17 de dezembro de 2017

Capítulo 8

Arthur acordou sentindo-se ótimo, absolutamente fabuloso, descansado, super feliz por estar em casa, cheio de energia e nada decepcionado ao descobrir que estava em meados de fevereiro.
Foi praticamente dançando até a geladeira, catou as três coisas menos assustadoras que estavam lá dentro, colocou-as no prato e observou-as fixamente por dois minutos. Já que não fizeram menção de se mexer durante esse período, chamou-as de café-da-manhã e comeu-as.
Juntas, elas neutralizaram uma doença espacial virulenta que ele havia contraído sem saber nos Pântanos Gasosos de Flargathon alguns dias antes que, do contrário, teria matado metade da população do hemisfério ocidental, cegado a outra metade e deixado todo o resto psicótico e estéril, de modo que a Terra teve sorte.
Sentia-se forte, sentia-se saudável. Pegou uma pá e jogou fora as correspondências inúteis vigorosamente. Depois enterrou o gato.
Justo quando estava terminando o serviço, o telefone tocou, mas ele deixou tocar, mantendo um minuto de silêncio respeitoso. Seja lá quem fosse, ligaria novamente se fosse algo importante.
Limpou a lama dos sapatos e voltou para dentro de casa.
Conseguiu encontrar umas poucas cartas importantes no meio daquela montoeira de lixo, alguns documentos do conselho, datados de três anos atrás, sobre a suposta demolição da sua casa e algumas outras cartas sobre a instauração de uma investigação pública sobre o plano de construção de um desvio na área; havia também uma carta antiga do Greenpeace, o de ativistas ecológicos para o qual contribuía ocasionalmente, pedindo ajuda para o seu projeto de libertar golfinhos e orcas do cativeiro e alguns cartões-postais de amigos, reclamando vagamente que ele nunca mais tinha dado notícias.
Juntou tudo isso e colocou num arquivo de papelão, no qual escreveu “Coisas Para Fazer”.
Já que estava se sentindo bastante vigoroso e dinâmico naquela manhã, chegou até mesmo a acrescentar a palavra “Urgente!”.
Tirou a sua toalha e outras bugigangas esquisitas da sacola de compras que adquirira no Mega Mercado de Porto Brasta. O slogan impresso na sacola era um trocadilho inteligente e rebuscado no idioma centauriano, completamente incompreensível em qualquer outro idioma e, portanto, absolutamente sem sentido para uma loja de Duty Free em um espaçoporto. A sacola também estava furada, então ele a jogou fora.
Percebeu então que devia ter perdido outra coisa na pequena nave que o trouxera à Terra, gentilmente fazendo um desvio para deixá-lo próximo ao A303. Havia perdido a sua cópia surrada e desgastada daquilo que o ajudara a encontrar o seu caminho através das incríveis imensidões espaciais que ele cruzara. Havia perdido o Guia do Mochileiro das Galáxias.
“Bem”, pensou ele, “não devo precisar dele novamente.”
Tinha que fazer umas ligações.
Decidira como lidar com o volume de contradições que a sua volta para casa precipitara: ia simplesmente ignorá-lo.
Ligou para a BBC e pediu para falar com o diretor do seu departamento.
— Alô, oi, aqui quem fala é Arthur Dent. Escuta, desculpa ter faltado ao trabalho nos últimos seis meses, mas é que eu fiquei maluco.
— Ah, não tem problema, não. Achei que fosse algo no gênero. Acontece o tempo todo por aqui.
Quando é que você volta?
— Quando os porcos-espinhos param de hibernar?
— Durante a primavera, eu acho.
— Volto um pouquinho depois, então.
— Tudo bem.
Folheou as Páginas Amarelas e fez uma pequena lista com possíveis números de telefone.
— Alô, é do Hospital Old Elms? Bem, eu estou ligando para saber se posso dar uma palavrinha com Fenella, ah... Fenella. Meu Deus, como eu sou idiota, daqui a pouco vou esquecer o meu próprio nome, ah, Fenella — é ridículo, não é? É uma paciente de vocês, uma garota de cabelos escuros, deu entrada aí ontem à noite...
— Sinto muito, mas não temos nenhuma paciente chamada Fenella.
— Ah, não? Na verdade eu queria dizer Fiona, é claro, é que nós a chamamos de Fen...
— Sinto muito, adeus.
Click.
Seis conversas mais ou menos como essa começaram a desgastar o seu otimismo vigoroso e dinâmico, então decidiu que, antes que ele o abandonasse completamente, iria levá-lo par dar uma volta até o bar e exibi-lo para as pessoas.
Teve a ideia perfeita para explicar cada estranheza inexplicável sobre si mesmo de uma só vez, e assoviou para si mesmo abrir ao porta que tanto o intimidara na noite anterior.
— Arthur!!!
Sorriu alegremente diante dos olhares perplexos que o contemplavam de todos os cantos do pub e contou para todo mundo como havia se divertido na Califórnia do Sul.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!