14 de dezembro de 2017

Capítulo 32

— Hactar! — gritou Trillian. — O que você quer com essa história toda?
Não houve resposta da escuridão que a cercava. Trillian esperou, nervosa. Ela estava certa de que não podia estar errada. Tentou enxergar dentro das sombras de onde esperava que alguma resposta viesse. Mas havia apenas um silêncio frio.
— Hactar? — chamou novamente. — Gostaria que você conhecesse meu amigo Arthur Dent. Eu queria fugir com um Deus do Trovão, mas ele não me deixou e eu lhe agradeço por isso. Ele me fez compreender onde residia meu afeto. Infelizmente Zaphod tem medo demais disso tudo, então trouxe Arthur no lugar dele. Não sei bem por que estou lhe dizendo tudo isso. Alô? — disse novamente. — Hactar?
E então surgiu a resposta.
Era fraca e débil como uma voz carregada pelo vento, trazida de muito longe, ouvida apenas em parte — a memória do sonho de uma voz.
— Por favor, saiam — disse a voz. — Prometo que estarão completamente seguros.
Olharam um para o outro e depois saíram, improvavelmente, acompanhando o raio de luz que saía da escotilha aberta na Coração de Ouro em plena escuridão granulosa da Nuvem de Poeira.
Arthur tentou segurar a mão de Trillian para acalmá-la e reconfortá-la, mas ela não deixou. Então decidiu segurar sua bolsa com a lata de azeite grego, sua toalha, postais amassados de Santorini e outros bagulhos. Acalmou e reconfortou aquilo.
Estavam sobre e dentro de nada.
Um nada escuro e repleto de poeira. Cada grão de poeira do computador pulverizado brilhava levemente conforme girava lentamente, capturando a luz do sol em meio à escuridão. Cada partícula do computador, cada grão de poeira, possuía em si, fraca e minimamente, o padrão do todo. Ao reduzir o computador a pó, os Silásticos Armademônios de Striterax o haviam danificado, mas não destruído. Um campo fraco e insubstancial mantinha as partículas relacionadas umas às outras.
Arthur e Trillian estavam de pé, ou melhor, flutuavam no meio dessa estranha entidade. Não tinham o que respirar, mas, até então, isso não parecia ser importante. Hactar cumpriu sua promessa. Estavam seguros. Por enquanto.
— Não posso lhes oferecer muito em termos de conforto — disse Hactar, com uma voz fraca —, exceto ilusões de ótica. É possível, contudo, sentir-se bastante confortável com ilusões de ótica quando isso é tudo que se tem.
Sua voz sumiu aos poucos e, em meio à poeira escura, surgiu um longo sofá coberto por um veludo paisley.
Arthur estava tendo sérias dificuldades em aceitar o fato de que aquele era o mesmo sofá que havia aparecido antes, quando estava na Terra pré-histórica. Ele queria gritar e espernear de raiva porque o Universo continuava fazendo esse tipo de coisas enlouquecedoramente atordoantes com ele. Deixou que esse sentimento passasse, depois sentou-se no sofá, cuidadosamente.
Trillian sentou também.
O sofá era real.
Ou, se não fosse real, ainda assim ele os sustentava e, como era isso que os sofás supostamente deviam fazer, aquele, de acordo com qualquer padrão vigente, era um sofá real.
A voz soprada pelo vento solar suspirou sobre eles novamente.
— Espero que estejam confortáveis.
Assentiram.
— E gostaria de lhes dar os parabéns pela exatidão de suas deduções.
Arthur apressou-se em dizer que ele não tinha deduzido quase nada pessoalmente e que aquilo era coisa da Trillian. Ela simplesmente pediu que ele viesse junto porque também estava interessado na vida, no Universo e em tudo mais.
— Isso também é algo que me interessa — soprou Hactar.
— Bem — disse Arthur —, deveríamos conversar a respeito alguma hora. De preferência tomando um chá.
Lentamente materializou-se, à frente deles, uma pequena mesa de madeira sobre a qual havia uma chaleira de prata, uma leiteira de porcelana branca, um açucareiro de porcelana branca e duas xícaras e pires de porcelana branca.
Arthur inclinou-se para pegar uma xícara, mas eram apenas ilusões de ótica. Recostou-se de volta no sofá, que era uma ilusão que seu corpo estava preparado para aceitar como confortável.
— Por que — perguntou Trillian — você acha que precisa destruir o Universo?
Ela estava achando um pouco difícil falar para o nada, sem um ponto onde fixar o olhar. Hactar obviamente notou isso. Riu uma risadinha fantasmagórica.
— Se vamos ter uma sessão desse tipo — respondeu —, melhor que seja em um local adequado.
Agora coisas novas materializaram-se na frente deles. Era uma imagem pálida e obscurecida de um divã — um divã de psiquiatra. O couro com o qual estava forrado era brilhoso e suntuoso, mas aquilo também era uma ilusão de ótica.
Em torno deles, para completar o ambiente, havia uma sugestão embaçada de paredes revestidas com madeira. E então, no divã, surgiu a imagem do próprio Hactar. Essa era uma imagem que entortava o olhar.
O divã parecia ter o tamanho normal de um divã de psicanalista — pouco mais de um metro e meio de comprimento. O computador parecia ter o tamanho normal de um computador satélite negro e residente no espaço — cerca de 1.500 quilômetros de comprimento.
A ilusão de que um estava sentado sobre o outro era a coisa que entortava o olhar.
— Tudo bem — prosseguiu Trillian, firmemente. Levantou-se do sofá. Sentia que estava sendo forçada a se sentir muito confortável e a aceitar ilusões demais. — Muito bem — disse ela. — Você pode construir objetos reais também? Digo, objetos sólidos?
Houve outra pausa antes da resposta, como se a mente pulverizada de Hactar tivesse que coletar seus pensamentos dentro dos milhões e milhões de milhas nas quais estava dispersa.
— Ah — suspirou. — Você está se referindo à nave.
Os pensamentos pareciam fluir por eles e através deles, como ondas no éter.
— Sim — respondeu —, eu posso. Mas requer um esforço e um tempo enormes. Tudo que posso fazer em meu... estado de partículas, como você vê, é encorajar e sugerir. Encorajar e sugerir. E sugerir...
A imagem de Hactar no sofá pareceu tremular e se esmaecer, como se estivesse tendo dificuldades em se manter. Reuniu forças.
— Posso encorajar e sugerir — prosseguiu — que pequenos fragmentos de matéria no espaço – um eventual meteorito minúsculo, algumas moléculas aqui, alguns átomos de hidrogênio ali – se reúnam. Eu os encorajo a juntarem-se. Posso sugerir-lhes uma forma, mas isso leva muitas eras.
— Então foi você que criou — perguntou Trillian novamente — o modelo da espaçonave destroçada?
— Ehh... sim — murmurou Hactar. — Eu construí... algumas coisas. Posso movê-las por aí. Fiz a espaçonave. Achei melhor fazer.
Naquele momento, algo fez com que Arthur pegasse sua bolsa sobre o sofá e a segurasse com firmeza.
A névoa da antiga mente rompida de Hactar revirava-se em torno deles como se sonhos incômodos a perpassassem.
— Entendam, eu me arrependi — murmurou pesarosamente. — Me arrependi de ter sabotado meu próprio projeto para os Silásticos Armademônios. Não me cabia tomar aquelas decisões. Fui criado para cumprir uma função e falhei. Neguei minha própria existência.
Hactar suspirou, enquanto Arthur e Trillian esperavam, em silêncio, que ele continuasse sua história.
— Vocês estavam certos — disse ele. — Eu deliberadamente orientei o planeta de Krikkit até que chegassem à mesma forma de pensar dos Silásticos Armademônios e me pedissem, então, o projeto da bomba que falhei em construir da primeira vez. Eu envolvi todo o planeta e cuidei dele. Sob a influência de eventos que fui capaz de gerar, aprenderam a odiar como maníacos. Tive que fazer com que vivessem no céu. Lá embaixo, na superfície, minha influência era muito fraca. É claro que, enquanto estiveram trancados e distantes de mim dentro do envoltório de Tempolento, começaram a agir de forma confusa e não conseguiram se virar sozinhos. Pois bem, pois bem — acrescentou —, estava apenas tentando cumprir minha função.
E muito gradualmente, muito, muito lentamente, as imagens começaram a se esvair, desmanchando-se suavemente. Então, subitamente, pararam de se esvair.
— Havia também a questão da vingança, é claro — disse Hactar, com uma veemência nova em sua voz. — Lembrem-se de que fui pulverizado, depois deixado avariado e semi-impotente durante bilhões de anos. Honestamente, eu preferia aniquilar o Universo. Vocês se sentiriam da mesma forma, acreditem.
Parou novamente, enquanto turbilhões percorriam a Nuvem.
— Mas sobretudo — disse, no tom de voz melancólico que vinha usando — estava tentando cumprir minha função. Pois bem.
Trillian disse:
— Você não acha ruim ter fracassado?
— Fracassei? — sussurrou Hactar. A imagem do computador no divã de psiquiatra começou lentamente a sumir. — Pois bem, pois bem — prosseguiu a voz, sumindo aos poucos. — Não, agora o fracasso já não me preocupa.
— Você sabe o que teremos que fazer, não é? — disse Trillian, com a voz seca de um profissional.
— Sim — disse Hactar —, vão ter que me dispersar. Vão destruir minha consciência. Prossigam, por favor – depois de tantas eras, esquecimento é tudo o que desejo. Se ainda não cumpri minha função, agora é tarde. Obrigado e boa noite.
O sofá desapareceu. A mesa de chá desapareceu.
O divã e o computador desapareceram, assim como as paredes. Arthur e Trillian retornaram à Coração de Ouro.
— Bem, acho que é isso aí mesmo — disse Arthur.
As labaredas subiram à sua frente e pouco depois se apagaram, deixando-o apenas com a pilha das Cinzas, onde pouco antes havia o Pilar de Madeira da Natureza e Espiritualidade.
Ele as recolheu da cavidade da Churrasqueira Gama da Coração de Ouro, colocou-as em um saquinho de papel e retornou à ponte.
— Acho que deveríamos levá-las de volta — disse. — Sinto isso muito fortemente.
Ele já tinha discutido com Slartibartfast sobre o assunto, e o velho acabou se enchendo e foi embora. Havia retornado para sua própria espaçonave, a Bistromática, brigou seriamente com o garçom e desapareceu em uma ideia completamente subjetiva a respeito do espaço.
A discussão havia surgido porque Arthur queria levar as Cinzas de volta ao Lord’s Cricket Ground, para o mesmo momento em que haviam sido retiradas de lá, o que envolvia viajar no tempo um dia para trás ou algo próximo a isso, e era exatamente esse tipo de vandalismo gratuito e irresponsável que a Campanha por um Tempo Real estava tentando fazer cessar.
— Sim — havia dito Arthur —, mas tente explicar isso ao Marylebone Cricket Club. — E não quis ouvir nenhum outro argumento contra a sua ideia. — Eu acho — disse novamente, e parou. O motivo pelo qual havia começado a falar de novo era porque ninguém havia prestado atenção na primeira vez, e o motivo pelo qual parou foi porque estava bastante óbvio que não iriam prestar atenção de novo.
Ford, Zaphod e Trillian estavam olhando para as telas de monitoração atentamente, enquanto Hactar estava sendo dispersado sob a pressão gerada por um campo vibracional que a Coração de Ouro estava gerando dentro dele.
— O que ele disse? — perguntou Ford.
— Acho que ouvi ele dizer “O que está feito, está feito... Cumpri minha função...” — disse Trillian, meio espantada.
— Acho que deveríamos levar estas Cinzas de volta — disse Arthur, segurando o saquinho que continha as Cinzas. — Sinto isso muito fortemente.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!