17 de dezembro de 2017

Capítulo 3

Os outros dois caminhões que passaram em seguida não eram dirigidos por Deuses da Chuva, mas fizeram exatamente a mesma coisa.
A figura arrastou-se, ou melhor, chafurdou até a colina se inclinar novamente e ele deixar aquelas traiçoeiras poças d'água para trás.
Um pouco depois, a chuva começou a ficar mais branda e a lua surgiu brevemente por trás das nuvens.
Um Renault passou na estrada e o seu motorista fez sinais frenéticos e complexos para a figura que se arrastava, indicando que normalmente teria tido muito prazer em lhe dar uma carona, mas não daquela vez porque não estava indo na mesma direção da figura, seja lá qual fosse essa direção, mas tinha certeza de que a figura ia compreender. Concluiu a sinalização com um animado gesto de polegar para cima, como se quisesse dizer que esperava que a figura estivesse se sentindo realmente confortável por estar com frio e quase irrecuperavelmente molhado, e que esperava poder ajudá-lo na próxima.
A figura continuou se arrastando. Um Fiat passou na estrada e fez exatamente a mesma coisa que o Renault.
Um Maxi passou do outro lado da estrada e piscou os faróis para a figura que se arrastava, mas era impossível saber exatamente se aquilo significava um “Oi” ou um “Foi mal, estamos indo na direção contrária” ou ainda “Olha lá, tem um cara na chuva, que babaca”. Uma faixa verde acima do para-brisa indicava que a mensagem, seja lá qual fosse, vinha de Steve e Carola.
A tempestade agora havia realmente enfraquecido e, se ainda havia sobrado algum trovão, estaria agora roncando sobre colinas mais distantes, como um homem que diz “E tem outra coisa...” vinte minutos depois de admitir que perdeu uma discussão.
O ar estava mais claro e a noite, mais fria. O som viajava realmente bem. A figura perdida, tremendo desesperadamente, chegara a um entroncamento, onde uma estrada lateral virava à esquerda. Do lado oposto havia uma placa, em direção à qual a figura correu subitamente, estudando-a com febril curiosidade, e só se virando quando um outro carro passou de repente.
E mais outro.
O primeiro passou correndo, com total desdém, o segundo piscou os faróis inexpressivamente. Um Ford Cortina passou e freou.
Tonta de surpresa, a figura segurou a sacola junto ao peito e correu em direção ao carro, mas na hora H o Ford Cortina cantou os pneus e saiu em disparada, achando a maior graça.
A figura foi parando aos poucos e estacou de vez, perdida e desanimada.
Casualmente, no dia seguinte, o motorista do Cortina foi para o hospital para remover o apêndice, só que, devido a uma engraçadíssima confusão, o cirurgião removeu a sua perna por engano e, antes que a remoção do apêndice pudesse ser remarcada, a apendicite transformou-se em um quadro divertidamente sério de peritonite, e a justiça, ao seu modo, foi feita.
A figura continuou caminhando penosamente.
Um Saab parou ao seu lado.
O vidro da janela desceu e uma voz amistosa perguntou:
— Andou muito?
A figura caminhou na direção do carro. Parou e agarrou a maçaneta.

* * *

A figura, o carro e a maçaneta estavam todos em um planeta chamado Terra, um mundo cuja definição no Guia do Mochileiro das Galáxias era composta por duas palavras:
“Praticamente inofensiva”.
O autor desse verbete chama-se Ford Prefect, e ele estava, naquele exato momento, em um mundo nada inofensivo, sentado em um bar nada inofensivo, criando problemas de forma imprudente.

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Boa leitura :)