14 de dezembro de 2017

Capítulo 30

Zaphod Beeblebrox engatinhava bravamente ao longo de um túnel, em seu melhor estilo heroico. Ele estava muito confuso, mas continuava engatinhando obstinadamente, mesmo assim, simplesmente porque era heroico.
Estava muito confuso por algo que acabara de ver, mas nem de longe tão confuso quanto iria ficar por algo que ele estava prestes a ouvir, então é melhor explicar logo onde exatamente ele estava.
Ele estava nas Zonas de Guerra dos Robôs, muitos quilômetros acima da superfície do planeta Krikkit.
Lá a atmosfera era rarefeita e relativamente desprotegida de qualquer tipo de raio ou qualquer outra coisa que o espaço resolvesse lançar em sua direção. Tinha estacionado a nave Coração de Ouro entre as enormes e gigantescas naves amontoadas que enchiam o céu sobre o planeta Krikkit e depois entrara em algo que parecia ser a maior e mais importante das construções do céu, armado apenas com sua Zapogun e algo para suas dores de cabeça.
Foi dar em um longo, largo e mal iluminado corredor no qual pôde se esconder até decidir o que fazer em seguida. Escondeu-se ali porque, de quando em quando, um dos robôs de Krikkit passava por ali e, apesar de ter levado, até aquele momento, uma vida de sonho entre os robôs, ainda assim havia sido uma vida muito dolorosa e ele não tinha a menor vontade de levar ao extremo algo que estava apenas semidisposto a chamar de “grande sorte”.
Havia se escondido, em certo momento, em um quarto que levava até o corredor e que ele havia descoberto ser uma enorme e novamente mal iluminada câmara.
Na verdade tratava-se de um museu com uma única peça em exibição — os destroços de uma espaçonave. Estava bastante retorcida e queimada, mas, agora que ele havia aprendido um pouco da História Galáctica que tinha deixado de aprender durante suas tentativas fracassadas de fazer sexo com a garota no cibercubículo ao lado do seu na escola, formulou a suposição bastante inteligente de que aqueles eram os destroços da nave que havia atravessado a Nuvem de Poeira bilhões de anos atrás e iniciado toda a confusão.
Contudo — e é aí que ele tinha ficado confuso — havia algo muito estranho a respeito daquilo.
Ela estava verdadeiramente destroçada. Estava verdadeiramente queimada, mas uma inspeção muito rápida por um olho treinado revelava que não era uma verdadeira espaçonave. É como se fosse apenas um modelo em escala natural de uma nave — um bom modelo. Em outras palavras, algo extremamente útil para se ter por perto se você subitamente decidisse construir uma espaçonave por conta própria mas não soubesse bem como fazê-lo. Não era, contudo, uma nave que pudesse voar sozinha para qualquer lugar que fosse.
Ele ainda estava pensando nisso — na verdade havia apenas começado a pensar sobre isso — quando percebeu que uma porta havia sido aberta em outra parte da câmara e uma dupla de robôs de Krikkit havia entrado, com um aspecto um pouco soturno.
Zaphod preferia não se meter com eles e, tendo decidido que, assim como a discrição é a maior qualidade da valentia, da mesma forma a covardia era a maior qualidade da discrição, resolveu esconder-se valentemente dentro de um armário.
O armário era, na verdade, a parte superior de um poço que ia diretamente até uma portinhola de inspeção e daí dava em um grande tubo de ventilação. Seguiu nessa direção e começou a engatinhar pelo tubo. Foi neste ponto que o encontramos originalmente.
Ele não estava gostando de lá. Era frio, escuro e profundamente desconfortável. Além disso, lhe dava calafrios. Na primeira oportunidade — que era uma outra portinhola uns 100 metros à frente — ele iria sair dali.
Agora foi parar em uma câmara menor, que parecia ser um centro de inteligência computacional. Saiu em um espaço apertado e escuro entre um grande banco de computadores e a parede. Rapidamente descobriu que não estava sozinho na sala e preparou-se para sair novamente, quando começou a prestar atenção no que os outros ocupantes estavam dizendo.
— São os robôs, senhor — disse uma voz. — Há algo de errado com eles.
— O que exatamente?
Aquelas eram as vozes de dois Comandantes de Guerra krikkitianos. Todos os Comandantes de Guerra viviam no céu, nas Zonas de Guerra dos Robôs e estavam, em grande parte, imunes às dúvidas e incertezas peculiares que afligiam seus companheiros lá embaixo, na superfície do planeta.
— Bem, senhor, acho que é bom que eles estejam sendo gradualmente removidos dos esforços de guerra e que já estejamos prontos para detonar a bomba de supernova. Nesse curto tempo desde que fomos libertados do envoltório...
— Vá direto ao assunto.
— Os robôs estão chateados, senhor.
— O quê?
— A guerra, senhor, parece que ela os está deixando meio pra baixo. Parecem estar cansados do mundo, ou talvez eu devesse dizer do Universo.
— Bem, é normal, afinal eles foram criados para nos ajudar a destruí-lo.
— Sei, mas é que eles estão tendo dificuldades com essa parte, senhor. Parece que estão meio cansados. Estão sem vontade de fazer o seu trabalho. Diria que perderam o “tchã” da coisa.
— O que você está tentando me dizer?
— Bem, eu acho que estão deprimidos por algum motivo, senhor.
— Mas, por Krikkit, o que você está dizendo?
— É que, nesses últimos encontros que tiveram recentemente, parece que entraram em uma batalha, levantaram suas armas para atirar e subitamente começaram a pensar: mas por quê? Qual a importância, cosmicamente falando, disso tudo? E então ficaram um pouco cansados e um pouco chateados.
— O que eles fazem, então?
— Eh... Equações quadráticas, basicamente. Absurdamente difíceis de resolver, pelo que sei. E daí ficam deprimidos.
— Deprimidos?
— Sim, senhor.
— Quem já viu um robô deprimido?
— Também não entendo, senhor.
— Que barulho é esse?
Era o barulho de Zaphod saindo com sua cabeça girando.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!