14 de dezembro de 2017

Epílogo

A Vida, o Universo e Tudo Mais

E, no final, mais uma vez eles viajaram.
Houve um tempo em que Arthur Dent não teria ido. Ele disse que o Propulsor Bistromático lhe revelara que tempo e distância eram um, que mente e Universo eram um, que percepção e realidade eram um e que, quanto mais se viaja, mais se permanece no mesmo lugar, e, sendo assim, dado isso e aquilo outro ele preferia ficar quieto durante algum tempo e resolver tudo isso em sua mente, que agora era um com o Universo, então não iria levar muito tempo e ele poderia descansar bastante depois, aperfeiçoar suas técnicas de voo e aprender a cozinhar, algo que ele sempre quis. A lata de azeite grego era agora seu objeto mais querido, e ele disse que a forma como ela havia inesperadamente surgido em sua vida havia mais uma vez dado um certo sentido de unidade às coisas, o que fazia com que ele achasse que...
Bocejou e caiu no sono.
Pela manhã, enquanto os outros se preparavam para levá-lo a algum planeta calmo e idílico onde as pessoas não se importassem muito com as coisas que ele falava, subitamente captaram uma chamada de socorro gerada por computador e alteraram a rota para investigar.
Uma nave pequena, mas aparentemente em perfeito estado, da classe Mérida, parece estar dançando alguns passos exóticos em meio ao espaço. Uma rápida varredura do computador revelou que a nave estava perfeita, que seu computador estava perfeito, mas que o piloto estava louco.
— Meio louco, meio louco — insistia o homem, enquanto o transportavam, siderado, a bordo da nave.
Ele era um jornalista do Siderial Daily Mentíoner’s. Deram-lhe sedativos e deixaram Marvin cuidando dele até que ele prometesse se comportar e falar algo sensato.
— Eu estava fazendo a cobertura de um julgamento — disse, finalmente — em Argabuthon.
Levantou-se, apoiando-se em seus ombros magros e enfraquecidos, com um olhar selvagem. Seus cabelos brancos pareciam estar acenando para um conhecido deles na outra sala.
— Calma, calma — disse Ford. Trillian pousou uma mão tranquilizadora sobre seu ombro.
O homem afundou novamente na cama e olhou para o teto da enfermaria da nave.
— O caso — disse ele — é irrelevante agora, mas havia uma testemunha... um homem chamado... chamado Prak. Um homem estranho e difícil. Acabaram sendo forçados a administrar-lhe uma droga para fazer com que dissesse a verdade, um soro da verdade.
Seus olhos rolavam dentro das órbitas.
— Deram-lhe uma dose forte demais — disse, quase choramingando. — Foi forte demais, demais. — Começou a chorar. — Acho que os robôs devem ter esbarrado no braço do médico.
— Robôs? — perguntou Zaphod subitamente. — Que robôs?
— Uns robôs brancos — disse o homem em voz baixa e rouca — invadiram o tribunal e roubaram o cetro do juiz, o Cetro da Justiça de Argabuthon, um treco horrível feito de acrílico. Não tenho ideia do que queriam com aquilo. — Recomeçou a chorar. — E acho que esbarraram no braço do médico...
Balançou sua cabeça de um lado para o outro, desamparado, tristonho, olhos contorcidos pela dor.
— E quando o julgamento continuou — disse, em um sussurro quase choroso — perguntaram a Prak uma coisa terrível. Pediram a ele — parou e estremeceu — que contasse a Verdade, Toda a Verdade e Nada Mais que a Verdade. Só, entendem?
Subitamente apoiou-se novamente nos ombros e gritou para eles:
— Deram-lhe uma dose muito, muito forte daquela droga!
Caiu na cama de novo, resmungando baixinho:
— Muito forte, muito forte, muito forte, muito forte...
Em torno da cama, o grupo trocou olhares. Aquilo lhes dava arrepios.
— O que aconteceu? — disse Zaphod por fim.
— Bem, ele lhes contou tudo — disse o homem, selvagemente — e, até onde sei, continua contando coisas até agora. Coisas estranhas e terríveis... terríveis, terríveis! — gritou.
Tentaram acalmá-lo, mas ele fez força e se apoiou nos cotovelos novamente.
— Coisas terríveis, incompreensíveis — gritou —, coisas que deixariam qualquer homem louco!
Olhou para eles assustado.
— Ou, no meu caso — acrescentou —, meio louco. Sou um jornalista.
— Você quer dizer — perguntou Arthur, baixinho — que você está acostumado a se defrontar com a verdade?
— Não — respondeu o outro com o semblante franzido. — Quero dizer que inventei uma desculpa e saí mais cedo.
Depois disso ele entrou em coma, do qual saiu apenas uma vez, brevemente. Nessa ocasião descobriram o seguinte a partir do que ele contou:
Quando ficou claro que era impossível interromper Prak, que ali estava a verdade em sua forma final e absoluta, a corte foi evacuada.
Não apenas evacuada, ela foi selada com Prak lá dentro. Paredes de aço foram construídas ao redor dela e, apenas por garantia, colocaram também arame farpado, uma cerca elétrica, construíram um fosso com crocodilos e estacionaram três grandes exércitos, para garantir que ninguém jamais teria que ouvir Prak falar.
— É pena — disse Arthur. — Queria saber o que ele tinha a dizer. Supostamente deveria saber qual é a Pergunta Fundamental para a Resposta Final. Continuo chateado por nunca termos descoberto isso.
— Pense em um número — disse o computador. — Qualquer número.
Arthur disse ao computador o número de telefone do setor de informações da estação de trens de King’s Cross, acreditando que aquele número deveria ter alguma função e talvez fosse aquela.
O computador injetou o número no Gerador de Improbabilidade da nave, que havia sido reconstruído.
Na Relatividade, a Matéria diz ao Espaço como se curvar, e o Espaço diz à Matéria como se mover.
A Coração de Ouro disse ao espaço que desse um nó em si mesmo e estacionou de forma perfeita dentro do perímetro interno do muro de aço da Câmara de Justiça de Argabuthon.
O tribunal era um lugar austero, uma grande câmara sombria, claramente desenhada para servir à Justiça e não, por exemplo, ao Prazer. Você não conseguiria dar uma festa ali, pelo menos não uma festa animada. A decoração deixaria seus convidados deprimidos. O teto era alto, curvo e muito escuro. Sombras se escondiam lá com uma determinação sinistra. Os revestimentos das paredes, dos bancos e dos pilares maciços, todos haviam sido talhados usando as mais escuras e severas árvores da terrível Floresta de Arglebard. A imponente Tribuna da Justiça, que dominava o centro da câmara, era um monstro de gravidade. Se algum raio de sol já tivesse conseguido se esgueirar tão fundo no complexo de justiça de Argabuthon, ele teria feito meia-volta e se esgueirado para fora novamente.
Arthur e Trillian entraram primeiro, enquanto Ford e Zaphod guardavam heroicamente a retaguarda.
Primeiro parecia que tudo estava completamente escuro e deserto. Os passos ecoavam pela câmara deserta. Aquilo parecia estranho. Todas as defesas continuavam em posição e operando normalmente do lado de fora do prédio, coisa que as varreduras da nave confirmaram. Portanto, eles tinham presumido que Prak ainda estaria contando toda a verdade.
Mas não havia nada.
Então, conforme seus olhos se acostumaram com a escuridão, perceberam um leve brilho vermelho em um canto e, atrás dele, uma sombra. Apontaram uma lanterna naquela direção.
Prak estava largado em um banco, fumando um cigarro indolentemente.
— Oi — disse ele, com um curto aceno. Sua voz ecoou pela câmara. Era um cara pequeno, com cabelos desgrenhados. Estava sentado com os ombros curvados para a frente e sua cabeça e joelhos não paravam de se mover. Deu outro trago no cigarro.
Olharam para ele.
— O que está acontecendo? — perguntou Trillian.
— Nada — disse ele, sacudindo os ombros. Arthur apontou sua lanterna bem na cara de Prak.
— Pensávamos — disse ele — que você estivesse contando a Verdade, Toda a Verdade e Nada Mais que a Verdade.
— Ah, isso — disse Prak. — É. Eu estava. Já acabei. Não tem tanta coisa quanto as pessoas imaginam. Mas algumas partes são bem engraçadas.
Subitamente disparou em cerca de três segundos de risadas maníacas e depois parou novamente. Ficou sentado ali, mexendo a cabeça e os joelhos. Deu outra tragada, com um sorriso estranho no canto da boca.
Ford e Zaphod saíram das sombras.
— Conte-nos um pouco a respeito — disse Ford.
— Ah, já não consigo me lembrar de nada — disse Prak. — Pensei em escrever algumas partes, mas primeiro não consegui achar um lápis, e depois, pensei, para que me preocupar?
Houve um longo silêncio, durante o qual puderam sentir o Universo ficar um pouco mais velho. Prak olhava para a lanterna.
— Nada? — disse Arthur por fim. — Você não consegue se lembrar de nada?
— Não. Exceto que a maioria das partes divertidas tinha a ver com as rãs, disso eu lembro.
Voltou a se contorcer em risos, enquanto batia com os pés no chão.
— Vocês não vão acreditar nas histórias das rãs — disse, ofegante. — Ei, vamos lá, vamos encontrar uma rã. Cara, a partir de agora tenho uma nova visão sobre elas! — Ficou de pé e deu uns passos engraçados. Depois parou e tragou longamente o cigarro. — Vamos encontrar uma rã que eu possa gozar — disse depois. — Aliás, quem são vocês?
— Viemos procurá-lo — disse Trillian, deixando deliberadamente claro o tom de desapontamento na voz. — Meu nome é Trillian.
Prak balançou a cabeça.
— Ford Prefect — disse Ford, dando de ombros.
Prak balançou a cabeça.
— E eu — disse Zaphod, quando julgou que havia novamente silêncio suficiente para que um anúncio de tamanha gravidade fosse feito tão levianamente — sou Zaphod Beeblebrox.
Prak balançou a cabeça.
— Quem é esse cara? — disse Prak sacudindo o ombro na direção de Arthur, que tinha ficado em silêncio, perdido em pensamentos desapontados.
— Eu? — perguntou Arthur. — Meu nome é Arthur Dent.
Os olhos de Prak saltaram das órbitas.
— Sério? — gritou. — Você é Arthur Dent? Aquele Arthur Dent?
Deu uns passos para trás, segurando o estômago enquanto se contraía em novos espasmos de riso.
— Uau, só de pensar em conhecer você! — estava sem ar. — Rapaz — gritou — você é o cara mais... uau, você deixa as rãs para trás!
Ele gritava e ria histericamente. Caiu para trás do banco. Revirava-se no chão histericamente. Chorava de tanto rir, chutava o ar, batia no peito.
Gradualmente conseguiu se controlar, ofegante. Olhou para eles. Olhou para Arthur. Caiu novamente para trás, rindo histericamente. Acabou adormecendo.
Arthur ficou ali, seus lábios tremendo, enquanto os outros carregavam Prak, completamente apagado, para a nave.
— Antes de virmos pegar Prak — disse Arthur — eu ia partir. Ainda quero partir, e acho que devo fazê-lo o mais rápido possível.
Os outros concordaram em silêncio, silêncio este que foi apenas quebrado pelo som muito abafado e distante das risadas histéricas vindas da cabine de Prak, na parte mais distante da nave.
— Nós já o interrogamos — prosseguiu Arthur — ou, pelo menos, vocês o interrogaram, já que, como sabemos, não posso chegar perto dele. Perguntamos de tudo e ele não parece ter nada a dizer. Apenas uma ou outra frase, e muitas coisas que não quero saber sobre rãs.
Os outros tentaram conter as risadinhas.
— Olhem, eu sou o primeiro a rir de uma piada — disse Arthur, mas depois teve que esperar os outros pararem de rir. — Sou o primeiro a... — Parou novamente e escutou o silêncio. Estava realmente silencioso desta vez.
Prak estava em silêncio. Durante dias eles haviam convivido com sua risada histérica ressoando pela nave, ocasionalmente interrompida por breves períodos de risadas mais leves e de sono. A própria alma de Arthur estava se contorcendo em completa paranoia.
Aquele não era o silêncio do sono. Uma campainha soou. Deram uma olhada em um painel e viram que a campainha fora acionada por Prak.
— Ele não está bem — disse Trillian, preocupada. — As risadas permanentes estão destruindo completamente seu corpo.
Os lábios de Arthur voltaram a tremer, mas ele nada disse.
— Melhor irmos ver como ele está.
Trillian saiu da cabine revestida de sua expressão de extrema seriedade.
— Ele quer que você entre — disse ela para Arthur, que estava com sua expressão de completo mau humor. Ele enfiou as mãos dentro dos bolsos de seu roupão e tentou pensar em alguma resposta que não fosse soar mesquinha.
Aquilo lhe parecia tremendamente injusto, mas não conseguiu pensar em nada.
— Por favor — disse Trillian.
Ele deu de ombros e entrou, levando sua expressão de completo mau humor com ele, apesar da reação que isso sempre provocava em Prak.
Olhou para o seu torturador, que estava deitado imóvel na cama, pálido e combalido. Sua respiração estava fraca. Ford e Zaphod estavam de pé ao lado da cama com uma cara estranha.
— Você queria me perguntar algo — disse Prak com a voz fraca, tossindo levemente.
Apenas o fato de ele tossir já deixava Arthur tenso, mas passou logo.
— Como você sabe disso? — perguntou.
Prak olhou para ele, cansado.
— Porque é verdade — respondeu.
Arthur entendeu.
— Sim — acabou dizendo em uma fala arrastada e tensa. — Eu tinha uma Pergunta. Ou melhor, o que eu tenho é uma Resposta. Eu queria saber qual era a Pergunta.
Prak assentiu de forma simpática e Arthur relaxou um pouco.
— Bem... olha, é uma longa história — disse por fim —, mas a Pergunta que eu queria conhecer se refere à Questão Fundamental sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais. Tudo que sabemos é que a Resposta é 42, o que é um pouco irritante.
Prak assentiu novamente.
— Quarenta e dois — disse ele. — Sim, é isso mesmo.
Fez uma pausa. Sombras de pensamentos e lembranças cruzaram sua face como sombras de nuvens cruzando o solo.
— Eu lamento dizer — falou por fim — que a Pergunta e a Resposta são mutuamente exclusivas. Por lógica, o conhecimento de uma impede o conhecimento da outra. É impossível que ambas possam ser conhecidas no mesmo Universo.
Fez outra pausa. O desapontamento surgiu no rosto de Arthur e foi se alojar em seu cantinho habitual.
— Exceto — disse Prak, fazendo força para focalizar um pensamento — que, se isso acontecesse, creio que a Pergunta e a Resposta iriam se cancelar mutuamente e levar o Universo com elas. Ele seria, então, substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. É possível que isso já tenha acontecido — acrescentou, com um sorriso enfraquecido — mas há uma certa Incerteza a respeito disso.
Um pequeno risinho perpassou-o levemente. Arthur sentou-se em um banquinho.
— Ah, bem — disse, resignado —, eu só estava esperando que houvesse alguma razão.
— Você conhece — perguntou Prak — a história da Razão?
Arthur disse que não e Prak respondeu que já sabia que não. Ele a contou.
Uma noite, ele disse, uma espaçonave apareceu no céu de um planeta que nunca antes havia visto uma delas. O planeta era Dalforsas e a nave era aquela. Surgiu como uma nova e brilhante estrela se movendo silenciosamente através do céu.
As pessoas das primitivas tribos que estavam sentadas nas encostas das Montanhas Gélidas olharam para cima, segurando suas xícaras com bebidas fumegantes e apontaram, com dedos trêmulos, jurando que haviam visto um sinal de seus deuses significando que deveriam agora levantar-se e partir para massacrar os malignos Príncipes das Planícies.
Nas altas torres de seus palácios, os Príncipes das Planícies olharam para cima e viram a estrela brilhante, compreendendo que aquele era um sinal inequívoco de seus deuses para que eles partissem e atacassem as malditas tribos das Montanhas Gélidas.
Entre ambos, os Habitantes da Floresta olharam para o céu e viram o sinal da nova estrela. Olharam para ela com medo e apreensão porque, apesar de nunca terem visto nada assim, eles também sabiam exatamente que presságio aquilo trazia e curvaram suas cabeças em desespero.
Sabiam que, quando as chuvas vinham, era um sinal.
Quando as chuvas paravam, era um sinal.
Quando os ventos sopravam, era um sinal.
Quando os ventos se aquietavam, era um sinal.
Quando houvesse nascido na terra, à meia-noite em uma lua cheia, uma cabra com três cabeças, era um sinal.
Quando houvesse nascido na terra, em uma hora qualquer, um gato ou porco perfeitamente normal sem qualquer complicação, ou mesmo uma criança com um nariz empinado, muitas vezes essas coisas também eram vistas como um sinal.
Então não havia dúvida alguma de que uma nova estrela no céu era um sinal de enorme magnitude.
E cada novo sinal significava a mesma coisa — que os Príncipes das Planícies e as Tribos das Montanhas Gélidas estavam se preparando para arrancar o couro uns dos outros.
Por si só, isso não seria nada demais, exceto que os Príncipes das Planícies e as Tribos das Montanhas Gélidas sempre decidiam arrancar o couro uns dos outros na Floresta, e a pior parte dessas lutas sobrava sempre para os Habitantes da Floresta, ainda que, até onde eles conseguissem entender, não tivessem nada a ver com isso.
E algumas vezes, depois dos piores desses ultrajes, os Habitantes da Floresta enviavam um mensageiro para o líder dos Príncipes das Planícies ou para o líder das Tribos das Montanhas Gélidas, perguntando-lhes qual a Razão daquele comportamento insuportável.
E o líder, fosse quem fosse, levava o mensageiro para um canto e lhe explicava a Razão, lenta e cuidadosamente, tendo um grande cuidado ao explicar todos os detalhes envolvidos.
A coisa mais terrível era a seguinte: a razão era muito boa. Era clara, muito racional e muito dura. O mensageiro abaixava a cabeça, consternado, sentindo-se tolo por não ter percebido o quão duro e complexo era o mundo real, e quão enormes eram as dificuldades e paradoxos que precisavam ser defrontados para que fosse possível viver nele.
— Você entende agora? — dizia o líder.
O mensageiro concordava em silêncio.
— E você compreende que essas batalhas precisam ocorrer?
Outra vez concordava em silêncio.
— E por que elas têm que ocorrer na Floresta, no interesse de todos, inclusive dos Habitantes da Floresta?
— Eh...
— A longo prazo.
— Eh, sim.
E o mensageiro de fato compreendia a Razão, e retornava para seu povo na Floresta. Contudo, enquanto se aproximava deles, enquanto atravessava a Floresta, por entre as árvores, percebia que tudo de que podia se lembrar a respeito da Razão era o quão incrivelmente claro o argumento havia parecido.
Qual era exatamente o argumento, isso ele nunca conseguia se lembrar.
E isso era, claro, um grande consolo quando as Tribos e os Príncipes voltavam a guerrear, cortando e queimando tudo em seu caminho através da Floresta e matando todos os Habitantes da Floresta que encontrassem.
Prak fez uma pausa em sua história e tossiu.
— Eu fui o mensageiro — disse ele — após as batalhas causadas pela aparição de sua nave, que foram especialmente selvagens. Muitos de nosso povo morreram. Acreditei que poderia trazer a Razão de volta. Fui até o líder dos Príncipes, que a contou para mim, mas no caminho de volta ela foi se desfazendo e sumindo em minha mente como neve sob o sol. Isso foi há muitos anos e muitas outras coisas já aconteceram desde então.
Olhou para Arthur e soltou outro risinho leve.
— Há uma coisa de que consigo me lembrar após o soro da verdade. Além das rãs, e é a última mensagem de Deus para sua criação. Vocês gostariam de ouvi-la?
Durante um breve momento, não sabiam se deviam levá-lo a sério ou não.
— Mesmo — disse ele. — Estou falando sério.
Seu peito arfava com dificuldade e lutava para respirar. Sua cabeça pendeu levemente para o lado.
— Não fiquei muito impressionado quando soube pela primeira vez o que era — disse ele —, mas agora, lembrando o quão impressionado eu fiquei pela Razão do Príncipe e quão rápido me esqueci dela, acho que poderia ser bem mais útil. Vocês querem saber o que é? Querem?
Todos concordaram em silêncio.
— Achei que iriam querer. Se vocês estiverem interessados, sugiro que procurem por ela. Está escrita em letras chamejantes de nove metros no topo das Montanhas de Quentulus Quazgar na terra de Sevorbeupstry no planeta Preliumtarn, o terceiro a partir do sol Zarss no Setor Galáctico QQ7 Ativo J Gama. É guardado pela Lajéstica Vantraconcha de Lob.
Houve um longo silêncio após essa parte, finalmente quebrado por Arthur.
— Desculpe, onde mesmo você disse que estava?
— Está escrita — repetiu Prak — em letras chamejantes de nove metros no topo das Montanhas de Quentulus Quazgar na terra de Sevorbeupstry no planeta Preliumtarn, o terceiro a partir do...
— Desculpe — repetiu Arthur —, que montanhas?
— As Montanhas de Quentulus Quazgar na terra de Sevorbeupstry no planeta...
— Que terra você mencionou? Não peguei bem essa parte.
— Sevorbeupstry, no planeta...
— Sevorbe... o quê?
— Ah, que se dane — disse Prak, e morreu em seguida.
Nos dias seguintes, Arthur pensou um pouco sobre a tal mensagem, mas, no final das contas, decidiu que não iria se deixar levar por ele e insistiu em prosseguir com seu plano original de encontrar um agradável pequeno mundo onde pudesse se assentar e levar uma vida calma e isolada.
Tendo salvado o Universo duas vezes no mesmo dia, achou que podia levar as coisas de forma mais calma daí em diante.
Eles o deixaram no planeta Krikkit, que havia voltado a ser um mundo idílico e pastoral, mesmo que as músicas o irritassem um pouco.
Passou muito tempo voando.
Aprendeu a se comunicar com as aves e descobriu que a conversa delas era incrivelmente chata. Só falavam sobre a velocidade do vento, envergadura das asas, relação força/peso e muitas coisas sobre frutinhas. Infelizmente ele também descobriu que, uma vez que você tenha aprendido o passareado, rapidamente percebia que todo o ar estava cheio dele o tempo todo, nada além de tagarelice sem sentido entre pássaros. Não há como escapar.
Foi por esse motivo que Arthur acabou desistindo desse esporte e aprendeu a viver no chão e gostar dele, apesar de também ouvir muita tagarelice sem sentido por lá. Um dia, estava andando pelos campos cantarolando uma adorável melodia que havia aprendido recentemente quando uma espaçonave prateada desceu do céu e pousou na sua frente.
Uma escotilha se abriu, uma rampa se estendeu e um alienígena alto e cinza-esverdeado saiu lá de dentro e aproximou-se dele.
— Arthur Phili... — disse, então olhou atentamente para ele e depois para a sua prancheta. Franziu o rosto. Olhou novamente para ele. — Já peguei você antes, não foi?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)