14 de dezembro de 2017

Capítulo 4

Era um dia lindo e agradável no Lord’s Cricket Ground quando Ford e Arthur foram casualmente jogados para fora de uma anomalia espaço-temporal e se estatelaram violentamente sobre o gramado perfeito.
A torcida aplaudia estrondosamente. Não eram eles que estavam sendo aplaudidos, mas se curvaram, em um gesto instintivo de agradecimento, o que foi uma grande sorte, já que a pequena e pesada bola vermelha que a torcida estava aplaudindo passou zunindo a poucos milímetros da cabeça de Arthur. Na multidão, um homem desmaiou.
Eles se jogaram de volta no chão, que parecia girar de forma medonha em torno deles.
— O que foi isso? — sussurrou Arthur.
— Algo vermelho — sussurrou Ford de volta.
— Onde estamos?
— Ahn, sobre algo verde.
— Formas — murmurou Arthur. — Preciso de formas.
O aplauso da multidão foi rapidamente substituído por exclamações de perplexidade e pelas risadas tensas de centenas de pessoas que ainda não tinham decidido se acreditavam ou não no que haviam acabado de ver.
— Este sofá é de vocês? — disse uma voz.
— O que foi isso? — sussurrou Ford.
Arthur olhou para cima.
— Algo azul.
— Forma? — perguntou Ford.
Arthur olhou novamente.
— Tem a forma — sussurrou para Ford, com as sobrancelhas furiosamente contraídas — de um policial.
Permaneceram agachados por alguns instantes, franzindo os olhos o máximo possível. A coisa azul com a forma de policial cutucou os dois.
— Vamos lá, vocês dois — disse a forma —, vamos andando.
Essas palavras tiveram um forte efeito sobre Arthur. Em um segundo estava de pé, como um escritor ao ouvir o telefone tocar, e olhou espantado para as coisas em volta dele, que haviam se fixado em uma familiaridade bem terrível.
— De onde você tirou isso? — gritou para a forma de policial.
— O que você disse? — respondeu a forma, espantada.
— Isso aqui é Lord’s Cricket Ground, não é? — retrucou Arthur. — Onde você encontrou isso, como você o trouxe até aqui? Acho — acrescentou, colocando a mão na testa — que é melhor eu me acalmar. — Agachou-se abruptamente diante de Ford. — É um policial — disse. — O que vamos fazer?
Ford deu de ombros.
— O que você quer fazer?
— Eu quero — disse Arthur — que você me diga que passei os últimos cinco anos sonhando.
Ford deu de ombros novamente e obedeceu.
— Você passou os últimos cinco anos sonhando.
Arthur levantou-se outra vez.
— Está tudo bem, seu guarda — disse ele. — Eu passei os últimos cinco anos sonhando. Pergunte a ele — acrescentou, apontando para Ford —, ele também estava no sonho.
Tendo dito isso, saiu andando em direção à divisória do campo, espanando o pó de seu roupão. Foi então que notou seu roupão e parou. Olhou para ele.
Atirou-se sobre o guarda.
— Então de onde foi que vieram estas roupas? — gritou. Desmaiou e caiu sobre o gramado.
Ford balançou a cabeça.
— Os últimos dois milhões de anos foram difíceis para ele — disse para o guarda.
Juntos, colocaram Arthur sobre o sofá e o carregaram para fora do campo, sendo brevemente interrompidos, no meio do caminho, pela súbita desaparição do sofá. A multidão reagiu de formas bem variadas a tudo isso. Muitos não tiveram estômago para assistir à cena e preferiram ouvir a narração pelo rádio.
— Olha, Brian, essa foi interessante — disse um dos locutores para o outro. — Não me lembro de nenhuma materialização misteriosa no campo desde que... bom, acho que isso nunca aconteceu antes, não que eu me lembre.
— Que tal Edgbaston, 1932?
— O que foi que aconteceu por lá?
— Bem, Peter, acho que era Canter contra Wilícox, vindo para arremessar do extremo do campo quando um espectador subitamente atravessou o gramado.
Ficaram em silêncio enquanto o primeiro locutor pensava a respeito.
— Eeeeeé... é — disse ele. — Bem, não vejo nenhum grande mistério nisso, não é mesmo? Pelo que entendi, o sujeito não se materializou em campo, ele apenas entrou correndo, não?
— É verdade, é verdade, mas ele disse que tinha visto algo se materializar no campo.
— Ah! E o que ele viu?
— Acho que era um jacaré.
— Certo. E alguém mais notou o jacaré em campo?
— Aparentemente não. Como ninguém conseguiu que o tal homem desse uma descrição muito detalhada, fizeram uma busca rápida pelo campo mas não acharam nada.
— E que fim levou o sujeito?
— Bem, pelo que me lembro, alguém se ofereceu para tirá-lo de lá e pagar um almoço para o homem, mas ele disse que já havia comido muito, então deixaram o caso de lado e a partida acabou com Warwickshire vencendo por três wickets.
— Eu diria que foi bem diferente desse caso agora. Para os ouvintes que acabaram de sintonizar nossa transmissão, o que está acontecendo por aqui é que... bem... dois homens – usando uns farrapos em péssimo estado, aliás – e também um sofá... Era um Chesterfield, não era?
— Isso mesmo, Peter, um Chesterfield.
— Eles se materializaram sensacionalmente bem aqui, no meio do Lord’s Cricket Ground. Mas não acho que tenham feito isso por maldade, parecem bem-intencionados e...
— Peter, Peter, um momento... Queria interrompê-lo para dizer que o sofá acaba de desaparecer.
— Ê verdade. Temos um mistério a menos, então. Ainda assim, definitivamente essa vai entrar para a história, sobretudo porque ocorreu em um momento dramático da partida, a Inglaterra só precisa de 24 runs para vencer a rodada. Neste momento, um policial está escoltando os dois homens para fora do gramado, os espectadores estão se sentando e parece que a partida vai recomeçar.
— Senhor — disse o policial depois que passaram por um grupo de espectadores curiosos e colocaram o corpo pacificamente inerte de Arthur sobre um cobertor —, talvez possa me contar quem você é, de onde vem e qual o significado de toda essa confusão?
Ford olhou para o chão por um momento, como se estivesse se preparando para algo, depois endireitou-se e disparou um olhar para o policial que o atingiu com toda a força de cada milímetro dos 600 anos-luz de distância que separam a Terra e o planeta de Ford, próximo de Betelgeuse.
— Tudo bem — disse Ford, com toda a calma do mundo —, vou contar.
— Ah, olha, não vai ser necessário — disse o policial apressadamente. — Apenas não deixe que seja lá o que for aconteça de novo. — O policial virou-se e partiu em busca de alguém que não fosse de Betelgeuse. Felizmente o campo estava cheio de pessoas assim.
A consciência de Arthur aproximou-se de seu corpo, relutantemente, como se viesse de muito longe. Ela já tinha passado por maus bocados lá dentro. Tensa e lentamente, entrou e assentou-se em sua posição habitual.
Arthur sentou-se.
— Onde estou? — perguntou.
— No Lord’s Cricket Ground — respondeu Ford.
— Ótimo — disse Arthur, e sua consciência saiu de novo para tomar um pouco de ar. Seu corpo voltou a cair na grama.
Dez minutos depois, agarrado a uma xícara de chá em uma barraquinha de refrigerantes, seu rosto exausto já estava menos pálido.
— Como está se sentindo? — perguntou Ford.
— Estou em casa — respondeu Arthur, com uma voz rouca. Fechou os olhos e deliciou-se com o aroma de seu chá como se fosse... bem, do ponto de vista de Arthur, como se aquilo fosse chá, o que de fato era.
— Estou em casa — repetiu —, em casa. Estou na Inglaterra, no presente, o pesadelo acabou. — Abriu seus olhos novamente e deu um sorriso sereno. — Estou aqui, onde pertenço — disse, com um suspiro emocionado.
— Acho que há duas coisas que devo lhe dizer — disse Ford, colocando um exemplar do jornal Guardian à frente de Arthur.
— Estou em casa — disse Arthur.
— Sim — disse Ford. — A primeira coisa — continuou, apontando para a data impressa no jornal — é que a Terra será demolida dentro de dois dias.
— Estou em casa — disse Arthur. — Chá, críquete, grama aparada, bancos de madeira, blazers de linho branco, latas de cerveja...
Focou lentamente o jornal. Torceu um pouco a cabeça para o lado e franziu a testa.
— Acho que já vi isso antes. — Seus olhos subiram lentamente pela página até chegar à data, sobre a qual Ford continuava batendo com o dedo. Seu rosto se congelou durante alguns segundos, depois começou a fazer aquela coisa terrível de rachar lentamente que os icebergs do Ártico costumam fazer de forma tão dramática na primavera.
— A outra coisa — disse Ford — é que há um osso enfiado em sua barba. — Ele tomou seu chá.
Do lado de fora da barraquinha de refrigerantes, o sol brilhava sobre uma multidão alegre. Brilhava sobre chapéus brancos e rostos rosados. Brilhava sobre picolés, derretendo-os. Brilhava sobre as lágrimas das criancinhas cujos picolés derretiam e caíam no chão. Brilhava sobre as árvores, reluzia nos bastões de críquete que giravam, fulgurava sobre um objeto absolutamente extraordinário que estava estacionado atrás dos outdoors e que, aparentemente, ninguém havia notado. Resplandecia sobre Ford e Arthur quando saíram da barraquinha de refrigerantes, ofuscados pela claridade, e olharam para a cena em volta.
Arthur estava trêmulo.
— Talvez — ele disse — eu devesse...
— Não — retrucou Ford, seco.
— O quê?
— Não tente telefonar para si mesmo em casa.
— Mas como você sabia?
Ford deu de ombros.
— Por que não? — insistiu Arthur.
— Falar consigo mesmo no telefone — respondeu Ford — nunca leva a nada.
— Mas...
— Veja — disse Ford. Pegou um telefone imaginário e apertou teclas imaginárias. — Alô? — disse ele, no fone imaginário. — Gostaria de falar com Arthur Dent? Ah, sim, bom dia. Aqui é Arthur Dent falando. Não desligue.
Lançou um olhar desapontado para o fone imaginário.
— Desligou! — disse, e depois colocou o fone imaginário cuidadosamente de volta em seu gancho imaginário. — Olha, esta não é minha primeira anomalia temporal.
Um olhar ainda mais abatido substituiu o olhar abatido no rosto de Arthur.
— Quer dizer que não estamos sãos e salvos em casa, relaxando após um bom banho? — perguntou.
— Acho que não podemos sequer dizer — respondeu Ford — que estamos em casa nos secando vigorosamente com uma toalha.
O jogo prosseguia. O arremessador aproximou-se do wicket com passos rápidos, depois trotando, então correndo. Subitamente explodiu em uma rajada de braços e pernas da qual saiu voando uma bola. O rebatedor acertou a bola e lançou-a para trás, por cima dos outdoors. Ford seguiu a bola com os olhos e congelou por um instante. Ficou imóvel. Percorreu novamente a trajetória da bola e mais uma vez seus olhos se contraíram.
— Esta não é minha toalha — disse Arthur, que estava revirando o conteúdo de sua bolsa de pele de coelho.
— Psst! — disse Ford. Travou os olhos, concentrado.
— Eu tinha uma toalha esportiva de Golgafrinchan — prosseguiu Arthur — que era azul com umas estrelas amarelas. Não é esta!
— Psst! — repetiu Ford. Cobriu um dos olhos enquanto olhava com o outro.
— Esta é rosa — disse Arthur. — Por acaso é sua?
— Queria que você ficasse quieto e parasse de falar sobre sua toalha — disse Ford.
— Mas não é minha toalha — insistiu Arthur —, é justamente isso que estou tentando...
— E eu queria que você ficasse quieto exatamente agora — completou Ford, quase rosnando.
— Tudo bem — disse Arthur, colocando a toalha de volta em sua bolsa pré-histórica.
— Entendo que provavelmente não seja um evento importante na escala cósmica, mas ainda assim é peculiar. Uma toalha rosa, do nada, em vez da toalha azul com estrelas amarelas...
Ford estava começando a agir de forma bastante estranha, ou talvez não estivesse realmente começando a agir estranhamente, mas começando a agir de uma forma que era estranhamente diferente das outras formas estranhas como ele geralmente agia. Estava fazendo o seguinte: ignorando solenemente os olhares de estranhamento que provocava no restante do público, passava as mãos em movimentos rápidos na frente de seu rosto, agachava-se atrás de algumas pessoas, pulava por trás de outras, depois ficava imóvel, piscando muito. Fez isso por alguns instantes e então começou a andar sorrateiramente para a frente, de forma lenta e dissimulada, com o rosto completamente franzido e concentrado, como um leopardo que não estivesse bem certo de ter visto uma lata quase vazia de comida de gato a um quilômetro de distância em uma planície quente e poeirenta.
— Esta também não é a minha sacola — disse Arthur, subitamente.
Arthur quebrou a concentração de Ford, que olhou para ele irritado.
— Não estava mais falando sobre minha toalha — disse Arthur. — Já concluímos que não é minha. É que a bolsa onde estava guardando a toalha, a tal que não é minha, também não é minha, apesar de ser incrivelmente parecida. Pessoalmente acho que isso é muito estranho, até porque eu mesmo fiz essa bolsa na Terra pré-histórica. E estas também não são minhas pedras — acrescentou, tirando algumas pedras cinzentas e achatadas da bolsa. — Estava fazendo uma coleção de pedras interessantes e estas aqui são claramente bobas.
Um grito animado varreu a multidão e interrompeu qualquer coisa que Ford fosse responder. A bola de críquete, que havia causado aquela reação, caiu do céu precisamente dentro da misteriosa bolsa de pele de coelho de Arthur.
— Devo dizer que este também foi um evento muito peculiar — disse Arthur, fechando rapidamente sua bolsa e fingindo procurar a bola no chão. — Acho que não caiu aqui — disse para os garotos que imediatamente se juntaram ao seu redor procurando a bolinha. — Provavelmente rolou para outro lugar. Acho que foi, para lá. — Apontou vagamente na direção para a qual gostaria que eles fossem. Um dos garotos ficou olhando para ele, curioso.
— Você está bem? — perguntou o garoto.
— Não — respondeu Arthur.
— Então por que você está com um osso em sua barba? — disse o garoto.
— Estou treinando-o para se sentir bem em qualquer lugar. — Arthur ficou orgulhoso por ter dito aquilo. Em sua visão, era exatamente o tipo de coisa que iria entreter e estimular a mente de um jovem.
— Ah — respondeu o garoto, coçando a cabeça enquanto pensava sobre aquilo. — Qual o seu nome?
— Dent — disse Arthur —, Arthur Dent.
— Você é um idiota, Dent — disse o garoto —, um bundão completo. — Depois olhou para o lado, demonstrando que não estava minimamente preocupado em fugir e finalmente saiu andando, coçando o nariz. Arthur lembrou-se de que a Terra seria demolida novamente dentro de dois dias e, pelo menos uma vez, isso não fez com que se sentisse mal.
A partida recomeçou com uma nova bola, o sol continuava brilhando e Ford continuava pulando para cima e para baixo, sacudindo a cabeça e piscando.
— Você está preocupado com alguma coisa, não é? — disse Arthur.
— Acho — respondeu Ford, em um tom de voz que Arthur já tinha aprendido a reconhecer como algo que precede alguma outra coisa completamente incompreensível — que tem um POP ali.
Apontou. Curiosamente, a direção para a qual ele apontou não era para onde estava olhando. Arthur olhou para aquele lado, próximo aos outdoors, e para o outro lado, na direção do campo. Ele assentiu e deu de ombros. Deu de ombros de novo.
— Um o quê? — perguntou.
— Um POP.
— Um P...?
— ... OP.
— E isso seria?
— Um Problema de Outra Pessoa.
— Ah, que bom — disse Arthur, relaxando. Não tinha ideia do que se tratava, mas o assunto parecia ter terminado. Não tinha.
— Lá — disse Ford, apontando novamente para os gigantescos outdoors e olhando para o campo.
— Onde?
— Ali! — disse Ford.
— Estou vendo — disse Arthur, que não estava.
— Está? — disse Ford.
— O quê? — disse Arthur.
— Você está vendo — disse Ford, pacientemente — o POP?
— Achei que você tinha dito que isso era problema de outra pessoa.
— Exato.
Arthur assentiu lentamente, cuidadosamente e com uma cara de total imbecilidade.
— E quero saber — disse Ford — se você consegue vê-lo.
— Quer mesmo?
— Sim.
— Com o que — disse Arthur — ele se parece?
— E como diabos vou saber, seu burro? — gritou Ford. — Se você consegue vê-lo, você é quem tem que me dizer.
Arthur sentiu aquela estranha pulsação atrás das têmporas que era uma marca registrada de muitas de suas conversas com Ford. Sua mente se escondia como um cãozinho assustado no canil. Ford agarrou-o pelo braço.
— Um POP é alguma coisa que não podemos ver, ou não vemos, ou nosso cérebro não nos deixa ver porque pensamos que é um problema de outra pessoa. É isso que POP quer dizer: Problema de Outra Pessoa. O cérebro simplesmente o apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para ele, não verá nada, a menos que saiba exatamente o que é. A única chance é conseguir ver algo olhando de soslaio.
— Ah — disse Arthur —, então é por isso que...
— Sim — disse Ford, que sabia o que Arthur iria dizer.
— ... você estava pulando para cima e...
— Sim.
— ... para baixo e piscando...
— Sim.
— ... e...
— Acho que você captou a mensagem.
— Eu posso vê-la — disse Arthur. — É uma espaçonave.
Arthur ficou momentaneamente atordoado pela reação que esta revelação havia provocado.
Um ruído veio da multidão estava em completo tumulto. Pessoas corriam em todas as direções, gritando, berrando e tropeçando umas nas outras em completo caos. Deu um passo para trás e olhou em volta espantado. Depois olhou novamente em volta, ainda mais espantado.
— Emocionante, não? — disse uma aparição. A aparição tremeu diante dos olhos de Arthur, embora, na prática, provavelmente fossem os olhos de Arthur que estavam tremendo diante da aparição. Sua boca também tremeu.
— O... o... o... o... — disse sua boca.
— Acho que seu time acaba de ganhar — disse a aparição.
— O... o... o... o... — repetiu Arthur, pontuando cada tremelique com uma cutucada nas costas de Ford Prefect. Ford observava o tumulto, apreensivo.
— Você é inglês, não é? — disse a aparição.
— S... s... s... s... sim — disse Arthur.
— Como eu disse, seu time acaba de ganhar a partida. Isto significa que eles ficam com as Cinzas. Você deve estar muito feliz. Devo dizer que sou particularmente apaixonado pelo críquete, embora prefira que ninguém de outro planeta me ouça dizendo isto. É, realmente não seria nada bom.
A aparição deu o que poderia ter sido um sorriso travesso, mas era difícil dizer ao certo porque o sol estava batendo por trás, criando uma aura ofuscante ao redor de sua cabeça e iluminando seus cabelos e barba grisalhos de uma forma impressionante, dramática e muito difícil de conciliar com sorrisos travessos.
— Mesmo assim — prosseguiu — tudo estará acabado dentro de dois dias, não é? Apesar de que, como lhe disse da última vez em que nos encontramos, eu sinto muitíssimo por isso. Bem, aquilo que tiver que ter sido terá sido.
Arthur tentou falar, mas desistiu da luta desigual. Cutucou Ford novamente.
— Achei que algo terrível houvesse acontecido — disse Ford — mas era apenas o final da partida. Temos que sair. Ah, oi, Slartibartfast, o que você está fazendo por aqui?
— Apenas dando uma volta, você sabe — disse o velho, seriamente.
— Aquela nave é sua? Você poderia nos dar uma carona até algum lugar?
— Paciência, paciência — retrucou o velho.
— Tudo bem — disse Ford. — É só porque este planeta será demolido em pouco tempo.
— Eu sei — respondeu Slartibartfast.
— Então, pois é, eu só queria que isto ficasse claro — disse Ford.
— Está claro.
— E se você acha que realmente é uma boa ideia, a essa altura, ficar perambulando por um campo de críquete...
— Acho.
— A nave é sua, claro.
— De fato.
— Suponho que sim — disse Ford, depois virou-se bruscamente.
— Alô, Slartibartfast — disse Arthur, finalmente.
— Alô, terráqueo — respondeu Slartibartfast.
— Afinal — disse Ford — só se morre uma vez.
O velho ignorou o último comentário e olhou intensamente para o campo, com olhos que pareciam espelhar sentimentos sem qualquer relação com o que estava acontecendo lá. O que estava acontecendo lá era que a multidão se reunira num grande círculo em torno do centro do campo. O que Slartibartfast estava vendo era algo que só ele sabia.
Ford estava cantarolando algo. Era apenas uma nota, repetida em intervalos regulares. Ele queria que alguém perguntasse o que estava cantarolando, mas ninguém perguntou. Se alguém tivesse perguntado, teria respondido que estava repetindo várias vezes o início de uma canção de Noel Coward chamada Mad About the Boy (Louco pelo garoto). Alguém diria, então, que estava cantando apenas uma nota, e ele responderia que, por motivos que lhe pareciam óbvios, estava omitindo a parte do “about the boy”. Ficou muito chateado, já que ninguém lhe perguntou nada disso.
— É só que — acabou dizendo, irritado —, se não sairmos logo daqui, podemos ficar presos naquela confusão de novo. E nada me deprime mais do que ver um planeta sendo destruído. Com a exceção, talvez, de estar no planeta quando isso acontece. Ou — acrescentou, em voz baixa — assistir a partidas de críquete.
— Paciência — repetiu Slartibartfast. — Grandes coisas irão acontecer.
— Foi exatamente o que você disse da última vez — disse Arthur.
— E aconteceram coisas — disse Slartibartfast.
— É verdade — admitiu Arthur.
Ainda assim, aparentemente tudo o que estava acontecendo era uma cerimônia. Tinha sido especialmente preparada para a TV, em detrimento dos espectadores, e tudo o que podiam perceber de onde estavam era o que ouviam em um rádio próximo.
Ford estava agressivamente desinteressado. Ele se aborreceu quando explicaram que as Cinzas seriam entregues ao capitão do time da Inglaterra, se enfureceu quando disseram que as Cinzas estavam sendo entregues porque era a enésima vez que a Inglaterra ganhava, rosnou de irritação ao saber que eram os restos de uma trave de críquete e quando, além disso tudo, lhe pediram para lidar com o fato de que a trave em questão havia sido queimada em Melbourne, na Austrália, em 1882, para simbolizar a “morte do críquete inglês”, virou-se para Slartibartfast, inspirou profundamente, mas não pôde dizer nada porque o velho não estava mais lá. Ele seguia rapidamente em direção ao centro do campo com uma forte determinação em seu andar, e seus cabelos, sua barba e sua túnica esvoaçavam atrás dele, o que fazia com que se parecesse muito com Moisés, não fosse pelo fato de que o Monte Sinai em geral é representado como um imponente monte fumegante e não como um gramado bem aparado.
— Ele disse para nos encontrarmos na nave — disse Arthur.
— Por Zárquon, o que diabos este velho tolo está fazendo? — gritou Ford.
— Está indo nos encontrar em sua nave dentro de dois minutos — disse Arthur, com uma cara que indicava total ausência de pensamentos. Começaram a andar na direção da nave. Estranhos sons chegavam até eles. Tentaram não ouvi-los, mas não podiam deixar de notar que Slartibartfast estava exigindo, com veemência, que a urna de prata contendo as Cinzas lhe fosse entregue, posto que era, disse ele, “de vital importância para a segurança presente, passada e futura da Galáxia”. Era isso que estava causando os risos histéricos.
Resolveram ignorar o assunto.
Não puderam, contudo, ignorar o que aconteceu em seguida. Com um barulho similar a 100 mil pessoas dizendo “uop”, uma espaçonave branca metálica pareceu se materializar do nada diretamente sobre o campo de críquete e lá ficou parada, com um ar infinitamente ameaçador e um leve zumbido.
Por algum tempo, não fez nada, como se desejasse que as pessoas continuassem com seus afazeres e não se preocupassem com o fato de ela ficar suspensa no ar. Depois fez algo muito extraordinário. Ou, mais precisamente, ela se abriu e deixou que coisas muito extraordinárias saíssem dela, 11 coisas muito extraordinárias.
Eram robôs brancos.
O que havia de mais extraordinário a respeito deles era que pareciam estar vestidos para aquele evento. Não apenas eram brancos, mas além disso carregavam coisas que pareciam ser bastões de críquete, e não apenas isso, mas também carregavam o que pareciam ser bolas de críquete, e não apenas isso, mas também usavam joelheiras brancas na parte inferior de suas pernas. As joelheiras eram extraordinárias, porque continham jatos que permitiam a esses robôs curiosamente civilizados descer voando de sua nave suspensa sobre o campo e começar a matar pessoas, que foi exatamente o que eles fizeram.
— Olhe — disse Arthur —, parece que está acontecendo alguma coisa.
— Vá para a nave — gritou Ford. — Não quero saber, não quero ver, não quero ouvir — gritou enquanto corria. — Este não é meu planeta, não escolhi estar aqui, não quero me envolver, só quero que me tirem daqui e me levem para uma festa onde tenha pessoas como eu!
Fumaça e chamas subiam do campo.
— Nossa, parece que a brigada sobrenatural resolveu aparecer por aqui hoje com força total... — um rádio gargarejou alegremente para si mesmo.
— Eu preciso — gritou Ford, a fim de esclarecer suas observações anteriores — é de um drinque bem forte e uma galera legal. — Continuou correndo, parando apenas um breve instante para puxar Arthur pelo braço.
Arthur havia retomado seu papel habitual durante crises, que era o de ficar parado, com a boca aberta, deixando-se levar pelos eventos.
— Estão jogando críquete — murmurou Arthur, cambaleando atrás de Ford. — Juro que estão jogando críquete. Não sei por que, mas é o que estão fazendo. Não estão apenas matando as pessoas, estão debochando delas — gritou. — Ford, estão debochando de nós!
Teria sido difícil não acreditar nisso sem conhecer muito mais História Galáctica do que os poucos pedaços que Arthur havia conseguido pescar em suas viagens. As violentas e fantasmagóricas formas que se moviam na espessa nuvem de fumaça pareciam estar realizando uma série de paródias peculiares de movimentos com os bastões, com a diferença que cada uma das bolas que rebatiam com seus bastões explodia ao tocar em algo. A primeira delas alterou a reação inicial de Arthur, que tinha pensado que aquilo poderia ser um mero golpe publicitário dos fabricantes australianos de margarina.
Então, tão repentinamente quanto havia começado, acabou-se. Os 11 robôs brancos subiram em meio à nuvem de fumaça em uma formação cerrada e entraram no interior de sua nave branca flutuante que, com o ruído de centenas de milhares de pessoas dizendo “uop”, imediatamente desapareceu no ar, da mesma forma como havia feito “uop” anteriormente.
Durante um instante houve um terrível silêncio de perplexidade e, em seguida, a figura pálida de Slartibartfast surgiu em meio à fumaça, parecendo-se ainda mais com Moisés porque, apesar da persistente ausência do monte, ao menos agora ele estava caminhando através de um imponente e fumegante campo de grama bem aparada.
Ele olhou em volta, meio perdido, até vislumbrar Arthur e Ford, que estavam abrindo caminho em meio à multidão apavorada que, nesse momento, estava ocupada correndo em pânico na direção oposta. A multidão estava claramente pensando consigo mesma sobre quão estranho aquele dia estava sendo, sem saber de fato em que direção deveria seguir, se é que deveria seguir em alguma direção.
Slartibartfast estava gesticulando desesperadamente para Ford e Arthur, gritando algo, conforme os três aos poucos convergiam na direção de sua nave, ainda estacionada atrás dos outdoors, ignorada pela multidão que corria desembestada ao redor dela e que provavelmente tinha muitos problemas próprios com os quais lidar.
— Eles grabaram solfaras finzas! — gritou Slartibartfast, com sua voz fina e trêmula.
— O que ele disse? — perguntou Ford, arfando, enquanto abria caminho à sua frente.
Arthur balançou a cabeça.
— Eles... alguma coisa — respondeu.
— Eles mesaram solfaras finzas! — gritou Slartibartfast novamente.
Ford e Arthur trocaram olhares espantados.
— Parece ser algo importante — disse Arthur. Parou e gritou: — O quê?
— Eles grabaram solfaras finzas! — gritou Slartibartfast, gesticulando para eles.
— Ele está dizendo — disse Arthur — que levaram as Cinzas. Pelo menos é o que acho. — Continuaram correndo.
— As...? — disse Ford.
— Cinzas — completou Arthur. — Os restos queimados de uma trave de críquete. É um troféu. Isso... — continuou, sem fôlego. — Aparentemente... é... o que eles... vieram pegar. — Balançou a cabeça levemente, como se tentasse fazer com que seu cérebro se fixasse na base do crânio.
— Que coisa estranha para nos dizer — retrucou Ford.
— Que coisa estranha para alguém levar.
— Que nave estranha.
Chegaram à nave. A segunda coisa estranha a respeito da nave era ver o campo de Problema de Outra Pessoa em ação. Agora podiam ver nitidamente a nave simplesmente porque sabiam que estava lá. Era óbvio, contudo, que ninguém mais a via. Não porque estivesse de fato invisível ou algo igualmente hiperimpossível. A tecnologia necessária para tornar algo invisível é tão infinitamente complexa que, em um bilhão de casos, é 999 bilhões, 999 milhões, 999 mil, 999 vezes mais simples e mais eficaz remover a coisa e esquecer o assunto. Uma vez, o ultrafamoso mago-cientista Effrafax de Wug apostou sua vida que, em um ano, seria capaz de tornar a grande megalomontanha Magramal completamente invisível.
Após passar a maior parte do ano futucando com imensas Luxoválvulas e Refratonulificadores e Espectrodefletrônicos, ele percebeu, nove horas antes do prazo final, que não ia conseguir.
Então, ele e seus amigos, e os amigos de seus amigos, e os amigos dos amigos de seus amigos, e os amigos dos amigos dos amigos de seus amigos, além de alguns outros que eram menos amigos mas que por acaso tinham uma grande empresa de transportes estelares, se lançaram naquela que é hoje amplamente reconhecida como a mais dura noite de trabalho de toda a história. Como resultado, no dia seguinte Magramal não era mais visível. Effrafax perdeu a aposta — e também a vida — apenas porque um juiz pedante notou que: (a) ao andar pela área onde Magramal deveria estar, ele não tropeçou nem quebrou o nariz em nada e (b) havia uma nova lua bastante suspeita no céu.
O campo de Problema de Outra Pessoa é muito mais simples e mais eficaz. Melhor ainda, pode funcionar durante mais de 100 anos usando uma única bateria de lanterna. Isso porque ele conta com a tendência natural das pessoas de não verem nada que não querem, que não estão esperando ou que não podem explicar. Se Effrafax tivesse pintado a montanha de rosa e gerado um simples e econômico campo de Problema de Outra Pessoa sobre ela, então as pessoas teriam passado por ela, teriam andado em torno dela ou mesmo por cima dela e jamais teriam notado que a montanha estava lá. Era exatamente isso que estava acontecendo com a nave de Slartibartfast. Ela não era rosa, mas, se fosse, teria sido o menor de seus problemas visuais, e as pessoas continuariam ignorando-a.
O mais extraordinário a respeito dessa nave é que ela se parecia apenas em parte com uma espaçonave, com barbatanas estabilizadoras, foguetes propulsores, escotilhas de emergência, etc., e se parecia muito mais com um pequeno bistrô italiano de pernas para o ar.
Ford e Arthur olharam para ela maravilhados e profundamente ofendidos.
— É, eu sei — disse Slartibartfast, alcançando-os naquele momento, ofegante e agitado —, mas há um motivo. Venham, temos que partir. O antigo pesadelo retornou. O Fim está diante de nós. Temos que ir imediatamente.
— Espero que seja para algum lugar ensolarado — disse Ford. Ford e Arthur entraram na nave com Slartibartfast. Ficaram tão perplexos com o que viram lá dentro que nem perceberam o que aconteceu em seguida do lado de fora.
Uma terceira nave, desta vez comprida e prateada, desceu sobre o gramado, silenciosamente, suas longas e esguias hastes desdobrando-se em um suave balé tecnológico. Pousou com suavidade e dela saiu uma pequena rampa. Uma figura alta e cinza-esverdeada saiu lá de dentro, andando rapidamente, e aproximou-se do pequeno grupo de pessoas que estavam no centro do campo cuidando dos feridos do recente e bizarro massacre. Foi afastando as pessoas com uma autoridade calma e controlada, até chegar a um homem que estava deitado em meio a uma poça de sangue, em seus últimos estertores, claramente além das possibilidades da medicina terráquea. A figura ajoelhou-se pacificamente ao seu lado.
— Arthur Philip Deodat? — perguntou.
O homem, com os olhos tomados por uma terrível confusão, assentiu debilmente.
— Você é um mísero paspalhão imprestável — sussurrou a criatura. — Achei que deveria saber disso antes de morrer.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!