17 de dezembro de 2017

Capítulo 31

Se você pegasse dois David Bowies e colocasse um David Bowie em cima do outro, depois colocasse um David Bowie na extremidade de cada braço do David Bowie que estava por cima e daí cobrisse tudo com um roupão de praia sujo, você teria algo que não seria exatamente parecido com John Watson, mas aqueles que o conheciam na certa o julgariam assombrosamente familiar.
Ele era alto e desengonçado.
Quando ficava sentado na sua espreguiçadeira contemplando o Pacífico, não mais com nenhum tipo de desconfiança tresloucada, e sim com uma profunda e tranquila tristeza, era um pouco difícil dizer exatamente onde terminava a espreguiçadeira e onde começava o homem, e você hesitaria em colocar a mão, digamos, no seu antebraço, temendo que toda a estrutura se fechasse com um estalo e arrancasse o seu dedão.
Mas o seu sorriso, quando se virava para você, era extraordinário. Parecia ser composto de todas as piores coisas que a vida pode fazer com uma pessoa, mas que, quando ele reagrupava rapidamente naquela ordem específica em seu rosto, fazia com que você sentisse que “ah, bom, então está tudo bem”.
Quando ele falava, você ficava contente por ele usar o sorriso que o fazia sentir-se assim com bastante frequência.
— Ah, sim — disse ele —, eles vêm me ver. Eles sentam aí mesmo. Aí onde vocês estão sentados.
Estava falando sobre os anjos com barbas douradas, asas verdes e sandálias ortopédicas do Dr. Scholl.
— Comem nachos, porque dizem que lá, de onde eles vêm, não tem nada parecido. São viciadões em cocaína e maravilhosos, no geral.
— São mesmo? — perguntou Arthur. — É mesmo? Então... quando é que isso acontece? Quando eles vêm?
Arthur também voltou os seus olhos para o Pacífico. Havia pequenos ituituís correndo ao longo do litoral e, aparentemente, todos com o mesmo problema: precisavam encontrar comida na areia logo após a onda ter retornado para o mar, mas não suportavam ter de molhar os pezinhos. Para contornar o problema, corriam de um jeito esquisito, como se tivessem sido criados por alguém muito esperto na Suíça.
Fenchurch estava sentada no chão, desenhando umas figuras na areia, vagarosamente.
— Geralmente nos fins de semana — respondeu Wonko, o São -, em pequenas motonetas. São ótimas máquinas. — Ele sorriu.
— Entendi — comentou Arthur. — Entendi.
Uma tosse de Fenchurch chamou a sua atenção e ele olhou para ela. Havia rascunhado uma imagem na areia, representando os dois nas nuvens. Por um momento, ele achou que ela estava tentando deixá-lo excitado, depois percebeu que aquilo era uma reprimenda. “Quem somos nós”, ela estava querendo dizer, “para dizer que ele é louco?”
A casa dele era certamente peculiar, e, como essa foi a primeira coisa que Fenchurch e Arthur encontraram, ajudaria se vocês soubessem como ela era.
Era assim:
Do avesso.
Do avesso mesmo, a ponto de terem de estacionar no carpete
Ao longo do que normalmente chamaríamos de parede externa, muito bem decorada em um elegante tom de rosa havia estantes, duas daquelas estranhas mesinhas de três pés, com tampo semicircular, que dão a impressão de que alguém acabou de derrubar a parede no meio delas, e quadros que foram claramente produzidos para relaxar.
O que ficava realmente estranho era o teto.
Dobrava-se sobre si mesmo, como algo que Maurits C. Escher (caso ele fosse chegado a madrugadas
de farra na cidade, coisa que esta narrativa não visa de modo algum sugerir, embora seja difícil, ao olhar para os seus quadros, especialmente aquele dos degraus, não pensar a respeito) poderia ter sonhado ao chegar de uma delas, pois os pequenos candelabros que deveriam estar pendurados do lado de dentro estavam do lado de fora, apontando para cima.
Confuso.
A placa na porta da frente dizia “Entre Fora” e assim, meio apreensivos, eles fizeram.
Dentro, é claro, era onde ficava Fora. Alvenaria rústica, pintura bem-feita, calhas em ordem, um pequeno jardim, algumas árvores, alguns quartos dando para fora.
E as paredes internas estendiam-se para baixo, dobrando-se curiosamente e alargavam-se no fim como se em uma ilusão de ótica que teria feito Maurits C. Escher franzir a testa e se perguntar como havia sido criada envolvesse o próprio oceano Pacífico.
— Oi — disse John Watson, Wonko, o São.
Ótimo, pensaram consigo mesmos, “Oi” é algo com o qual podemos lidar.
— Oi — responderam eles e, surpreendentemente, todos sorriram.
Durante um bom tempo ele pareceu curiosamente relutante em falar sobre os golfinhos, aparentando estar estranhamente distraído e dizendo “Esqueci...” sempre que eles tocavam no assunto, após ter mostrado aos dois, não sem um certo orgulho, as excentricidades da sua casa.
— Isso me dá prazer — disse ele — de uma maneira bem peculiar e não causa nenhum mal que um bom oculista não possa corrigir.
Gostaram dele. Tinha um jeitão aberto, cativante e parecia ser capaz de debochar de si mesmo antes que outra pessoa o fizesse.
— A sua mulher — disse Arthur, olhando à sua volta — mencionou uns palitos de dente. — Disse isso com um olhar acossado, como se estivesse achando que a qualquer momento ela sairia de trás de uma porta para mencioná-los novamente.
Wonko, o São, deu uma gargalhada. Era uma risada leve e franca que, aparentemente, ele já usara muitas vezes e que o deixava muito satisfeito.
— Ah, sim — disse ele -, isso tem a ver com o dia em que finalmente percebi que o mundo tinha enlouquecido completamente e decidi construir o Asilo e colocá-lo lá dentro, coitadinho, torcendo para que ficasse melhor logo.
Foi nessa hora que Arthur voltou a ficar um pouquinho nervoso.
— Aqui — explicou Wonko, o São — estamos fora do Asilo. — Apontou novamente para a alvenaria rústica, a pintura, as calhas. — Atravesse aquela porta — ele apontou para a primeira porta pela qual haviam entrado — e você entrará no Asilo. Tentei decorá-lo direitinho, para deixar os internos contentes, mas não é possível ir muito além. Nunca entro lá. Se por acaso me sinto tentado, o que raramente acontece atualmente, basta dar uma olhadinha na placa pendurada na porta que dou no pé imediatamente.
— Aquela ali? — perguntou Fenchurch apontando, um tanto confusa, para uma placa azul com algumas instruções escritas.
— Exatamente. Foram aquelas palavras que me transformaram no eremita que hoje em dia eu sou. Aconteceu de repente. Assim que eu li, soube o que devia fazer.
Estava escrito na placa:
Segure o palito no centro. Umedeça a extremidade pontiaguda na boca. Insira entre os dentes, a extremidade afiada próxima à gengiva. Movimente suavemente de dentro para fora.
— Cheguei à conclusão — disse Wonko, o São — de que uma civilização que havia perdido a cabeça a ponto de sentir a necessidade de incluir instruções de uso detalhadas em uma caixinha de palitos de dente não era mais uma civilização onde eu pudesse viver e continuar são.
Contemplou o Pacífico novamente, como se o desafiasse a se enfurecer e dar uma bronca nele, mas ele continuou calmo, brincando com os ituituís.
— E, caso tenha passado pela cabeça de vocês duvidar, como posso ver que seria possível, sou completamente são. E é por isso que me chamo de Wonko, o São, apenas para que as pessoas fiquem tranquilas quanto a isso. Minha mãe me chamava de Wonko quando eu era criança, todo desajeitado, derrubando as coisas, e São é o que sou e como — acrescentou ele, com um daqueles sorrisos que fazem você pensar “ah, bom, então está tudo bem” — pretendo continuar. Vamos para a praia ver o que temos para conversar?
Foram até a praia e foi lá que ele recomeçou a falar sobre o anjos com barbas douradas, asas verdes e sandálias do Dr. Scholl.
— Sobre os golfinhos... — disse Fenchurch, delicadamente, esperançosamente.
— Posso mostrar as sandálias — disse Wonko, o São.
— O senhor por acaso sabe...
— Gostaria que eu lhes mostrasse — perguntou Wonko, o São — as sandálias? Ficaram comigo. Vou buscar. Foram fabricadas pela Dr. Scholl e os anjos dizem que elas servem direitinho para o terreno no qual têm de trabalhar. Dizem que trabalham em uma barraca perto da mensagem. Quando eu digo que não entendo o que querem dizer com isso, eles respondem “não, você não sabe” e acham graça. Bom, vou buscar assim mesmo.
Quando ele voltou para dentro, ou para fora, dependendo do seu ponto de vista, Arthur e Fenchurch entreolharam-se de uma maneira intrigada e levemente desesperada, depois deram de ombros e voltaram a rabiscar desenhos na areia.
— Como estão os seus pés hoje? — perguntou Arthur, baixinho.
— Bem. Até que na areia não é tão estranho. Nem na água. A água toca neles perfeitamente. Só continuo achando que este não é o nosso mundo.
Ela deu de ombros.
— O que você acha que ele quis dizer com a mensagem? — perguntou ela.
— Não sei — respondeu Arthur, embora a lembrança de um sujeito chamado Prak, que ria da cara dele sem parar, insistisse em perturbá-lo.
Quando Wonko voltou, estava carregando algo que surpreendeu Arthur. Não eram as sandálias, elas eram sandálias absolutamente comuns, com o característico solado de ladeira.
— Achei que vocês gostariam de ver o que os anjos calçam. Só por curiosidade mesmo. Não estou tentando provar nada, a propósito. Sou um cientista e sei muito bem o que pode ser chamado de prova. Mas o motivo pelo qual desejo ser chamado pelo meu apelido de infância é exatamente esse: me lembrar de que um cientista deve, acima de tudo, ser como uma criança.
Se ele vê algo, deve dizer o que está vendo, independentemente daquilo ser o que ele imaginava ver ou não. Ver primeiro, testar depois. Mas sempre ver primeiro. Senão, você só vai ver o que você espera ver. A maioria dos cientistas se esquece disso. Mais tarde, vou mostrar uma coisa a vocês para demonstrar o que estou falando. Então, o outro motivo pelo qual gosto de ser chamado de Wonko, o São, é para que as pessoas pensem que sou bobo. Isso me permite dizer o que eu vejo quando eu vejo. Não dá para ser um cientista se você for ficar se preocupando se as pessoas vão ou não te achar bobo. Enfim, imaginei que vocês fossem gostar de ver isso também.
Era essa a coisa que surpreendeu Arthur quando ele a viu nas mãos de Wonko, pois era um aquário com um incrível vidro cinza-prateado, aparentemente idêntico ao que tinha em seu quarto.
Durante uns trinta segundos, Arthur ficou tentando, sem êxito, perguntar “Onde foi que você arrumou isso?” repentinamente e com a voz ofegante.
Finalmente chegara a hora, mas ele a perdeu por um milésimo de segundo.
— Onde foi que você arrumou isso? — perguntou Fenchurch repentinamente e com a voz ofegante.
Arthur olhou para Fenchurch e, repentinamente e com a voz ofegante, perguntou:
— Como assim? Você já viu um desses antes?
— Já — respondeu ela -, eu tenho um desses. Ou melhor, tinha. Russell roubou, para guardar bolas de golfe. Não sei de onde ele veio, só sei que fiquei pau da vida com Russell. Pror que, você tem um também?
— Tenho, foi...
Perceberam então que Wonko, o São, estava olhando repentinamente de um para o outro, acompanhando o diálogo e tentando encaixar uma voz ofegante no meio.
— Vocês também têm um? — perguntou aos dois.
— Sim. — Responderam juntos.
Ele olhou longa e calmamente para cada um e depois levantou o aquário, para que a luz do sol californiano o atingisse em cheio.
O aquário parecia praticamente cantar sob o sol, repicar com a intensidade da luz que ele emanava e
refletir uma miríade de arco-íris sombriamente brilhantes ao redor da areia e sobre eles. Ele o girou e girou novamente. Puderam ver claramente as palavras delicadamente gravadas sobre o vidro: “Até Mais, e Obrigado pelos Peixes”.
— Vocês sabem o que é isso? — perguntou Wonko, baixinho.
Ambos balançaram a cabeça devagar, em um gesto negativo, admirados, praticamente hipnotizados pelo brilho das sombras cintilantes no vidro cinza.
— Isso é um presente de despedida dos golfinhos — respondeu Wonko com uma voz grave e baixa -, os golfinhos que amei e estudei, e nadei ao lado deles, e alimentei com peixes, e até mesmo tentei aprender a sua língua, uma tarefa que eles pareciam tornar inacreditavelmente impossível, levando-se em consideração que agora sei que eles eram absolutamente capazes de se comunicar na nossa língua, se quisessem.
Ele balançou a cabeça com um sorriso lento e depois olhou novamente para Fenchurch e então para Arthur.
— Você já... o que você fez com o seu? Desculpe a pergunta — falou para Arthur.
— Bom, eu coloquei um peixe nele — respondeu Arthur, um pouco envergonhado. — Por acaso eu tinha esse peixe, e não sabia direito o que fazer com ele, e aí apareceu o aquário...
— Arthur foi diminuindo a voz, aos poucos.
— Não fez mais nada com ele? Não — ele próprio respondeu -, Se tivesse feito, saberia. — Wonko balançou a cabeça novamente. — Minha mulher guardava gérmen de trigo no nosso — continuou ele, com uma voz mais vivida -, até que, na noite passada...
— O que aconteceu noite passada? — perguntou Arthur lentamente, sussurrando.
— Acabou o nosso gérmen de trigo — disse Wonko, finalmente. — Minha mulher — acrescentou ele — saiu para comprar mais. — Ele pareceu perdido em seus próprios pensamentos por alguns segundos.
— O que aconteceu então? — quis saber Fenchurch no mesmo tom soprado.
— Eu o lavei — disse Wonko. — Lavei com muito, mas muito muito cuidado, removendo até o último grãozinho de gérmen de trigo, depois enxuguei com calma, com um pano desses que não soltam fiapos, bem devagar, com bastante cuidado, girando aos poucos. E aí eu o encostei no ouvido. Vocês já... já encostaram o de vocês no ouvido?
Eles balançaram a cabeça, em um gesto negativo lento e silencioso.
— Talvez — disse ele -, vocês devessem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)