17 de dezembro de 2017

Capítulo 35

Foram para a casa de Arthur no West Country, enfiaram algumas toalhas e algumas coisinhas em uma mochila e depois ficaram sentados fazendo o que todo mochileiro galáctico acaba fazendo na maior parte do seu tempo. Ficaram esperando um disco voador passar.
— Um amigo meu fez isso durante quinze anos — disse Arthur em uma noite, quando estavam sentados observando o céu, desanimados.
— Quem?
— O nome dele era Ford Prefect.
Arthur se pegou fazendo algo que jamais imaginara fazer novamente.
Quis saber por onde andava Ford Prefect.
Por uma extraordinária coincidência, no dia seguinte saíram duas matérias no jornal, uma sobre incidentes espantosos com um disco voador e a outra sobre uma série de brigas indecorosas em bares. 
Ford Prefect apareceu um dia depois desse, com ressaca, e queixando-se de que Arthur nunca atendia o telefone.
Ele aparentava estar realmente muito mal, não só como se tivesse sido puxado através de uma cerca viva ao contrário, mas como se a cerca viva em si estivesse ao mesmo tempo sendo puxada ao contrário através de uma ceifadeira e debulhadora. Cambaleou pela sala de Arthur, rejeitando todas as ofertas de ajuda, o que foi um erro, porque o esforço fez com que ele perdesse o equilíbrio de vez, e Arthur teve, no fim das contas, que arrastá-lo até o sofá.
— Obrigado — disse Ford —, muito obrigado. Você tem... — disse ele, e dormiu por três horas seguidas.
— ...ideia — continuou subitamente, quando voltou a si — de como é difícil acessar o sistema telefônico britânico estando nas Plêiades? Estou vendo que não, então vou te contar — disse ele —, assim que você me
trouxer uma xícara bem grande do café bem forte que você vai preparar agora.
Seguiu Arthur até a cozinha, mal se aguentando em pé.
— As retardadas das telefonistas ficam te perguntando de onde você está falando, você vai e diz que é de Letchworth e elas dizem que não é possível, estando naquele circuito. O que você está fazendo?
— Café para você.
— Ah, tá. — Ford pareceu curiosamente decepcionado. Olhou à sua volta, com muito desânimo. — O que é isso? -perguntou ele.
— Flocos de arroz.
— E isso?
— Páprica.
— Sei — disse Ford, solene, devolvendo ambos à mesa, um sobre o outro. Constatou que a coisa não parecia muito equilibrada, então inverteu a posição e achou melhor assim.
— Ainda estou sofrendo com o jet lag espacial — explicou. — O que eu estava dizendo mesmo?
— Que não estava ligando de Letchworth.
— Pois é, não estava. Eu expliquei para a mulher: “Dane-se Letchworth, se você acha que isso é uma questão. Na verdade, estou ligando de uma pequena nave do departamento de vendas da Companhia Cibernética de Sirius, atualmente no trecho subvelocidade-da-luz de uma viagem entre as estrelas conhecidas pelo seu mundo, mas não necessariamente por você, cara senhora.” Eu disse “cara senhora” — explicou Ford prefect -, porque não queria que ela ficasse ofendida com a minha insinuação de que ela era uma cretina ignorante...
— Muito diplomático — comentou Arthur Dent.
— Exatamente — concordou Ford -, diplomático. Ele franziu a testa.
— Essas orações subordinadas não colaboram muito com o meu jet lag espacial. Você vai ter que me ajudar de novo com isso — prosseguiu ele — e me repetir o que era mesmo que eu estava falando?
— “Entre as estrelas” — repetiu Arthur — “conhecidas pelo seu mundo, mas não necessariamente por você, cara senhora...”
— Epsílon de Plêiades e Zeta de Plêiades — concluiu Ford, triunfante. — Uau, essa conversa pirada é bem divertida.
— Toma um café.
— Não, obrigado. “E o motivo”, eu disse, “de estar incomodando a senhora em vez de fazer uma ligação direta como eu poderia, pois temos aparelhos de telecomunicação altamente sofisticados aqui nas Plêiades, é que o pão-duro do filho de uma besta espacial que está pilotando essa nave filha de uma besta espacial faz questão que eu ligue a cobrar. Dá pra acreditar numa coisa dessas?”
— E ela acreditou?
— Sei lá. Desligou na minha cara quando cheguei nesse ponto. É isso! Então o que você acha que fiz
depois? — perguntou, exaltado.
— Não faço a menor ideia, Ford.
— Que pena — disse Ford —,estava esperando que você pudesse me lembrar. Eu realmente detesto esses caras, sabe. Eles são os seres mais desprezíveis do cosmos, zunindo de um lado para o outro no infinito celestial com as suas maquininhas ridículas que nunca funcionam direito, ou então, quando funcionam, executam funções que nenhum homem, em sã consciência, gostaria que executassem e — acrescentou ele feroz — ainda fazem bipe para você no final!
Aquilo era a mais pura verdade e uma visão altamente respeitada, amplamente compartilhada por todas as pessoas que pensavam direito, as quais podem ser reconhecidas como pessoas que pensam direito pelo mero fato de compartilharem esse ponto de vista.
O Guia do Mochileiro das Galáxias, em um momento de lucidez ponderada, o que é praticamente único em suas atuais cinco milhões, novecentos e setenta e cinco mil, quinhentas e nove páginas, diz o seguinte sobre os produtos da Companhia Cibernética de Sirius: “é muito fácil não enxergar a sua inutilidade essencial devido à enorme realização que você sente ao conseguir finalmente fazer com que eles funcionem”.
“Em outras palavras, e essa é a sólida base sobre a qual o sucesso da Companhia em toda a Galáxia está apoiado -, os seus erros de projeto fundamentais são completamente ocultados pelos seus erros de projeto superficiais.”
— E esse cara — esbravejava Ford — ainda estava se esforçando para vender mais dessas coisas! Era sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, para pesquisar novas vidas e vender Sistemas Substitutos de Música Avançados para os seus restaurantes, elevadores e barzinhos! Ou então, se eles por acaso não tivessem restaurantes, elevadores e barzinhos ainda, para acelerar o crescimento da sua civilização até que eles tivessem essa droga toda! Onde está o maldito café que eu pedi?
— Joguei fora.
— Faça mais. Lembrei agora o que eu fiz depois. Salvei a civilização tal qual a conhecemos. Sabia que era algo assim.
Voltou trôpego para a sala, onde continuou falando sozinho, esbarrando na mobília e fazendo uns sons de bipe-bipe.
Alguns minutos depois, usando uma expressão facial bastante serena, Arthur foi atrás dele. Ford estava assustado.
— Onde você estava? — perguntou ele.
— Fazendo café para você — respondeu Arthur, ainda usando a mesma expressão serena. Há muito constatara que a única maneira de ficar junto de Ford sem problemas era manter um amplo estoque de expressões bastante serenas e usá-las o tempo todo ao lado dele.
— Você perdeu a melhor parte! — gritou Ford. — Você perdeu justo a parte em que eu ataquei o cara!
Agora — concluiu ele -, eu vou ser obrigado a atacar novamente!
Ele se lançou temerariamente sobre uma cadeira e a quebrou.
— Da primeira vez, foi mais legal — disse ele, mal-humorado, fazendo um gesto vago na direção de outra cadeira quebrada, que ele tinha apoiado na mesa de jantar.
— Estou vendo — disse Arthur, lançando um olhar sereno para os destroços escorados — e, ah, para que servem todos esses cubos de gelo?
— O quê? — berrou Ford. — Como assim? Você perdeu essa parte também? Esse é o equipamento de animação suspensa! Coloquei o cara em animação suspensa. Eu tinha que fazer isso, não tinha?
— Imagino que sim — disse Arthur, com a sua voz serena.
— Não mexa nisso!!! — gritou Ford.
Arthur, que estava prestes a recolocar o telefone — que por alguma razão misteriosa estava sobre a mesa — no gancho, estacou, serenamente.
— O.k. — disse Ford, se acalmando -, dá uma ouvida.
Arthur colocou o telefone no ouvido.
— É a hora certa — disse.
— Bipe, bipe; bipe — repetiu Ford — exatamente o que está sendo ouvido em todos os compartimentos da nave do tal sujeito de que te falei, enquanto ele dorme, lá no gelo, circulando devagarzinho em volta de uma lua pouco conhecida de Sesefras Magna. A Hora Certa de Londres!
— Entendo — disse Arthur novamente e decidiu que era a hora de fazer a grande pergunta.
— Por quê? — perguntou ele, serenamente.
— Se eu tiver sorte — disse Ford -, a conta telefônica vai levar aqueles desgraçados à falência.
Atirou-se no sofá, suando em bicas.
— De qualquer jeito — disse ele -, foi uma chegada dramática, não foi?

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