14 de dezembro de 2017

Capítulo 9

Outro mundo, outro dia, outro amanhecer. O primeiro tênue raio de luz matinal apareceu sem alarde. Muitos bilhões de trilhões de toneladas de núcleos de hidrogênio superaquecidos explodindo se levantaram aos poucos sobre o horizonte e conseguiram parecer pequenos, frios e ligeiramente úmidos.
Há um momento em cada amanhecer no qual a luz parece flutuar e tudo parece mágico. A criação prende a respiração.
O momento passou sem incidentes, como habitualmente ocorre em Squornshellous Zeta. A névoa aderia à superfície dos pântanos, acinzentando as nissáceas e borrando os altos juncos. Pairava estática como uma respiração presa.
Nada se movia.
Silêncio.
O sol lutou sem convicção com a névoa, tentando gerar um pouco de calor aqui, irradiar um pouco de luz ali, mas claramente aquele dia seria outro penoso percurso através do céu.
Nada se movia.
Novamente silêncio.
Nada se movia.
Silêncio.
Em Squornshellous Zeta, frequentemente dias inteiros transcorriam assim, e, de fato, parecia que seria mais um deles. Quatorze horas mais tarde o sol afundou no horizonte oposto desanimado, sentindo que todo o seu esforço fora em vão. Algumas horas depois reapareceu, ajeitou os ombros e começou a galgar o céu novamente. Desta vez, contudo, algo estava acontecendo. Um colchão havia acabado de encontrar um robô.
— Oi, robô — disse o colchão.
— Bah — respondeu o robô, continuando com o que estava fazendo, que era se arrastar, penosa e vagarosamente, em um círculo muito pequeno.
— Feliz? — perguntou o colchão.
O robô parou e lançou um olhar interrogativo para o colchão. Era claramente um colchão muito idiota. O colchão retornou um olhar arregalado.
Depois de calcular, com precisão de dez casas decimais, a duração exata da pausa que mais provavelmente transmitiria um total desprezo por todas as criaturas colchonéticas, o robô continuou a andar em pequenos círculos.
— Poderíamos conversar — disse o colchão. — Você gostaria de conversar?
Era um colchão grande e provavelmente de alta qualidade. Pouquíssimas coisas são fabricadas hoje em dia, já que, em um Universo infinitamente grande — tal como, por exemplo, aquele em que vivemos —, a maioria das coisas que se possa imaginar e muitas outras coisas, que no geral é preferível não imaginar, crescem em algum lugar. (Recentemente foi descoberta uma floresta onde muitas das árvores dão frutos que são chaves de catraca. O ciclo de vida do fruto de chaves de catraca é bem interessante. Uma vez colhido, é necessário guardá-lo dentro de uma gaveta escura e poeirenta na qual possa permanecer esquecido durante anos. Então, uma noite ele eclode, livrando-se de sua casca externa, que se desfaz em pó, e ressurge como um pequeno objeto de metal impossível de ser identificado, com roscas nas duas pontas e uma espécie de sulco e uma espécie de buraco para parafusos. Quando encontrado, esse objeto será jogado fora. Ninguém sabe o que o fruto tem a ganhar com isso. A Natureza, em sua infinita sabedoria possivelmente está trabalhando no assunto.)
Ninguém sabe tampouco o que os colchões têm a ganhar com suas vidas. São criaturas grandes, amigáveis e cheias de molas que levam vidas tranquilas e pacatas nos pântanos de Squornshellous Zeta. Muitos são capturados, cruelmente mortos, secados, despachados e usados para as pessoas dormirem. Nenhum deles parece se importar com isso e todos se chamam Zem.
— Não — respondeu Marvin.
— Meu nome — prosseguiu o colchão — é Zem. Poderíamos falar um pouco sobre o tempo, talvez.
Marvin fez outra pausa em sua penosa marcha circular.
— O orvalho — observou — realmente caiu com um ruído particularmente detestável esta manhã.
Continuou a andar como se aquele ímpeto comunicativo o tivesse inspirado a atingir revigorantes patamares de melancolia e desânimo. Ele arrastou-se obstinadamente. Se tivesse dentes, poderia rangê-los naquele momento. Não tinha. Não podia. O simples ato de se arrastar já dizia tudo.
O colchão flopolou em volta. Só colchões vivos em pântanos são capazes de fazer isso, o que explica por que a palavra não é usada mais frequentemente. Ele flopolou de forma simpática, movendo uma boa quantidade de água ao fazê-lo. Soprou algumas bolhas na água por diversão. Suas listras azuis e brancas brilharam rapidamente em um raio de sol que, inesperadamente, havia conseguido atravessar a névoa, fazendo com que a criatura se aquecesse por um instante.
Marvin arrastou-se.
— Você está pensando em alguma coisa, não é? — disse o colchão, flupidamente.
— Muito mais do que você seria capaz de imaginar — disse Marvin, pesaroso. — Minha capacidade para atividades mentais de todos os tipos é tão ilimitada quanto a infinita imensidão do próprio espaço. Exceto, claro, no que diz respeito à minha capacidade de ser feliz.
Tunc, tunc, prosseguiu ele.
— Minha capacidade para ser feliz — acrescentou — poderia ser colocada numa caixa de fósforos, sem tirar os fósforos antes.
O colchão gotejamingou. Este é o ruído feito por um colchão vivo em seu habitat natural, o pântano, quando profundamente tocado por uma história de tragédia pessoal. A palavra também pode significar, de acordo com O Dicionário Maximegalon Ultracompleto de Todas as Línguas Desde Sempre, o ruído feito pelo Lorde High Sanvalvwag de Hollop ao descobrir que havia se esquecido do aniversário de sua mulher pelo segundo ano consecutivo. Já que houve um único Lorde High Sanvalvwag de Hollop e como ele nunca se casou, a palavra só é usada com um sentido negativo ou especulativo, e tem crescido o número de pessoas que acreditam que o Dicionário Maximegalon não vale a frota de caminhões necessária para transportar sua edição microarmazenada. Mais curioso ainda é o fato de que o dicionário omite a palavra “flupidamente”, que significa apenas “de forma flúpida”.
O colchão gotejamingou novamente.
— Posso sentir um profundo desalento em seus diodos — ele voluiu (para saber o significado de “voluir”, compre uma cópia do Jargão dos Pântanos de Squornshellous em qualquer sebo ou, se preferir, compre o Dicionário Maximegalon Ultracompleto, já que a Universidade de Maximegalon certamente ficaria feliz em se livrar dele e voltar a usar um enorme espaço de seu estacionamento) — e isso me deixa triste. Você deveria ser mais colchonesco. Levamos vidas tranquilas e pacatas nos pântanos e nos contentamos em flopolar e voluir e observar a umidade com grande flupidez. Alguns de nós são mortos, mas, como todos nos chamamos Zem então nunca sabemos quem foi e, assim, gotejamingamos muito pouco. Por que você está andando em círculos?
— Porque minha perna está com defeito — respondeu Marvin seco.
— Me parece — disse o colchão, penalizado — que é uma perna bem ruinzinha.
— Você está certo — disse Marvin. — De fato é.
— Vuum — respondeu o colchão.
— Espero que sim — disse Marvin — e também espero que você ache muito engraçada a ideia de um robô com uma perna artificial. Você deveria contar isso quando encontrar seus amigos Zem e Zem mais tarde. Eles irão achar graça, se os conheço bem, mas obviamente não os conheço, a não ser na exata medida que conheço todas as formas de vida orgânica, ou seja, muito mais do que eu gostaria. Ah, mas a minha vida nada é senão uma caixa de engrenagens sem fim.
Ele continuou estompeando em torno de seu pequeno círculo, em torno de sua fina perna, uma estaca de metal que se arrastava na lama, mas ainda assim parecia emperrada.
— Mas por que você continua a andar em círculos? — perguntou o colchão.
— Só para deixar isso bem claro — disse Marvin, que continuou girando.
— Está claro, prezado amigo — flurbulou o colchão —, está bem claro.
— Só por mais alguns milhões de anos — disse Marvin —, uns poucos milhões. Depois vou tentar andar para trás. Para variar um pouco, entende.
O colchão podia sentir, no mais profundo de suas molas, que o robô queria muito que lhe perguntassem há quantos anos estava marchando daquela forma fútil e infrutífera. Foi o que ele fez, com outra flurbulação silenciosa.
— Há pouco tempo passei da marca de 1,5 milhão de anos — disse Marvin, aéreo. — Pergunte-me se em algum momento me sinto chateado, vamos, pergunte-me.
O colchão perguntou.
Marvin ignorou a pergunta, apenas se arrastou com mais determinação.
— Fiz um discurso uma vez — disse ele, do nada, e aparentemente sem qualquer conexão com o assunto. — Você talvez não entenda por que estou tocando neste assunto, mas é só porque minha mente funciona tão fenomenalmente rápido e sou, em uma estimativa genérica, 30 bilhões de vezes mais inteligente que você. Deixe-me lhe dar um exemplo. Pense em um número, qualquer número.
— Ahn... cinco — disse o colchão.
— Errado — respondeu Marvin. — Você entende agora?
O colchão ficou muito impressionado por isso e percebeu que estava na presença de uma mente invulgar. Ele uilomeou ao longo de todo o seu corpo, gerando pequenas ondulações excitadas ao longo de sua poça coberta por algas.
Glupou.
— Conte-me — pediu, animado — sobre o seu discurso, eu adoraria ouvi-lo.
— Foi muito mal recebido — disse Marvin —, por uma série de motivos. Eu fiz esse discurso a cerca de um quilômetro e meio naquela direção — acrescentou, fazendo uma pausa numa tentativa de apontar que resultou num gesto estranho com seu braço que não estava exatamente bem. O seu braço que estava melhor era o que estava deprimentemente soldado a seu lado esquerdo.
Estava apontando tão bem quanto podia, e obviamente queria deixar bem claro que aquilo era o melhor que podia fazer através da névoa, sobre os juncos, indicando uma parte do pântano que se parecia exatamente com qualquer outra parte do pântano.
— Ali — repetiu. — Eu era uma espécie de celebridade na época.
O colchão foi tomado por grande excitação. Nunca tinha ouvido falar que alguém tivesse feito um discurso em Squornshellous Zeta, sobretudo não uma celebridade. Gotas d’água respingaram dele enquanto um tremor de excitação gluriou por suas costas.
Ele fez algo que os colchões muito raramente se dão ao trabalho de fazer. Reunindo cada átomo de sua força, ele curvou seu corpo retangular, elevou-o no ar e o manteve tremendo por lá durante alguns segundos enquanto tentava olhar, através da névoa, sobre os juncos, na direção do pântano que havia sido indicada por Marvin, notando, sem nenhum desapontamento, que era exatamente igual a qualquer outra parte do pântano.
Foi esforço demais, e ele acabou flogando de volta em sua poça, encharcando Marvin com uma lama fedorenta, musgo e ervas daninhas.
— Eu fui uma celebridade — prosseguiu o robô em tom monocórdio — durante um curto período de tempo devido à minha miraculosa escapada (da qual muito me ressinto) de um destino quase tão bom quanto a morte no coração de um sol resplandecente. Você pode perceber, olhando para a minha condição atual — acrescentou —, por quão pouco escapei. Fui salvo por um vendedor de ferro-velho, imagine só. Aqui estou, com um cérebro do tamanho de um... ah, deixa pra lá.
Arrastou-se novamente por mais algum tempo.
— Foi ele que me arrumou esta perna. Odiosa, não é? Me vendeu para um Zoológico Mental. Eu era a estrela da exposição. Tinha que ficar sentado em uma caixa e contar a minha história enquanto as pessoas me diziam para me animar e pensar de forma positiva. “Dê um sorriso, robozinho”, gritavam eles, “dê uma risada.” Nessa hora eu geralmente explica-que, para fazer meu rosto sorrir, levaria algumas horas em uma oficina com um alicate, o que resolvia bem a situação.
— O discurso — insistiu o colchão. — Quero muito ouvir o discurso que você deu no pântano.
— Uma ponte ia ser construída através dos pântanos. Era uma hiperponte ciberestruturada, com centenas de quilômetros de extensão, para carregar carroças iônicas e transportes de cargas por cima do pântano.
— Uma ponte? — inquirulou o colchão. — Aqui no pântano?
— Sim, uma ponte — confirmou Marvin —, aqui no pântano. A ideia é que ela revitalizasse a economia do Sistema de Squornshellous. Dedicaram todos os recursos da economia do Sistema de Squornshellous para construí-la. E me pediram para inaugurá-la. Pobres tolos.
Uma chuva fina começou a cair através da névoa.
— Lá estava eu na plataforma. Por centenas de quilômetros à minha frente e centenas de quilômetros atrás de mim estendia-se a ponte.
— Ela reluzia? — perguntou o colchão, entusiasmado.
— Sim, reluzia.
— Atravessava as milhas majestosamente?
— Sim, atravessava as milhas majestosamente.
— Alongava-se como um fio de prata até se tornar invisível em meio à névoa?
— Sim — disse Marvin. — Você quer ou não ouvir a história?
— Quero ouvir o seu discurso — respondeu o colchão.
— Eis o que eu disse. Disse: “Gostaria de dizer que é um grande prazer, uma enorme honra e um privilégio para mim inaugurar esta ponte, mas não posso fazer isso porque todos os meus circuitos de falsidade estão fora de ação. Eu odeio desprezo todos vocês. A partir deste momento, declaro esta miserável ciberestrutura aberta aos abusos inimagináveis de todos aqueles que irão petulantemente cruzá-la.” Em seguida me conectei aos circuitos de abertura.
Marvin fez uma pausa enquanto se lembrava da ocasião.
O colchão flureou e gluriou. Ele flopolou, glupou e uilomeou de uma forma particularmente flúpida.
— Vuum — vurfou por fim. — E foi uma ocasião magnífica?
— Razoavelmente magnífica. A ponte de 1.500 quilômetros em toda a sua extensão, espontaneamente redobrou-se em sua cintilante travessia e submergiu, chorando, no lodo, levando todos junto com ela.
Houve uma triste e terrível pausa neste ponto da conversa, durante a qual a 100 mil pessoas pareceram ter dito “uop” inesperadamente e um time de robôs brancos desceu do céu como sementes de dentes-de-leão esvoaçando pelo vento em formação militar cerrada.
Durante um curto e violento momento estavam todos lá, no pântano, arrancando a perna falsa de Marvin e, logo em seguida, estavam de volta em sua nave, que fez “fuop”.
— Você entende o tipo de coisa que tenho que aturar? — disse Marvin para o colchão goberingante.
Então, logo em seguida, os robôs voltaram para outro incidente violento e, desta vez, quando partiram, o colchão estava sozinho no pântano. Ele flopolou em volta, perplexo e assustado. Quase lurglou de medo. Suspendeu a si mesmo para ver por cima dos juncos, mas não havia nada para ver a não ser mais juncos.
Prestou atenção aos sons, mas o único som vindo com o vento era o já familiar ruído de alguns etimologistas semi-enlouquecidos gritando à distância, uns para os outros, através do lodo fedorento.

Um comentário:

  1. Colchão vivo conversando com um robô depressivo que anda em círculos por milhares de anos no meio do pântano.
    .-.

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Boa leitura :)