17 de dezembro de 2017

Capítulo 30

Alugaram um carro em Los Angeles, em um desses lugares que alugam carros que as outras pessoas jogaram no lixo.
— É um pouquinho complicado conseguir que ele faça uma curva — disse o cara de óculos escuros, entregando a chave do carro para eles. — Às vezes, é mais fácil descer e pegar um carro que esteja indo na direção que vocês querem.
Pernoitaram em um hotel em Sunset Boulevard, seguindo o conselho de alguém que havia dito que eles iam gostar de se sentirem intrigados nele.
— Todo mundo lá ou é inglês, ou esquisito, ou os dois. E eles têm uma piscina onde você pode assistir a roqueiros ingleses lendo Linguagem, verdade e lógica para os fotógrafos.
E era verdade. Lá estava um deles e ele estava fazendo exatamente isso.
O manobrista olhou com desdém para o carro deles, o que não era problema, já que eles faziam o mesmo.
Mais tarde, naquela noite, dirigiram por Hollywood Hill, passando por Mulholland Drive e pararam primeiro para contemplar o deslumbrante mar de luzes flutuantes que é Los Angeles, e, mais tarde, pararam novamente para contemplar o deslumbrante mar de luzes flutuantes que é o vale de São Fernando. Concordaram que o deslumbramento cessou imediatamente no fundo dos seus olhos, não atingindo nenhuma outra parte dos seus corpos, e foram embora estranhamente insatisfeitos com o espetáculo. Em termos de mares espetaculares de luz até que aquilo era legal, mas a luz existe na iluminar alguma coisa e, tendo passado de carro pelas coisas que aquele espetacular mar de luz estava iluminando especificamente, eles não acharam nada demais.
Dormiram tarde, descansaram pouco e acordaram ao meio-dia, justo quando estava boçalmente quente.
Dirigiram pela auto-estrada até Santa Mônica, para verem o oceano Pacífico pela primeira vez, oceano esse que Wonko, o São, passava todos os seus dias, e uma boa parte das suas noites, contemplando.
— Alguém uma vez me contou — disse Fenchurch — que ouviu duas velhinhas na praia fazendo a mesma coisa que estamos fazendo, olhando para o oceano Pacífico pela primeira vez na vida. E, segundo contaram, após uma longa pausa, uma delas disse para a outra: “Sabe, não é tão grande quanto eu esperava.”
O humor deles foi melhorando enquanto passeavam pela praia em Malibu e viam todos aqueles milionários em seus barracos de praia chiques, cada um vigiando cuidadosamente o outro para verificar o quão ricos estavam ficando.
O humor melhorou ainda mais quando o sol começou a descer na parte ocidental do céu.
Quando voltaram para o seu carro chinfrim e dirigiram em direção a um pôr-do-sol diante do qual ninguém com um mínimo de sensibilidade sonha em construir uma cidade como Los Angeles, estavam se sentindo do surpreendente e irracionalmente felizes e nem se incomodavam que o rádio daquele carro
velho só pegasse duas estações, ao mesmo tempo ainda por cima. E daí? Ambas estavam tocando o bom e velho rock'n'roll.
— Tenho certeza de que ele vai poder nos ajudar — disse Fenchurch, convicta. — Tenho certeza. Como é mesmo o nome dele aquele pelo qual gosta de ser chamado?
— Wonko, o São.
— Tenho certeza de que ele vai poder nos ajudar.
Arthur se perguntava se Wonko ajudaria mesmo e esperava que sim, e torcia para que o que Fenchurch perdera pudesse ser encontrado aqui, nesta Terra, fosse lá o que esta Terra fosse.
Ele esperava, assim como tinha esperado ininterrupta e fervorosamente desde o dia em que conversaram às margens do Serpentine, que não lhe obrigassem a lembrar de coisas que ele firme e deliberadamente enterrara nos recantos mais remotos da sua memória, onde esperava que as lembranças parassem de implicar com ele.
Pararam em Santa Bárbara em um restaurante de frutos do mar, instalado no que parecia ser um armazém reformado.
Fenchurch pediu um salmonete e disse que estava uma delícia.
Arthur pediu um filé de peixe-espada e disse que estava irritado.
Puxou o braço de uma garçonete que ia passando e a repreendeu:
— Por que diabos esse peixe está tão gostoso? — perguntou ele, irado.
— Por favor, desculpe o meu amigo — disse Fenchurch para a garçonete assustada. — Acho que ele está tendo um grande dia.

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