17 de dezembro de 2017

Capítulo 4

Um observador casual não saberia dizer se ele estava bêbado, passando mal ou suicidamente insano, e, para falar a verdade, não havia observadores casuais no Old Pink Dog Bar, na zona barra-pesada de Han Dold City, porque aquele não era o tipo de lugar no qual você podia se dar ao luxo de fazer as coisas casualmente, se quisesse continuar vivo. Naquele lugar, qualquer observador teria olhos de águia cruel, estaria armado até os dentes e sentiria dolorosas pontadas na cabeça, coisa que o levaria a cometer atos de loucura se observasse algo que não fosse do seu agrado.
Um daqueles silêncios desagradáveis tinha descido sobre o lugar, um tipo de silêncio de crise de mísseis.
Até mesmo o pássaro mal-encarado, empoleirado em uma haste de madeira no bar, havia parado de gritar esganiçadamente os nomes e os endereços dos assassinos de aluguel locais, um serviço que ele oferecia de graça.
Todos os olhos se voltaram para Ford Prefect. Alguns de forma maligna.
A maneira exata que Ford escolhera para jogar a sorte com a morte naquele dia era tentando pagar uma conta de bebidas equivalente ao valor de um pequeno orçamento de defesa com um cartão de crédito da American Express, que não era aceito em lugar nenhum do Universo mapeado.
— Qual é o seu problema? — perguntou com a voz animada. — A data de validade? Vocês nunca ouviram falar em Neo-Relatividade por aqui, não? Existem novas áreas da Física que podem dar conta disso. Efeitos de dilatação do tempo, relastática temporal...
— Não estamos preocupados com a data de validade — respondeu o homem a quem Ford tinha dirigido sua explicação, um barman perigoso em uma cidade perigosa. A sua voz era semelhante a um ronronar baixinho e suave, como o ronronar baixinho e suave da abertura de um silo de mísseis balísticos intercontinentais. Uma mão que lembrava um grande naco de bife tamborilou os dedos no balcão do bar, amassando-o levemente.
— Bom, então não há problema algum — disse Ford, arrumando a sua mochila e se preparando para sair.
Um dos dedos tamborilantes alcançou Ford Prefect e pousou delicadamente no seu ombro, impedindo-o de sair.
Embora o dedo estivesse preso à mão que mais parecia uma laje e a mão estivesse presa a um antebraço que mais parecia um taco de beisebol, o antebraço não estava preso a nada, exceto no sentido metafórico de que estava preso, com a feroz lealdade de um cão, ao bar que chamava de casa. Ele já estivera um dia convencionalmente preso ao dono original do bar, mas ele, em seu leito de morte, resolveu doá-lo no último minuto para a Medicina. A Medicina resolveu que não gostava do jeitão do braço e devolveu-o ao Old Pink Dog Bar.
O novo barman não acreditava em sobrenatural, Poltergeist ou qualquer maluquice do gênero, apenas sabia reconhecer um aliado útil. A mão ficava no bar. Anotava pedidos, servia os drinques, tratava de forma assassina as pessoas que se comportavam como se quisessem ser assassinadas. Ford Prefect estava sentado, imóvel.
— Não estamos preocupados com a data de validade — repetiu o barman, satisfeito por finalmente ter a atenção completa de Ford Prefect. — Estamos preocupados com o pedacinho de plástico em si.
— O quê? — perguntou ele, um tanto surpreso.
— Isso — retrucou o barman, segurando o cartão como se fosse um peixinho cuja alma batera as asas há três semanas para a Terra Onde os Peixes São Eternamente Abençoados — nós não aceitamos.
Ford considerou brevemente se devia levantar a questão de não ter outros meios de pagamento consigo, mas decidiu ficar quieto mais um tempo. A mão sem corpo estava agora apertando o seu ombro de forma gentil, porém firme, entre o indicador e o polegar.
— Mas vocês não estão entendendo — ponderou Ford, a sua expressão amadurecendo lentamente de uma leve surpresa para total incredulidade. — Estamos falando do American Express. A melhor maneira de pagar as contas conhecida pelo homem. Vocês não leem aquelas porcarias que eles mandam pelo correio, não?
O tom de voz animadinho de Ford estava começando a irritar os ouvidos do barman.
Soava como um sujeito soprando sem parar um apito durante as passagens mais lúgubres de um réquiem de guerra.
Um dos ossos do ombro de Ford começou a entrar em atrito com outro osso de seu ombro de uma maneira que levava a crer que a mão aprendera os princípios da dor com um massagista altamente habilidoso. Esperava resolver aquela situação antes que a mão começasse a colocar um dos ossos do seu ombro em atrito com qualquer osso de outra parte do seu corpo.
Felizmente, o ombro onde a mão estava pousada não era o ombro onde ele pendurara a sua mochila.
O barman deslizou o cartão de volta para Ford por cima do balcão.
— Nunca — disse ele, com uma selvageria contida — ouvimos falar desse troço.
Não era de se admirar.
Ford somente o adquirira devido a um grave erro de computador perto do final de sua estada de quinze anos no planeta Terra. Exatamente o quão grave havia sido o erro foi algo que a American Express descobriu bem depressa, e as cobranças cada vez mais histéricas e apavoradas do departamento de cobrança só foram silenciadas pela inesperada demolição de todo o planeta pelos vogons, para a construção de uma via expressa hiperespacial.
Ford tinha guardado o cartão depois disso porque achava útil carregar uma forma de pagamento que ninguém ia aceitar.
— Posso pendurar? — perguntou ele. — Aaaargggh...
Essas três palavras normalmente vinham em sequência no Old Pink Dog Bar.
— Eu pensei — disse Ford, arfando — que este fosse um estabelecimento de classe.
Olhou à sua volta para a diversificada coleção de assassinos, cafetões e executivos de gravadoras que se escondiam bem no limite das áreas de luz tênue que marcavam os contornos das profundas sombras em que todos os cantos do bar estavam imersos. Naquele momento, todos olhavam muito deliberadamente para qualquer direção que não fosse a dele, retomando cuidadosamente o fio da meada de suas conversas sobre assassinatos, quadrilhas de drogas e contratos para lançamento de bandas. Sabiam o que estava prestes a acontecer e não queriam ver, caso fosse algo que os fizesse perder a vontade de beber seus drinques.
— Você vai morrer, rapaz — murmurou baixinho o barman para Ford Prefect, e as evidências eram favoráveis a ele. O bar costumava ter uma daquelas placas penduradas onde se lia “Por favor, não peça para pendurar a conta, pois um soco na boca geralmente machuca”, mas, para torná-la absolutamente precisa, fora alterada para “Por favor, não peça para pendurar a conta, pois ter a sua garganta dilacerada por um pássaro selvagem enquanto uma mão sem corpo esmaga a sua cabeça contra o bar geralmente  machuca”. Isso, no entanto, tornara o aviso completamente ilegível e, além disso, o espírito da coisa se perdeu, de modo que a placa foi removida. Acharam que a história iria se espalhar por conta própria e de fato se espalhou.
— Deixa eu dar uma olhada na conta de novo — pediu Ford. Ele a apanhou e estudou minuciosamente, sob o maléfico olhar do barman e do igualmente maléfico olhar do pássaro que, naquele momento, estava fazendo um estrago na superfície do balcão com as suas garras.
Era um pedaço de papel razoavelmente grande.
Na ponta inferior havia um número que parecia um número de série, daqueles que podem ser encontrados no lado de baixo dos rádios e que a gente sempre leva um tempão para copiar no formulário de registro. É bem verdade que Ford tinha passado o dia todo no bar, bebendo uma porção de coisas borbulhantes e também havia oferecido uma quantidade impressionante de rodadas de bebida grátis para os cafetões, assassinos e executivos de gravadoras que, de repente, não lembravam mais quem era aquele cara.
Pigarreou baixinho e tateou os bolsos. Estavam vazios, como ele estava cansado de saber.
Com suavidade, mas com firmeza, pousou a mão esquerda na aba entreaberta da sua mochila. A mão sem corpo renovou a pressão no seu ombro direito.
— Veja bem — disse o barman e o seu rosto parecia oscilar com certa perversidade diante de Ford —, eu tenho uma reputação a zelar. Você entende isso, não entende?
“Chega”, pensou Ford. Não tinha outro jeito. Havia obedecido às regras, havia feito uma tentativa de boa-fé de pagar a sua conta e ela fora rejeitada. Estava agora correndo perigo de vida.
— Bem — respondeu ele, calmamente —, se é a sua reputação que está em jogo...
Com súbita rapidez, abriu a mochila e socou no balcão seu exemplar do Guia do
Mochileiro das Galáxias com o cartão oficial afirmando que ele era um pesquisador de campo do Guia e que não podia fazer, de jeito nenhum, o que estava fazendo naquele momento.
— Vai querer uma resenha?
O rosto do barman parou no meio de uma oscilação. O pássaro parou no meio de uma arranhada do balcão. A mão foi soltando aos poucos o ombro de Ford.
— Isso — disse o barman em um sussurro quase inaudível, por entre os lábios secos — resolve tudo, senhor.

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