17 de dezembro de 2017

Capítulo 38

Multidões se aglomeraram o mais perto possível da gigante nave prateada, o que não era nada perto. No perímetro da nave havia uma cerca patrulhada pelos minúsculos robôs de manutenção. Postado em torno desse perímetro estava o exército, que não conseguira penetrar o perímetro de jeito nenhum, mas iam garantir que ninguém penetrasse o perímetro deles. Por sua vez, estavam cercados por um cordão de isolamento da polícia, embora saber se estavam ali para proteger o público do exército ou o exército do público, ou para garantir a imunidade diplomática da nave gigante e evitar que recebesse multas de estacionamento irregular, isso era assunto completamente indefinido e sujeito a infindáveis discussões.
A cerca mais próxima da nave estava agora sendo desfeita. O exército movimentava-se, constrangido, sem saber como reagir diante do fato que a razão de estarem ali dava sinais de que iria levantar voo e desaparecer.
O robô gigante se arrastou para dentro por volta do meio-dia; já eram cinco horas da tarde e, até então, não houve nenhum sinal do robô. Diversos barulhos foram ouvidos mais estrondos e resmungos vindos do interior da nave, a sinfonia de um milhão de defeitos pavorosos; mas a sensação de espera tensa na multidão nascia do fato de estarem tensamente esperando uma decepção. Aquela coisa maravilhosa e extraordinária surgira em suas vidas e, de repente, estava prestes a se mandar, deixando-os para trás.
Duas pessoas sentiam isso de forma particularmente intensa. Arthur e Fenchurch vasculhavam a multidão, ansiosos, sem conseguir avistar Ford Prefect ou qualquer sinal de que ele fosse aparecer por lá.
— Ele é confiável? — perguntou Fenchurch, com a voz desanimada.
— Confiável? — repetiu Arthur. Deu uma risada cínica. — O oceano é raso? O sol é gelado? — disse ele.
As últimas partes do suporte do robô estavam sendo carregadas para dentro da nave e os últimos componentes da cerca mais próxima estavam amontoados ao pé da rampa, esperando para subir.
Os soldados em volta da rampa se postaram com convicção, ordens foram berradas de um lado para o outro, rápidas reuniões foram realizadas, mas, claro, não havia nada a ser feito.
Sem esperanças e sem um plano definido, Arthur e Fenchurch abriram caminho em meio à multidão, mas, como toda a multidão também estava tentando abrir caminho pela multidão, não chegaram a lugar nenhum.
Alguns minutos depois não havia mais nada fora da nave, todos os componentes da cerca estavam a bordo. Alguns serrotes voadores e um nível de bolha aparentemente foram dar uma última olhada em volta, depois voltaram chiando para dentro da imensa escotilha.
Alguns segundos se passaram.
Os sons de desordem mecânica vindos do interior da nave mudaram de intensidade e, lentamente, pesadamente, a imensa rampa de aço começou a ser recolhida da seção de gastronomia da Harrods. O som que acompanhou esse preparativo de decolagem foi o som de milhares de pessoas tensas inquietas e sendo completamente ignoradas.
— Parem tudo! — bradou um megafone de dentro de um táxi que parou cantando pneus bem próximo à multidão confusa.
— Acabamos de conseguir — bradou o megafone — um importante desfalque científico!
— Des...coberta. Isso, uma descoberta — ele se corrigiu. A porta do táxi se abriu e um homenzinho vindo de algum lugar nos arredores de Betelgeuse pulou para fora, usando um jaleco branco. — Parem tudo! — gritou ele novamente e, desta vez, sacudiu um bastão curto, grosso e preto, com luzes na ponta. As luzes piscaram brevemente, a rampa parou de subir e, obedecendo aos sinais do Polegar (sinais estes que metade dos engenheiros eletrônicos da Galáxia está constantemente tentando descobrir novas maneiras para interceptar, enquanto a outra metade está constantemente buscando novas maneiras de interceptar os sinais de interceptação), começou a descer novamente, bem devagar.
Ford Prefect apanhou o seu megafone de dentro do táxi e começou a gritar para a multidão.
— Abram caminho — berrava ele -, abram caminho, por favor, essa é uma descoberta científica importantíssima. Você aí e você também apanhem o equipamento dentro do táxi.
Absolutamente por acaso, ele apontou para Arthur e para Fenchurch, que lutaram para se desvencilhar da multidão e alcançaram o táxi o mais rápido possível.
— Muito bem, quero que vocês abram caminho, por favor, para alguns equipamentos científicos fundamentais — gritou Ford. — Por favor, fiquem calmos. Está tudo sob controle, não há nada para se ver aqui. Trata-se apenas de uma descoberta científica importante. Fiquem calmos. Equipamentos científicos importantes. Vamos abrindo caminho aí.
Ávida por emoções novas, encantada com aquela suspensão temporária e repentina da frustração, a multidão entusiasticamente recuou e começou a abrir caminho.
Arthur ficou um pouco surpreso ao ler o que estava impresso nas caixas dos equipamentos científicos importantíssimos que estavam no banco de trás do táxi.
— Coloca o seu casaco por cima das caixas — sussurrou para Fenchurch, enquanto as levantava e passava para ela. Rapidamente, tirou o grande carrinho de supermercado que também estava espremido no banco de trás. Ele bateu no chão fazendo barulho e, juntos, Arthur e Fenchurch colocaram as caixas lá dentro.
— Abram caminho, por favor — gritou Ford novamente. — Está tudo sob controle científico.
— Ele disse que você ia pagar a corrida — disse o motorista de táxi para Arthur, que desencavou algumas notas e entregou ao homem. Pôde ouvir o som distante de sirenes da polícia.
— Saiam da frente — gritou Ford — e ninguém vai se machucar aqui.
A multidão se movimentou, fechando-se novamente atrás deles, enquanto Arthur e Fenchurch empurravam e arrastavam o carrinho de supermercado freneticamente em meio aos entulhos até a rampa.
— Está tudo bem — Ford continuou a gritar. — Não há nada para se ver aqui, já acabou. Na verdade, nada disso está acontecendo.
— Abram o caminho, por favor — bradou um megafone da polícia, por trás da multidão. — Houve um desfalque, abram caminho.
— Descoberta — berrou Ford, contra-atacando. — Uma descoberta científica!
— Aqui é a polícia! Abram caminho!
— Equipamento científico! Abram caminho!
— Polícia! Precisamos passar!
— Walkmans de graça! — gritou Ford, puxando meia dúzia de aparelhos portáteis dos bolsos e jogando-os para a multidão. Os segundos de absoluta confusão que se seguiram permitiram que eles pudessem levar o carrinho até a rampa e o arrastarem para dentro.
— Segurem-se — sussurrou Ford, apertando um botão em seu Polegar Eletrônico. Debaixo dos três, a imensa rampa começou a vibrar e a subir, bem devagar.
— O.k., crianças — disse ele, conforme a multidão ensandecida ia ficando mais e mais distante e eles começavam a avançar, cambaleantes, da rampa inclinada para o interior da nave -, parece que estamos a caminho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!