17 de dezembro de 2017

Capítulo 39

Arthur Dent estava de saco cheio de ser continuamente acordado com o som de tiros.
Cuidando para não acordar Fenchurch, que ainda conseguia dormir intermitentemente, deslizou pela escotilha de manutenção que haviam transformado em uma espécie de leito, desceu pela escada de acesso e vagou pelos corredores, mal-humorado.
Eles eram claustrofóbicos e mal iluminados. Os circuitos deluz emitiam um zumbido irritante.
Não era isso, porém.
Parou e apoiou-se contra a parede quando uma furadeira elétrica voadora passou por ele no corredor escuro com um desagradável chiado cortante, por vezes batendo contra as paredes como uma abelha confusa.
Também não era isso.
Passou por cima de uma antepara e foi dar em um corredor maior. De um dos lados do corredor vinha uma fumaça acre; então ele foi para o outro lado.
Chegou até um monitor de observação inserido na parede por trás de grossas lâminas de plexiglas, que ainda assim estavam bastante arranhadas.
— Será que dá para desligar isso? — pediu a Ford Prefect, que estava agachado diante dele, em meio a uma pilha de equipamentos de vídeo que ele usurpara de uma vitrine em Tottenham Court Road, após ter arremessado um pequeno tijolo através do vidro, e também a uma quantidade indecente de latinhas de cerveja vazias.
— Psst! — sussurrou Ford, olhando com uma concentração maníaca para a tela. Estava assistindo a Sete homens e um destino.
— Só um pouquinho — insistiu Arthur.
— Não! — gritou Ford. — Estamos chegando na melhor parte! Escuta, eu finalmente consegui resolver tudo, as voltagens, conversões de linha, tudo, e essa é a melhor parte!
Com um suspiro e uma dor de cabeça, Arthur sentou-se ao lado dele e assistiu à melhor parte. Ouviu os brados, gritos e uivos de Ford o mais placidamente que pôde.
— Ford — disse ele, finalmente, quando o filme terminou e Ford estava caçando Casablanca em uma pilha de fitas -, como é possível...
— Esse é o melhor — disse Ford. — Esse é o filme que me fez voltar. Você sabia que nunca consegui vê-lo inteiro? Eu sempre perco o final. Eu revi pela metade na véspera do ataque dos vogons. Quando eles destruíram tudo, pensei que nunca mais fosse ver o final. Ei, o que aconteceu com aquela história toda, afinal?
— Coisas da vida — disse Arthur, e apanhou uma cerveja.
— Ah, isso de novo — disse Ford. — Imaginei que pudesse ser algo assim. Eu prefiro coisas assim — disse ele quando o Bar do Rick apareceu na tela. — Como é possível o quê?
— O quê?
— Você começou a dizer “como é possível...”.
— Como é possível, se você detesta tanto a Terra, que você... ah, deixa pra lá, vamos assistir ao filme.
— Isso aí — concordou Ford.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!