26 de dezembro de 2017

Capítulo 6

Ford Prefect atingiu o solo rapidamente. O chão ficava uns sete centímetros mais longe do tubo de ventilação do que ele se lembrava, então calculou mal em que ponto iria cair, começou a correr antes do tempo, tropeçou desajeitadamente e torceu o tornozelo. Droga! Saiu correndo assim mesmo, mancando um pouco.
Em todo o edifício, alarmes estavam disparando seu típico frenesi de excitação. Tentando se esconder, Ford agachou-se atrás dos típicos armários de almoxarifado, olhou à sua volta para se certificar de que estava bem escondido e começou a pescar dentro da mochila as coisas de que tipicamente precisava.
O seu tornozelo, atipicamente, estava doendo infernalmente.
O chão não só ficava uns sete centímetros mais distante do tubo de ventilação do que ele se lembrava como também ficava em um planeta diferente do que ele se lembrava, mas foram os tais sete centímetros que o deixaram intrigado. Os escritórios do Guia do Mochileiro das Galáxias eram frequentemente realocados, sem aviso prévio, para outro planeta — por causa do clima local, da hostilidade local, das contas de luz ou dos impostos —, mas costumavam ser reconstruídos exatamente da mesma maneira, com uma precisão molecular. Para uma grande parte dos funcionários da empresa, o layout dos seus escritórios representava a única constante que eles conheciam em um universo pessoal severamente distorcido.
Havia, no entanto, algo de estranho.
Aquilo não era por si só surpreendente, pensou Ford, apanhando a sua toalha de arremesso peso-pena. Praticamente tudo na sua vida era, em menor ou maior escala, estranho. O problema é que aquilo era estranho de uma maneira um pouquinho diferente da que ele estava acostumado, o que era no mínimo esquisito. Não conseguiu focar na questão muito claramente.
Sacou a sua ferramenta de extração bitola 3.
Os alarmes estavam disparando do mesmo jeito que ele conhecia tão bem.
Havia uma espécie de melodia neles que quase se podia cantarolar. Aquilo tudo era bastante familiar. O mundo do lado de fora era novo para Ford. Nunca estivera em Saquo-Pilia Hensha antes e gostara do que vira. Tinha uma atmosfera meio carnavalesca.
Apanhou da mochila um arco-e-flecha de brinquedo que havia comprado em um camelô. Descobrira que o motivo para a atmosfera carnavalesca em Saquo-Pilia Hensha era a comemoração da Concepção de São Antwelm, celebrada anualmente pelos habitantes locais. São Antwelm havia sido, em vida, um rei magnífico e muito popular, que chegara a uma conclusão igualmente magnífica e popular.
Havia concebido que, de maneira geral, todos queriam ser felizes, se divertir e aproveitar ao máximo a companhia uns dos outros. Na ocasião de sua morte, doara toda a sua fortuna para financiar um festival anual que servisse de lembrete de sua descoberta, com fartura de comidas deliciosas, muita dança e brincadeiras bobas como a Caça ao Wocket. A sua concepção fora tão extraordinária que ele virou santo por causa dela. Mais do que isso: todas as pessoas que haviam sido canonizadas por terem feito coisas como serem apedrejadas até a morte de maneira absolutamente penosa ou viverem de cabeça para baixo em barris de esterco foram instantaneamente rebaixadas e passaram a ser vistas como figuras um tanto embaraçosas.
O familiar prédio em forma de H dos escritórios do Guia erguia-se acima dos arredores da cidade, e Ford Prefect o invadira, como sempre costumava fazer. Sempre entrava pelo sistema de ventilação e não pelo lobby principal, porque o lobby principal era patrulhado por robôs cuja tarefa era questionar os funcionários do Guia sobre os seus gastos reembolsáveis. Os gastos reembolsáveis de Ford eram notoriamente complexos e intrincados, e ele chegara à conclusão de que, em geral, os robôs do lobby não estavam suficientemente equipados para compreender os argumentos que ele gostaria de apresentar sobre seus gastos. Preferia, portanto, entrar por um caminho alternativo.
Isso significava disparar praticamente todos os alarmes do prédio, menos o do departamento de contabilidade, e era exatamente isso que Ford queria.
Acocorou-se atrás do armário, umedeceu com a língua a ventosa de borracha e depois encaixou a flecha de brinquedo na corda do arco.
Aproximadamente trinta segundos depois, um robô de segurança do tamanho de um melão pequeno veio voando pelo corredor, a cerca de um metro de altura, varrendo o espaço à sua esquerda e à sua direita em busca de algo fora do comum.
Com um timing impecável, Ford lançou a flecha na direção contrária à trajetória da máquina. A flecha atravessou o corredor e grudou, tremelicante, na parede do outro lado. Enquanto voava, o brinquedo chamou a atenção dos sensores do robô, que se fixaram nele instantaneamente, fazendo com que o robô desse uma guinada de noventa graus para segui-lo, descobrir que diabos era e para onde estava indo.
Aquilo concedeu um segundo precioso para Ford, durante o qual o robô voador estava olhando na direção contrária. Lançou sobre ele a sua toalha e o capturou.
Devido às diversas protuberâncias sensoriais que o robô possuía, ele não podia movimentar-se dentro da toalha. Apenas se contorcia, para frente e para trás, sem conseguir se virar e ver quem o havia capturado.
Ford o puxou rapidamente para si e o escorou no chão. O pobre coitado estava começando a choramingar. Com um gesto rápido e experiente, Ford inseriu a sua ferramenta de extração bitola 3 por baixo da toalha e removeu o pequeno painel de plástico que havia no alto do robô, dando acesso aos seus circuitos lógicos.
Bom, a lógica é uma coisa maravilhosa, mas possui, tal como os processos de evolução descobriram, algumas desvantagens.
Qualquer coisa que pense logicamente pode ser enganada por outra coisa que pense no mínimo tão logicamente quanto ela. A maneira mais fácil de enganar um robô completamente lógico é alimentá-lo com a mesma sequência de estímulo várias vezes, de forma que fique travado em um loop. Isso foi muito bem demonstrado pelos famosos experimentos do Sanduíche de Arenque, conduzidos milênios atrás pelo IMDLDCSO (Instituto Maximegalon para Descobrir Lenta e Dolorosamente Coisas Surpreendentemente Óbvias). Nesses experimentos, um robô era programado para acreditar que gostava de sanduíches de arenque. Na verdade, essa era a parte mais difícil da experiência. Uma vez programado para acreditar que gostava de sanduíches de arenque, um sanduíche de arenque era colocado diante do robô. E então o robô pensava consigo mesmo: Humm! Sanduíche de arenque! Adoro sanduíches de arenque. Então ele se inclinava e apanhava o sanduíche com a sua colher para sanduíches de arenque e se endireitava novamente. Infelizmente para o robô, ele era projetado de uma maneira que a ação de se endireitar fazia com que o sanduíche de arenque deslizasse da sua colher e caísse no chão à sua frente. E então o robô pensava consigo mesmo: Humm! Sanduíche de arenque!... etc. e repetia a mesma ação muitas vezes seguidas.
A única coisa que impedia que o sanduíche de arenque ficasse de saco cheio daquela palhaçada toda e fosse procurar outras maneiras de passar o seu tempo era que o sanduíche de arenque, por não passar de um pedaço de peixe morto entre duas fatias de pão, estava um pouquinho menos ciente do que estava acontecendo do que o robô.
Os cientistas do Instituto descobriram então que a força motriz por trás de toda mudança, desenvolvimento e inovação na vida era a seguinte: sanduíches de arenque. Publicaram um artigo sobre isso, mas ele foi amplamente criticado por ser muito idiota.
Os cientistas verificaram os seus cálculos e perceberam que, na verdade, haviam descoberto o “tédio”, ou melhor, a função prática do tédio. Extremamente animados, foram em frente e se depararam com outras emoções, como “irritabilidade”, “depressão”, “relutância”, “nojo”, etc. e tal. A outra grande descoberta foi feita quando os cientistas pararam de usar os sanduíches de arenque e, subitamente, toda uma nova gama de emoções se tornou acessível para os estudos, tais como “alívio”, “alegria”, “vivacidade”, “apetite”, “satisfação” e, a mais importante de todas, o desejo de “felicidade”.
Essa foi a maior das descobertas.
Pilhas e pilhas de complexos códigos de computador responsáveis pelo comportamento dos robôs em todas as contingências possíveis podiam ser substituídas de forma bem simples. Tudo o que os robôs precisavam era da capacidade de se sentirem entediados ou felizes e de algumas condições que necessitavam satisfazer para trazer à tona aqueles estados. Eles próprios descobririam o resto.
O robô que Ford aprisionara debaixo da sua toalha não era, naquele momento, um robô feliz. Era feliz quando podia se movimentar. Era feliz quando podia ver outras coisas. Era especialmente feliz quando podia ver outras coisas se movimentando, fazendo coisas que não podiam fazer, porque ele então podia, com considerável prazer, delatá-las.
Ford ia resolver aquilo em breve. Ajoelhou-se sobre o robô, prendendo-o entre os joelhos. A toalha continuava cobrindo todos os seus mecanismos sensoriais, mas Ford conseguira expor os circuitos lógicos. O robô estava emitindo uns zumbidos pavorosos e rabugentos, mas não conseguia se mover, apenas expressar a sua inquietude.
Usando a ferramenta de extração, Ford retirou um pequeno chip do seu encaixe. Assim que se soltou, o robô ficou quieto e estacou, como em estado de coma.
O chip que Ford havia removido era justamente o que continha as instruções para que as condições de felicidade necessárias ao robô fossem satisfeitas. Ele deveria se sentir feliz quando uma leve carga elétrica de um ponto no lado esquerdo do chip alcançasse outro ponto no lado direito. O chip determinava se a carga atingira o seu objetivo ou não. Ford puxou um pequeno pedaço de arame que estava grudado na toalha. Enfiou uma das pontas na cavidade superior esquerda do encaixe do chip e a outra na cavidade direita inferior.
Aquilo era o bastante. Agora o robô ficaria sempre feliz, independentemente das circunstâncias.
Ford levantou-se depressa e puxou a toalha. O robô elevou-se extasiado no ar, avançando sinuosamente.
Virou-se e viu Ford.
— Sr. Prefect! Estou tão feliz em vê-lo!
— Eu também, amiguinho — respondeu Ford.
O robô prontamente comunicou à central de controle que estava tudo bem e que aquele era o melhor dos mundos; os alarmes se calaram e a vida voltou ao normal.
Pelo menos, quase ao normal.
Havia algo de estranho com aquele lugar.
O robozinho estava gorgolejando de contentamento elétrico. Ford correu pelo corredor, deixando que a criatura o seguisse, dizendo como tudo era maravilhoso e como ele estava feliz em poder dizer aquilo.
Ford, contudo, não estava feliz.
Passou por rostos desconhecidos. Não pareciam os seus colegas. Eram arrumadinhos demais. Os seus olhos estavam muito mortos. Cada vez que ele achava que tinha reconhecido alguém de longe e corria para dizer oi, descobria que era uma outra pessoa, com um penteado muito mais decente e uma aparência muito mais confiante e decidida do que... bem, do que qualquer pessoa que Ford conhecia.
Uma escada havia mudado de lugar, alguns centímetros para a esquerda. O teto era ligeiramente mais baixo. O lobby fora remodelado. Todas essas coisas não eram preocupantes por si sós, eram somente um pouco desconcertantes. O realmente preocupante era a decoração. Antes era chamativa e pomposa. Sofisticada — graças às excelentes vendas do Guia em toda a Galáxia civilizada e pós-civilizada —, mas um sofisticado divertido. Máquinas de videogames alucinados estavam espalhadas pelos corredores, pianos de cauda com pinturas malucas pendiam do teto, criaturas marítimas sinistras do planeta Viv emergiam de piscinas em átrios decorados com árvores, robôs — garçons em camisas absurdas percorriam o ambiente procurando mãos nas quais poderiam depositar drinques borbulhantes. As pessoas costumavam ter gigantescos dragões de estimação em coleiras e pterospondes em gaiolas em seus escritórios. Todos sabiam como se divertir e, caso não soubessem, havia cursos nos quais podiam se inscrever para corrigir essa deficiência.
Não havia mais nada daquilo agora. Alguém andara por lá fazendo um lamentável trabalho de decoração de bom gosto.
Ford virou-se abruptamente para uma pequena alcova, juntou as mãos em concha e puxou o robô. Abaixou-se e olhou fixamente para o cibernauta tagarela.
— O que andou acontecendo por aqui? — perguntou ele.
— Oh, só coisas maravilhosas, senhor, só as coisas mais maravilhosas possíveis. Posso me sentar no seu colo, por favor?
— Não — respondeu Ford, empurrando-o.
O robô ficou esfuziante em ser rechaçado daquela maneira e começou a se balançar, tagarelar, enlouquecer. Ford apanhou-o novamente e segurou-o firme em pleno ar, a alguns centímetros do seu rosto. O robô tentou permanecer onde fora colocado, mas não pôde deixar de tremelicar um pouco.
— Mudaram algumas coisas, não é? — sussurrou Ford.
— Ah, sim — guinchou o robozinho —, da melhor e mais fantástica maneira possível. Estou muito satisfeito.
— Como é que era antes, então?
— Um barato.
— Mas você gostou das mudanças? — perguntou Ford.
— Eu gosto de tudo — gemeu o robô. — Especialmente quando você grita assim comigo. Faz de novo, vai, por favor.
— Me conta logo o que aconteceu!
— Ai, obrigado, obrigado.
Ford suspirou.
— Está bem, está bem — ofegou o robô. — O Guia está sob nova direção. É tudo tão incrível que eu acho que vou derreter de alegria. A gerência anterior também era fabulosa, é claro, embora não saiba ao certo se eu achava isso na época.
— Isso foi antes de você estar com um pedaço de arame enfiado na cabeça.
— É verdade. É a mais pura verdade. É a mais maravilhosa, estupenda, frívola e arrebatadora verdade. Que observação mais correta, mais verdadeiramente indutora de êxtase!
— O que aconteceu? — insistiu Ford. — Que nova gerência é essa? Quando é que eles assumiram? Eu... ah, deixa pra lá — acrescentou, quando o robô começou a se comportar vergonhosamente com uma alegria incontrolável e a se esfregar no seu joelho. — Vou descobrir sozinho.
Ford atirou-se contra a porta do escritório do editor-chefe. Agachando-se, enrolou o corpo como uma bola enquanto a porta abria e rolou rapidamente pelo chão até onde costumava ficar o carrinho com as bebidas mais potentes e caras da Galáxia. Agarrou-se nele e, usando-o como proteção, deslizou até a maior área livre do chão do escritório, lá onde ficava a valiosíssima e extremamente grosseira estátua de Leda e o Polvo, e escondeu-se atrás dela. Enquanto isso, o pequeno robô de segurança estava suicidamente satisfeito por receber os tiros no peito no lugar de Ford.
Esse, pelo menos, era o plano — e um plano necessário. O editor-chefe, Stagyar-zil-Doggo, era um homem desequilibrado e perigoso, que tinha uma visão homicida a respeito de colaboradores que irrompiam em seu escritório sem apresentar páginas novinhas em folha, já revisadas. Na moldura da porta, ele tinha instalado um conjunto de armas guiadas a laser ligadas a mecanismos especiais de rastreamento para deter qualquer pessoa que estivesse apenas trazendo bons motivos para explicar por que não havia escrito nada. Desse modo, mantinha um alto nível de produtividade.
Infelizmente, o carrinho de bebidas não estava no lugar.
Ford lançou-se em um movimento desesperado e brusco para o lado, depois deu um salto mortal para cima da estátua de Leda e o Polvo, que também não estava lá. Ele rolou e arremessou-se pelo escritório em um pânico cego, tropeçou, se contorceu, bateu na janela que, felizmente, fora projetada para suportar ataques de foguetes, ricocheteou e caiu em um salto doloroso e esbaforido atrás de um sofisticado sofá de couro cinza que não estava ali antes.
Alguns segundos depois, esgueirou-se devagarzinho detrás do sofá.
Assim como não havia carrinho de bebidas, nem Leda e o Polvo, notou uma surpreendente ausência de tiros. Franziu a testa. Aquilo definitivamente estava errado.
— Sr. Prefect, imagino — disse uma voz.
A voz veio de um sujeito com cara de bebê sentado atrás de uma mesa revestida com cerâmica e teca.
Stagyar-zil-Doggo podia até ser uma grande pessoa, mas ninguém, por várias razões, diria que ele tinha cara de bebê. Aquele não era Stagyar-zil-Doggo.
— Suponho, a julgar pela maneira como entrou, que você não tem nenhum material novo para, ahn, o Guia, no momento — disse o sujeito com cara de bebê.
Estava sentado, apoiando os cotovelos sobre a mesa e tocando as pontas dos dedos de um modo que, inexplicavelmente, não era considerado passível de pena de morte.
— Estive ocupado — justificou Ford, sem muita convicção. Ficou de pé, meio atordoado, limpando a roupa. Então pensou: Por que, diabos, estava dizendo coisas sem muita convicção? Tinha que assumir o comando da situação. Tinha que descobrir quem era aquele sujeito e, de repente, pensou numa forma de fazer isso. — Quem é você? — perguntou ele.
— Sou seu novo editor-chefe. Isto é, se decidirmos manter os seus serviços. O meu nome é Vann Harl. — Ele não estendeu a mão. Apenas completou: — O que você fez com esse robô da segurança?
O robozinho estava girando muito, muito devagar pelo teto e gemendo baixinho.
— Fiz com que ele ficasse muito feliz — retrucou Ford. — É uma espécie de missão que eu tenho. Onde está Stagyar? Ou, mais importante ainda, onde está o carrinho de bebidas dele?
— O Sr. Zil-Doggo não trabalha mais nesta organização. O carrinho de bebidas dele, imagino eu, deve estar ajudando-o a se consolar por isso.
— Organização? — berrou Ford. — Organização? Mas que palavra idiota para um negócio como esse!
— É exatamente essa a nossa impressão. Subestruturado, superorçado, subadministrado, superinebriado. E isso — disse Harl — era só o editor.
— Ei, eu faço as piadas aqui — rosnou Ford.
— Não — respondeu Harl. — Você faz a coluna dos restaurantes.
Ele jogou um pedaço de plástico sobre a mesa. Ford não se mexeu.
— Você o quê? — perguntou ele.
— Não. Mim Harl. Você Prefect. Você faz coluna restaurantes. Eu editor. Eu sentar e mandar você fazer coluna dos restaurantes. Você entender?
— Coluna dos restaurantes? — perguntou Ford, embasbacado demais para estar realmente raivoso.
— Sente aí, Prefect — disse Harl. Ele rodopiou na sua cadeira de rodinhas, levantou-se e ficou parado, contemplando pela janela do vigésimo terceiro andar os pequenos pontinhos que aproveitavam o carnaval lá embaixo. — Está na hora de alavancar esta empresa, Prefect — disse ele. — Nós, da Corporação InfiniDim, estamos...
— Vocês da quê?
— Da Corporação InfiniDim. Nós compramos o Guia.
— InfiniDim?
— Gastamos milhões nesse nome, Prefect. Ou você começa a gostar ou pode ir arrumando as malas.
Ford deu de ombros. Não tinha nada para arrumar.
— A Galáxia está mudando — disse Harl. — Precisamos acompanhar essa mudança. Seguir o mercado. O mercado está crescendo. Novas aspirações. Nova tecnologia. O futuro é...
— Não venha me falar sobre o futuro — interrompeu Ford. — Conheço o futuro de trás pra frente. Passei metade da minha vida lá. É igual a qualquer outro lugar. Qualquer outra época. Enfim. A mesma droga de sempre, só que com carros mais velozes e um ar mais fedorento.
— Esse é um futuro — retrucou Harl. — O seu futuro, se quiser aceitá-lo. Você precisa aprender a pensar multidimensionalmente. Existem futuros ilimitados estendendo-se em todas as direções a partir de agora – e de agora e de agora. Bilhões deles, bifurcando-se a cada instante! Cada posição possível de cada elétron possível expande-se em bilhões de probabilidades! Bilhões e bilhões de futuros brilhantes, incandescentes! Você sabe o que isso significa??
— Você está babando no queixo.
— Bilhões e bilhões de mercados!
— Entendi — disse Ford. — Para que você possa vender bilhões e bilhões de Guias.
— Não — respondeu Harl, procurando seu lenço, inutilmente.
— Desculpe — disse ele —, mas isso me deixa muito empolgado. — Ford ofereceu a sua toalha para ele.
— O motivo pelo qual não vendemos bilhões e bilhões de Guias — continuou Harl, após limpar a boca — é o custo. O que fazemos é vender um único Guia bilhões e bilhões de vezes. Exploramos a natureza multidimensional do Universo para cortar os nossos custos industriais. E não vendemos para mochileiros duros. Que ideia mais idiota era essa! Encontrar um setor do mercado que, mais ou menos por definição, não tem um centavo no bolso e tentar vender justo para ele. Não. A InfiniDim vende para os viajantes de negócios endinheirados e para as suas esposas durante as férias em um bilhão de bilhões de futuros diferentes. Esse é o empreendimento comercial mais radical, dinâmico e ousado já visto em toda a infinitude multidimensional do espaço-tempo-probabilidade.
— E você quer que eu seja crítico de restaurantes — concluiu Ford.
— A sua contribuição seria valiosa.
— Atacar! — gritou Ford. Gritou para a sua toalha. A toalha pulou das mãos de Harl.
Não porque a toalha tivesse algum tipo de vontade própria, e sim porque Harl estava morrendo de medo de que ela tivesse. A outra coisa que o deixou apavorado foi ver Ford Prefect partindo para cima dele por sobre a mesa com as mãos fechadas em punho. Na verdade, Ford estava apenas tentando apanhar o cartão de crédito, mas ninguém ocupa um cargo como o que Harl ocupava no tipo de organização da qual Harl fazia parte sem desenvolver uma saudável visão paranoica da vida.
O editor-chefe adotou a sensata precaução de jogar-se para trás, batendo a cabeça com força contra o vidro à prova de foguetes e depois caiu em um estado de inconsciência recheado de sonhos preocupantes e altamente pessoais.
Ford ficou parado na mesa, surpreso em ver como tirara aquilo de letra. Olhou de relance para o pedaço de plástico que estava segurando — era um cartão de crédito Jant-O-Card com o seu nome já gravado nele, válido durante os próximos dois anos e provavelmente a coisa mais empolgante que ele já vira em sua vida. Depois, subiu na mesa para dar uma olhada em Harl.
Estava respirando com razoável facilidade. Ford percebeu que ele poderia respirar com ainda mais facilidade sem o peso da carteira sobre o peito, então removeu-a do bolso do paletó de Harl e deu uma conferida no conteúdo. Uma boa quantia de dinheiro. Alguns vales. Cartão de sócio do clube de ultragolfe. Cartões de sócio de outros clubes. Fotos da família de alguém — presumivelmente a de Harl, mas era difícil ter certeza naqueles dias. Executivos ocupados raramente tinham tempo para esposa e família em tempo integral e preferiam alugá-los só para os finais de semana.
Ahá!
Mal podia acreditar no que tinha acabado de encontrar.
Tirou devagarzinho da carteira um simples e insanamente empolgante pedacinho de plástico que estava escondido no meio de um bando de recibos.
Não era insanamente empolgante de se ver. Para falar a verdade, era até meio sem graça. Era menor e um pouco mais grosso do que um cartão de crédito e semitransparente. Se você o colocasse contra a luz, podia ver várias informações e imagens holograficamente criptografadas enterradas alguns pseudomilímetros de profundidade sob a superfície.
Era um Ident-I-Fácil, uma coisa muito tola e inadequada para Harl carregar na carteira, ainda que fosse perfeitamente compreensível que a carregasse. Existiam tantas situações nas quais solicitavam que a pessoa fornecesse uma prova absoluta de sua identidade que a vida poderia facilmente se tornar bastante cansativa só por causa disso — sem falar nos problemas existenciais mais profundos de tentar funcionar como uma consciência coerente em um universo físico epistemologicamente ambíguo.
Pensem nos caixas-eletrônicos, por exemplo. Filas de pessoas esperando para terem suas digitais analisadas, retinas escaneadas, pedaços da pele removidos para serem submetidos a uma análise genética imediata (ou quase imediata — uns bons seis ou sete segundos, na entediante verdade) e depois ainda ter que responder a perguntas capciosas sobre membros da família dos quais mal se lembram e sobre as cores prediletas de toalha de mesa que haviam cadastrado... tudo isso só para sacar um dinheirinho para o final de semana. Se você estiver tentando um empréstimo para um carro a jato, para assinar um tratado de mísseis ou pagar a conta do restaurante, sua paciência seria testada até os limites.
Por isso o Ident-I-Fácil. Ele continha todas as informações sobre a pessoa, o seu corpo e a sua vida em um único cartão genérico, aceito em qualquer máquina, para ser levado na carteira, e representava, portanto, o maior triunfo tecnológico sobre si mesmo e sobre o bom senso.
Ford o colocou em seu bolso. Uma ideia fantástica acabara de lhe ocorrer.
Tentou imaginar durante quanto tempo Harl ficaria inconsciente.
— Ei! — gritou ele para o pequeno robô do tamanho de um melão, que continuava choramingando de euforia no teto. — Você quer continuar feliz?
O robô respondeu alegremente que sim.
— Então vem comigo e faça exatamente o que eu mandar.
O robô respondeu que estava felicíssimo no teto, muito obrigado. Jamais havia percebido quanto deleite absoluto podia ser extraído de um bom teto e queria explorar os seus sentimentos sobre tetos mais profundamente.
— Se você ficar aí — disse Ford —, vai acabar sendo recapturado e eles vão trocar o seu chip condicional. Quer continuar feliz? Melhor vir agora.
O robô exalou um longo e sentido suspiro de tristeza apaixonada e desceu do teto, relutante.
— Escuta — disse Ford —, você consegue manter o resto do sistema de segurança feliz por alguns minutos?
— Um dos prazeres da verdadeira felicidade — gorjeou o robô — é poder compartilhá-la. Eu transbordo, eu espumo, eu inundo de...
— Está bem — interrompeu Ford. — Só espalhe um pouquinho de felicidade pela rede de segurança. Não transmita nenhuma informação. Faça apenas com que ela se sinta tão feliz que nem se lembre de perguntar alguma coisa.
Ford apanhou sua toalha e correu animado até a porta. A vida andava um pouco chata nos últimos tempos. Mas tudo indicava que ia se tornar bastante animada dali em diante.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!