26 de dezembro de 2017

Capítulo 9

Arthur estava se sentindo um pouco perdido. Havia toda uma Galáxia de coisas lá fora à sua disposição e ele se questionava se era mesquinho de sua parte reclamar da falta de apenas duas coisas: o mundo no qual nascera e a mulher que amava.
Dane-se e exploda-se, pensou ele, sentindo necessidade de orientação e conselho. Consultou O Guia do Mochileiro das Galáxias. Procurou por “orientação” e leu “Ver CONSELHO”. Procurou “conselho” e estava escrito “Ver ORIENTAÇÃO”.
Aquilo estava acontecendo bastante nos últimos tempos e ele se perguntou se o Guia era tão bom quanto diziam.
Dirigiu-se para a Borda Oriental da Galáxia, onde, segundo diziam, era possível encontrar sabedoria e verdade, mais especificamente no planeta Hawalius, que era um lugar de oráculos, videntes e profetas, e também de pizzarias que entregavam em casa, porque quase todos os místicos eram completamente incapazes de cozinhar para si mesmos.
No entanto, aparentemente algum tipo de calamidade havia assolado o planeta. Enquanto perambulava pelas ruas da cidade onde viviam os profetas mais importantes, não pôde deixar de perceber um certo ar de desânimo. Encontrou com um profeta que estava visivelmente fechando as portas, melancólico, e perguntou o que estava acontecendo.
— Ninguém mais procura a gente — respondeu ele, mal-humorado, batendo um prego sobre a tábua com que estava fechando a janela de sua cabana.
— Ah, é? Por quê?
— Segura essa outra ponta que eu te mostro.
Arthur segurou a ponta solta da placa e o velho profeta entrou depressa no interior do casebre, voltando alguns segundos depois com um pequeno rádio subeta. Ligou o aparelho, mexeu no botão de sintonia para lá e para cá e depois colocou o rádio sobre o pequeno banco de madeira no qual costumava sentar-se e profetizar. Em seguida, voltou para segurar a placa e continuou a martelar na parede.
Arthur sentou-se e ficou ouvindo o rádio.
— ... ser confirmado — disse o rádio.
— Amanhã — prosseguiu —, o vice-presidente de Poffla Vigus, Roopy Ga Stip, irá anunciar que pretende se candidatar à presidência. No discurso que fará amanhã na...
— Mude de estação — disse o profeta.
Arthur apertou um botão de troca de canais.
— ... recusou-se a comentar — disse o rádio. — O número total de desempregados no setor Zabush na próxima semana será o pior de todos os tempos. Um relatório publicado mês que vem diz...
— Outra — rosnou o profeta, irritado.
Arthur apertou o botão novamente.
— ... negou categoricamente — disse o rádio. — O casamento real do mês que vem entre o Príncipe Gid da dinastia Soofling e a Princesa Hooli de Raui Alpha será a cerimônia mais espetacular já vista nos Territórios Bjanjy. A nossa repórter Trillian Astra está no local, com mais informações.
Arthur piscou.
O som da multidão e a algazarra de uma banda surgiram do rádio. Uma voz bastante familiar disse:
— Bem, Krart, a cena aqui no meio do mês que vem é absolutamente incrível. A Princesa Hooli está radiante em um...
O profeta deu um safanão no rádio, que caiu do banco no chão empoeirado, gemendo como galinha desafinada.
— Viu só com o que temos de competir? — resmungou o profeta. — Aqui, segure isto. Não isso, isto aqui. Não, assim não. Essa parte para cima. Do outro lado, seu imbecil.
— Ei, eu estava escutando — reclamou Arthur, lutando desajeitadamente com o martelo do profeta.
— Você e todo mundo. É por isso que este lugar parece uma cidade fantasma. — Ele cuspiu na poeira.
— Não, não é isso, é que parecia a voz de uma pessoa que eu conheci.
— A Princesa Hooli? Se eu tivesse que ficar parado dizendo oi para todo mundo que conheceu a Princesa Hooli, ia precisar de um novo par de pulmões.
— Não, a princesa, não — explicou Arthur. — A repórter. O nome dela é Trillian. Não sei qual é a do Astra. Somos do mesmo planeta. Eu vivia me perguntando que fim a Trillian tinha levado.
— Ah, ela está em todas atualmente. As estações de tevê tridimensionais não pegam por aqui, é claro, graças ao Megarresfriadon Verde, mas a gente a escuta no rádio, saracoteando pelo espaço-tempo sem parar. Era melhor ela sossegar e encontrar uma era fixa, essa moça. Isso vai acabar em lágrimas. Provavelmente já acabou. — Ele balançou o martelo e acabou atingindo o dedão com toda a força. Começou a praguejar.
O vilarejo dos oráculos não estava lá muito melhor.
Haviam lhe dito que, ao procurar por um bom oráculo, o ideal era encontrar o oráculo que os outros oráculos frequentavam, mas ele estava fechado. Havia um aviso na entrada dizendo “Não sei mais nada. Tente aí do lado — mas isso é só uma sugestão, não um conselho formal de oráculo”.
“Aí do lado” era uma caverna a alguns metros, e Arthur caminhou até lá. Fumaça e vapor subiam, respectivamente, de uma pequena fogueira e de uma panela de lata desgastada pendurada acima da fogueira. Saía um cheiro insuportável da panela.
Ou, pelo menos, Arthur supôs que o cheiro viesse da panela. As bexigas dilatadas de algumas criaturas locais semelhantes a bodes estavam penduradas em um varal, secando ao sol, e o cheiro podia estar vindo dali. Havia também, preocupantemente próxima, uma pilha dos corpos descartados das criaturas locais semelhantes a bodes, e o cheiro também podia estar vindo de lá.
Mas o cheiro também podia tranquilamente estar vindo da senhora que estava ocupada espantando as moscas da pilha de corpos. Era uma tarefa inglória, uma vez que cada mosca era do tamanho de uma tampinha de garrafa, com asas, e ela só tinha uma raquete de tênis de mesa. Parecia também ser meio cega. De vez em quando, por acaso, uma das suas pancadas enlouquecidas acertava uma das moscas com um safanão altamente satisfatório e a mosca zunia pelo ar, indo se estraçalhar na parede de rocha próxima à entrada da caverna.
Ela dava a impressão, pelo seu comportamento, de que sua vida girava em torno de momentos como aquele.
Arthur assistiu àquela performance exótica por um tempo, mantendo uma distância educada, e depois finalmente tentou tossir discretamente para chamar a atenção da mulher. A tosse discreta em tom cortês infelizmente obrigou Arthur a inalar mais ar local do que havia feito até então e, por causa disso, ele teve um acesso de expectoração estridente e caiu de encontro à rocha, engasgado e com o rosto coberto de lágrimas. Lutou para respirar, mas, cada vez que inalava, a situação ficava pior. Vomitou, engasgou novamente, rolou sobre o próprio vômito, continuou rolando mais alguns metros e, finalmente, conseguiu ficar de quatro e se arrastou, ofegante, em direção a um ar um pouquinho mais fresco.
— Com licença — disse ele. Recuperara um pouco de ar. — Sinto muito, muitíssimo mesmo. Estou me sentindo completamente idiota e... — Apontou constrangido para a pequena poça de seu próprio vômito, espalhada na entrada da caverna. — O que posso dizer? — perguntou ele. — O que dizer numa situação como essa?
Aquilo, pelo menos, chamou a atenção da mulher. Ela virou-se para ele, desconfiada, mas, por ser meio cega, teve uma certa dificuldade de distingui-lo na paisagem embaçada e rochosa.
Ele acenou, para ajudar.
— Olá! — disse ele.
Finalmente ela o localizou, resmungou entre dentes e voltou a dar pancadas nas moscas. Estava terrivelmente aparente, julgando pela oscilação das correntes de ar conforme ela se mexia, que a principal fonte do fedor era ela. As bexigas no varal, os corpos pestilentos e a sopa insalubre certamente contribuíam violentamente para a atmosfera geral, mas a principal presença olfativa era a mulher em si.
Acertou outra pancada em uma das moscas. Ela se despedaçou contra a rocha e esvaiu-se em um filete líquido de uma forma que a mulher obviamente via, se é que enxergava até lá, como bastante satisfatória.
Vacilante, Arthur ficou de pé e se limpou com um punhado de grama seca. Não sabia mais o que fazer para anunciar sua presença. Chegou a pensar em ir embora de fininho, mas não achou de bom tom deixar um montinho de vômito na frente da casa dela. Pensou no que podia fazer a respeito. Começou a colher mais punhados da grama seca aqui e ali. Mas estava com medo de se aproximar do vômito e, em vez de limpar, aumentar mais a poça. Justo enquanto estava debatendo consigo mesmo sobre qual seria a melhor coisa a fazer percebeu que a mulher estava finalmente falando com ele.
— Desculpe, o que a senhora disse?
— Eu perguntei em que poderia ajudar — disse ela, com uma voz fina e áspera que ele mal conseguia ouvir.
— É... eu vim pedir o seu conselho — respondeu ele, sentindo-se um pouco ridículo.
Ela virou-se para observá-lo, miopemente, depois voltou-se, tentou acertar uma mosca e errou.
— Sobre o quê? — perguntou a mulher.
— Como?
— Eu perguntei sobre o quê — repetiu ela, estridente.
— Bem — disse Arthur. — Conselhos genéricos, para falar a verdade. Estava escrito no folheto que...
— Humpt! Folheto! — resmungou a mulher. Ela já parecia estar sacudindo a raquete de maneira quase aleatória.
Arthur pescou o folheto, caindo aos pedaços, do bolso. Não sabia exatamente por quê. Já havia lido aquilo tudo e tinha a impressão de que ela não estava nem um pouco interessada em ler. Desdobrou-o assim mesmo, para ter uma coisa que pudesse olhar enquanto franzia a testa, pensativo, durante alguns minutos. O folheto prodigalizava as ancestrais artes místicas dos videntes e dos sábios de Hawalius, e falava, de forma altamente exacerbada, sobre o nível de acomodação oferecida por lá.
Arthur ainda carregava uma cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias consigo, mas estava achando, sempre que o consultava, que as entradas estavam ficando cada vez mais confusas e paranoicas, com vários xis e jotas e colchetes. Alguma coisa estava errada em algum lugar. Não sabia dizer se era apenas um problema com o seu exemplar, se algo ou alguém estava fazendo besteiras inomináveis ou tendo alucinações no centro da organização do Guia. Mas, de qualquer jeito, estava ainda menos disposto a confiar nele mais do que o normal, ou seja, não confiava nem um pouco e o usava, na maioria das vezes, como apoio quando queria comer um sanduíche sentado em uma pedra olhando para o além.
A mulher havia se virado e estava caminhando em sua direção. Arthur tentou, discretamente, analisar a direção do vento e movimentou-se um pouco enquanto ela se aproximava.
— Conselhos — disse ela. — Conselhos, né?
— É, isso mesmo — respondeu Arthur. — É, isso é...
Franziu a testa novamente para o folheto, como se para se certificar de que não havia lido errado e ido parar no planeta errado ou algo assim. Estava escrito: “Os amigáveis habitantes locais terão imenso prazer em compartilhar com você o conhecimento e a sabedoria dos ancestrais. Mergulhe com eles nos intrincados mistérios do passado e do futuro!” Havia também alguns cupons de desconto, mas Arthur estava constrangido demais para recortá-los e tentar entregá-los para alguém.
— Conselho, né? — repetiu a mulher. — Genéricos, você diz. Sobre o quê? O que fazer da sua vida, coisas assim?
— Exatamente — respondeu Arthur. — Coisas assim. Para ser sincero, tenho tido alguns probleminhas. — Estava esgueirando-se de maneira discreta, tentando desesperadamente aproveitar o vento. Ele se assustou quando ela se afastou bruscamente, dirigindo-se para a caverna.
— Você vai ter de me ajudar com a máquina de fotocópias então — disse ela.
— Com o quê? — perguntou Arthur.
— A máquina de fotocópias — repetiu ela, paciente. — Você precisa me ajudar a arrastá-la para fora. Ela é movida a energia solar. Mas eu tenho que guardá-la dentro da caverna, senão os passarinhos cagam tudo.
— Entendi — disse Arthur.
— Eu respiraria fundo, se fosse você — resmungou a senhora, pisando duro e adentrando a escuridão da caverna.
Arthur seguiu o conselho. Na verdade, inalou o máximo de ar que pôde. Quando sentiu que estava pronto, segurou a respiração e seguiu a mulher.
A máquina de fotocópias era uma tralha velha e pesada, apoiada em um carrinho bamboleante. Ficava imersa na penumbra da caverna. As rodinhas estavam obstinadamente emperradas em direções diferentes e o chão era irregular e pedregoso.
— Vai pegar um ar lá fora — disse a mulher. Arthur estava com o rosto vermelho, tentando ajudá-la a mover a máquina.
Ele balançou a cabeça, aliviado. Se ela não estava constrangida com aquilo, então ele estava decidido a não ficar também. Saiu da caverna e respirou fundo algumas vezes, voltando em seguida para continuar o trabalho pesado. Precisou repetir aquela estratégia algumas vezes até conseguir colocar a máquina para fora.
A luz do sol a atingiu em cheio. A mulher tornou a desaparecer caverna adentro e voltou carregando uns painéis de metal mosqueados, que ela conectou na máquina para captar a energia solar.
Ela olhou para o céu com os olhos semicerrados. O sol estava bem forte, mas o dia estava nublado.
— Vai demorar um pouquinho — avisou ela.
Arthur disse que esperava numa boa.
A senhora deu de ombros e marchou até a fogueira. O conteúdo da panelinha estava borbulhando. Ela remexeu com um pedaço de pau.
— Você não quer almoçar? — perguntou a mulher.
— Já almocei, obrigado — disse Arthur. — Não mesmo. Já almocei. —
Sei — disse ela. Continuou mexendo com o pedaço de pau. Alguns minutos depois, pescou um pedaço de alguma coisa, assoprou um pouco para esfriar e enfiou na boca. Mastigou pensativa por alguns instantes. Então, caminhou lentamente até a pilha das criaturas mortas semelhantes a bodes. Cuspiu o pedaço em cima da pilha. Voltou para a panela. Tentou removê-la do suporte parecido com um tripé onde estava encaixada.
— Quer ajuda? — ofereceu Arthur, levantando-se educadamente. Correu até ela.
Juntos, conseguiram remover a tigela do tripé e a levaram desajeitadamente pela pequena descida até a saída da caverna, em direção a uma fileira de árvores raquíticas e retorcidas que delimitavam a área de uma vala íngreme, mas rasa, de onde emergiu toda uma nova gama de fedores.
— Preparado? — perguntou a senhora.
— Sim... — respondeu Arthur, embora não soubesse para quê.
— Um — disse a velha.
— Dois — continuou.
— Três — acrescentou.
Arthur percebeu, em cima da hora, o que ela queria fazer. Juntos, lançaram o conteúdo da panela dentro da vala.
Após uma ou duas horas de silêncio não-comunicativo, a senhora decidiu que os painéis solares já haviam absorvido luz o suficiente para fazer funcionar a máquina de fotocópias e desapareceu caverna adentro para procurar alguma coisa. Finalmente, reapareceu com algumas resmas de papel e as inseriu na máquina. Entregou as cópias para Arthur.
— Estes são, ah, estes são seus conselhos? — perguntou Arthur, folheando as páginas, indeciso.
— Não — respondeu ela. — Essa é a história da minha vida. Sabe, a qualidade de qualquer conselho que uma pessoa pode dar deve ser avaliada de acordo com a qualidade da vida que essa pessoa levou. Ao examinar esse documento, você vai notar que eu sublinhei todas as principais decisões que precisei tomar, para destacá-las. Estão em ordem alfabética e tem um índice remissivo. Entendeu? Então, sugiro apenas que você tome decisões contrárias às que eu tomei, porque assim você talvez não termine sua vida... — ela fez uma pausa e encheu os pulmões para um bom grito — em uma caverna velha e fedorenta como esta!
Recolheu sua raquete de tênis de mesa, arregaçou as mangas, marchou em direção à pilha de criaturas mortas semelhantes a bodes e começou a espantar as moscas com vitalidade e vigor.
A última cidade que Arthur visitou era composta inteiramente de postes extremamente altos. Eram tão altos que era impossível dizer, do chão, o que havia lá em cima, e Arthur teve de escalar pelo menos três antes de encontrar um que tivesse algo além de uma plataforma coberta de cocô de passarinho.
Não era uma tarefa fácil. Para escalar os postes, era preciso subir em umas pequenas estacas de madeira que haviam sido pregadas em espiral. Qualquer turista menos diligente do que Arthur teria se contentado em tirar algumas fotos e deslizado de volta para a próxima churrascaria, onde também se podia comprar uma ampla variedade de bolinhos de chocolate bem suculentos para comer na frente dos ascetas. Mas, em grande parte por conta disso, a maioria dos ascetas havia deixado a cidade. Para falar a verdade, a maioria tinha montado centros de terapia bastante lucrativos em alguns dos mundos mais afluentes na Ondulação Nordeste da Galáxia, onde a vida era dezessete milhões de vezes mais fácil e o chocolate era maravilhoso. Foi descoberto que a maioria dos ascetas não conhecia o chocolate antes de adotar o ascetismo. Já a maioria dos clientes que procuravam os centros de terapia o conhecia bem demais.
No topo do terceiro poste, Arthur parou para respirar. Estava com muito calor e sem fôlego, já que cada poste tinha quinze ou vinte metros de altura. Tinha a impressão de que o mundo estava oscilando vertiginosamente à sua volta, mas não estava preocupado com aquilo. Sabia que, logicamente, não podia morrer até chegar em Stavromula Beta e aprendera a cultivar uma atitude positiva diante de perigos extremos.
Sentia-se um pouco tonto empoleirado em cima de um poste a quinze metros do chão, mas decidiu lidar com aquilo comendo um sanduíche. Estava prestes a embarcar na leitura da versão fotocopiada da vida do oráculo quando ficou um tanto quanto surpreso ao escutar alguém tossindo discretamente atrás dele.
Sentia-se abruptamente, deixando cair o sanduíche, que despencou pelo ar e ficou bem pequeno quando sua queda foi interrompida pelo chão.
A uns nove metros atrás de Arthur havia um outro poste, o único na floresta esparsa de umas três dúzias de postes que tinha alguém no topo. Estava ocupado por um velho que, por sua vez, parecia estar ocupado com pensamentos profundos que o faziam franzir as sobrancelhas.
— Com licença — disse Arthur.
O homem o ignorou. Talvez não pudesse escutá-lo. Havia uma brisa soprando. Arthur só escutara a tosse discreta por acaso.
— Olá? — tentou Arthur. — Olá!
O homem finalmente olhou em volta. Pareceu surpreso ao vê-lo.
Arthur não sabia ao certo se estava surpreso e contente por avistá-lo ou apenas surpreso.
— O senhor está aberto? — perguntou Arthur.
O homem franziu a testa, como se não tivesse compreendido. Arthur não sabia dizer se ele não entendera ou não ouvira a pergunta.
— Vou dar um pulo aí — gritou Arthur. — Não vá embora.
Saiu da pequena plataforma e desceu rapidamente pelos degraus em espiral, sentindo-se bastante tonto quando atingiu o chão. Começou a se dirigir para o poste onde o velho estava sentado, mas percebeu subitamente que havia perdido o senso de direção ao descer e não sabia mais qual era. Olhou à sua volta, procurando pontos de referência e descobriu para onde deveria ir.
Subiu no poste. Não era aquele.
— Droga — disse ele. — Desculpe! — gritou para o velho novamente, que agora estava bem na sua frente, a uns dez metros de distância. — Me perdi. Já estou indo pra aí.
Desceu novamente, ficando realmente com calor e irritado. Quando chegou ao topo, ofegante e suado, certo de que aquele era o poste correto, percebeu que o velho estava, de alguma maneira, tripudiando dele.
— O que você quer? — gritou o velho, mal-humorado. Estava sentado no alto do poste que Arthur reconheceu como sendo o mesmo em que ele próprio estivera há pouco, quando estava comendo o sanduíche.
— Como é que você conseguiu chegar até aí? — perguntou Arthur, impressionado.
— Você acha que eu vou te contar assim tão fácil o que levei quarenta primaveras, verões e outonos sentado no alto de postes para descobrir?
— E os invernos?
— O que têm os invernos?
— Você não fica sentado aí nos invernos?
— Só porque passei a maior parte da minha vida sentado em um poste — disse o homem —, não quer dizer que eu seja um imbecil. Vou para o sul no inverno. Tenho uma casa de praia. Fico sentado na pilha de lenha para a lareira.
— Você tem algum conselho para um viajante?
— Sim. Arrume uma casa de praia.
— Tá.
O homem contemplou a paisagem quente, árida e recoberta por pequenos arbustos. Arthur podia ver a senhora ao longe, um pontinho na distância, agitando-se para lá e para cá tentando acertar as moscas.
— Está vendo aquilo? — perguntou o velho, de repente.
— Estou — respondeu Arthur. — Eu fui consultá-la.
— Não sabe de nada, ela. Consegui a casa de praia porque ela recusou. Que conselho ela te deu?
— Disse para fazer exatamente o oposto do que ela fez.
— Em outras palavras, arrume uma casa de praia.
— Deve ser — disse Arthur. — Bom, talvez eu arrume uma.
— Hummm.
O horizonte nadava em uma onda distorcida de calor fétido.
— Mais algum conselho? — perguntou Arthur. — Que não tenha a ver com estadas na praia?
— Praia não é apenas uma estada. É um estado de espírito — respondeu o homem. Virou-se e olhou para Arthur.
Curiosamente, o rosto dele estava agora a poucos metros. Parecia manter um formato perfeitamente normal, mas o corpo estava sentado de pernas cruzadas em um poste a dez metros de distância e o rosto estava ali, a alguns metros. Sem mexer a cabeça e, aparentemente, sem fazer nada de exótico, ele se levantou e pulou para o alto de um outro poste. Ou era um efeito do calor, pensou Arthur, ou o espaço tinha uma formação um pouco diferente para ele.
— Uma casa de praia — disse — nem mesmo precisa estar na praia. Embora as melhores estejam. Todos nós gostamos de nos congregar — prosseguiu — em condições limítrofes.
— É mesmo? — perguntou Arthur.
— Onde o solo encontra a água. Onde a terra encontra o ar. Onde o corpo encontra a mente. Onde o espaço encontra o tempo. Gostamos de estar de um lado contemplando o outro.
Arthur ficou animadíssimo. Aquilo era exatamente o tipo de coisa que o folheto prometera. Ali estava um sujeito que parecia estar se movendo através de algum espaço de Escher, dizendo coisas altamente profundas sobre vários assuntos. No entanto, era irritante. O sujeito estava agora pulando dos postes para o chão, do chão para os postes, de poste para poste, de poste para o horizonte e voltando: estava bagunçando de vez com o universo espacial de Arthur.
— Por favor, pare com isso! — pediu Arthur, de repente.
— Não consegue aguentar, né? — disse o homem. Sem fazer o menor movimento, lá estava ele de volta, sentado de pernas cruzadas no alto de um poste a dez metros de distância de Arthur. — Você veio atrás de um conselho, mas não consegue lidar com nada que não conheça. Humm. Então temos que dizer algo que você já esteja cansado de saber, fazendo com que pareça uma novidade, né? Bem, o de sempre, suponho. — Ele suspirou e varreu o horizonte com um olhar tristonho. — De onde você é, rapaz? — perguntou ele.
Arthur resolveu bancar o esperto. Estava cansado de ser confundido com um idiota completo por todos que encontrava.
— Sabe de uma coisa? — disse ele. — O vidente é você. Por que não me diz?
O velho suspirou novamente.
— Eu só estava puxando conversa — disse ele, passando a mão em volta da cabeça. Quando trouxe a mão novamente para a frente, uma imagem da Terra girava na ponta de seu dedo indicador. Era inconfundível. O globo desapareceu. Arthur estava atordoado.
— Como é que você...
— Não posso dizer.
— Por que não? Eu viajei muito!
— Você não pode ver o que eu vejo porque vê o que você vê. Não pode saber o que sei porque sabe o que você sabe. O que vejo e o que sei não podem ser acrescentados ao que você vê e ao que você sabe porque são coisas diferentes. Também não podem substituir o que você vê e o que sabe porque isso seria substituir você mesmo.
— Calma aí, posso anotar isso? — perguntou Arthur, procurando freneticamente um lápis em seu bolso.
— Você pode apanhar uma cópia no espaçoporto — disse o velho. — Eles têm um monte disso por lá.
— Ah — disse Arthur, decepcionado. — Bom, não tem nada que seja um pouquinho mais específico para mim?
— Tudo o que você vê, ouve ou vivencia de qualquer jeito que seja é específico para você. Você cria um universo ao percebê-lo, então tudo no universo que percebe é específico para você.
Arthur olhou para ele, desconfiado.
— Também encontro isso no espaçoporto? — perguntou.
— Pode conferir — respondeu o velho.
— Diz aqui no folheto — disse Arthur, sacando o papel do bolso e olhando novamente — que eu tenho direito a uma oração especial, criada especialmente para mim e para as minhas necessidades específicas.
— Ah, tá — disse o velho. — Vou lhe dar uma oração. Tem um lápis aí?
— Tenho — disse Arthur.
— É assim. Vamos lá: “Proteja-me de ficar sabendo daquilo que não preciso saber. Proteja-me até mesmo de ficar sabendo que existem coisas que não sei. Proteja-me de ficar sabendo que decidi não saber das coisas que decidi não saber. Amém.” É isso. É o mesmo que você fica rezando em silêncio dentro de sua cabeça, então pode falar em voz alta que não muda nada.
— Humm — disse Arthur. — Bem, obrigado...
— Tem uma outra oração que acompanha essa e é muito importante — continuou o velho. — É melhor anotar também.
— Certo.
— É assim: “Senhor, Senhor, Senhor...” É melhor acrescentar esta parte, por via das dúvidas. Prevenção nunca é demais: “Senhor, Senhor, Senhor. Proteja-me das consequências da oração anterior. Amém.” Pronto. A maior parte dos problemas que as pessoas enfrentam na vida vem do fato de elas deixarem essa parte de fora.
— Você já ouviu falar de um lugar chamado Stavromula Beta? — perguntou Arthur.
— Não.
— Bom, obrigado pela ajuda — disse ele.
— Não tem de quê — disse o homem sobre o poste, e desapareceu.

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