7 de dezembro de 2017

Capítulo 5

Beta da Ursa Menor é, segundo alguns, um dos lugares mais estarrecedores do Universo conhecido.
Embora seja torturantemente rica, pavorosamente ensolarada e cheia de pessoas magnificamente interessantes, não deixa de ser significativo o fato de que quando uma edição recente da revista Playbeing publicou um artigo com uma manchete que dizia “Quando você está cansado de Beta da Ursa Menor está cansado da vida” a taxa de suicídios quadruplicou da noite para o dia.
Não que haja noites em Beta da Ursa Menor.
É um planeta da zona ocidental que por um capricho inexplicável e algo suspeito da topografia consiste quase inteiramente de litorais subtropicais. Por um capricho igualmente suspeito do tempo, quase sempre é sábado à tarde pouco antes de fecharem os bares da praia.
Nenhuma explicação adequada para isso pode ser obtida com as formas de vida dominantes de Beta da Ursa Menor, que passam a maior parte do tempo procurando atingir a iluminação espiritual correndo ao redor das piscinas, ou convidando inspetores do Departamento Geo-Temporal da Galáxia a “compartilharem da agradável anomalia do dia”.
Há apenas uma cidade em Beta da Ursa Menor, e só é chamada de cidade porque aí as piscinas ficam mais próximas uma das outras do que nos outros lugares. Se você chegar à Cidade Luz pelo ar — e não há outro meio de chegar, não há estradas nem instalações portuárias — se você não puder voar eles não querem que você veja a Cidade Luz — você vai entender por que ela tem esse nome. Lá o sol brilha mais, refletindo-se nas piscinas, reluzindo nas calçadas brancas com palmeiras, cintilando nos pontinhos bronzeados e saudáveis que passeiam por elas, fulgurando nas chácaras, nos bares da praia e tudo o mais.
Mais particularmente, ele reluz num prédio, um edifício bonito e alto que consiste de duas torres brancas de trinta andares ligadas por uma ponte na metade da altura. O edifício é a sede de um livro, e foi construído ali com o dinheiro proveniente de um extraordinário processo judicial de copyright disputado entre os editores do livro e uma companhia de cereais para o café da manhã.
O livro é um guia, um livro de viagem.
É um dos mais notáveis, certamente dos mais bem-sucedidos livros já publicados pelas editoras da Ursa Menor — mais popular do que A Vida Começa aos Quinhentos e Cinquenta, mais vendido que A Teoria da Explosão Que Deu Origem ao Universo — Uma Visão Pessoal de T. Eccentrica Gallumbits (a prostituta de três seios de Eroticon Seis) e mais controvertido do que o último livro arrasador de Oolon Colluphid, Tudo o Que Você Nunca Quis Saber Sobre o Sexo Mas Foi Forçado a Descobrir.
E em muitas das civilizações mais descontraídas da Orla Oriental Exterior da Galáxia, superou há muito tempo a grandiosa Enciclopédia Galáctica como depositário clássico de todo o conhecimento e sabedoria, pois apesar de apresentar muitas omissões e de conter muita coisa apócrifa, ou pelo menos tremendamente inexata, ele supera a outra obra mais antiga e corriqueira em pelo menos dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz estampada na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Trata-se, é claro, do indispensável companheiro de todos que desejam conhecer as maravilhas do Universo conhecido por menos de trinta dólares altairianos por dia — O Mochileiro das Galáxias — Guia da Galáxia para Caronas.
Se você se colocasse de costas para o saguão da entrada principal dos escritórios do Guia (presumindo que você já tivesse aterrissado e relaxado com um mergulho rápido e uma ducha) e fosse andando para o leste, você passaria pela sombra das folhagens do Bulevar da Vida, ficaria encantado com o dourado das praias estendendo-se à sua esquerda, espantado com os surfistas mentais flutuando descuidadamente um metro acima das ondas como se isso não fosse nada de especial, surpreso e talvez ligeiramente irritado com as gigantescas palmeiras que assobiam uma falta de melodia durante as horas do dia, ou seja, o tempo todo.
Se você então andasse até o fim do Bulevar da Vida, chegaria ao bairro Lalamantine de lojas, castanheiras e cafés na calçada, onde os ursa-menorbetanos vão descansar após uma dura tarde de descanso na praia. O bairro Lalamantine é uma das poucas áreas que não contam com uma tarde de sábado perpétua — conta, em vez disso, com um perpétuo frescor de um cair da tarde de sábado. Depois desse bairro ficam os clubes noturnos. Se, nesse dia em particular, ou nessa tarde, ou nesse anoitecer — chame como quiser — você chegasse ao segundo café na calçada da direita, você veria a aglomeração costumeira de ursa-menorbetanos batendo papo, bebendo, parecendo muito descontraídos, e olhando como quem não quer nada os relógios uns dos outros para ver quanto teriam custado.
Você veria também uma dupla de mochileiros de aparência um tanto desgrenhada provenientes de Algol que tinham acabado de chegar num megacargueiro arcturano a bordo do qual tinham passado maus bocados por alguns dias. Estavam furiosos e indignados em descobrir que ali, às barbas do prédio do Guia da Galáxia para Caronas, um simples copo de suco de frutas custava o equivalente a mais de sessenta dólares altairianos.
— Traição — disse um deles, amargamente.
Se nesse momento você olhasse então para a outra mesa pulando uma, você veria Zaphod Beeblebrox sentado, parecendo bastante embaraçado e confuso.
O motivo de sua confusão era que cinco segundos antes ele estava sentado na ponte de comando da nave Coração de Ouro.
— Traição absoluta — disse a mesma voz novamente. Zaphod olhava nervosamente com o canto dos olhos para os dois mochileiros desgrenhados na mesa ao lado. Onde é que ele estava? Como tinha ido parar ali? Onde estava sua nave? Apalpou o braço da cadeira em que estava sentado e a mesa à sua frente. Pareciam bastante sólidos. Ele ficou sentado, muito quieto.
— Como eles podem sentar e escrever um guia para mochileiros num lugar como este? — prosseguiu a voz. — Olha só para isso. Olha só!
Zaphod estava olhando só. Lugar agradável, pensou. Mas onde? E por quê? Procurou seus dois pares de óculos no bolso. Sentiu dentro do bolso um pedaço duro, liso e não-identificado de um metal muito pesado. Ele o pegou e deu uma olhada. Piscou, surpreso. Onde teria arranjado aquilo? Colocou de volta no bolso e pôs os óculos, aborrecido ao descobrir que o objeto metálico tinha riscado uma das lentes. De qualquer forma, sentia-se muito mais confortável de óculos. Eram dois pares de Óculos Escuros Supercromáticos Perigo-Sensitivos Joo Janta 200, que tinham sido especialmente desenvolvidos para ajudar as pessoas a assumirem uma atitude tranquila diante do perigo. Ao primeiro sinal de distúrbio, as lentes ficam totalmente pretas evitando assim que a pessoa veja qualquer coisa que possa alarmá-la.
A não ser pelo arranhão, as lentes estavam claras. Ele relaxou, mas só um pouco. O mochileiro furioso continuava a dardejar com os olhos seu suco de frutas monstruosamente caro.
— A pior coisa que aconteceu para o Guia foi mudar para Beta da Ursa Menor — resmungou. — Ficaram todos uns moles. Sabe, eu até ouvi dizer que eles criaram um Universo inteiro sintetizado eletronicamente num de seus escritórios para poderem fazer as pesquisas de dia e ainda frequentarem festas à noite. Não que noite e dia queiram dizer alguma coisa neste lugar.
Beta da Ursa Menor, pensou Zaphod. Pelo menos agora ele sabia onde estava. Presumiu que isso era coisa de seu bisavô, mas por quê?
Muito contra a sua vontade uma ideia lhe veio à mente. Era muito clara e distinta, e ele já tinha aprendido a reconhecer essas ideias pelo que elas eram. Seu instinto era de resistir a elas. Eram os estímulos pré-ordenados provenientes das partes obscuras e trancafiadas de sua mente.
Ficou sentado e ignorou furiosamente a ideia. A ideia o provocou. Ele a ignorou. Ela o provocou. Ele a ignorou. Ela o provocou. Ele se entregou.
Ao inferno, pensou. Acompanhar a corrente. Estava cansado demais, confuso demais e com muita fome para resistir. Ele nem sequer sabia o que significava aquela ideia.

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Boa leitura :)