7 de dezembro de 2017

Capítulo 9

O ar em torno do segundo planeta do sistema Astros-sapo era viciado e insalubre.
Os ventos úmidos que varriam constantemente sua superfície sopravam sobre pântanos salgados, charcos ressequidos, um emaranhado de vegetação putrefata e ruínas de cidades desmoronadas. Nenhuma forma de vida movia-se sobre sua superfície. O solo, como o de muitos planetas dessa região da Galáxia, estava deserto há muito tempo.
O uivo do vento era bastante desolador quando cortava as velhas casas decadentes das cidades; era ainda mais desolador quando dava lufadas nas bases das altas torres negras que oscilavam aqui e ali pela superfície desse mundo. No topo dessas torres viviam colônias de grandes aves descarnadas que cheiravam mal, os únicos sobreviventes da civilização que outrora vivera ali.
O uivo do vento era mais desolador do que nunca porém, quando passava sobre um lugarzinho de nada no meio de uma ampla planície cinzenta nos arredores da maior das cidades abandonadas.
Esse lugarzinho de nada era o que tinha dado a esse planeta a reputação de ser o lugar mais totalmente maligno da Galáxia. De fora era apenas um domo de aço de cerca do quinze metros de diâmetro. Por dentro era algo mais monstruoso do que a mente possa compreender.
A uns cento e cinquenta metros dali, separado por uma faixa crestada e bexiguenta da terra mais infecunda que se possa imaginar, ficava o que talvez pudesse ser descrito como um sofrível campo de pouso. Isso para dizer que espalhados por uma área ampla estavam as carcaças desajeitadas de duas ou três dúzias de edifícios que tinham sofrido uma aterrissagem forçada.
Uma mente esvoaçava em torno desses edifícios, uma mente que estava à espera de alguma coisa.
A mente dirigiu sua atenção para o espaço, e dentro de pouco tempo surgiu um pontinho na distância rodeado por um anel de pontinhos menores. O pontinho maior era a torre esquerda do edifício de escritórios do Guia da Galáxia para Caronas penetrando na estratosfera do Planeta Astrossapo B. Enquanto ele descia, Roosta subitamente quebrou o longo e desconfortável silêncio que tinha crescido entre os dois. Levantou-se e enfiou sua toalha numa mala. Disse:
— Beeblebrox, agora eu vou fazer a coisa para a qual eu fui mandado.
Zaphod olhou para ele de onde estava, sentado num canto trocando ideias não enunciadas com Marvin.
— Ah, é? — disse ele.
— O edifício vai aterrissar em breve. Quando você for sair, não saia pela porta — disse Roosta —, saia pela janela.
— Boa-sorte — acrescentou, e saiu pela porta, desaparecendo da vida de Zaphod tão misteriosamente quanto tinha entrado.
Zaphod pulou e tentou abrir a porta, mas Roosta já a tinha trancado. Deu de ombros e voltou para o seu canto.
Dois minutos mais tarde o prédio espatifou-se no chão no meio dos outros destroços. A escolta de Lutadores Astrossapos desativou os raios de força e elevou-se no ar novamente, rumo ao Planeta Astrossapo A, um lugar completamente mais agradável. Eles nunca pousaram no Planeta Astrossapo B. Ninguém jamais pousava. Ninguém jamais andava por sua superfície a não ser as futuras vítimas do Vórtice de Perspectiva Total.
Zaphod ficou muito abalado com o choque da aterrissagem. Ficou deitado por um tempo no silencioso monturo de poeira a que se tinha reduzido a maior parte da sala. Sentiu que estava na fase mais decadente de sua vida. Sentia-se desnorteado, sentia-se só, sentia-se sem amor. Por fim sentia que devia passar por cima do que quer que fosse.
Olhou pela sala quebrada e destruída. A parede em torno da porta tinha partido e a porta estava aberta, dependurada. A janela, por algum milagre, estava inteira e fechada. Hesitou por um instante e então pensou que se aquele seu estranho companheiro recente tinha passado por tudo aquilo por que tinha passado apenas para lhe dizer aquilo que lhe tinha dito, devia ter uma boa razão. Abriu a janela com a ajuda de Marvin. Do lado de fora, a nuvem de poeira levantada pela aterrissagem e os destroços dos outros edifícios ao redor efetivamente impediam que Zaphod pudesse ver qualquer coisa do mundo lá fora.
Não que isso lhe importasse muito. Sua principal preocupação foi com o que viu ao olhar para baixo. O escritório de Zarniwoop ficava no décimo quinto andar. O edifício tinha pousado numa inclinação de uns quarenta e cinco graus, mas ainda assim a descida era de apertar o coração.
Finalmente, irritado com a série de olhares insolentes que Marvin lhe dirigia, respirou fundo e saiu para fora, para a parede íngreme do edifício. Marvin o seguiu e juntos começaram a arrastar-se devagar e penosamente para descer os quinze andares que os separavam do solo.
Enquanto descia, o ar putrefato sufocava os pulmões de Zaphod, seus olhos ardiam, e a terrível altura fazia suas cabeças girarem.
O comentário fortuito de Marvin do tipo “É esse o tipo de coisa que vocês, seres vivos, gostam de fazer? Estou perguntando apenas a título de informação” contribuiu muito pouco para melhorar seu estado de espírito.
Na metade da descida pelo edifício estraçalhado pararam para descansar. Sentado ali, ofegante de medo e de cansaço, Zaphod achou que Marvin parecia um pouquinho mais animado do que de costume. Por fim, ele se deu conta de que não era bem isso. O robô apenas parecia mais animado em comparação com o ânimo de Zaphod.
Um imenso pássaro preto asqueroso surgiu batendo as asas através da nuvem de poeira que assentava lentamente e, estirando as garras esqueléticas, pousou sobre uma janela inclinada a alguns metros de Zaphod. Dobrou suas asas desajeitadas e ficou balançando desagradavelmente em seu poleiro.
A envergadura das asas devia ser de cerca de três metros, e o pescoço e a cabeça pareciam curiosamente grandes para uma ave. A cara era achatada e o bico não muito desenvolvido, e na metade das asas vestígios de algo em forma de mãos podiam ser vistos claramente.
Para falar a verdade, tinha aparência quase humana.
Dirigiu os olhos pesados para Zaphod e bateu o bico de modo desconexo.
— Vá embora — disse Zaphod.
— OK — disse o pássaro morosamente e saiu voando em meio à nuvem de poeira.
Zaphod observou atordoado a sua partida.
— Aquele pássaro falou comigo? — perguntou a Marvin nervosamente. Estava preparado para crer na explicação alternativa, de que estava na verdade tendo alucinações.
— Falou — confirmou Marvin.
— Pobres almas — disse uma voz profunda e etérea no ouvido de Zaphod.
Virando-se violentamente para descobrir de onde vinha a voz, Zaphod quase caiu do prédio. Agarrou-se desesperado na saliência de uma janela e cortou a mão. Segurou-se, respirando com dificuldade.
A voz não vinha de nenhum lugar visível que fosse — não havia ninguém ali.
Mesmo assim, falou de novo.
— Uma trágica história por trás deles, sabe? Uma praga terrível.
Zaphod olhou atordoado à sua volta. A voz era profunda e calma. Em outras circunstâncias poderia ser definida como reconfortante. Não há, no entanto, nada de reconfortante em ser chamado por uma voz sem corpo vinda do nada, principalmente quando se está, como Zaphod Beeblebrox, fora de sua melhor forma e pendurado num parapeito no oitavo andar de um edifício que se espatifou.
— Ei, ahn... — gaguejou.
— Quer que eu lhe conte a estória deles? — inquiriu calmamente a voz.
— Ei, quem é você — perguntou Zaphod, ofegante. — Onde você está?
— Talvez mais tarde, então — murmurou a voz. — Eu sou Gargravarr. Sou o Guardião do Vórtice de Perspectiva Total.
— Por que eu não o vejo?...
— Você terá sua descida enormemente facilitada — falou mais alto a voz — se se dirigir a uns seis metros a sua esquerda. Por que não tenta?
Zaphod olhou e viu uma série de pequenas ranhuras horizontais que chegavam até o solo. Agradecido, arrastou-se até elas.
— Por que não nos encontramos lá embaixo? — disse a voz em seu ouvido, diminuindo enquanto falava.
— Ei — gritou Zaphod. — Onde está você?
— Você só vai levar alguns minutos... — disse a voz, quase sumindo.
— Marvin — disse Zaphod gravemente ao robô que se encontrava acocorado e deprimido próximo a ele —, por acaso... por acaso uma voz acabou de...
— Sim — respondeu Marvin sucintamente. Zaphod balançou a cabeça. Pegou seus óculos escuros perigo-sensitivos outra vez. As lentes estavam completamente pretas, e desta vez muito riscadas por causa do inesperado objeto de metal em seu bolso. Ele os colocou. Encontraria o caminho para descer do prédio com mais conforto se não precisasse ver efetivamente o que estava fazendo.
Minutos mais tarde estava andando sobre os destroços da base do edifício. Tirou os óculos e pulou para o chão.
Marvin o alcançou logo em seguida e estendeu-se de bruços sobre a poeira e os entulhos, posição da qual não parecia muito inclinado a mudar-se.
— Ah, aí está você — disse de repente a voz no ouvido de Zaphod. — Desculpe-me por tê-lo deixado sozinho daquele jeito, mas é que eu tenho um estômago péssimo para altura. Ou pelo menos — acrescentou melancolicamente — eu tinha um estômago péssimo para altura.
Zaphod olhou ao redor com cuidado, vagarosamente, apenas para ver se tinha deixado de notar alguma coisa que pudesse ser a fonte da voz. Tudo o que viu, no entanto, foi poeira, entulho e as formas gigantescas dos prédios à sua volta.
— Ei, ahn, por que eu não te vejo? — perguntou. — Por que você não está aqui?
— Eu estou aqui — disse a voz, devagar. — Meu corpo queria vir, mas estava meio ocupado no momento. Umas coisas para fazer, ver umas pessoas... — Após algo que pareceu um suspiro etéreo acrescentou: — Você sabe como são os corpos.
Zaphod não tinha muita certeza a esse respeito.
— Eu pensava que sabia — respondeu.
— Só espero que ele esteja repousando — continuou a voz. — Do jeito que ele vem vivendo ultimamente, não vai muito para lá dos cotovelos.
— Cotovelos? — disse Zaphod. — Você não quer dizer pernas?
A voz não disse nada por alguns instantes. Zaphod olhou à sua volta, pouco à vontade. Não sabia se ela tinha ido embora, se ainda estava ali ou o que estaria fazendo. A voz falou de novo.
— Então você está para ser colocado no Vórtice, é?
— Ahn, bom... — disse Zaphod, num esforço muito pobre de mostrar indiferença — não tem muita pressa, sabe? Acho que primeiro vou relaxar e dar uma olhada na paisagem do lugar, sabe?
— Você viu a paisagem do lugar? — perguntou a voz de Gargravarr.
— Ahn, não.
Zaphod trepou pelos entulhos, e deu a volta num dos prédios que lhe impediam a vista. Olhou a paisagem do Planeta Astrossapo B.
— Ah, OK — disse —, só vou relaxar, então.
— Não — disse Gargravarr. — O Vórtice está pronto para você já. Você tem que vir. Siga-me.
— Ahn, é? — disse Zaphod. — E como espera que eu o faça?
— Vou zunir para você — disse Gargravarr. — Você segue o zunido.
Um suave ruído agudo cortou o ar. Um som pálido e triste que parecia não ter nenhuma espécie de foco. Só escutando com bastante cuidado Zaphod conseguiu detectar a direção de onde vinha. Devagar, aturdido, foi cambaleando em sua esteira. O que mais poderia fazer?

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Boa leitura :)