7 de dezembro de 2017

Capítulo 7

Marvin ficou de pé no fim do corredor da ponte. Na verdade ele não era exatamente um robô pequeno. Seu corpo de prata reluzia nos raios de sol empoeirados e agitava-se com o contínuo bombardeio que o prédio continuava sofrendo.
Ele parecia, no entanto, miseravelmente pequeno diante do gigantesco tanque negro que parou na sua frente. O tanque o examinou detalhadamente com uma sonda. Retraiu a sonda.
Marvin ficou ali parado.
— Fora do meu caminho, robozinho — rugiu o tanque.
— Lamento — disse Marvin —, mas fui deixado aqui para detê-lo.
A sonda estendeu-se de novo para uma rápida conferida. Retraiu-se outra vez.
— Você? Me deter? — urrou o tanque. — Qual é?
— Não, é verdade, realmente — disse Marvin simplesmente.
— Com o que você está armado? — urrou o tanque, incrédulo.
— Adivinha — disse Marvin.
Os motores do tanque retumbaram, as engrenagens rangeram. As peças eletrônicas do tamanho de moléculas no fundo de seu microcérebro vibravam para a frente e para trás de consternação.
— Adivinha? — disse o tanque.
Zaphod e o homem ainda sem nome viraram por um corredor, cambalearam por outro, correram por um terceiro. O prédio continuava a sacudir e balançar e isso Zaphod não entendia. Se eles queriam explodir o prédio por que estavam demorando tanto?
Com dificuldade chegaram a uma das várias portas anônimas e sem indicações e pararam arfando diante dela. Num solavanco repentino ela se abriu e eles caíram para dentro.
Toda essa estória, pensou Zaphod, toda essa encrenca, todo esse não-estar-deitado-numa-praia-divertindo-se-pra-caramba, tudo isso para quê? Uma única cadeira, uma única mesa e um único cinzeiro sujo num escritório sem decoração. A mesa, a não ser por um pouco de poeira tremulante e um único clipe de papel de uma nova forma revolucionária, estava vazia.
— Onde — disse Zaphod — está Zarniwoop? — sentindo que a compreensão já tênue que ele tinha de tudo aquilo começava a se desfazer.
— Está num cruzeiro intergaláctico — disse o homem. Zaphod procurou fazer uma avaliação do homem. Do tipo austero, pensou, não um saco de risadas. Dedica provavelmente boa parte do seu tempo a correr para cima e para baixo por corredores sinuosos, arrombar portas e fazer comentários críticos em escritórios vazios.
— Permita-me que me apresente — disse o homem. — Meu nome é Roosta e esta é minha toalha.
— Olá, Roosta — disse Zaphod.
— Olá, toalha — acrescentou, quando Roosta estendeu-lhe uma toalha florida meio velha. Sem saber o que fazer com ela, cumprimentou-a sacudindo um dos cantos.
Do lado de fora da janela uma das imensas naves espaciais cinza-chumbo com consistência de lesma passou rugindo.
— É, vá em frente — disse Marvin à gigantesca máquina de guerra —, você nunca vai adivinhar.
— Ahhhhmmmm... —, disse a máquina, vibrando com o pensamento desacostumado — raios laser?
Marvin balançou a cabeça solenemente.
— Não — murmurou a máquina com seu ronco gutural —, óbvio demais. Raio antimatéria? — arriscou.
— Óbvio demais — advertiu Marvin.
— É — rosnou a máquina, meio desconcertada. — Ahnn... que tal um aríete de elétrons?
Essa era nova para Marvin.
— O que é isso? — perguntou.
— Destes aqui — disse a máquina, entusiasmada.
De sua torre emergiu um tubo que lançou uma única labareda de luz. Atrás de Marvin uma parede desmoronou como um monte de poeira. A poeira flutuou um pouco antes de assentar.
— Não — disse Marvin —, não é desses.
— Mas é bom, não é?
— Muito bom — concordou Marvin.
— Já sei — disse a máquina de guerra Astrossapa, após mais um instante de consideração. — Você deve ter um daqueles novos Emissores Xanticos Reestrutrônicos de Zênon Desestabilizado!
— Esses são bons, ehn? — disse Marvin.
— É desses que você tem? — disse a máquina com considerável respeito.
— Não — disse Marvin.
— Ah — disse a máquina, desapontada —, então deve ser...
— Você está pensando pelo lado errado — disse Marvin. — Você está deixando de levar em consideração uma coisa bastante básica no relacionamento entre homens e robôs.
— Ahn, eu sei — disse a máquina de guerra —, deixa ver... — mergulhou novamente em pensamentos.
— Pense bem — instigou Marvin —, eles me deixaram aqui, eu, um robô comum e desprezível, para deter você, uma gigantesca máquina de guerra pesada, enquanto fugiam para salvar suas peles. O que você acha que iam deixar comigo?
— Aaah ahnn — murmurou a máquina, preocupada —, alguma coisa muito devastadora mesmo, imagino.
— Imagina! — disse Marvin. — Ah, tá, imagina mesmo. Vou te dizer o que eles me deram para me proteger, posso?
— Tá, tudo bem — disse a máquina de guerra, preparando-se.
— Nada — disse Marvin.
— Nada? — urrou a máquina de guerra.
— Nadinha, nadinha — entoou Marvin lugubremente —, nem uma salsicha eletrônica.
A máquina arfava, furiosa.
— Mas isso é demais, passa dos limites! — urrava. — Nada, ehn? O que que eles pensam?
— E eu — disse Marvin com uma voz macia — com essa dor terrível nos diodos esquerdos.
— Dá vontade cuspir, né?
— Pois é — concordou Marvin com sentimento.
— Puxa, essas coisas me deixam nervoso! — berrou a máquina. — Acho que vou arrebentar com aquela parede!
O aríete de elétrons lançou mais uma flamejante labareda de luz e destruiu a parede do lado do tanque.
— Como você acha que eu me sinto? — disse Marvin amargamente.
— Simplesmente fugiram e deixaram você aí? — trovejou a máquina.
— Pois é — disse Marvin.
— Acho que vou arrebentar com o maldito teto deles também! — gritou o tanque, com raiva.
Destruiu o teto da ponte.
— Isso é muito impressionante — murmurou Marvin.
— Você ainda não viu nada — prometeu a máquina. — Posso destruir este chão também, sem problema!
Destruiu o chão também.
— Droga! — urrou a máquina enquanto despencava de quinze andares e espatifava-se no chão lá embaixo.
— Que máquina deprimentemente estúpida — disse Marvin e saiu caminhando penosamente.

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