7 de dezembro de 2017

Capítulo 33

Um quilômetro mais ou menos floresta adentro, Arthur Dent estava entretido demais no que estava fazendo para ouvir Ford Prefect aproximar-se.
O que estava fazendo era um tanto curioso, e era o seguinte: sobre um pedaço largo de pedra chata ele tinha riscado um grande quadrado, subdividido em cento e sessenta e nove quadrados menores, treze por lado.
Em seguida tinha juntado um monte de pedrinhas achatadas e riscado uma letra em cada uma. Sentados morosamente em torno da pedra estavam alguns homens nativos sobreviventes a quem Arthur estava tentando apresentar o curioso conceito encarnado nessas pedras.
Até agora não iam muito bem. Tinham tentando comer algumas, enterrar outras e jogar o resto fora. Arthur conseguira finalmente convencer um deles a colocar algumas sobre o quadro riscado na pedra, o que já era bem mais do que tinha atingido na véspera.
Juntamente com a deterioração moral dessas criaturas, parecia haver uma deterioração correspondente em sua inteligência efetiva.
Com o intuito de instigá-los, Arthur colocou ele mesmo algumas pedras no quadro, e tentou encorajar os nativos a acrescentarem outras.
Não estava dando certo.
Ford assistia, quieto, ao pé de uma árvore próxima.
— Não — disse Arthur a um dos nativos que acabava de espalhar algumas das pedras num acesso de abissal depressão —, o Q vale dez, está vendo, e está num quadrinho de três vezes o valor da palavra, então... olha, eu expliquei as regras para você... não, não, olha, por favor, larga esse osso de maxilar... tudo bem, vamos recomeçar outra vez. E veja se se concentra desta vez.
Ford apoiou o cotovelo na árvore e a cabeça na mão.
— O que você está fazendo, Arthur? — perguntou calmamente.
Arthur levantou o olhar, tomado de surpresa. Teve de repente a sensação de que aquilo tudo poderia parecer um pouco estúpido. Tudo o que sabia era que tinha funcionado como um sonho quando ele era criança. Mas as coisas eram diferentes naquela época, ou melhor, iam ser.
— Estou tentando ensinar os homens das cavernas a jogar palavras-cruzadas — respondeu.
— Não são homens das cavernas — disse Ford.
— Parecem homens das cavernas.
Ford deixou passar.
— Tá bom — disse.
— É um trabalho duro — disse Arthur, exausto. — A única palavra que eles sabem é grunhido e não sabem como escreve.
Suspirou e recostou-se.
— Aonde você quer chegar com isso? — perguntou Ford.
— Temos que encorajá-los a evoluírem! A se desenvolverem! — disse Arthur furiosamente. Esperava que o suspiro exausto e agora esta manifestação de fúria pudessem disfarçar a sensação de estupidez que estava sentindo no momento. Não disfarçou. Ele se levantou. — Você pode imaginar como seria um mundo descendente daqueles... cretinos com que a gente chegou? — disse.
— Imaginar? — disse Ford erguendo as sobrancelhas. — A gente não precisa imaginar. A gente viu.
— Mas... — Arthur agitava os braços em vão.
— A gente viu — disse Ford —, não tem saída.
Arthur chutou uma pedra.
— Você contou para eles o que a gente descobriu? — perguntou.
— Hmmmmmm? — disse Ford, sem estar realmente concentrado.
— A Noruega — disse Arthur —, a assinatura de Slartibartfast no glaciar. Você contou para eles?
— Qual é a questão? O que significaria para eles?
— O que significaria? — disse Arthur. — O que significaria? Você sabe perfeitamente bem o que significa. Significa que este é o planeta Terra! É a minha casa! Foi aqui que eu nasci!
— Foi? — disse Ford.
— Tudo bem, vai ser.
— Sim, dentro de dois milhões de anos. Por que você não diz isso para eles? Vai lá e diz pra eles: “Dá licença, eu só queria colocar que dentro de dois milhões de anos eu vou nascer a alguns quilômetros daqui”. Vamos ver o que vão dizer. Vão te encurralar no alto de uma árvore e colocar fogo.
Arthur absorveu essa com tristeza.
— Encare os fatos — disse Ford. — Aqueles boçais são seus antepassados, e não estas pobres criaturas aqui.
Foi até onde os homens-macaco remexiam apaticamente nas pedrinhas. Balançou a cabeça.
— Deixa pra lá estas palavras-cruzadas, Arthur. Isto não vai salvar a raça humana, porque esta turma não vai ser a raça humana. A raça humana está no momento sentada em torno de uma pedra do outro lado deste morro fazendo documentários sobre si mesma.
Arthur estremeceu.
— Deve haver alguma coisa que a gente possa fazer — disse ele. Uma sensação terrível de desolação arrepiou seu corpo por ele estar ali, na Terra, na Terra que tinha perdido seu futuro numa horrenda catástrofe arbitrária e que agora parecia perder seu passado da mesma maneira.
— Não — disse Ford —, não há nada que a gente possa fazer. Isso não muda a história da Terra, percebe, isto é a história da Terra. Ame-os ou deixe-os, os golgafrichaneses são o povo de que você descende. Dentro de dois milhões de anos serão destruídos pelos vogons. A História nunca é alterada, está vendo, encaixa-se como num quebra-cabeça. A vida é uma coisa velha e engraçada, não?
Apanhou a letra Q e a atirou numa moita, onde ela atingiu um coelho jovem. O coelho começou a correr aterrorizado e não parou até ser capturado e comido por uma raposa que engasgou-se com um osso seu e morreu à margem de um riacho que em seguida a levou.
Durante as semanas que se sucederam Ford Prefect engoliu seu orgulho e engatou um relacionamento com uma garota que tinha sido funcionária graduada em Golgafrincham, e ficou tremendamente chateado quando ela veio a falecer subitamente por beber água de um tanque que tinha sido contaminado pelo cadáver de uma raposa. A única moral possível a se tirar desta estória é que nunca se deve atirar a letra Q numa moita, mas infelizmente há momentos em que é inevitável.
Como a maioria das coisas cruciais da vida, esta corrente de eventos foi completamente invisível a Ford Prefect e Arthur Dent. Estavam observando com tristeza um dos nativos que mexia morosamente com as letras.
— Pobres homens das cavernas — disse Arthur.
— Não são...
— O quê?
— Ah, esquece — disse Ford.
A desgraçada criatura emitiu um patético ruído de lamúria e deu uma pancada numa pedra.
— Tudo está sendo uma perda de tempo para eles, não? — disse Arthur.
— Uh uh urghhhhh — murmurou o nativo e deu outra pancada na pedra.
— Foram ultrapassados por limpadores de telefones.
— Urgh, grr grr, gruh! — insistiu o nativo, continuando a bater na pedra.
— Por que ele fica batendo na pedra? — disse Arthur.
— Acho que ele provavelmente quer jogar palavras-cruzadas com você outra vez — disse Ford. — Está apontando para as letras.
— Ele provavelmente escreveu crzjgrdwldiwdc outra vez, coitado. Eu vivo dizendo para ele que só tem um G em crzj gr dwldiwdc.
O nativo deu outra pancada na pedra. Olharam por sobre os ombros dele. Seus olhos saltaram.
Ali, no meio das letras embaralhadas havia treze dispostas numa clara linha reta. Eram três palavras escritas. As palavras eram estas: “QUARENTA E DOIS”.
— Grrrurgh guh guh — explicou o nativo. Espalhou as letras, furioso, e foi ficar sem fazer nada debaixo de uma árvore próxima com um colega seu.
Ford e Arthur ficaram olhando para ele. E então ficaram olhando um para o outro.
— Estava escrito o que eu achei que estava escrito? — perguntaram um ao outro.
— Estava — responderam ambos.
— Quarenta e dois — disse Arthur.
— Quarenta e dois — disse Ford.
Arthur correu para os dois nativos.
— O que vocês estão tentando nos dizer? — gritou. — O que isso quer dizer?
Um deles rolou no chão, levantou as pernas para o ar, rolou de novo e foi dormir. O outro trepou na árvore e atirou castanhas-da-índia em Ford Prefect. O que quer que tivessem a dizer, já tinham dito.
— Você sabe o que isso significa — disse Ford.
— Não completamente.
— Quarenta e dois é o número que Pensador Profundo deu como sendo a Resposta Fundamental.
— Certo.
— E a Terra é o computador que Pensador Profundo projetou e construiu para calcular a Pergunta da Resposta Fundamental.
— É o que somos levados a crer.
— E a vida orgânica era parte da programação do computador.
— Se você está dizendo.
— Eu estou dizendo. Isto significa que estes nativos, estes homens-macaco, são parte integrante do programa do computador, e que nós e os golgafrichaneses não somos.
— Mas os homens das cavernas estão morrendo e os golgafrichaneses vão obviamente tomar seu lugar.
— Exatamente. Então você sabe o que isto significa.
— O quê?
— Adivinha — disse Ford Prefect.
Arthur olhou para ele.
— Que este planeta está dançando nessa — disse.
Ford raciocinou por uns momentos.
— Ainda assim, alguma coisa deve ter saído — disse por fim —, porque Marvin disse que podia ver a Pergunta impressa em suas ondas cerebrais.
— Mas...
— Provavelmente a pergunta errada, ou uma distorção dela. Poderia nos dar uma pista, de qualquer forma, se a gente tivesse como descobri-la. Não vejo como, porém.
Ficaram deprimidos por um tempo. Arthur sentou-se no chão e começou a arrancar montinhos de capim, mas achou que essa era uma atividade em que ele não poderia ficar profundamente entretido. Não era capim em que ele pudesse acreditar, as árvores lhe pareciam sem sentido, as colinas onduladas pareciam ondular para lugar nenhum de o futuro parecia um túnel através do qual era preciso passar arrastando-se.
Ford mexeu no seu Receptor Sensomático de Subéter. Estava em silêncio. Suspirou e deixou-o de lado.
Arthur apanhou uma das letras de seu jogo rústico de palavras-cruzadas. Era um A. Suspirou e a recolocou no tabuleiro. A letra ao lado da qual ele a colocou era um D. Estava escrito DA. Pegou outras três letras e juntou a estas. Eram, por acaso, um M, um E e um R. Por uma curiosa coincidência, a palavra resultante expressava perfeitamente o que Arthur sentia a respeito das coisas naquela hora. Olhou a palavra por uns instante. Não a tinha escrito deliberadamente, era apenas um acaso. Seu cérebro lentamente engatou a primeira.
— Ford — disse ele subitamente —, olhe, se essa Pergunta está impressa nas minhas ondas cerebrais e eu não tenho consciência dela, ela deve estar em algum lugar do meu inconsciente.
— É, acho que sim.
— Deve haver um jeito de trazer para fora esta anotação inconsciente.
— Ah, é?
— É, introduzindo algum elemento de acaso que possa ser moldado por minhas ondas cerebrais.
— Como o quê?
— Como por exemplo tirar letras de palavras-cruzadas de um saco fechado.
Ford levantou-se.
— Brilhante! — disse. Tirou a toalha de sua mochila e com alguns nós cegos transformou-a num saco. — Totalmente absurdo — disse —, completo delírio. Mas vamos fazer porque é um delírio brilhante. Vamos aí.
O sol passou respeitosamente por trás de uma nuvem. Umas poucas gotinhas de chuva caíram.
Juntaram todas as letras restantes e as jogaram no saco. Chacoalharam.
— Certo — disse Ford. — Feche os olhos. Vai tirando. Vai, vai, vai.
Arthur fechou os olhos e mergulhou a mão na toalha de pedras. Mexeu, remexeu e tirou quatro, entregando-as a Ford. Ford as foi estendendo no chão na ordem que ia recebendo.
— Q — disse Ford —, U, A, L... Qual!
Piscou os olhos.
— Acho que está funcionando! — disse. Arthur lhe entregou mais três,
— E, O, R... Eor. Bom, talvez não esteja funcionando — disse Ford.
— Toma mais estas três.
— E, S, U... Eoresu... acho que não está fazendo sentido.
Arthur tirou mais três e depois mais duas. Ford as colocou em seus lugares.
— L, T, A... D, O... Eoresultado... É o resultado! — gritou Ford. — Está funcionando! É fantástico, está funcionando mesmo!
— Tem mais aqui — disse Ford, arrancando-as febrilmente o mais rápido que podia.
— D, E — disse Ford —, S, E, I, S... Qual é o resultado de seis... V, E, Z, E, S... Qual é o resultado de seis vezes... N, O, V, E... seis vezes nove... — fez uma pausa. — Vamos, cadê a próxima?
— Ahn, isso é tudo — disse Arthur —, eram todas que tinha.
Recostou-se, perplexo.
Vasculhou com as pontas dos dedos mais uma vez dentro da toalha mas não havia mais letras.
— Quer dizer que é isso? — disse Ford.
— É isso.
— Seis vezes nove. Quarenta e dois.
— É isso. Está tudo aí.

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Boa leitura :)