26 de dezembro de 2017

Capítulo 5

Observou-a enquanto se aproximava, vinda lá das bandas de Henley, no início com uma leve curiosidade, imaginando o que seriam aquelas luzes. Quem morava, como ela, a menos de um milhão de quilômetros de Heathrow estava acostumado a ver luzes no céu. Mas não tão tarde da noite nem tão baixas, por isso a leve curiosidade.
Quando o objeto, fosse lá o que fosse, começou a ficar mais e mais próximo, a sua curiosidade transformou-se em perplexidade. “Humm”, pensou ela, sendo aquilo o máximo que conseguia pensar. Ainda estava grogue e indisposta por causa do fuso horário, e as mensagens que uma parte do seu cérebro enviava para a outra não estavam necessariamente chegando a tempo ou fazendo sentido. Saiu da cozinha, onde estava preparando um café, e foi abrir a porta dos fundos, que dava para o jardim.
Respirou profundamente o ar fresco da noite, saiu de casa e olhou para o céu.
Havia algo do tamanho aproximado de um ônibus estacionado há cerca de trinta metros acima do seu gramado.
Estava realmente lá. Parado.
Praticamente em silêncio.
Algo se moveu no fundo da alma de Tricia.
Abaixou os braços devagar. Não percebeu que derrubou o café pelando no seu pé. Mal conseguia respirar enquanto, bem devagarzinho, centímetro por centímetro, a nave concluía a aterrissagem. As luzes vasculhavam delicadamente o gramado, como se estivessem sondando, sentindo o terreno. Então viraram-se para ela.
Parecia impossível que ela pudesse estar sendo agraciada com uma segunda chance. Será que ele a encontrara? Será que tinha voltado? A nave continuou a descer aos poucos até finalmente pousar silenciosamente no seu jardim. Não era exatamente parecida com a que ela vira partir anos atrás, pensou, mas luzes piscando no céu à noite não são muito fáceis de se distinguir.
Silêncio.
Depois um click e um hum.
Depois outro click e outro hum.
Click hum, click hum.
Uma portinhola se abriu, derramando luz pelo jardim na direção dela.
Tricia aguardou, fervilhando.
Uma silhueta surgiu contra a luz, depois outra e mais outra. Olhos arregalados piscavam vagarosamente para ela. E, vagarosamente, levantaram as mãos para saudá-la.
— McMillan? — perguntou finalmente uma voz estranha e fininha que pronunciou as sílabas com dificuldade. — Tricia McMillan. Srta. Tricia McMillan?
— Sim — respondeu Tricia, quase afônica.
— Temos monitorado você.
— M... monitorado? A mim?
— Sim.
Olharam para ela por alguns instantes, mexendo os seus imensos olhos para cima e para baixo devagar.
— Você parece mais baixa na vida real — comentou um deles finalmente.
— O quê? — perguntou Tricia.
— É.
— Eu... eu não estou entendendo — disse Tricia. Obviamente não esperava uma coisa daquelas, mas, mesmo para uma coisa que ela jamais havia esperado, aquilo não estava indo da maneira que ela esperava. Por fim, continuou: — Vocês são... vocês vieram de... Zaphod?
A pergunta pareceu causar uma certa consternação nas três figuras. Confabularam entre eles em uma língua esganiçada e voltaram-se para ela.
— Achamos que não. Até onde sabemos, não — disse um deles.
— Onde fica Zaphod? — perguntou o outro, olhando para o céu.
— Eu... eu não sei — respondeu Tricia, sem graça.
— É muito longe daqui? Em qual direção? Não sabemos.
Tricia constatou, com um aperto no peito, que eles não faziam a menor ideia de quem ou do que ela estava falando. E ela não fazia a menor ideia do que eles estavam dizendo.
Colocou as esperanças no saco novamente e esforçou-se para dar partida no seu cérebro. Não fazia sentido ficar decepcionada. Tinha de perceber que estava com o furo de reportagem do século nas suas mãos. O que fazer? Voltar para dentro de casa e pegar uma câmera de vídeo? Estava absolutamente confusa em relação à estratégia que deveria adotar. Mantenha-os falando, pensou ela. Resolva o resto depois.
— Vocês estavam me monitorando?
— Todos vocês. Tudo no seu planeta. TV. Rádio. Telecomunicações. Computadores. Circuitos de vídeo. Armazéns.
— O quê?
— Estacionamentos. Tudo. Monitoramos tudo.
Tricia olhava fixamente para eles.
— Isso deve ser muito chato, hein?
— É.
— Então por que...
— Exceto...
— Ahn? Exceto o quê?
— Os programas de auditório. Gostamos dos programas de auditório.
Um silêncio assustadoramente longo instalou-se enquanto Tricia olhava para os alienígenas e eles olhavam de volta.
— Só tem uma coisinha que eu queria buscar lá dentro — disse Tricia, calmamente. — Melhor ainda. Será que vocês, ou um de vocês, gostariam de entrar comigo e dar uma olhada?
— Pois não! — responderam todos eles, entusiasmados.
Os três ficaram desconfortavelmente parados na sala de estar, enquanto ela corria para lá e para cá, apanhando uma câmera de vídeo, uma câmera fotográfica, um gravador e qualquer outro aparelho de gravação que pudesse encontrar. Eles eram bem magros e, sob as condições de iluminação doméstica, meio verde-arroxeados.
— Vai ser rápido, rapazes — disse Tricia, enquanto vasculhava as gavetas atrás de fitas e filmes.
Os alienígenas estavam examinando as prateleiras onde ficavam os seus CDs e antigos LPs. Um deles cutucou discretamente os outros.
— Olha só — disse ele. — Elvis.
Tricia estacou e tornou a olhar para eles.
— Vocês curtem Elvis?
— Claro — disseram eles.
— Elvis Presley?
— Isso mesmo.
Ela sacudiu a cabeça, atônita, enquanto tentava enfiar uma fita nova na câmera de vídeo.
— Tem gente aqui no seu planeta — disse um dos visitantes, um pouco hesitante — que acha que Elvis foi sequestrado por alienígenas.
— O quê? — perguntou Tricia. — E isso é verdade?
— É possível.
— Vocês estão me dizendo que sequestraram Elvis? — sussurrou Tricia.
Estava tentando manter a calma para não fazer confusão com seu equipamento, mas aquilo era demais para ela.
— Não. Nós, não — responderam os seus convidados. — Alienígenas. É uma possibilidade deveras interessante. Costumamos conversar a respeito.
Preciso gravar isso, resmungou Tricia para si mesma. Verificou se a câmera estava ligada e funcionando. Virou para eles, sem apontar para os olhos deles, para não assustá-los. Mas era experiente o bastante para filmá-los direitinho com a câmera na altura do quadril.
— Está bem — disse ela. — Agora me contem com calma, bem devagar, quem são vocês. Começando por você — disse para o que estava mais à esquerda. — Qual é o seu nome?
— Eu não sei.
— Você não sabe.
—Não.
— Sei — disse Tricia. — E vocês dois?
— Também não sabemos.
— Está bem. Vamos lá. Talvez possam me dizer de onde vêm?
Balançaram a cabeça.
— Vocês não sabem de onde vêm?
Balançaram a cabeça novamente.
— Sei — repetiu Tricia. — Mas o que vocês... hum...
Estava enrolando, mas, sendo uma profissional, conseguia manter a câmera imóvel enquanto enrolava.
— Estamos em uma missão — disse um dos alienígenas.
— Uma missão? Para fazer o quê?
— Não sabemos.
Continuou mantendo a câmera imóvel.
— Então, o que estão fazendo aqui na Terra?
— Viemos buscá-la.
Imóvel, fixamente imóvel. Para todos os fins práticos, poderia ser um tripé.
Perguntou-se se deveria estar usando um tripé, por sinal. Teve tempo para confabular consigo mesma por alguns segundos, pois ainda estava digerindo o que eles haviam acabado de dizer. Não, pensou ela, a câmera na mão lhe dava mais flexibilidade.
Também pensou: socorro, o que vou fazer agora?
— Por que — perguntou ela, calmamente — vocês vieram me buscar?
— Porque perdemos nossas mentes.
— Com licença — disse Tricia —, tenho que pegar um tripé.
Pareceram satisfeitos por ficarem parados na sala, sem nada para fazer, enquanto Tricia apanhava rapidamente um tripé e apoiava a câmera sobre ele. O seu rosto estava completamente imóvel, mas ela não fazia a menor ideia do que estava acontecendo e do que pensar a respeito.
— O.k. — disse ela, quando estava tudo pronto. — Por que...
— Gostamos da sua entrevista com a astróloga.
— Vocês viram?
— Assistimos a tudo. Nos interessamos muito por astrologia. Gostamos bastante. É muito interessante. Nem tudo é interessante. Astrologia é interessante. O que os astros nos dizem, o que os astros preveem. Informações assim são bastante úteis.
— Mas...
Tricia não sabia nem por onde começar.
Desista, pensou ela. Não faz sentido tentar bolar nenhuma estratégia.
Então, ela disse:
— Mas eu não sei nada sobre astrologia.
— Mas nós sabemos.
— Vocês sabem?
— Sim. Acompanhamos os nossos horóscopos. Avidamente. Consultamos todos os seus jornais e revistas, ardorosamente. Mas nosso líder diz que temos um problema.
— Vocês têm um líder?
— Temos.
— Qual o nome dele?
— Não sabemos.
— Qual o nome que ele se dá, caramba? Desculpem, vou precisar editar essa parte. Qual o nome que ele se dá?
— Ele também não sabe.
— Então como é que vocês sabem que ele é o líder?
— Ele assumiu o poder. Disse que alguém tem que fazer alguma coisa por lá.
— Ah! — disse Tricia, captando uma pista. — Onde é “lá”?
— Rupert.
— O quê?
— Vocês chamam de Rupert. O décimo planeta do sol de vocês. Fixamos residência lá há vários anos. É muito frio e desinteressante. Mas é bom para monitorarmos vocês.
— Por que estão nos monitorando?
— É só o que sabemos fazer.
— Está bem — disse Tricia. — Beleza. Qual é esse problema que seu líder diz que vocês têm?
— Triangulação.
— Como é que é?
— A astrologia é uma ciência muito precisa. Sabemos disso.
— Bem... — começou Tricia e deixou pra lá.
— Mas é precisa para vocês aqui na Terra.
— S...i...m... — Estava com a terrível impressão de estar captando vagamente o que eles queriam dizer.
— Quando Vênus está em Capricórnio, por exemplo, isso acontece do ponto de vista da Terra. Como é que funciona se estivermos em Rupert? E se a Terra estiver entrando em Capricórnio? Fica complicado saber. Entre as inúmeras e significativas coisas que esquecemos está a trigonometria.
— Deixa eu ver se entendi — disse Tricia. — Vocês querem que eu vá com vocês para... Rupert...
— Sim.
— Recalcular os seus horóscopos para poderem levar em conta as posições relativas da Terra e de Rupert?
— Sim.
— Vocês me garantem uma exclusiva?
— Sim.
— Então está fechado — disse Tricia, pensando que poderia, no mínimo, vender a sua matéria para o National Enquirer ou para alguma outra revista doida.
Enquanto embarcava na nave que a levaria para os limites mais longínquos do sistema solar, a primeira coisa na qual bateu os olhos foi uma bancada com monitores de vídeo, nos quais passavam milhares de imagens. Um quarto alienígena estava sentado assistindo a tudo, mas parecia particularmente interessado em uma determinada tela que exibia uma imagem fixa. Era um replay da entrevista improvisada que Tricia acabara de conduzir com seus três colegas. Ele levantou os olhos quando a viu embarcar, apreensiva, na nave.
— Boa noite, Srta. McMillan — disse ele. — Fez um bom trabalho com a câmera.

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