14 de dezembro de 2017

Capítulo 31

Num profundo poço de escuridão jazia um robô. Ele tinha permanecido em silêncio em sua escuridão metálica durante um bom tempo. Estava frio e úmido, mas, sendo um robô, supostamente ele não deveria notar aquelas coisas.
Contudo, graças a uma enorme força de vontade, ele conseguia notá-las. Seu cérebro havia sido acessado pelo núcleo central de inteligência do Computador de Guerra de Krikkit. Ele não estava achando aquela experiência divertida, e o núcleo central de inteligência do Computador de Guerra de Krikkit também não.
Os robôs de Krikkit que haviam resgatado aquela patética criatura dos pântanos de Squornshellous Zeta haviam reconhecido quase instantaneamente sua gigantesca inteligência, bem como o uso que poderiam fazer dela.
Não tinham contado com os distúrbios de personalidade inerentes que o frio, a escuridão, a umidade, a falta de espaço e a solidão não contribuíam em nada para reduzir. Ele não estava nada feliz com suas tarefas.
Além de qualquer outra coisa, a mera coordenação de toda a estratégia militar de um planeta inteiro ocupava apenas uma pequena parte de sua mente formidável e o restante dela estava se aborrecendo muito. Tendo resolvido todos os principais problemas matemáticos, físicos, químicos, biológicos, sociológicos, filosóficos, etimológicos, meteorológicos e psicológicos do Universo — exceto o seu próprio —, três vezes seguidas, estava achando realmente difícil encontrar algo para fazer, então tinha resolvido dedicar-se a compor cantigas curtas e melancólicas atonais, ou melhor, sem melodia alguma. A última delas era uma canção de ninar. Marvin entoou, sem tom:

“Agora o mundo foi dormir,
A escuridão em mim não vou sentir,
Em infravermelho posso ver,
Como odeio a noite.”

Fez uma pausa para reunir forças artísticas e emocionais a fim de compor o próximo verso:

“Eu me deito pra sonhar,
Carneiros elétricos vou contar,
Doces sonhos vão se danar,
Como odeio a noite.”

— Marvin! — sibilou uma voz.
Sua cabeça levantou-se subitamente, quase arrancando a intrincada rede de eletrodos que o conectavam à central do Computador de Guerra de Krikkit. Uma portinhola de inspeção havia sido aberta e uma das duas incontroláveis cabeças estava olhando para dentro, enquanto a outra se sacudia nervosamente virando o tempo todo de um lado para o outro.
— Ah, é você — murmurou o robô. — Eu devia ter adivinhado.
— E aí, garoto? — disse Zaphod, surpreso. — Era você quem estava cantando agora há pouco?
— Estou — reconheceu Marvin, amargurado — em condições particularmente cintilantes neste momento.
Zaphod enfiou a cabeça através da portinhola e olhou em volta.
— Você está sozinho? — perguntou.
— Sim — disse Marvin. — Extenuado, me encontro aqui sentado, tendo a dor e a miséria como únicas companheiras. Além da vasta inteligência, é claro. E da tristeza infinita. E...
— Sei — disse Zaphod. — Ei, qual a sua conexão com tudo isso?
— Isso aqui — disse Marvin, indicando com seu braço menos danificado todos os eletrodos que o conectavam ao computador de Krikkit.
— Então — disse Zaphod meio sem jeito —, acho que você salvou minha vida. Duas vezes.
— Três vezes — respondeu Marvin.
A cabeça de Zaphod se voltou (a outra estava olhando atentamente em uma direção completamente errada) exatamente a tempo de ver o letal robô assassino bem atrás dele ter uma convulsão e começar a soltar fumaça. Ele cambaleou para trás e deixou-se cair contra uma parede. Escorregou até o chão. Caiu de lado, jogou a cabeça para trás e começou a soluçar inconsolavelmente.
Zaphod olhou novamente para Marvin.
— Você deve ter uma perspectiva incrível sobre a vida.
— Nem me pergunte — respondeu Marvin.
— Não vou perguntar — disse Zaphod e não perguntou. — Cara, você está fazendo um trabalho incrível.
— O que significa, suponho — disse Marvin, usando apenas uma grilionésima trilionésima bilionésima milionésima centésima décima parte de seus poderes mentais para fazer essa inferência lógica em particular —, que você não irá me libertar nem nada.
— Garoto, você sabe que eu adoraria fazer isto.
— Mas não vai fazê-lo.
— Não.
— Entendo.
— Você está trabalhando muito bem.
— Sim — disse Marvin. — Por que parar agora, justamente quando estou odiando isso?
— Preciso encontrar Trillian e o resto do pessoal. Ei, você tem alguma ideia de onde estão? Digo, tenho um planeta inteiro para vasculhar. Pode levar um tempo.
— Eles estão bem próximos — disse Marvin, pesarosamente. — Pode monitorá-los daqui, se quiser.
— Acho melhor ir até eles — afirmou Zaphod. — Ahn, bem talvez eu precise de alguma ajuda, certo?
— Talvez — disse Marvin, com uma autoridade inesperada em sua voz lúgubre — fosse melhor você monitorá-los daqui. Aquela jovem — acrescentou, inesperadamente — é uma das menos ignorantemente aparvalhadas formas de vida orgânica que eu já tive a profunda falta de prazer de não ser capaz de evitar encontrar.
Zaphod levou alguns instantes para encontrar um caminho em meio a esse estonteante labirinto de negativas e saiu do outro lado bem surpreso.
— Trillian? — disse. — É só uma garota. Bonitinha, sim, mas temperamental. Você sabe como é, essa coisa de mulheres. Ou talvez não saiba. Acho que não. Se você sabe, eu não quero saber. Vamos lá, faça a conexão.
— ... totalmente manipulado.
— O quê? — disse Zaphod.
Era Trillian quem estava falando. Ele se virou.
A parede contra a qual o robô de Krikkit estava soluçando havia se iluminado para mostrar uma cena que estava se desenrolando em alguma outra parte desconhecida das Zonas de Guerra dos Robôs de Krikkit. Parecia ser uma câmara de conselho ou algo assim — Zaphod não podia ver muito bem por conta do robô jogado contra a tela.
Zaphod tentou mover o robô, mas este estava combalido em sua dor e tentou mordê-lo, então Zaphod achou melhor olhar em volta da melhor forma possível.
— Pense nisto — disse a voz de Trillian —, toda a história de vocês é apenas uma série de eventos altamente improváveis. E eu conheço um evento improvável quando vejo um. Seu completo isolamento da Galáxia já era bem estranho, para começar. Bem no extremo de tudo e com uma Nuvem de Poeira cercando vocês. Só pode ser armação. Claramente.
Zaphod estava extremamente frustrado por não poder ver a tela. A cabeça do robô o impedia de ver as pessoas com quem Trillian estava falando, o bastão de batalha multifuncional encobria o fundo da imagem e o ombro do braço que o robô havia pressionado contra a sua testa, em um gesto trágico, estava tapando Trillian.
— Então — prosseguiu Trillian — essa nave se espatifou no planeta de vocês. Isso é totalmente improvável, não? Vocês têm alguma ideia da improbabilidade de uma nave vagando por aí acidentalmente cruzar a órbita de um planeta?
— Ei! — disse Zaphod. — Ela não tem o menor Zárquon de ideia do que está falando. Eu vi a nave. É falsa. Não tem como.
— Achei que fosse — disse Marvin, de sua prisão atrás de Zaphod.
— Ah, é? — disse Zaphod. — É fácil dizer isso, agora que eu lhe contei. De qualquer forma, não estou vendo o que uma coisa tem a ver com a outra.
— E sobretudo — continuou Trillian — a improbabilidade de interceptar a órbita do único planeta em toda a Galáxia, ou talvez em todo o Universo, que ficaria totalmente traumatizado por vê-la. Vocês não sabem calcular a improbabilidade? Eu também não, e isso só mostra o quão elevada ela é. Mais uma vez é armação. Não ficaria nada surpresa se a nave fosse falsa.
Zaphod conseguiu mover o bastão de batalha do robô. Atrás dele, na tela, estavam Ford, Arthur e Slartibartfast, que pareciam perplexos e atônitos em meio aquilo tudo.
— Ei, olha só — disse Zaphod, animado. — Os caras estão se saindo bem! Ra ra ra! Vamos lá, peguem eles!
— E o que vocês têm a dizer — continuou Trillian — sobre toda essa tecnologia que vocês subitamente conseguiram desenvolver por contra própria quase que da noite para o dia? A maioria das pessoas levaria milhares de anos para fazer tudo isso. Alguém estava passando para vocês tudo de que precisavam saber, alguém estava mantendo vocês por dentro. Sim, eu sei — ela acrescentou em resposta a uma interrupção que não podia ser vista — entendo que vocês não tenham percebido o que estava acontecendo. É exatamente sobre isso que estou falando. Vocês nunca perceberam nada. Como essa bomba de supernova.
— Como você sabe que ela existe? — disse uma voz que não podia ser vista.
— Apenas sei — disse Trillian. — Vocês realmente esperam que eu acredite que vocês são espertos o suficiente para inventar algo tão brilhante e são, ao mesmo tempo, burros demais para entender que ela os destruiria também? Isso não é apenas burro, é extraordinariamente obtuso!
— Ei, que história é essa de bomba? — perguntou Zaphod, preocupado, para Marvin.
— A bomba de supernova? — respondeu Marvin. — É uma bomba muito, muito pequena.
— É?
— Que iria destruir o Universo inteiro — completou Marvin. — Uma boa ideia, a meu ver. Mas não vão conseguir fazê-la funcionar.
— Por que não, se é tão brilhante?
— A bomba é brilhante — disse Marvin —, eles não. Chegaram até o ponto de projetá-la antes de serem trancados no envoltório. Levaram os últimos cinco anos construindo-a. Acham que chegaram lá, mas erraram. São tão burros quanto qualquer outra forma de vida orgânica. Odeio todas elas.
Trillian prosseguia.
Zaphod tentou puxar o robô pelas pernas, mas ele o chutou e rosnou para ele, então se lançou em um novo acesso de choro. Então, subitamente, ele se jogou no chão e continuou a expressar seus sentimentos no chão, fora do caminho.
Trillian estava de pé, sozinha, no meio de uma câmara, cansada mas com olhos vigorosamente chamejantes.
Perfilados à sua frente estavam os pálidos e enrugados Mestres Anciões de Krikkit, imóveis atrás de sua longa mesa de controle curvada, olhando para ela com uma mistura de medo e ódio.
Na frente deles, a meia distância entre a mesa de controle e o meio da câmara, onde Trillian estava de pé, como em um julgamento, havia um pilar branco e fino medindo cerca de um metro e vinte de altura. No alto do pilar, um pequeno globo branco, com uns dez centímetros de diâmetro.
Ao lado dele havia um robô de Krikkit com seu bastão de batalha multifuncional.
— Na verdade — explicou Trillian — vocês são tão idiotamente burros (ela estava suando, e Zaphod achava que aquilo era algo pouco atraente para ela estar fazendo naquele momento), são todos tão idiotamente burros, que eu duvido, realmente duvido, que tenham sido capazes de construir a bomba da forma certa sem a ajuda de Hactar nestes últimos cinco anos.
— Quem é esse tal de Hactar? — perguntou Zaphod.
Se Marvin respondeu, Zaphod não ouviu. Toda a sua atenção estava centrada na tela.
Um dos Anciões de Krikkit fez um pequeno gesto com as mãos na direção do robô de Krikkit. O robô levantou o bastão.
— Não posso fazer nada — disse Marvin. — Ele está em um circuito independente dos outros.
— Esperem — disse Trillian.
O Ancião fez outro pequeno gesto. O robô parou. Trillian subitamente duvidou seriamente de seu raciocínio.
— Como você sabe de tudo isso? — perguntou Zaphod para Marvin.
— Registros do computador — respondeu Marvin. — Eu tenho acesso.
— Vocês são muito diferentes, não? — disse Trillian para os Mestres Anciões — Muito diferentes de seus companheiros de mundo lá no chão. Vocês passaram a vida aqui, sem a proteção da atmosfera. Têm estado muito vulneráveis. O resto de sua raça está assustada, sabem, eles não querem que vocês façam isso. Vocês estão distantes de tudo. Por que não vão falar com os outros?
O Ancião perdeu a paciência. Fez um gesto para o robô que era exatamente o oposto do gesto anterior.
O robô moveu seu bastão de batalha. Acertou o pequeno globo branco.
O pequeno globo branco era a bomba de supernova.
Era uma bomba muito, muito pequena que fora projetada para destruir todo o Universo.
A bomba de supernova voou pelo ar. Bateu na parede no fundo da câmara do conselho e fez um bom buraco nela.
— Mas como ela sabe disso tudo? — disse Zaphod.
Marvin manteve-se em um silêncio sombrio.
— Provavelmente está apenas blefando — disse Zaphod. — Pobre garota, eu nunca deveria tê-la deixado sozinha.

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