarrou o garoto pela gola do uniforme:
— Seu pirralho! Eu devia...
— Ei, calminha, campeã! É assim que vocês recebem as visitas?
— Largue o menino, Magrí.
Era a voz de Miguel. Baixa, seca, como deve ser a voz de um comandante. Magrí soltou Chumbinho, e Miguel pôs a mão no ombro do invasor:
— O que você quer aqui?
— Ora, Miguel, ainda pergunta? Eu quero ser um dos Karas, é lógico!

Um comentário:

  1. Eu tbm quero ser um dos Karas! Estou adorando!

    Flavia

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!