17 de dezembro de 2017

Capítulo 40

Não há muito mais para contar.
Para além do que costumava ser conhecido como os Ilimitados Campos de Luz de Flanux, antes que os Feudos Confinantes Cinzentos de Saxaquine fossem descobertos pouco depois deles, encontram-se os Feudos Confinantes Cinzentos de Saxaquine. Nos Feudos Confinantes Cinzentos de Saxaquine encontra-se a estrela Zarss, em torno da qual orbita o planeta Preliumtarn, onde fica a terra de Sevorbeupstry, e foi à terra de Sevorbeupstry que Arthur e Fenchurch finalmente chegaram, um pouco cansados da viagem.
E em meio à terra de Sevorbeupstry chegaram à Grande Planície Vermelha de Rars, limitada ao sul pelas Montanhas de Quentulus Quazgar, no extremo das quais, de acordo com as últimas palavras de Prak, encontrariam em letras flamejantes de dez metros de altura a Mensagem Final de Deus para Sua Criação.
Segundo Prak, se a memória de Arthur fosse correta, o lugar era vigiado pelo Lajéstico Vantraconcha de Lob e foi, de certa maneira, o que descobriram. O Lajéstico Vantraconcha de Lob era um homenzinho usando um chapéu esquisito que vendeu um ingresso para eles.
— Mantenham-se à esquerda, por favor — disse ele —, à esquerda — instruía o sujeito, passando por eles em uma motoneta.
Perceberam que não eram os primeiros a passar por ali, pois o caminho pela esquerda para a Grande Planície estava gasto e salpicado de barraquinhas. Em uma delas compraram uma caixa de chocolate que havia sido cozinhado em um forno numa caverna da montanha, caverna essa que era aquecida pelo fogo das letras que formavam a Mensagem Final de Deus para Sua Criação. Em outra barraquinha, compraram alguns cartões-postais. As letras haviam sido embaçadas com tinta em spray, “para não estragar a Grande Surpresa!”, conforme dizia no verso do postal.
— A senhora sabe qual é a mensagem? — perguntaram a uma senhora franzina em uma das barracas.
— Ah, sim — respondeu ela, toda alegre -, sei sim!
Fez um gesto para que prosseguissem.
A cada trinta quilômetros, aproximadamente, havia uma pequena cabana de pedra com chuveiros e toaletes, mas a caminhada era penosa e o sol a pino torrava a Grande Planície Vermelha e a Grande Planície Vermelha ondulava no calor.
— Podemos alugar uma dessas motonetas? — perguntou Arthur em uma das barracas maiores. — Uma daquelas que o Lajéstico Vantrasei-lá-o-quê tinha.
— As motonetas não são para os devotos — respondeu a senhora que servia sorvetes.
— Tudo bem, está resolvido, não somos exatamente devotos. Apenas interessados — disse Fenchurch.
— Então vão ter que voltar agora — disse a senhora, severamente, e, quando eles contestaram, ela aproveitou para lhes vender bonés da Mensagem Final e uma fotografia dos dois abraçados na Grande Planície Vermelha de Rars.
Beberam refrigerantes à sombra da barraca e depois voltaram a se arrastar pelo sol.
— O nosso creme protetor está acabando — comentou Fenchurch alguns quilômetros depois.
— Podemos seguir até a próxima barraca ou voltar para a última, que está mais perto, mas aí vamos ter que voltar tudo de novo.
Olharam para a frente e viram, lá longe, o minúsculo pontinho preto tremulando sob o sol; olharam para trás. Decidiram continuar andando.
Então descobriram que não só não eram os primeiros a fazer aquela jornada como não eram os únicos caminhando naquele exato momento.
Um pouco mais adiante deles, uma criatura atarracada e desajeitada se arrastava miseravelmente, avançando com penosa lentidão, meio mancando, meio rastejando.
Andava tão devagar que eles logo alcançaram a criatura e puderam ver que era feita de um metal gasto, marcado e retorcido.
Gemeu para eles quando se aproximaram, despencando no chão quente, seco e coberto de poeira.
— Tanto tempo — gemeu ele —, ai, tanto tempo. E tanta dor, mas tanta, e tempo demais para lamentar essa dor. Se fosse apenas um ou outro, dava até para aguentar. Mas os dois juntos realmente acabam comigo. Ah, oi, você outra vez.
— Marvin? — disse Arthur bruscamente, agachando-se ao lado dele. — É você?
— Você continua imbatível quanto às perguntas superinteligentes, não? — gemeu ele.
— O que é isso? — perguntou Fenchurch num sussurro, alarmada e agachada atrás de Arthur, agarrando-se no seu braço.
— Um velho amigo meu — disse Arthur — Eu...
— Amigo! — resmungou o robô, tristemente. A palavra morreu em uma espécie de estalo e lascas de ferrugem saíram de sua boca. — Sinto muito, mas preciso de um tempinho para tentar lembrar o que essa palavra significa. Os meus bancos de memória já não são mais os mesmos, sabe, e qualquer palavra que caia em desuso por alguns poucos zilhões de anos tem que ser transferida para um banco de memória auxiliar. Ah, aqui está.
A cabeça danificada do robô estalou um pouco, como se estivesse pensando.
— Hum — disse ele -, que conceito peculiar.
Pensou mais um pouco.
— Não — disse ele, finalmente -, acho que nunca conheci um desses. Sinto muito, não posso ajudá-lo nisso.
Arranhou o joelho no chão, tentando se levantar apoiado nos cotovelos deformados.
— Existe alguma última tarefa que eu possa fazer por vocês? — perguntou ele, com uma voz trêmula e oca. — Um pedacinho de papel que talvez queiram que eu apanhe no chão para vocês? Ou talvez preferissem que eu — continuou ele -, abrisse uma porta?
Girou a cabeça em seu pescoço enferrujado e lançou um olhar perscrutador para o horizonte distante.
— Não vejo nenhuma porta por aqui no momento — disse ele -, mas tenho certeza de que, se esperarmos o tempo necessário, alguém vai construir uma. E aí — disse ele, girando a sua cabeça lenta e penosamente para olhar Arthur mais uma vez -, eu poderia abri-la para você. Já estou bastante acostumado a esperar, sabe.
— Arthur — sussurrou Fenchurch em seu ouvido, ríspida -, você nunca me falou sobre isso. O que você fez a essa pobre criatura?
— Nada — garantiu Arthur, tristemente —, ele é sempre assim...
— Ah! — interrompeu Marvin. — Ah! — repetiu ele. — O que você sabe sobre sempre? Você vem dizer “sempre” para mim, logo eu que, por causa dos servicinhos idiotas que vocês, formas de vida orgânicas, me obrigaram a fazer infindavelmente, estou agora trinta e sete vezes mais velho do que o próprio Universo? Escolha as suas palavras com mais cuidado — tossiu ele — e com mais tato. 
Teve um ataque de tosse estridente e depois prosseguiu.
— Deixem-me — disse ele -, continuem em seu caminho, deixem-me penar em meu próprio caminho. A minha hora finalmente está chegando. A minha corrida está terminando. Eu realmente espero — disse ele, acenando debilmente com um dedo quebrado para que prosseguissem — chegar por último. Seria bem apropriado. Aqui estou, com o cérebro do tamanho...
Arthur e Fenchurch o levantaram, apesar dos seus débeis protestos e insultos. O metal estava tão quente que por pouco não criou bolhas nos seus dedos, mas ele era surpreendentemente leve e ficou pendurado sem firmeza entre os braços dos dois.
Foram carregando Marvin pelo caminho da esquerda da Grande Planície Vermelha de Rars em direção às montanhas de Quentulus Quazgar.
Arthur tentou se explicar com Fenchurch, mas era frequentemente interrompido pelos dolorosos desvarios cibernéticos de Marvin.
Tentaram ver se conseguiam comprar umas peças avulsas para ele em uma das barracas e um pouco de lubrificante, mas Marvin não queria nada.
— Eu não passo de partes avulsas — disse ele.
— Me deixem em paz! — gemeu.
— Cada parte do meu corpo — resmungou — foi substituída pelo menos umas cinquenta vezes... exceto... — Pareceu alegrar-se, quase imperceptivelmente, por um breve instante. — Você se lembra da primeira vez que nos encontramos? — perguntou a Arthur. — Eu tinha recebido a tarefa mentalmente extenuante de conduzir vocês até a ponte? Eu cheguei a comentar com você que eu estava com uma dor horrível em todos os meus diodos do lado esquerdo? Que eu tinha pedido para eles serem substituídos, mas nunca foram?
Marvin fez uma longa pausa antes de continuar. Eles o carregavam nos ombros, andando sob o sol ardente que não parecia sequer se mover, muito menos se pôr.
— Vê se você consegue adivinhar — continuou Marvin, quando achou que a pausa já havia sido constrangedora o bastante — quais partes do meu corpo nunca foram trocadas? Vamos lá, vê se você adivinha.
— Ai — gemeu ele -, ai, ai, ai, ai, ai.
Finalmente alcançaram a última das pequenas barracas, repousaram Marvin entre eles e pararam para descansar à sombra. Fenchurch comprou umas abotoaduras para Russell, abotoaduras nas quais haviam incrustado pequenos cristais de rocha polidos, garimpados na Montanha Quentulus Quazgar, diretamente debaixo das letras de fogo nas quais a Mensagem Final de Deus para Sua Criação estava escrita.
Arthur passou os olhos em alguns folhetos religiosos no balcão, algumas meditações sobre o significado da Mensagem.
— Está pronta? — perguntou a Fenchurch, que assentiu. Suspenderam Marvin.
Contornaram o sopé da Montanha Quentulus Quazgar e lá estava a Mensagem, escrita em letras flamejantes sobre o topo da Montanha. Havia um pequeno mirante com um parapeito construído sobre uma enorme rocha logo em frente à Montanha, de onde era possível ter uma visão mais nítida. Tinha, inclusive, um daqueles pequenos telescópios que funcionam com moedas para as pessoas enxergarem as letras detalhadamente, mas ninguém nunca tinha usado o aparelho porque a letras ardiam com o brilho divino dos céus e, se vistas através de um telescópio, causariam danos graves à retina e ao nervo ótico.
Contemplaram a Mensagem Final de Deus, maravilhados, e uma enorme sensação de paz os invadiu, lenta e inefável, uma sensação de compreensão total e definitiva.
Fenchurch suspirou.
— Era isso mesmo — disse ela.
Já estavam olhando há dez minutos quando finalmente perceberam que Marvin, pendurado entre eles, estava tendo dificuldades. O robô, que não conseguia mais levantar a cabeça, não tinha lido a mensagem. Suspenderam sua cabeça, mas ele reclamou que os seus circuitos de visão já estavam quase inoperantes.
Arrumaram uma moeda e o ajudaram a olhar pelo telescópio. Marvin reclamou e xingou os dois, mas eles o ajudaram a ler, letra por letra. A primeira letra era “n”, a segunda “o” e a terceira um “s”. Havia um espaço. Então, vinha um “d”, depois um “e”, um “s”.
Marvin parou para descansar.
Um pouco depois, eles continuaram e ele pôde ver um “c”, um “u”, um “l”, seguido de um “p”, um “a”, um “m”, um “o” e um “s”.
A próxima palavra era “pelo”. A última era grande, então Marvin precisou descansar novamente antes de encará-la.
Começava com um “i”, depois um “n” e um “c”. Então vinha um “o”, outro “n”, seguido por um “v”, um “e”, mais um “n” e um “i”.
Após uma última pausa, Marvin reuniu as suas forças para o trechinho final.
Leu um “e”, um “n”, um “t” e, no último “e”, deixou-se cair sobre os braços de Arthur e Fenchurch.
— Eu acho — murmurou finalmente, lá do fundo do seu peito corroído e barulhento — que me sinto bem com isso.
As luzes apagaram-se em seus olhos, pela última vez, para sempre.
Felizmente havia um quiosque ali perto, onde era possível alugar motonetas com sujeitos de asas verdes.

Um comentário:

  1. Pra quem não entendeu a mensagem:"Nos desculpamos pelo inconveniente".

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!