17 de dezembro de 2017

Capítulo 9

Aceitou outra cerveja e mandou ver.
— É claro, eu também tinha o meu alquimista particular.
— Você o quê?
Estava começando a falar besteiras e sabia disso. A mistura das melhores cervejas pretas da Exuberance, Hall e Wood-house era algo que impunha respeito, mas um dos seus primeiros efeitos era fazer com que você parasse de respeitar qualquer coisa, e a hora em que Arthur devia ter parado de explicar coisas foi justamente a hora em que começou a soltar sua criatividade.
— Isso aí! — insistiu ele com um alegre sorriso vidrado. — Por isso eu perdi tanto peso.
— Como assim? — perguntou a sua platéia.
— Isso aí! — repetiu ele. — Os californianos redescobriram a alquimia. Isso aí!
Sorriu novamente.
— Só que — disse ele — de um jeito muito mais útil do que aquele que... — Ele parou, pensativo, para deixar um pouquinho de gramática reunir-se na sua cabeça. — Aquele que os antigos costumavam praticar. Ou, pelo menos — acrescentou ele —, não conseguiam praticar. Eles não conseguiam fazer nada disso funcionar, sabem? Nostradamus e todo o pessoal. Não davam uma dentro.
— Nostradamus? — perguntou alguém na platéia.
— Eu não sabia que ele era alquimista — comentou outro.
— Eu pensava — disse um terceiro — que ele fosse um profeta.
— Ele virou profeta — explicou Arthur para a sua platéia, cujos membros começavam a oscilar e a ficar um pouco indistintos — justamente porque era um péssimo alquimista. Vocês deveriam saber disso.
Deu outro gole na cerveja. Era algo que não provava há oito anos. Provava e provava.
— O que a alquimia tem a ver — perguntou um borrão na audiência — com a perda de peso?
— Foi bom você ter perguntado — disse Arthur. — Muito bom. E eu agora vou explicar pra vocês qual é a relação entre... — Fez uma pausa. — Entre essas duas coisas. Essas que vocês mencionaram. Eu vou explicar.
Parou e manobrou os seus pensamentos. Era como assistir a um navio-petroleiro executando uma inversão de curso em três movimentos no canal da Mancha.
— Eles descobriram como transformar o excesso de gordura no corpo em ouro — disse ele, em um súbito acesso de coerência.
— Tá brincando.
— Isso aí! — disse ele. — Quer dizer, não — corrigiu —, é sério. Olhou para a parte da sua platéia que estava desconfiada, o que era basicamente a platéia toda, então demorou um pouco mais para olhar todo mundo.
— Vocês já foram à Califórnia? — perguntou ele. — Vocês sabem o que eles fazem por lá?
Três membros da platéia responderam que sim e que ele estava falando besteira.
— Vocês não viram nada — insistiu Arthur. — Isso aí! — acrescentou ele, porque alguém estava se oferecendo para pagar mais uma rodada.
— A prova — disse ele, apontando para si mesmo e errando por poucos centímetros — está diante dos seus olhos. Quatorze horas em transe — disse ele — em um tanque. Em transe. Eu estava em um tanque. Acho — acrescentou ele, após uma breve reflexão — que já disse isso.
Esperou, paciente, enquanto a nova rodada era devidamente distribuída. Já havia composto a próxima parte da história na sua cabeça, que ia ser algo sobre o tanque ter de ser orientado de acordo com uma linha traçada perpendicularmente da Estrela Polar até uma linha imaginária traçada entre Marte e
Vênus e estava começando a tentar dizer isso quando decidiu deixar para lá.
— Muito tempo — disse, em vez disso — em um tanque. Em transe. — Olhou severamente para a platéia, para ter certeza de que todos estavam ouvindo com atenção.
Tornou a falar.
— Onde é que eu estava mesmo? — perguntou.
— Em transe — disse um.
— No tanque — disse outro.
— Isso aí! — disse Arthur. — Obrigado. E aos poucos, bem aos poucos, todo o excesso de gordura... se transforma... em... — fez uma pausa para dar mais efeito — ...ouro subicoo... subconan... subtucân... — parou para respirar — ...ouro subcutâneo e você pode fazer uma cirurgia para retirá-lo do seu corpo. Sair do tanque é um inferno. O que você disse?
— Eu só estava limpando a garganta.
— Eu acho que você não está acreditando em mim.
— Eu estava limpando a garganta.
— Ela estava limpando a garganta — confirmou uma parte significativa da platéia em um sussurro.
— Isso aí — disse Arthur —, tudo bem. E então você divide o ouro... — parou novamente para fazer as contas — ...meio a meio com o alquimista. Ganha muito dinheiro!
Olhou girando para a sua platéia e não pôde deixar de perceber um ar de ceticismo em seus rostos confusos.
Tomou aquilo como uma afronta pessoal.
— De que outro modo — perguntou ele — eu teria dinheiro para pagar um envelhecimento facial?
Braços amigos começaram a ajuda-lo a ir para casa.
— Vejam bem — protestou, enquanto a brisa gelada de fevereiro tocava o seu rosto —, parecer maduro é a última moda na Califórnia atualmente. Você tem que parecer alguém que já viu a Galáxia. A vida, quero dizer. Você tem que parecer alguém que já viu a vida. Tá na cara, dei uma envelhecida. Manda aí uns oito anos, eu disse. Só espero que ter trinta anos não volte à moda, senão gastei uma fortuna à toa.
Ficou em silêncio por alguns minutos, enquanto os braços amigos continuavam a ajudá-lo.
— Voltei ontem — murmurou ele. — Estou muito feliz de estar em casa. Ou em algum lugar muito parecido...
— Jet lag — sussurrou um dos seus amigos. — Viagem longa, da Califórnia pra cá. Derruba qualquer um por alguns dias.
— Eu acho que ele nem esteve lá — cochichou um outro. — Onde será que ele estava? E o que será que aconteceu com ele?
Após um cochilo, Arthur se levantou e zanzou um pouco pela casa. Estava meio alto e um pouco deprimido, ainda meio perdido por causa da viagem. Estava pensando em como faria para encontrar
Fenny.
Sentou-se e ficou olhando para o aquário. Deu uma batidinha com a unha e, apesar de ele estar cheio d'água e com o pequeno peixe-babel amarelo borbulhando desanimado lá dentro, o som que ele produziu foi profundo e ressonante, tão claro e hipnótico quanto antes.
“Alguém está tentando me agradecer”, pensou. Perguntou-se quem e por quê. 

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