17 de dezembro de 2017

Capítulo 6

Dali era uma caminhada de uns seis quilômetros até a sua casa: uns dois até o próximo cruzamento, onde o abominável Russell recusara-se terminantemente a deixá-lo, e, de lá, mais quatro por uma tortuosa ruela campestre.
O Saab partiu furioso. Arthur ficou olhando enquanto o carro partia, tão embasbacado quanto um homem que, depois de passar cinco anos acreditando firmemente que era cego, descobrisse de repente que só estava usando um chapéu grande demais.
Balançou a cabeça vigorosamente, na esperança de deslocar algum fato importante que pudesse se encaixar e dar sentido a um Universo que, do contrário, seria extremamente desconcertante. Mas como o fato importante, se é que existia, não deu as caras, Arthur prosseguiu pela estrada, torcendo para que uma boa caminhada vigorosa, e talvez até mesmo algumas bolhas insuportáveis, o ajudassem a reafirmar a sua existência, se possível até mesmo a sua sanidade.
Eram dez e meia quando chegou, detalhe que pôde comprovar pela janela embaçada e gordurosa do bar Horse and Groom, onde se via pendurado há anos um velho e gasto relógio da cerveja Guiness com uma imagem de uma ema com um copo de chope divertidamente entalado em sua garganta.
Aquele era o bar onde havia passado a fatídica hora do almoço durante a qual primeiro a sua casa e, depois, todo planeta Terra foi demolido, ou então pelo menos pareceu ter sido demolido. Não, caramba, foi demolido, caso contrário onde diabos ele teria estado durante os últimos oito anos e como teria chegado até lá, senão em uma das imensas naves amarelas dos vogons, que o terrível Russell acabara de dizer que não passavam de alucinações induzidas por drogas, mas entretanto, se o planeta foi mesmo demolido, o que era essa coisa sobre a qual ele estava de pé agora...?
Interrompeu bruscamente a sua linha de raciocínio porque não chegaria a nenhuma conclusão além da que chegara nas últimas vinte vezes. Começou de novo.
Aquele era o bar onde havia passado a fatídica hora do almoço durante a qual aconteceu fosse o que fosse que ele iria descobrir depois que tinha acontecido e... Ainda não fazia sentido.
Começou de novo. Aquele era o bar onde... Aquele era um bar.
Bares serviam bebidas e ele precisava desesperadamente de uma.
Satisfeito porque os seus confusos processos mentais haviam finalmente chegado a uma conclusão, e a uma conclusão que o deixara satisfeito, mesmo não sendo a que ele inicialmente queria, caminhou em direção à porta.
E parou.
Um pequeno fox terrier pelo-de-arame preto saiu correndo por trás de um muro baixo e, ao ver Arthur, começou a rosnar. Ora, Arthur conhecia aquele cachorro, e conhecia-o bem. Era de um amigo publicitário e se chamava Idiota-Sem-Noção, porque o modo como seu pelo formava um topete na cabeça fazia as pessoas se lembrarem do presidente dos Estados Unidos, e o cachorro conhecia Arthur, ou pelo menos deveria. Era um cachorro burro, que não conseguia nem ler um teleprompter, motivo pelo qual algumas pessoas reclamaram do seu nome, mas ele devia, no mínimo, ser capaz de conhecer Arthur, em vez de ficar parado, de prontidão, o se Arthur fosse a aparição mais pavorosa a se intrometer em sua vida de cão medíocre.
Aquilo fez com que Arthur voltasse até a janela e olhasse novamente não para a ema asfixiada dessa vez, mas para a sua própria imagem refletida.
Vendo-se pela primeira vez em um contexto familiar, teve de admitir que o cachorro tinha razão.
Parecia-se muito com algo que um fazendeiro usaria para afugentar os pássaros e não havia a menor dúvida de que entrar no bar daquele jeito daria margem a comentários desagradáveis e, ainda pior, com certeza toparia com várias pessoas conhecidas lá dentro, que certamente o bombardeariam com perguntas que, no momento, não se sentia preparado para responder.
Will Smithers, por exemplo, o dono do Idiota-Sem-Noção, o Cachorro Antiprodígio, um animal tão imbecil que foi demitido de um dos comerciais do próprio Will por ser incapaz de saber qual das rações de cachorro devia preferir, apesar da carne em todas as outras tigelas ter sido encharcada com óleo de motor.
Will com certeza estaria lá dentro. O cachorro dele estava ali, o carro dele também, um Porsche 928S cinza com um adesivo na janela traseira onde se podia ler: “Meu outro carro também é um Porsche.” Que babaca!
Olhando para o carro, percebeu que tinha acabado de perceber algo que ainda não tinha descoberto.
Will Smithers, como todos os idiotas com excesso de dinheiro e falta de escrúpulos que Arthur conhecia no meio publicitário, fazia questão de trocar de carro todo ano no mês de agosto, para poder dizer para as pessoas que havia sido um ideia do seu contador, embora na verdade o seu contador estivesse tentando enlouquecidamente fazê-lo desistir daquilo, por causa de todas as pensões que ele tinha de pagar, etc. e tal e aquele era o mesmo carro que Arthur já conhecia. O número da placa proclamava o seu ano.
Levando-se em consideração que estavam no inverno e que o acontecimento que causara tantos problemas a Arthur durante oito de seus anos particulares ocorrera no início de setembro, no máximo seis ou sete meses haviam passado ali.
Ficou horrivelmente parado por um momento e deixou o Idiota-Sem-Noção pular para cima e para
baixo, latindo para ele. Fora atingido de repente por uma constatação inevitável, que era a seguinte: a partir de agora era um ET em seu próprio mundo. Por mais que tentasse, ninguém ia acreditar na sua história. Não apenas soava perfeitamente louca, mas também era totalmente contraditória diante do mais simples dos fatos observáveis.
Aquela era a Terra mesmo? Havia alguma possibilidade de ele ter cometido um erro incrível?
O bar diante dele parecia insuportavelmente familiar, em todos os detalhes  cada tijolo, cada pedacinho de tinta descascada. Ele podia perceber, lá dentro, o mesmo calor familiar, abafado e barulhento, as suas vigas expostas, as suas luminárias imitando ferro fundido, o bar grudento de cerveja onde conhecidos seus haviam colocado os cotovelos, de onde se podia contemplar garotas recortadas em papelão com pacotes de amendoim grampeados nos peitos.
Coisas típicas do seu lar, do seu mundo.
Conhecia até aquele cachorro desgraçado.
— Ei, Sem-Noção!
O som da voz de Will Smithers significava que ele tinha que decidir o que fazer, e rápido.
Se ficasse onde estava, seria descoberto e a confusão toda ia começar. Se ele se escondesse, estaria apenas adiando o momento, e estava fazendo um frio danado.
O fato de ser Will tornou a decisão mais fácil. Não que Arthur não gostasse dele, Will era um cara divertido. O problema é que era divertido de uma maneira cansativa porque, sendo publicitário, sempre queria que todo mundo soubesse o quanto estava se divertindo e onde comprara a sua jaqueta. 
Tendo isso em mente, Arthur escondeu-se atrás de uma van.
— E aí, Sem-Noção, qual é o caso?
A porta se abriu e Will saiu do pub, usando uma jaqueta de aviador contra a qual um carro havia sido arremessado, a seu pedido, por um amigo do Laboratório de Simulação de
Acidentes, para que ficasse com aquela aparência desgastada. Sem-Noção latiu todo bobo e, ganhando a atenção que queria, esqueceu-se alegremente de Arthur.
Will estava com uns amigos e eles sempre faziam a mesma brincadeira com o cachorro.
— Olha os comunas! — gritavam para ele, todos ao mesmo tempo. — Comunas, comunas, comunas!!!
O cachorro ficava descontrolado, latindo sem parar, saltitando, colocando os bofes para fora, transportado para além de si num êxtase de raiva. Eles riram e continuaram a brincadeira e depois, gradualmente, foram se dispersando para os seus respectivos carros e desapareceram noite adentro.
“Bom, isso esclarece uma coisa”, pensou Arthur atrás da van, “esse é definitivamente o planeta de que me lembro.”

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