7 de dezembro de 2017

Capítulo 31

Alguns dias após terem aportado nessa terra montanhosa, atingiram um litoral que se atravessava diagonalmente diante deles do sudoeste para o nordeste, um litoral de grandiosidade monumental: majestosas ravinas profundas, píncaros de gelo que se elevavam — fiordes.
Durante os dois dias que se seguiram, eles escalaram e subiram pelas pedras e glaciares, assombrados com a beleza.
— Arthur! — gritou Ford de repente.
Arthur olhou para o lugar de onde vinha a voz de Ford, carregada pelo vento.
Ford tinha ido examinar um glaciar, e Arthur o encontrou agachado diante da sólida parede de gelo azul. Estava tenso de excitação — seus olhos dardejavam à procura dos olhos de Arthur.
— Olhe! — disse. — Olhe!
Arthur olhou. Viu a parede sólida de gelo azul.
— É — disse —, é um glaciar. Eu já tinha visto.
— Não — disse Ford —, você olhou, não viu. Olhe.
Ford apontava para o fundo, para o coração do gelo. Arthur deu uma espiada — não viu nada além de sombras nebulosas.
— Afaste-se um pouco — insistiu Ford —, olhe de novo.
Arthur afastou-se e olhou de novo.
— Não — disse, balançando os ombros. — O que eu tenho que procurar?
E de repente ele viu.
— Você está vendo?
Ele estava.
Sua boca começou a falar, mas seu cérebro decidiu que ela não tinha nada a dizer e a fechou novamente. Seu cérebro começou então a enfrentar o problema do que seus olhos diziam que estavam olhando, mas ao fazê-lo relaxou o controle sobre a boca que prontamente caiu aberta. Levantando mais uma vez o maxilar, o cérebro perdeu o controle da mão esquerda que se agitava sem sentido. Por um ou dois segundos seu cérebro tentou segurar a mão esquerda sem soltar a boca, tentando simultaneamente pensar sobre aquilo que estava enterrado no gelo, e foi provavelmente por isso que as pernas se foram e Arthur caiu serenamente no chão.
O que estava causando todo esse transtorno neural era uma rede de sombras no gelo, cerca de quarenta e cinco centímetros abaixo da superfície. Olhadas do ângulo correto, elas formavam as formas sólidas das letras de um alfabeto alienígena, cada uma com um metro de altura; para aqueles que, como Arthur, não soubesse ler magratheano havia por sobre as letras o desenho do rosto de um homem suspenso no gelo.
Era um rosto velho, magro e distinto, sério mas não carrancudo.
Era o rosto do homem que ganhara um prêmio pelo projeto do litoral em que agora eles sabiam estar pisando.

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