14 de dezembro de 2017

Capítulo 6

Pareceu a Arthur que todo o céu subitamente se afastara para lhes dar passagem. Pareceu-lhe que os átomos de seu cérebro e os átomos do cosmos estavam fluindo uns através dos outros. Pareceu-lhe que estava sendo soprado pelo vento do Universo e que o vento era ele. Pareceu-lhe que era um dos pensamentos do Universo e que o Universo era um de seus pensamentos. Pareceu a quem estava no Lord’s Cricket Ground que outro restaurante da região norte de Londres havia surgido e sumido, como frequentemente ocorria, e que isso era um Problema de Outra Pessoa.
— O que aconteceu? — murmurou Arthur, muito admirado.
— Decolamos — disse Slartibartfast.
Arthur ficou sentado, imóvel e comovido, no assento de voo. Não sabia ao certo se havia ficado enjoado ou religioso.
— Bela máquina — disse Ford, numa tentativa malsucedida de disfarçar quão impressionado havia ficado com o que a nave de Slartibartfast acabara de fazer —, pena que a decoração seja tão ruim.
O velho não respondeu imediatamente. Estava olhando para um grupo de instrumentos com a cara de quem está tentando converter graus Fahrenheit para Celsius de cabeça enquanto sua casa está pegando fogo. Então sua face se descontraiu e ele olhou por alguns instantes a enorme tela panorâmica à sua frente, que mostrava uma complexidade espantosa de estrelas fluindo como fios de prata ao redor deles.
Seus lábios se moveram como se fosse dizer algo. Subitamente, olhou, tenso, para seus instrumentos, mas depois franziu a testa e sua expressão se fixou. Olhou de volta para a tela. Mediu seu próprio pulso. Franziu ainda mais a testa por alguns instantes, depois relaxou.
— É um erro tentar entender as máquinas — disse ele —, apenas me deixam mais preocupado. O que você disse?
— A decoração — repetiu Ford. — É lamentável.
— No fundo do coração fundamental da mente e do Universo — disse Slartibartfast — há uma razão.
Ford olhou em volta, curioso. Ele realmente achava aquilo uma visão otimista das coisas.
O interior da cabine de comando era verde-escuro, vermelho-escuro, marrom-escuro, entulhado de coisas e com uma iluminação suave. Inexplicavelmente, a semelhança com um bistrô italiano não havia terminado ao cruzarem a escotilha. Pequenos focos de luz delineavam vasos de plantas, azulejos vitrificados e uma multiplicidade de pequenos objetos metálicos. Medonhas garrafas envolvidas em ráfia se escondiam nas sombras.
Os instrumentos nos quais Slartibartfast estivera concentrado pareciam ter sido montados no fundo de garrafas enfiadas em concreto.
Ford estendeu a mão e tocou o concreto.
Era falso. Plástico. Garrafas falsas enfiadas em concreto falso.
“O fundo do coração fundamental da mente e do Universo que se dane”, pensou consigo mesmo, “isso aqui é um lixo.” Por outro lado, não podia negar que a nave havia se movido de uma forma que fazia a Coração de Ouro parecer um carrinho de bebê elétrico. Levantou-se de seu assento. Espanou a roupa. Olhou para Arthur, que estava cantarolando baixinho em um canto. Olhou para a tela e não reconheceu nada. Olhou para Slartibartfast.
— Quanto já viajamos?
— Cerca de... — respondeu Slartibartfast — cerca de dois terços do caminho através do disco galáctico, eu diria, aproximadamente. Sim, cerca de dois terços, acho.
— É tão estranho — disse Arthur, baixinho — que, quanto mais longe e mais rápido viajamos pelo Universo, mais a nossa posição dentro dele pareça ser absolutamente imaterial, e isso nos preencha com um profundo, ou melhor, nos esvazie de um...
— Sim, é muito estranho — disse Ford. — Para onde estamos indo?
— Estamos indo — respondeu Slartibartfast — confrontar um antigo pesadelo do Universo.
— E onde você pretende nos deixar??
— Vou precisar da ajuda de vocês.
— Difícil. Olhe, há um lugar aonde você pode nos levar para nos divertirmos – ainda estou pensando onde, exatamente – e daí podemos ficar bêbados e ouvir uma música bem diabólica. Peraí, vou achar algo. — Pegou sua cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias e passou os olhos pelo índice, concentrando-se nas partes que tinham a ver com sexo, drogas e rock’n’roll.
— Uma maldição se levantou das névoas do tempo — disse Slartibartfast.
— É, creio que sim — disse Ford. — Ei — disse, selecionando por acaso uma entrada em particular —, Eccentrica Gallumbits, você já esteve com ela? A prostituta de três seios de Eroticon 6. Algumas pessoas dizem que suas zonas erógenas começam a uns seis quilômetros de seu corpo. Pessoalmente, discordo, acho que são oito.
— Uma maldição — disse Slartibartfast — que irá mergulhar a Galáxia em fogo e destruição e possivelmente levar o Universo a um fim prematuro. Não estou exagerando — acrescentou.
— Parece mesmo que a barra vai pesar — disse Ford —, então com um pouco de sorte, vou estar suficientemente bêbado para não notar. Aqui — disse, enfiando o dedo na tela do Guia — esse seria um lugar realmente devasso para irmos, e acho que é para onde devemos ir. O que você me diz, Arthur? Pare de cantar mantras e preste atenção. Você está perdendo coisas importantes.
Arthur levantou-se do sofá e sacudiu a cabeça.
— Aonde estamos indo? — disse.
— Confrontar um antigo pesa...
— Fecha a matraca — disse Ford. — Arthur, vamos sair por aí, pela Galáxia, para nos divertir. Você consegue conviver com isso?
— Por que Slartibartfast está tão ansioso? — perguntou Arthur.
— Não é nada — disse Ford.
— O Fim de Tudo — disse Slartibartfast. — Venham — acrescentou, com um tom subitamente autoritário —, há muitas coisas que preciso lhes contar e lhes mostrar.
Andou em direção a uma escada em espiral, feita de ferro e pintada de verde, incompreensivelmente colocada no meio da cabine de comando, e começou a subir. Arthur franziu a testa e foi atrás dele.
Ford jogou o Guia de volta em sua mochila, irritado.
— Meu médico diz que tenho uma glândula de senso de dever malformada, além de uma deficiência natural em fibras morais — grunhiu para si mesmo — e portanto estou dispensado de salvar Universos.
Apesar disso, subiu as escadas atrás deles. O que encontraram no andar de cima era simplesmente obtuso, ou pelo menos assim parecia, e Ford sacudiu a cabeça, cobriu o rosto com as mãos e esbarrou em um vaso de plantas, jogando-o contra a parede.
— Esta é a área central de computação — disse Slartibartfast, impassível —, onde são realizados todos os cálculos que afetam a nave de alguma forma. É, eu sei com o que isso se parece, mas na verdade, é um complexo mapa topográfico em quatro dimensões de uma série de funções matemáticas altamente complexas.
— Parece mais uma piada — disse Arthur.
— Eu sei com o que se parece — disse Slartibartfast, entrando. Exatamente quando ele entrou, Arthur teve uma súbita e vaga sensação do que aquilo podia significar, mas se recusou a acreditar nela. “O Universo não podia funcionar daquela forma, não podia”, pensou. “Aquilo”, pensou consigo mesmo, “seria tão absurdo quanto... quanto...” E decidiu terminar aí sua linha de raciocínio. Em sua maioria, as coisas realmente absurdas nas quais podia pensar já haviam acontecido.
Aquela era uma delas.
Era uma grande gaiola de vidro, ou uma caixa — na verdade, um quarto. Dentro havia uma mesa bem longa. Em volta da mesa estavam espalhadas cerca de 12 cadeiras de madeira, do tipo austríacas. Sobre a mesa havia uma toalha quadriculada vermelha e branca, suja, com algumas marcas de cigarro, cada uma das quais, presumivelmente, estava em um local matematicamente determinado com grande precisão. Sobre essa toalha estavam colocados alguns pratos italianos comidos pela metade, cercados por pedaços de pão comidos pela metade e copos de vinho bebidos pela metade, todos incessantemente manuseados por robôs.
Tudo ali era artificial. Os clientes robôs eram atendidos por um garçom robô, um sommelier robô e um maître robô. Os móveis eram artificiais, a toalha de mesa era artificial e cada um dos pedaços de comida era claramente capaz de exibir todas as características mecânicas de, digamos, um pollo sorpreso, sem de fato ser um.
E todos participavam juntos de uma pequena dança: uma coreografia complexa envolvendo a manipulação de menus, talões de pedidos, carteiras, talões de cheques, cartões de crédito, relógios, lápis e guardanapos de papel, que parecia estar o tempo todo beirando o limite da violência, sem nunca chegar a lugar algum.
Slartibartfast entrou apressado e depois pareceu trocar amenidades tranquilamente com o maître, enquanto um dos clientes robôs, um auto-Rory, escorregou lentamente para baixo da mesa, enquanto mencionava para um rapaz o que pretendia fazer com uma garota.
Slartibartfast sentou-se na cadeira que acabara de vagar e deu uma olhada atenta no menu. O ritmo da coreografia pareceu acelerar-se imperceptivelmente. Surgiam discussões e as pessoas tentavam provar coisas usando guardanapos. Gesticulavam ferozmente umas para as outras e tentavam examinar os pedaços de galinha uns dos outros. A mão do garçom começou a mover-se sobre o talão de pedidos muito mais rápido do que qualquer mão humana seria capaz, e depois mais rápido do que um olho humano poderia acompanhar. O ritmo se acelerou.
Logo uma extraordinária e insistente polidez tomou conta do grupo e, segundos depois, pareciam ter atingido um consenso. Uma nova vibração espalhou-se pela nave. Slartibartfast saiu da sala de vidro.
— Bistromática — disse. — O maior poder computacional conhecido nos domínios da paraciência. Venham comigo até a Sala de Ilusões Informacionais.
Slartibartfast passou e eles o seguiram, perplexos.

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