17 de dezembro de 2017

Capítulo 5

O Guia do Mochileiro das Galáxias é um órgão poderoso. Na verdade, a sua influência é tão
extraordinária que sua equipe editorial foi obrigada a criar regras severas para evitar o seu uso indevido. Por isso, nenhum dos seus pesquisadores de campo pode aceitar qualquer tipo de serviços, descontos ou tratamento preferencial de qualquer tipo em troca de favores editoriais, a não ser que:
a) tenham feito uma tentativa de boa-fé de pagar por um serviço de maneira convencional;
b) suas vidas estejam em perigo;
c) estejam realmente a fim de fazer isso.
Já que invocar a terceira regra sempre envolvia uma pequena comissão para o editor, Ford preferia se entender com as duas primeiras.
Saiu do bar, caminhando alegremente pela calçada.
O ar estava abafado, mas ele gostava porque era um ar abafado urbano, repleto de cheiros emocionantemente desagradáveis, música perigosa e o som distante de tribos policiais em guerra.
Carregava a mochila com um gingado despretensioso, pronto para dar um belo safanão em quem tentasse apanhá-la à sua revelia. Tudo o que ele possuía estava lá dentro e, no momento, não era lá grande coisa.
Uma limusine passou em disparada, desviando das pilhas de lixo em chamas e assustando um velho animal de carga, que cambaleou, urrando, tentando não ser atingindo pelo carro. Ele foi parar contra a vitrine de uma loja de ervas medicinais, disparando um alarme estridente, e seguiu capengando rua baixo até os degraus de uma pequena cantina italiana, onde fingiu tropeçar e cair nas escadas porque sabia que ali seria fotografado e receberia alguma comida.
Ford caminhava rumo ao norte. Achou que provavelmente estava a caminho do espaçoporto, mas já tinha pensado isso. Sabia que estava passando pela parte da cidade onde os planos das pessoas costumavam mudar abruptamente.
— Quer se divertir? — perguntou uma voz, saída de uma porta aberta.
— Que eu saiba — respondeu Ford —, já estou me divertindo. Obrigado.
— Você é rico? — perguntou outra voz. Aquilo fez Ford rir.
Ele se virou e abriu bem os braços.
— Por acaso pareço rico? — perguntou.
— Sei lá — disse a garota. — Talvez sim, talvez não. Talvez você fique rico. Eu ofereço um serviço muito especial para os ricos...
— Ah, é? — disse Ford, intrigado, mas cauteloso. — E como é isso?
— Eu digo a eles que não há nada de errado em ser rico.
Tiros espocaram, vindos de uma janela bem acima deles, mas era só um baixista sendo fuzilado por ter tocado um riff errado três vezes seguidas. A cotação dos baixistas estava em baixa em Han Dold City.
Ford parou e tentou distinguir alguma coisa dentro da entrada escura.
— Você o quê? — perguntou ele.
A garota riu e deu um passo à frente, saindo das sombras Era alta e tinha aquele tipo de timidez altiva que funciona super bem para quem sabe fazer direitinho.
— É a minha especialidade — continuou ela. — Fiz mestrado em economia social e posso ser bem convincente. As pessoas adoram. Principalmente nesta cidade.
— Goosnargh — disse Ford Prefect. Aquela era uma palavra betelgeusiana que ele usava quando sabia que devia dizer algo mas não sabia exatamente o quê.
Sentou-se em um degrau e tirou da mochila uma garrafa de Aguardente Janx e uma toalha.
Abriu a garrafa e limpou o gargalo com a toalha, o que produziu um efeito contrário ao pretendido, no sentido que a Aguardente Janx matou instantaneamente os milhões de germes que estavam aos poucos criando uma civilização bastante complexa e esclarecida nas manchas mais fedorentas da toalha.
— Quer? — ofereceu ele, depois de ter tomado um trago.
Ela deu de ombros e apanhou a garrafa.
Ficaram sentados por um tempo, ouvindo tranquilamente a algazarra de alarmes contra roubo vinda do quarteirão vizinho.
— Acontece que estão me devendo muito dinheiro — disse Ford —, então, se algum dia eu conseguir receber, posso vir aqui e procurar você?
— Claro, estarei aqui — respondeu a garota. — Mas quanto é “muito”, no seu caso?
— Salário atrasado por quinze anos de trabalho.
— Por...?
— Escrever duas palavras.
— Zarquon — disse a garota. — Qual delas levou mais tempo?
— A primeira. Depois que eu consegui a primeira, a segunda me ocorreu naturalmente numa tarde após o almoço.
Uma bateria eletrônica enorme foi arremessada pela janela e se espatifou na calçada diante deles.
Logo ficou claro que alguns dos alarmes contra roubo no quarteirão vizinho haviam sido disparados de propósito por uma tribo policial para armar uma emboscada para a outra.
Viaturas com sirenes histéricas dirigiram-se para o local, apenas para serem recebidas com uma saraivada de tiros disparados por helicópteros que surgiram com um estrondo por entre gigantescos arranha-céus da cidade.
— Na verdade — disse Ford, tendo que gritar por causa da barulheira —, não foi bem assim. Eu escrevi coisa à beça, mas eles cortaram tudo.
Tirou a sua cópia do Guia de dentro da mochila.
— Então o planeta foi demolido — gritou ele. — É o tipo de trabalho que realmente valeu a pena, né? Mas, de qualquer jeito, eles têm que me pagar.
— Você trabalha pra isso? — gritou a garota de volta.
— Trabalho.
— Legal.
— Quer ver o que escrevi? — berrou ele. — Antes que apaguem? As novas revisões vão ser lançadas hoje à noite na rede. A essa altura, alguém já deve ter descoberto que o planeta onde fiquei por quinze anos foi demolido. Eles não atualizaram nas últimas revisões, mas não vão poder ignorar isso pra sempre.
— Está ficando impossível conversar, não?
— O quê?
Ela deu de ombros e apontou para cima.
Havia um helicóptero sobre eles que parecia estar envolvido em um conflito paralelo com a banda do andar de cima. Nuvens de fumaça saíam do prédio. O engenheiro de som estava pendurado pelos dedos na janela e um guitarrista enlouquecido estava batendo nos seus dedos com uma guitarra em chamas. O helicóptero estava atirando em todos eles.
— Será que podemos sair daqui?
Desceram a rua, fugindo do barulho. Cruzaram com um grupo de atores de rua. Eles tentaram apresentar um pequeno esquete sobre os problemas do centro decadente da cidade mas acabaram desistindo e desaparecendo dentro daquele restaurante recentemente frequentado pelo animal de carga.
Durante todo esse tempo, Ford estava remexendo no painel de interface do Guia.
Enfiaram-se em um beco. Ford se sentou sobre uma lata de lixo enquanto as informações começaram a surgir na tela.
Localizou o seu verbete.
“Terra: Praticamente inofensiva.”
Quase imediatamente, a tela se converteu em um monte de mensagens do sistema.
— Aí vem — disse ele.
“Por favor, aguarde”, diziam as mensagens. “Os verbetes estão sendo atualizados via Subeta Net. Esse verbete está sendo revisado. O sistema ficará fora do ar por dez segundos.”
No final do beco, uma limusine cinza-metálico passou devagar.
— Olha — disse a garota —, se te pagarem, me procura. Estou no horário de trabalho e tem gente ali precisando de mim. Tenho que ir.
Ela ignorou os protestos semi-articulados de Ford e o deixou sentado desanimadamente na lata de lixo, preparando-se para assistir a uma boa parte de sua vida profissional ser varrida eletronicamente para o éter.
Lá fora, na rua, as coisas haviam se acalmado um pouco. A batalha policial movera-se para os outros setores da cidade, os poucos membros sobreviventes da banda de rock haviam reconhecido as suas diferenças musicais e decidido seguir carreiras solo e o grupo de atores de rua reaparecera, saindo da cantina italiana com o animal de carga, prometendo levá-lo a um bar onde ele seria tratado com algum
respeito. Um pouco além, a limusine cinza-metálico estava silenciosamente estacionada à beira da calçada. A garota correu até ela.

* * *

Ford Prefect ficou para trás, imerso na escuridão do beco, com o rosto banhado pelo brilho verde da tela. Os seus olhos iam ficando cada vez mais arregalados de espanto.
Lá onde nada mais esperava encontrar senão um verbete apagado, removido, havia, pelo contrário, um fluxo contínuo de dados, textos, diagramas, figuras e imagens, descrições emocionantes sobre o surfe nas praias australianas, iogurte nas ilhas gregas, restaurantes a serem evitados em Los Angeles, transações monetárias a serem evitadas em Istambul, clima a ser evitado em Londres, bares para frequentar em qualquer lugar do mundo. Páginas e mais páginas. Estava tudo lá, tudo o que ele escrevera.
Com a testa profundamente franzida em perplexa incompreensão, consultava o Guia freneticamente, parando aqui e ali em vários pontos.
Dicas para alienígenas em Nova York: Aterrissem onde quiserem, no Central Park, em qualquer lugar. Ninguém vai se importar, aliás, não vão nem mesmo perceber.
Como sobreviver: Arrume um emprego como motorista de táxi imediatamente. Ser um motorista de táxi significa levar as pessoas para qualquer lugar que elas queiram ir, em grandes máquinas amarelas chamadas táxis. Não se preocupe se você não souber como a máquina funciona, não falar a língua, não entender a geografia ou mesmo a física básica da área e tiver grandes antenas verdes saindo de sua cabeça. Acredite, esta é melhor maneira de permanecer despercebido.
Se o seu corpo for realmente esquisito, tente exibi-lo na rua em troca de dinheiro.
Formas de vida anfíbias de qualquer um dos mundos nos sistemas Stagnos, Nodjent e Nausália irão apreciar particularmente o East River, que, ao que parece, é mais rico em adoráveis nutrientes vitais do que a melhor e mais virulenta gosma já produzida em laboratório.
Lazer: Essa é a melhor parte. É impossível divertir-se mais sem eletrocutar os seus centros de prazer...
Ford clicou no botão, vendo que agora estava escrito “Modo de Execução Preparado” em vez do já antiquado “Acesso em Espera”, que há muito havia substituído o espantosamente pré-histórico
“Desligar”.
Aquele era um planeta que ele vira ser completamente destruído, e havia visto com seu próprio par de olhos, ou melhor, não havia visto, já que ficara cego diante da irrupção infernal de ar e luz, mas havia sentido com seu próprio par de pés quando o solo começou a sacudir como um martelo sob eles, dando solavancos, rugindo e sendo arrancado pelos tsunamis de energia que jorravam das asquerosas naves amarelas dos vogons. E finalmente, cinco segundos após o que havia determinado ser o último momento possível, sentiu a suave náusea revolvente da desmaterialização, enquanto ele e Arthur Dent eram teleportados pela atmosfera como uma transmissão esportiva.
Não fora um equívoco, não podia ter sido. A Terra fora destruída definitivamente.
Definitivamente definitiva. Evaporada no espaço.
E no entanto ali, ativou novamente o Guia, estava o verbete que ele próprio escrevera sobre como conseguir se divertir em Bournemouth, Dorset, na Inglaterra, do qual sempre se orgulhara, pois era uma das invenções mais barrocas que já tinha escrito. Releu o texto e balançou a cabeça, em completo espanto.
Subitamente descobriu qual era a resposta para o problema e a resposta era esta: algo muito estranho estava acontecendo algo muito estranho estava acontecendo, pensou ele, queria que estivesse acontecendo com ele.
Guardou o Guia de volta na mochila e andou rapidamente de volta para a rua.
Caminhando rumo ao norte, tornou a passar pela limusine cinza-metálico estacionada no meio-fio e pôde ouvir uma voz suave, vinda de uma porta entreaberta ali por perto, dizendo:
“Tudo bem, querido, está tudo bem, você precisa aprender a gostar disso. Pense na forma como toda a economia está estruturada...”
Ford sorriu, fez um desvio em torno do quarteirão vizinho, que agora estava ardendo em chamas, deparou-se com um helicóptero da polícia abandonado na rua, invadiu-o, colocou o cinto de segurança, cruzou os dedos e lançou-se inexperientemente no céu.
Contorceu-se temerosamente por entre os altos prédios da cidade e, tendo se livrado deles, arremeteu através do véu de fumaça negra e avermelhada que pairava permanentemente sobre ela.
Dez minutos depois, com todas as sirenes do helicóptero ligadas e seu canhão de fogo contínuo atirando a esmo nas nuvens, Ford Prefect fez um pouso forçado entre as plataformas de lançamento e as luzes de aterrissagem no espaçoporto de Han Dold, onde a aeronave se assentou como um mosquito gigante, assustado e extremamente barulhento.
Como não o havia danificado muito, conseguiu trocá-lo por uma passagem de primeira classe para a próxima nave a deixar o sistema. Acomodou-se em uma das suas enormes e voluptuosas poltronas massageadoras.
Aquilo ia ser divertido, pensou com os seus botões, enquanto a nave piscava silenciosa, atravessando as distâncias enlouquecedoras do espaço sideral e o serviço de bordo entrava em seu modo de plena e extravagante atividade total.
“Sim, obrigado”, dizia ele para qualquer atendente sempre que apareciam para lhe oferecer qualquer coisa.
Sorriu com uma curiosa alegria maníaca enquanto navegava novamente pelo verbete sobre o planeta Terra que havia sido misteriosamente reintroduzido. Poderia, enfim, resolver um assunto inacabado e estava extremamente feliz por constatar que a vida havia subitamente lhe dado um objetivo sério a
alcançar.
De repente pensou onde estaria Arthur Dent e se ele já sabia da novidade.

* * *

Arthur Dent estava a mil quatrocentos e trinta e sete anos-luz dali, em um Saab, bastante apreensivo.
Atrás dele, no banco traseiro, estava a garota que fizera com que ele enfiasse a cabeça na porta ao entrar no carro. Não sabia dizer se aquilo havia acontecido porque ela era a primeira fêmea da sua própria espécie que ele via há anos, ou o quê, mas ficara maravilhado com, com...
“Isso é ridículo”, pensou ele. “Segure a sua onda”, instruiu a si mesmo. “Você não está”, prosseguiu Arthur, “conversando consigo mesmo no tom de voz mais firme possível em um estado normal e racional. Você acabou de pegar carona e atravessar cem mil anos-luz da galáxia, está muito cansado, um pouco confuso e extremamente vulnerável. Relaxe, não entre em pânico, concentre-se apenas em respirar profundamente.”
Virou-se no banco do carona.
— Tem certeza de que ela está bem? — perguntou novamente.
Além do fato de ela ser, na sua opinião, taquicardiacamente linda, não descobriu quase nada, como altura, idade, tonalidade exata do cabelo. E sequer podia perguntar alguma coisa à proria garota porque, infelizmente, ela estava completamente inconsciente.
— Ela só está drogada — respondeu o irmão da garota, dando de ombros, sem desviar os olhos da estrada.
— E você acha isso normal? — perguntou, assustado.
— Tudo legal... — respondeu ele.
— Ah — disse Arthur. — Uhn — acrescentou, após refletir um pouco mais.
A conversa, até agora, ia de mal a muito pior.
Após a comoção inicial dos “ois” de apresentação, ele e Russell, o nome do irmão daquela garota espetacular era Russell, um nome que, para Arthur, sempre evocava homens corpulentos com bigodes loiros e cabelos escovados com secador que, diante da menor provocação, começariam a usar smokings de veludo e camisas com babados e teriam de ser impedidos à força de tecerem comentários sobre partidas de sinuca, descobriram rapidamente que não gostavam nem um pouco um do outro.
Russell era corpulento. Tinha um bigode loiro. O seu cabelo era bonito e escovado com secador. Para lhe fazer justiça, apesar de Arthur não ver nenhuma necessidade disso, além do mero exercício mental, ele próprio, Arthur, estava com uma aparência grotesca. Nenhum homem consegue atravessar cem mil anos-luz, na maior parte das vezes alojado nos compartimentos de bagagens dos outros, sem ficar ligeiramente desalinhado, e Arthur estava bem desalinhado.
— Não que ela seja uma viciada — explicou Russell derepente, obviamente como se achasse que outra pessoa naquele carro pudesse ser. — Está apenas sob sedativos.
— Mas isso é terrível — disse Arthur, virando-se para olhar novamente para a garota. Ela parecia ter se mexido um pouco e a sua cabeça deslizara para o lado, repousando sobre ombro.
O cabelo negro caiu sobre o seu rosto, ocultando-o
— O que há de errado com ela, está doente?
— Não — respondeu Russell —, só é completamente maluca
— O quê? — perguntou Arthur, horrorizado.
— Pirada, completamente tantã. Estou levando ela de volta para o sanatório, para pedir que tentem novamente. Deram alta enquanto ela ainda achava que era um porco-espinho.
— Um porco-espinho?
Russell buzinou furiosamente para o carro que dobrou a esquina, na direção deles, invadindo metade da sua pista e fazendo com que ele desviasse abruptamente. A raiva aparentemente fez com que se sentisse melhor.
— Bem, talvez não um porco-espinho — disse ele, após ter se acalmado. — Se bem que seria muito mais fácil resolver o problema se fosse assim. Se alguém pensa que é um porco-espinho, acho que basta dar um espelho pra pessoa e umas fotos de porcos-espinhos, depois esperar que ela chegue a uma conclusão sozinha e caia na real quando estiver melhor. Pelo menos, a medicina poderia dar um jeito, sabe como é. Mas, ao que parece, isso não é o bastante para Fenny.
— Fenny...?
— Sabe o que eu comprei pra ela de Natal?
— Ah, não.
— Um dicionário médico.
— Belo presente.
— Eu também achei. Milhares de doenças, todas em ordem alfabética.
— O nome dela é Fenny?
— É. Escolha uma, eu disse. Tudo o que está aí pode ser tratado. Os remédios adequados podem ser receitados. Mas não, ela tinha que ter uma coisa diferente. Só pra dificultar a vida. Na época da escola ela já era assim, sabe.
— Era?
— Era. Levou um tombo jogando hóquei e quebrou um osso do qual ninguém nunca tinha ouvido falar.
— Imagino que isso deve ter sido irritante — disse Arthur, sem muita convicção. Estava um pouco decepcionado por ter descoberto que o nome dela era Fenny. Era um nome bobo, desanimador, como o que uma tia solteirona e feia escolheria para si mesma caso não se entendesse com o nome Fenella.
— Não que eu não tenha ficado solidário — prosseguiu Russell —, mas a coisa foi meio irritante mesmo. Ela ficou mancando durante meses.
Ele diminuiu a velocidade.
— Você fica nesse cruzamento, né?
— Ah, não — disse Arthur —, faltam ainda uns oito quilômetros. Tudo bem pra você?
— Tudo bem — disse Russell, após uma breve pausa para deixar bem claro que não estava nada bem. Acelerou novamente.
Na verdade, era ali que Arthur deveria descer, mas ele não podia ir embora sem saber mais a respeito da garota que parecia ter dominado sua atenção, mesmo desacordada. Ele poderia descer num dos dois próximos cruzamentos.
Estavam voltando para a cidadezinha que havia sido o seu lar, embora Arthur nem quisesse imaginar o que encontraria por lá. Já tinha passado por alguns locais familiares, como velhos fantasmas na escuridão da noite, causando arrepios que só coisas muito, muito normais podem provocar, se vistas quando a mente não está preparada e sob um ângulo desconhecido.
Pela sua própria escala pessoal de tempo, até onde conseguia calcular, vivendo como ele vivera sob as rotações alienígenas de sóis distantes, estivera fora de circulação por oito anos, mas quanto tempo havia de fato passado ali, disso não fazia a menor ideia. Na verdade, os acontecimentos em si estavam além da sua exausta compreensão porque aquele planeta, o seu lar, não deveria estar lá.
Há oito anos-luz, na hora do almoço, aquele planeta tinha sido demolido, totalmente destruído pelas enormes naves vogons, pairando no céu do meio-dia como se a lei da gravidade não passasse de uma norma local que podia ser quebrada sem nenhum problema, ou, no máximo, uma multa de trânsito.
— Delírios — disse Russell.
— O quê? — disse Arthur, retornando de seus devaneios.
— Ela diz que sofre de delírios estranhos, de que está vivendo no mundo real. Não adianta nada dizer pra ela que ela está vivendo no mundo real, porque ela te diz que é exatamente por isso que os delírios são tão estranhos. Não sei quanto a você, mas eu acho esse tipo de conversa um saco. Prefiro dar logo os remédios dela e sair para tomar uma cervejinha. Quero dizer, não há nada que eu possa fazer, sacou?
Arthur franziu a testa, e não era a primeira vez.
— Bem...
— E todo esse papo de sonhos e pesadelos. E os médicos falando sobre alterações estranhas nos seus padrões cerebrais.
— Alterações?
— Isso — disse Fenny.
Arthur girou no seu assento e olhou dentro dos olhos dela, inesperadamente abertos, mas completamente apáticos. Fosse lá o que ela estivesse vendo, não estava dentro do carro. Piscou os olhos,
sacudiu a cabeça e voltou a dormir em paz.
— O que ela disse? — perguntou Arthur, ansioso.
— Disse “isso”.
— Isso o quê?
— Isso o que? E como diabos vou saber? Isso, o porco-espmho, da lareira, o outro par de pinças de Don Alfonso. Ela é completamente louca, achei que você já tivesse entendido.
— Você parece não ligar muito. — Arthur tentou dizer aquilo tom de voz mais neutro possível, mas não deu muito certo.
— Olha aqui, cara...
— Tudo bem, desculpa. Eu não tenho nada a ver com isso. Acho que me expressei mal — contemporizou Arthur. — Tenho certeza de que você se preocupa muito com ela, sim — acrescentou ele, mentindo. — Sei que você precisa extravasar de alguma maneira. Foi mal, cara. É que eu acabei de vir de carona do outro lado da nebulosa Cabeça de Cavalo.
Olhou furiosamente para fora da janela.
Estava pasmo, pois, de todas as sensações brigando por um espaço na sua cabeça naquela noite em que estava voltando para a sua casa, aquela que imaginava ter desaparecido para sempre, a que mais estava mexendo com ele era uma obsessão por uma garota bizarra da qual não sabia mais nada além do fato de que ela havia dito “isso” e de que não desejaria aquele irmão nem mesmo para um vogon.
— Então, ah, que alterações eram essas, as que você mencionou? — acrescentou o mais rápido que pôde.
— Olha, ela é minha irmã, eu nem sei por que estou falando com você sobre...
— O.k., desculpa. Talvez seja melhor eu descer aqui. Esse é...
No momento em que disse isso, a coisa ficou impossível, Porque a tempestade que havia passado por ele subitamente ressurgiu. Relâmpagos chicoteavam o céu e alguém parecia estar derramando algo bem parecido com o oceano Atlântico através de uma peneira sobre eles.
Russell xingou e dirigiu concentrado por alguns segundos enquanto o céu esbravejava sobre eles. Descontou a sua raiva acelerando temerariamente para ultrapassar um caminhão onde estava escrito “Fretes McKeena — faça chuva ou faça sol” A tensão foi diminuindo à medida que a chuva ia parando.
— Tudo começou com aquela história do agente da CIA que eles encontraram na represa, quando todo mundo teve aquelas alucinações, lembra?
Arthur cogitou por um momento se devia ou não mencionar novamente que havia acabado de chegar de carona do outro lado da nebulosa Cabeça de Cavalo e que estava, por esse e outros motivos similares e surpreendentes, um pouquinho por fora dos últimos acontecimentos, mas acabou achando que aquilo só ia confundir ainda mais as coisas.
— Não — respondeu ele.
— Foi ali que ela pirou. Estava num café, sei lá onde. Acho que Rickmansworth. Não faço ideia do que ela estava fazendo lá, mas foi lá que ela pirou. Ao que parece, ela se levantou, anunciou calmamente que tinha acabado de ter uma revelação extraordinária ou algo do tipo, cambaleou um pouco, ficou meio confusa e finalmente desmaiou, gritando, em cima de um sanduíche de ovo.
Arthur estremeceu.
— Sinto muito — disse ele, um pouco áspero.
Russell soltou um ruído rabugento.
— E o que — prosseguiu Arthur, tentando juntar as peças — o agente da CIA estava fazendo na represa?
— Boiando aqui e ali, é claro. Estava morto.
— Mas o que...
— Deixa disso, você se lembra da coisa toda. As alucinações. Todo mundo disse que foi uma armação, que a CIA estava testando armas químicas ou algo do tipo. Alguma teoria alucinada de que em vez de invadir um país, ia ser mais barato e mais eficaz fazer as pessoas todas acharem que foram invadidas.
— Que alucinações eram essas, exatamente...? — perguntou Arthur, com uma voz bem tranquila.
— Como assim, que alucinações? Estou falando sobre aquela história das grandes naves amarelas, todo mundo enlouquecendo, dizendo que íamos morrer e, de repente, puft, tudo aquilo desapareceu assim que o efeito passou. A CIA negou a coisa toda, o que significa que deve ser verdade.
A cabeça de Arthur ficou um tanto confusa. A sua mão agarrou alguma coisa para se segurar e apertou-a com firmeza. A sua boca ficava abrindo e fechando, como se pretendesse dizer alguma coisa, mas não saía nada.
— De qualquer jeito — continuou Russell —, seja lá qual foi a droga, não perdeu o efeito assim tão depressa com a Fenny. Por mim tínhamos processado a CIA, mas um advogado camarada meu disse que seria como tentar atacar um hospício com uma banana, então... — ele deu de ombros.
— Os vogons... — chiou Arthur. — As naves amarelas... desapareceram?
— Claro que sim, eram alucinações — disse Russell, olhando para Arthur intrigado. — Você está tentando me dizer que não se lembra de nada disso? Por onde você andou, pelo amor de Deus?
Essa era, para Arthur, uma pergunta tão surpreendentemente boa que ele chegou a pular do banco, chocado.
— Meu Deus!!! — gritou Russell, lutando para controlar o carro que subitamente estava tentando derrapar. Conseguiu desviar de um caminhão que se aproximava e jogou o carro para cima do gramado na margem da estrada. Quando o carro parou bruscamente, a garota no banco de trás foi arremessada contra o banco de Russell e desabou, desconjuntada.
Arthur olhou para trás em pânico.
— Ela está bem? — perguntou depressa.
Russell passou as mãos pelo cabelo escovado com irritação. Mexeu no bigode loiro.
Virou-se para Arthur.
— Será que dá pra você — pediu ele — fazer o favor de soltar o freio de mão?

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