17 de dezembro de 2017

Capítulo 36

O disco voador no qual Ford Prefect viajou clandestinamente causou a maior comoção em todo o mundo. Finalmente, não havia mais nenhuma dúvida ou possibilidade de erro, nenhuma alucinação e nem misteriosos agentes da CIA flutuando em reservatórios.
Daquela vez, era real, era definitivo. Era total e definitivamente definitivo.
O disco voador desceu com um magnífico desdém por qualquer coisa que pudesse estar abaixo dele e esmagou uma extensa área de algumas das propriedades mais caras do mundo, incluindo uma boa parte da loja Harrods.
A coisa era enorme, com quase dois quilômetros de extensão, prateada, esburacada, chamuscada e desfigurada com as cicatrizes de inúmeras batalhas espaciais violentas, lutadas com selvageria à luz de sóis desconhecidos para o homem.
Uma escotilha se abriu demolindo uma seção de gastronomia da Harrods, demoliu a Harvey Nichols e, com um rangido final de arquitetura torturada, derrubou o Sheraton Park Tower.
Após um longo e angustiante momento no qual se ouviram estrondos e resmungos de maquinaria destruída, de lá saiu, descendo pela rampa, um enorme robô prateado, com trinta metros de altura.
Ele fez um gesto, levantando a mão.
— Eu venho em paz — anunciou ele, acrescentando após um longo momento de esforço adicional — levem-me ao seu lagarto.
Ford Prefect, é claro, tinha uma explicação para aquilo tudo, enquanto assistia com Arthur às repetidas reportagens frenéticas na televisão que, por sinal, não tinham nada a dizer, além de anunciar que a coisa tinha causado um prejuízo tal, avaliado em tantos bilhões de libras e que tinha matado aquele outro número completamente diferente de pessoas, e depois repetiam tudo novamente, porque o robô, desde então, estava prostrado, balançando levemente o corpo e emitindo pequenas mensagens de erro incompreensíveis.
— Ele vem de uma democracia muito antiga, sabe...
— Você está querendo dizer que ele vem de um mundo de lagartos?
— Não — respondeu Ford que, àquelas alturas, já estava um pouco mais racional e coerente do que antes, tendo finalmente sido forçado a tomar uma xícara de café -, nada tão trivial. Nada assim tipo isso tão compreensível. No mundo dele, as pessoas são pessoas. Os líderes é que são lagartos. As pessoas odeiam os lagartos e os lagartos governam as pessoas.
— Ué — comentou Arthur -, achei que você tinha tido que era uma democracia.
— Eu disse — afirmou Ford. — E é.
— Então — quis saber Arthur, torcendo para não soar ridiculamente estúpido -, por que as pessoas não se livram dos lagartos?
— Isso sinceramente nunca passou pela cabeça delas — disse Ford. — Como elas têm direito de voto, acabam supondo que o governo que elegeram é mais ou menos parecido com o governo que querem.
— Quer dizer que eles realmente votam nos lagartos?
— Ah, sim — disse Ford, dando de ombros -, é claro.
— Mas — perguntou Arthur, sem medo de ser feliz — por quê?
— Porque, se deixam de votar em um lagarto — explicou Ford -, o lagarto errado pode assumir o poder. Você tem gim?
— O quê?
— Eu perguntei — disse Ford, com um tom crescente de impaciência entranhando-se em sua voz — se você tem gim.
— Vou ver. Conte-me sobre os lagartos.
Ford deu de ombros novamente.
— Algumas pessoas dizem que os lagartos são a melhor coisa que já lhes aconteceu — explicou ele. — Elas estão completamente enganadas, é claro, completa e absolutamente enganadas, mas é preciso que alguém tenha a coragem de dizer isso.
— Mas isso é terrível — disse Arthur.
— Olha, meu camarada — disse Ford -, se eu ganhasse um dólar altairiano cada vez que eu ouvisse um fragmento do Universo olhando para o outro fragmento do Universo e dizendo “Isso é terrível”, eu não estaria sentado aqui como um limão procurando por um gim. Mas não ganho e aqui estou. Enfim, por que você está assim todo sereno, com essa cara de babaca? Está apaixonado?
Arthur disse serenamente que estava, sim.
— Com alguém que sabe onde está a garrafa de gim? E eu vou conhecê-la?
Conheceu, porque Fenchurch entrou naquele exato momento com a pilha de jornais que foi comprar na cidade. Hesitou diante dos destroços na mesa e dos destroços de Betelgeuse alojados no sofá.
— Onde está o gim? — Ford perguntou a Fenchurch. E, virando-se para Arthur: — O que aconteceu com a Trillian, por sinal?
— Hum, essa é Fenchurch — disse Arthur, completamente sem graça. — Não rolou nada com a Trillian, você deve ter visto ela por último.
— Ah, é — disse Ford -, ela se mandou com Zaphod para algum lugar. Tiveram filhos ou algo no gênero. Ou ao menos — acrescentou -, eu acho que eram filhos. Zaphod deu uma boa sossegada, sabe.
— Sério? — perguntou Arthur, ajudando Fenchurch com as compras.
— Sério — disse Ford. — Ao menos uma de suas cabeças agora está mais sã do que um avestruz que tenha tomado ácido.
— Arthur, quem é esse? — perguntou Fenchurch.
— Ford Prefect — respondeu ele. — Acho que já te falei dele por alto.

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