7 de dezembro de 2017

Capítulo 8

— E aí, a gente vai ficar aqui sentado? — disse Zaphod, irritado. — O que esses caras aí fora estão querendo?
— Você, Beeblebrox — disse Roosta —, eles estão tentando levar você para o Planeta Astrossapo, o mundo mais completamente maligno de toda a Galáxia.
— Ah, é? — disse Zaphod. — Primeiro eles vão ter que vir me pegar.
— Eles vieram te pegar — disse Roosta —, olhe pela janela.
Zaphod olhou, e ficou estupefato.
— O chão está indo embora! — disse, engolindo em seco. — Para onde eles estão levando o chão?
— Eles estão levando o edifício — disse Roosta —, estamos sendo transportados pelo ar.
Nuvens velozes passaram pela janela do escritório.
Zaphod pôde ver mais uma vez do lado de fora o anel de Lutadores Astrossapos ao redor do edifício arrancado do solo. Uma rede de raios de força irradiava deles e mantinha a torre firmemente segura.
Zaphod balançou as cabeças, perplexo.
— O que eu fiz para merecer isso? — disse. — Eu entro num prédio e eles vêm e o levam embora.
— Não é com o que você fez que eles estão preocupados — disse Roosta —, mas com o que você vai fazer.
— Bom, e eu não tenho direito de me manifestar nessa estória?
— Você já teve, anos atrás. É melhor você se segurar, estamos prestes a fazer uma viagem veloz e acidentada.
— Se algum dia eu me encontrar — disse Zaphod — vou me dar uma surra tão grande que eu vou aprender o que é apanhar.
Marvin entrou desconsolado pela porta, encarou Zaphod com olhos acusadores, agachou-se num canto e se desligou.
Na ponte de comando da nave Coração de Ouro, tudo estava em silêncio. Arthur olhava para o anteparo à sua frente e pensava. Percebeu o olhar de Trillian, que o observava inquisitivamente. Olhou de novo para o anteparo.
Finalmente ele viu.
Pegou quatro quadrados pequenos de plástico e os colocou sobre o painel que estava diante do anteparo.
Os quatro quadrados continham as quatro letras E, X, C e E. Ele os colocou junto às letras, L, E, N, T e E.
— Excelente — disse ele —, valendo três vezes o valor da palavra. Acho que isso vai dar muitos pontos!
A nave sacolejou e espalhou algumas das letras pela enésima vez.
Trillian suspirou e começou a arrumá-las de novo.
Pelos corredores ecoavam os passos de Ford Prefect que andava pela nave dando pancadas nos instrumentos parados.
Por que a nave continuava a sacolejar?, pensou.
Por que sacudia e balançava?
Por que ele não conseguia descobrir onde eles estavam? Onde, afinal, eles estavam?
A torre esquerda do edifício-sede do Guia da Galáxia para Caronas atravessou o espaço interestelar numa velocidade jamais igualada por qualquer outro edifício de escritórios no Universo.
Numa sala, na metade do edifício, Zaphod Beeblebrox andava nervosamente a passos largos.
Roosta estava sentado num canto da mesa fazendo a manutenção rotineira da toalha.
— Ei, para onde você falou que este prédio estava indo mesmo? — perguntou Zaphod.
— Para o Planeta Astrossapo — disse Roosta —, o lugar mais completamente maligno do Universo.
— Eles têm comida lá? — disse Zaphod.
— Comida? Você está indo para o Astrossapo e está preocupado se eles têm comida?
— Sem comida eu não vou para o Astrossapo.
Pela janela eles não viam nada além da luz tremulante dos raios de força, e vagas formas esverdeadas que deviam ser as imagens distorcidas dos Lutadores Astrossapos. A essa velocidade o espaço em si era invisível e de fato irreal.
— Tome, chupe — disse Roosta, oferecendo sua toalha a Zaphod.
Zaphod o encarou como se esperasse que um cuco saltasse de sua testa, preso a uma mola.
— Está encharcada de nutrientes — explicou Roosta.
— Que espécie de cara é você, um comedor de porcaria ou coisa assim? — disse Zaphod.
— As listas amarelas são ricas em proteínas, as verdes contêm vitaminas C e complexo B, as florezinhas cor-de-rosa contêm extrato de germe de trigo.
Zaphod pegou e observou, maravilhado.
— E essas manchas marrons? — perguntou.
— Molho de churrasco — disse Roosta —, para quando eu enjoar de germe de trigo.
Zaphod cheirou, desconfiado.
Mais desconfiado ainda, chupou um dos cantos. Cuspiu fora.
— Argh — declarou.
— Ê — disse Roosta —, quando eu chupo esse canto eu sempre tenho que chupar um pouquinho do outro canto também.
— Por que — perguntou Zaphod, cheio de suspeita —, o que tem?
— Antidepressivos — disse Roosta.
— Não quero saber dessa toalha — disse Zaphod, devolvendo-a.
Roosta a pegou de volta, pulou da mesa, deu a volta e sentou na cadeira, levantando os pés.
— Beeblebrox — disse, colocando os braços atrás da cabeça —, você tem alguma ideia do que vai te acontecer no Planeta Astrossapo?
— Eles vão me dar de comer — arriscou Zaphod, esperançoso.
— Eles vão te dar de comer — disse Roosta — ao Vórtice de Perspectiva Total!
Zaphod nunca tinha ouvido falar nisso. Ele acreditava já ter ouvido falar de todas as coisas divertidas da Galáxia, de forma que calculou que o Vórtice de Perspectiva Total não devia ser divertido. Perguntou a Roosta o que era.
— Apenas — disse Roosta — a mais selvagem das torturas psíquicas a que se pode submeter um ser consciente.
Zaphod balançou a cabeça resignado.
— Quer dizer então — disse ele — que não tem comida, né?
— Ouça! — disse Roosta insistentemente — Você pode matar um homem, destruir seu corpo, quebrar seu espírito, mas apenas o Vórtice de Perspectiva Total pode aniquilar a alma de um homem! O tratamento dura alguns segundos, mas os efeitos duram o resto da vida!
— Você já tomou uma Dinamite Pangaláctica? — perguntou Zaphod vivamente.
— É pior.
— Urras! — admitiu Zaphod, muito impressionado.
— Tem alguma ideia de por que esses caras estão querendo fazer isso comigo? — acrescentou um momento mais tarde.
— Eles acreditam que essa é a melhor maneira de destruir você para sempre. Eles sabem do que você está atrás.
— Será que eles não podiam me dar um toque e me deixar saber também?
— Você sabe, Beeblebrox — disse Roosta —, você sabe. Você quer encontrar o homem que rege o Universo.
— Ele sabe cozinhar? — disse Zaphod. Refletindo um pouco, acrescentou: — Duvido. Se ele soubesse preparar uma boa refeição por que iria importar-se com o resto do Universo? Eu quero encontrar um cozinheiro.
Roosta suspirou pesadamente.
— O que você está fazendo aqui, de qualquer forma? — perguntou Zaphod. — O que você tem a ver com tudo isso?
— Sou apenas um dos que planejaram a coisa, junto com Zarniwoop, junto com Yooden Vranx, junto com seu bisavô, junto com você, Beeblebrox.
— Comigo?
— É, com você. Me disseram que você tinha mudado, eu não imaginava quanto.
— Mas...
— Estou aqui para fazer uma coisa. Vou fazer antes de deixar você.
— Que coisa, cara? Do que você está falando?
— Vou fazer antes de deixar você.
Roosta mergulhou num silêncio impenetrável. Zaphod ficou contentíssimo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)