7 de dezembro de 2017

Capítulo 30

As estrelas surgiram deslumbrantes aquela noite, em seu brilho e claridade. Ford e Arthur tinham percorrido mais quilômetros do que poderiam avaliar de algum modo e finalmente pararam para descansar. A noite estava fresca e balsâmica, o ar puro, o Receptor Sensomático de Subéter totalmente silencioso.
Uma quietude maravilhosa estendia-se sobre o mundo, e uma calma mágica combinava-se com as doces fragrâncias dos bosques, o barulho sossegado dos insetos e a luz brilhante das estrelas para aliviar seus espíritos agitados. Até Ford Prefect, que já tinha visto mais mundos do que poderia enumerar numa longa tarde, estava tentado a pensar se aquele não era o mais bonito em que já tinha estado. Durante todo aquele dia tinham
passado por vales e montanhas verdes, ricamente cobertos de gramados, flores de essências exóticas e árvores altas repletas de folhas, o sol os tinha aquecido e brisas suaves os mantinham frescos, e Ford Prefect vinha observando seu Receptor Sensomático de Subéter a intervalos cada vez menos frequentes, e mostrava-se cada vez menos aborrecido com seu silêncio contínuo. Começava a achar que gostava dali.
Ainda que o ar da noite estivesse fresco eles dormiram profunda e confortavelmente a céu aberto e acordaram algumas horas depois com o orvalho sentindo-se repousados mas com fome. Ford tinha enfiado alguns pãezinhos em sua mochila, no Milliways, e eles os comeram no café da manhã, antes de continuarem a marcha.
Até agora vinham andando a esmo, mas então resolveram pôr-se firmes em direção ao leste, achando que se iam explorar aquele mundo, deviam ter uma ideia clara de onde tinham vindo e para onde estavam indo.
Pouco antes do meio-dia, tiveram a primeira indicação de que o mundo em que o tinham pousado não era desabitado: o relance de um rosto observando-os por entre as folhas. Desapareceu no instante em que os dois o viram, mas a imagem que ambos tiveram era a de uma criatura humanoide, curiosa de vê-los mas não assustada. Meia hora depois tiveram o relance de outro rosto, e dez minutos mais tarde, mais um.
Um minuto depois encontraram uma grande clareira e pararam.
A frente deles, no meio da clareira, estava um grupo de cerca de duas dúzias de homens e mulheres. Ficaram parados e quietos encarando Ford e Arthur. Em volta de algumas das mulheres amontoavam-se crianças pequenas e atrás do grupo, um decrépito aglomerado de habitações feitas de barro e galhos.
Ford e Arthur seguraram a respiração.
O mais alto dos homens tinha pouco mais de um metro e meio, todos andavam um pouco curvados para frente, tinham braços alongados e testas curtas, e claros olhos brilhantes com os quais olhavam fixamente para os estranhos.
Ao ver que não carregavam armas nem faziam qualquer movimento em sua direção, Ford e Arthur ficaram um pouco mais tranquilos. Por um tempo os dois grupos ficaram se entreolhando, sem que ninguém se movesse. Os nativos pareciam confusos com os intrusos, e ao mesmo tempo que não mostravam nenhum sinal de agressividade, definitivamente não estavam emitindo nenhum convite.
Nada acontecia.
Por dois minutos completos nada aconteceu. Após dois minutos, Ford achou que era hora de algo acontecer.
— Olá — disse.
As mulheres puxaram as crianças para mais perto delas.
Os homens não fizeram qualquer movimento compreensível, mas sua disposição no todo tornava claro que a saudação não era bem-vinda — não era hostilizada de maneira alguma, apenas não era bem-vinda.
Um dos homens, que estava pouco à frente do restante do grupo e que portanto devia ser seu líder, deu um passo à frente. Seu rosto era calmo e tranquilo, quase sereno.
— Ugghhhuuggghhhrrrr uh uh ruh uurgh — disse calmamente.
Isso tomou Arthur de surpresa. Tinha se acostumado tanto a receber uma tradução instantânea e inconsciente de tudo que ouvia, através do peixe-babel instalado em seu ouvido, que até já tinha esquecido disso, e só se lembrou agora pelo fato de parecer que não estava funcionando. Vagos significados nebulosos surgiram no fundo de sua mente, mas nada que ele pudesse agarrar com firmeza. Imaginou, corretamente a propósito, que aquele povo não tinha desenvolvido ainda mais do que os rudimentos da linguagem, e que o peixe-babel era portanto incapaz de ajudar. Deu uma olhada para Ford, que era infinitamente mais experiente nesses assuntos.
— Acho — disse Ford com um canto da boca — que ele está perguntando se não nos importaríamos em dar a volta ao redor da aldeia.
Pouco depois, um gesto do homem-criatura pareceu confirmar isso.
— Ruurgggghhhh urrrgggh; urgh urgh (uh ruh) rruur-ruuh ug — prosseguiu o homem-criatura.
— O sentido geral — disse Ford —, pelo que posso entender, é que temos toda a liberdade de seguir viagem por onde quisermos, mas se déssemos a volta ao redor da aldeia em vez de atravessá-la, nós os deixaríamos muito felizes.
— Então, o que vamos fazer?
— Acho que vamos deixá-los felizes — disse Ford.
Devagar e atentos deram a volta no perímetro da clareira. Isso pareceu ir muito bem para os nativos que acenaram muito de leve para eles e voltaram para suas atividades.
Ford e Arthur continuaram sua viagem através da floresta. A umas centenas de metros da clareira depararam subitamente com uma pequena pilha de frutas colocada em seu caminho — frutinhas que se pareciam notavelmente com amoras e framboesas e umas frutas polpudas de casca verde que se pareciam impressionantemente com peras.
Até o momento, tinham evitado todas as frutas que tinham visto, apesar das árvores estarem carregadas delas.
— Encare desta maneira — dissera Ford Prefect —, frutas em planetas estranhos podem fazer você viver ou fazer você morrer. Portanto, a questão, quando você se mete com elas, é saber quando você vai morrer enquanto não morre. Pensando assim você não cai na tentação de comê-las. O segredo da viagem de carona saudável é comer porcaria.
Olharam com suspeita para a pilha que estava posta em seu caminho. Parecia tão boa que quase lhes dava vertigem de fome.
— Encare desta maneira — disse Ford. —, ahn...
— Como? — disse Arthur.
— Estou tentando pensar numa maneira de encarar que queira dizer que no fim a gente acaba comendo.
A luz do sol atravessava as folhas e lançava um brilho sarapintado sobre as coisas que pareciam peras. As coisas que pareciam framboesas e morangos eram mais rechonchudas e carnudas que quaisquer outros que Arthur já vira, mesmo em comerciais de sorvete.
— Por que a gente não come e deixa para pensar depois? — disse.
— Talvez seja isso que eles querem que a gente faça.
— Está bem, encare desta maneira...
— Começou bem — disse Ford.
— Estão aí para a gente comer. Não importa se são boas ou ruins, se eles estão querendo nos dar comida ou nos envenenar. Se forem venenosas e a gente não comer, eles simplesmente vão nos atacar de algum outro jeito. Se a gente não comer, a gente sai perdendo de qualquer forma.
— Gostei do seu jeito de pensar — disse Ford —, agora coma uma.
Hesitante, Arthur apanhou uma das coisas que pareciam peras.
— Foi o que eu sempre achei sobre o Jardim do Éden — disse Ford.
— O quê?
— O Jardim do Éden. A árvore. A maçã. Essa parte, lembra?
— Lembro, claro que eu lembro.
— Esse Deus põe uma macieira no meio de um jardim e diz “vocês façam o que vocês quiserem, ah, mas não comam a maçã”. Surpresa surpresa, eles comem e ele pula de trás de uma moita gritando “Peguei vocês!”. Não teria feito muita diferença se eles não tivessem comido.
— Por que não?
— Porque se você está lidando com alguém que tem o tipo da mentalidade de quem deixa um chapéu na calçada com um tijolo embaixo para os outros chutarem pode ter certeza que ele não vai desistir. No fim ele te pega.
— Do que você está falando?
— Esqueça, coma a fruta.
— Sabe, este lugar até que parece o Jardim do Éden.
— Coma a fruta.
— O que se ouve também é parecido.
Arthur deu uma mordida na coisa que parecia uma pera.
— É uma pera — ele disse.
Momentos depois, quando tinham comido tudo, Ford Prefect virou-se e gritou.
— Obrigado. Muito obrigado. Vocês são muito gentis.
Pelos oitenta quilômetros seguintes em sua marcha rumo ao leste eles continuaram encontrando os presentes de frutas estendidos em seu caminho, e uma vez ou outra perceberam um nativo os observando entre as árvores; não tornaram a fazer contato direto.
Resolveram que gostavam de uma raça de pessoas que deixava bem clara sua gratidão por ser deixada em paz.
As frutas acabaram após oitenta quilômetros porque era onde começava o mar. Sem pressa, construíram uma jangada e atravessaram o mar. Era relativamente calmo, uns cem quilômetros de largura, e eles tiveram uma travessia razoavelmente agradável, aportando numa terra que era pelo menos tão bonita quanto a de onde tinham saído.
A vida era, resumindo, ridiculamente cômoda e eles puderam, pelo menos por um tempo, enfrentar os problemas da falta de objetivos e do isolamento simplesmente decidindo ignorá-los. Quando a ânsia por companhia fosse forte demais, sabia onde achá-la, mas no momento estavam felizes de saber que os Golgafrinchanos estavam a centenas de quilômetros atrás deles.
Ford Prefect, todavia, começou a usar seu Receptor Sensomático de Subéter com mais frequência de novo. Só uma vez captou um sinal, mas era tão tênue e vinha de uma distância tão enorme que o deprimiu mais do que o silêncio, que, fora isso, continuava inabalável.
Por um capricho, voltaram-se para o norte. Após semanas de viagem chegaram a um outro mar, construíram outra jangada e atravessaram. Desta vez a travessia foi mais difícil, o clima estava esfriando. Arthur suspeitou de uma crise de masoquismo de Ford Prefect — aumentar as dificuldades da viagem parecia lhe dar um senso de finalidade que de outra forma faltava. Galgava adiante implacavelmente.
A viagem para o norte os levou a um território de montanhas escarpadas de perfil e beleza de tirarem o fôlego. Os gigantescos picos recortados, cobertos de neve arrebatavam seus ouvidos. O frio começava a lhes morder os ossos.
Enrolaram-se em peles de animais que Ford Prefect conseguiu através de uma técnica que tinha aprendido certa vez com ex-monges pralitas que administravam uma estância de surf-mental nas Colinas de Hunian.
A Galáxia está cheia de ex-monges pralitas, todos arrivistas, porque as técnicas de controle mental que a Ordem desenvolveu como forma de disciplina devocional são, francamente, sensacionais — e um número extraordinário de monges abandona a Ordem logo depois de terem terminado o treinamento devocional e logo antes de prestarem os votos finais de ficarem trancados em pequenas caixas metálicas para o resto de suas vidas.
A técnica de Ford parecia consistir sobretudo em ficar parado por um tempo, sorrindo. Após uns instantes, um animal — um alce talvez — aparecia de trás das árvores e o observava com curiosidade. Ford continuava a sorrir, seus olhos tornavam-se mais dóceis e brilhantes, e ele parecia irradiar um amor profundo e universal, um amor que se expandia para abraçar toda a criação. Uma quietude maravilhosa tomava conta da região ao redor, uma quietude pacífica e serena, emanada do homem transfigurado. Lentamente o alce se aproximava, passo a passo, até tocá-lo com o focinho, momento em que Ford pulava e lhe quebrava o pescoço.
— Controle de feroma — disse que era —, você só precisa saber como gerar o cheiro certo.

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Boa leitura :)