17 de dezembro de 2017

Capítulo 37

Durante três dias e três noites o gigantesco robô prateado prostrou-se profundamente perplexo sobre as ruínas de Knightsbridge, balançando-se levemente e tentando compreender um monte de coisas.
Delegações do governo foram examiná-lo e jornalistas alarmados surgiram aos borbotões, fazendo perguntas uns aos outros no ar, perguntando o que achavam daquilo. Alguns aviões militares tentaram um ataque patético, mas os lagartos não deram o ar de sua graça. O robô vasculhava o horizonte, vagarosamente.
À noite, ele parecia ainda mais espetacular, iluminado pelas equipes de tevê que o filmavam continuamente enquanto ele continuamente não fazia nada.
Ele pensou e pensou e finalmente chegou a uma conclusão.
Teria de enviar seus robôs de manutenção.
Devia ter pensado naquilo antes, mas estava preocupado com outras coisas.
Os minúsculos robôs voadores surgiram chiando pela escotilha em uma tarde, em uma terrível nuvem de metal. Rondaram pelas áreas vizinhas, atacando freneticamente algumas coisas e defendendo outras.
Um deles finalmente encontrou uma loja de animais onde havia alguns lagartos, mas, ao defender a loja de animais em nome da democracia, agiu tão brutalmente que não sobrou pedra sobre pedra no lugar.
O momento crítico se deu quando uma divisão avançada de chiadores voadores descobriu o zoológico em Regent's Parle e mais especificamente, a jaula dos répteis.
Com um pouco mais de cuidado, devido aos erros cometidos anteriormente no pet shop, as furadeiras e serras tico-tico voadoras conseguiram libertar as maiores e mais rechonchudas iguanas, levando-as até o robô prateado gigante, que tentou iniciar negociações de alto nível com elas.
Finalmente o robô anunciou ao mundo que, apesar de uma troca rica, franca e generosa de pontos de vista, as negociações de alto nível haviam falhado, os lagartos foram aposentados e ele, o robô, ia sair de férias em algum lugar. Por algum motivo acabou escolhendo Bournemouth.
Ford Prefect, vendo isso na tevê, balançou a cabeça, deu risadas e tomou outra cerveja.
Tomaram providências imediatas para a sua partida.
Os kits de ferramenta voadores guincharam e serraram e furaram e fritaram coisas com luz durante um dia e uma noite e, na manhã seguinte, para a surpresa geral, um gigantesco suporte móvel começou a se dirigir para o oeste, em diversas pistas simultaneamente, com o robô sobre ele, alojado no suporte.
Dirigiu-se para o oeste, em um estranho carnaval, cercado por seus servos, por helicópteros e vans da imprensa, rasgando seu caminho até Bournemouth, onde o robô se desvencilhou lentamente das amarras do sistema de transporte e foi se deitar durante dez dias na praia.
Essa foi, de longe, a coisa mais incrível jamais acontecida em Bournemouth.
Multidões reuniram-se diariamente ao longo de um perímetro que estava sendo vigiado e protegido como área de recreação do robô, tentando ver o que ele estava fazendo.
Ele não estava fazendo nada. Estava deitado na areia. Estava deitado na areia de bruços, um pouco desajeitado.
Foi o jornalista de um periódico local que, tarde da noite, conseguiu fazer o que ninguém no mundo havia conseguido até então, que era bater um papo breve e inteligível com um dos robôs que estava
vigiando a área.
Foi um feito extraordinário.
— Acho que tem uma boa matéria aí — confidenciou o jornalista, passando um cigarro pela cerca de trama de aço -, mas eu preciso de uma perspectiva local. Fiz uma lista de perguntas — prosseguiu ele, vasculhando o bolso de dentro do casaco —, e você talvez pudesse fazer com que ele, aquilo, sei lá como vocês o chamam, talvez ele pudesse dar algumas respostas rápidas.
A pequena chave de catraca voadora disse que ia ver o que podia fazer a respeito e saiu, chiando.
Não houve nenhuma resposta.
No entanto, curiosamente, as perguntas no pedaço de papel batiam mais ou menos exatamente com as perguntas que estavam passando pelos maciços circuitos de padrão industrial da mente do robô. As perguntas eram:
“O que você acha de ser um robô?”
“Como você se sente, vindo do espaço sideral?” e
“Está gostando de Bournemouth?”
Na manhã seguinte, bem cedo, começaram a arrumar as coisas, e, dentro de alguns dias, estava claro que o robô se preparava para ir embora de vez.
— O que eu quero saber é: você consegue nos colocar dentro da nave? — perguntou Fenchurch para Ford.
Ford olhou impaciente para o seu relógio.
— Tenho assuntos sérios e inacabados que preciso resolver — exclamou.

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Boa leitura :)