7 de dezembro de 2017

Capítulo 3

— Alguém tem uma chaleira? — perguntou Arthur entrando na ponte de comando, e instantaneamente começou a se perguntar por que Trillian estava gritando com o computador para falar com ela, Ford estava espancando-o e Zaphod dando chutes, e também por que havia uma protuberância amarela asquerosa no visor.
Largou a xícara vazia que estava carregando e foi falar com eles.
— Olá — disse.
Nesse momento Zaphod arremessou-se sobre a superfície de mármore que continha os instrumentos que controlavam o motor convencional a fótons. Eles materializaram-se em suas mãos e ele virou a alavanca para controle manual. Empurrou, puxou, apertou e gritou impropérios. O motor a fótons deu uma sacudida fraca e morreu de novo.
— Algum problema? — disse Arthur.
— Ei! Ouviram essa? — resmungou Zaphod ao mesmo tempo que corria para os controles manuais do motor a improbabilidade infinita. — O macaco falou!
O motor a improbabilidade zuniu duas vezes e também morreu.
— Um acontecimento, cara — disse Zaphod, chutando o motor a Improbabilidade. — Um macaco que fala!
— Se você está chateado com alguma coisa... — disse Arthur.
— Vogons! — gritou Ford. — Estamos sendo atacados!
Arthur estremeceu.
— E o que a gente está esperando? Vamos dar o fora daqui!
— Não dá. O computador enguiçou.
— Enguiçou?
— Está dizendo que todos os circuitos estão ocupados. Não há energia em nenhum ponto da nave.
Ford afastou-se do terminal do computador, enxugou a testa com a manga da camisa e recostou-se contra a parede.
— Nada que a gente possa fazer — disse. Olhou para o nada e mordeu os lábios.
Quando Arthur era garoto, na escola, muito antes de a Terra ser destruída, ele costumava jogar futebol. Não era bom nisso de jeito nenhum, e sua especialidade era marcar gols contra em partidas importantes. Sempre que isso acontecia, experimentava a peculiar sensação de um formigamento ao redor da nuca, que subia lentamente pelas faces, até atingir-lhe o cenho. A imagem de terra e grama e um monte de garotinhos zombeteiros pulando para cima dele veio-lhe vívida à cabeça nesse momento.
Uma peculiar sensação de formigamento ao redor da nuca subiu lentamente pelas faces até atingir-lhe o cenho.
Começou a falar, e parou.
Começou a falar de novo, e parou de novo.
Por fim conseguiu falar.
— Ahn — disse ele. Limpou a garganta. — Diga-me — prosseguiu, tão nervoso que todos os outros voltaram-se e se puseram a observá-lo. Ele deu uma olhada para a bolha amarela que se aproximava no visor. — Diga-me — disse mais uma vez. — O computador chegou a dizer o que o estava mantendo ocupado? Estou perguntando só por perguntar...
Zaphod estendeu uma das mãos e segurou Arthur pela nuca.
— O que foi que você fez, homem-macaco? — perguntou, ofegante.
— Bom — disse Arthur —, nada, na verdade. É só que agora há pouco eu estava tentando dar um jeito de conseguir...
— O quê?
— Fazer um chá.
— É isso aí, pessoal — disse o computador de repente. — Estou lutando com esse problema agora mesmo, e, puxa vida, é dos grandes! Falo com vocês mais tarde. — Mergulhou novamente num silêncio que só era igualado em intensidade pelo silêncio das três pessoas que olhavam para Arthur Dent.
Como que para aliviar a tensão, os vogons escolheram esse momento para começar a atirar.
A nave sacolejava e retumbava. Do lado de fora, o campo de força de uma polegada de grossura que a envolvia encheu-se de bolhas, estalou e trincou sob o bombardeio de uma dúzia de Canhões Fotrazônicos Morte-Certa de 30 megalesões, e não parecia que ia aguentar por muito tempo. Quatro minutos foi quanto Ford Prefect avaliou.
— Três minutos e cinquenta segundos — disse ele pouco depois. — Quarenta-e-cinco segundos — acrescentou, na hora apropriada. Mexeu em vão em alguns botões inúteis, e dirigiu um olhar hostil a Arthur. — Morrer por uma xícara de chá, ehn? Três minutos e quarenta segundos.
— Você não vai parar de contar? — resmungou Zaphod.
— Vou — disse Ford Prefect. — Dentro de três minutos e trinta-e-cinco segundos.
A bordo da nave vogon, Prostetnic Vogon Jeltz estava confuso. Estava esperando uma caçada, um engalfinha-mento de raios de tração, estava esperando ter que usar o Assegurador Subcíclico de Normalidade especialmente instalado para combater o motor a improbabilidade infinita da nave Coração de Ouro; mas o Assegurador Subcíclico de Normalidade permanecia inativo enquanto a nave Coração de Ouro ficava ali parada, apanhando.
Uma dúzia de Canhões Fotrazônicos Morte-Certa de 30 megalesões mantinha fogo contra a Coração de Ouro, e mesmo assim ela ficava ali parada, apanhando.
Testou cada um dos sensores em seu painel para ver se não havia algum truque sutil na jogada, mas nenhum truque sutil era detectado.
Ele não sabia do chá, é claro.
Também não sabia como os ocupantes da nave Coração de Ouro estavam passando os três últimos minutos e trinta segundos de vida que tinham para passar.
Como exatamente Zaphod Beeblebrox chegou à ideia de fazer uma sessão espírita a essa altura é algo que ele nunca entendeu muito claramente.
Obviamente o assunto morte estava no ar, mas mais como algo que devia ser evitado do que comentado repetidamente.
Possivelmente o horror que Zaphod sentia diante da ideia de reunir-se a seus parentes falecidos levou-o à ideia de que eles talvez sentissem o mesmo a seu respeito, e mais que isso, fossem capazes de fazer algo que ajudasse a adiar a reunião.
Ou talvez fosse de novo uma das estranhas inspirações que ocasionalmente vinham à tona provenientes da área obscura de sua mente, que ele tinha trancafiado inexplicavelmente antes de tornar-se Presidente da Galáxia.
— Você quer falar com seu bisavô? — perguntou Ford, espantado.
— Quero.
— Tem que ser agora?
A nave continuava sacolejando e retumbando. A temperatura aumentava. As luzes diminuíam — toda a energia que o computador não utilizava para pensar no chá estava sendo bombeada para o campo de força que estava rapidamente desaparecendo.
— Tem! — insistiu Zaphod. — Escuta, Ford, estou pensando que ele talvez possa nos ajudar.
— Tem certeza que o termo é pensando? Escolha as palavras com cuidado.
— Sugira outra coisa que a gente possa fazer.
— Ahn, bom...
— OK, todo mundo em volta do painel central! Já! Venham! Trillian, homem-macaco, mexam-se!
Agruparam-se em torno do painel de controle central, confusos, sentaram-se e, sentindo-se excepcionalmente babacas, deram-se as mãos. Com sua terceira mão, Zaphod apagou as luzes.
A escuridão tomou conta da nave.
Lá fora o rugido tonitroante dos canhões Morte-Certa continuava a ecoar no campo de força.
— Concentrem-se — sussurrou Zaphod — no nome dele.
— Qual é? — perguntou Arthur.
— Zaphod Beeblebrox Quarto.
— O que?
— Zaphod Beeblebrox Quarto. Concentrem-se!
— Quarto?
— É. Escuta, eu sou Zaphod Beeblebrox, meu pai era Zaphod Beeblebrox Segundo, meu avô, Zaphod Beeblebrox Terceiro...
— O quê?
— Houve um acidente envolvendo um anticoncepcional e uma máquina do tempo. Agora, concentrem-se!
— Três minutos — disse Ford Prefect.
— Por que — disse Arthur Dent — estamos fazendo isso?
— Cale a boca — sugeriu Zaphod.
Trillian não dizia nada. O que, pensou ela, havia para dizer?
A única luz na ponte de comando vinha de dois triângulos vermelhos num canto distante onde Marvin, o Androide Paranoide, estava sentado, curvado, ignorando todos e ignorado por todos, num mundo particular privado e um tanto desagradável.
Em torno do painel de controle central quatro figuras estavam debruçadas em rígida concentração, tentando apagar de suas mentes o tremor apavorante da nave e o temível trovoar que ecoava por ela.
Concentraram- se.
Concentraram-se mais.
E concentraram-se mais.
Os segundos corriam.
Gotas de suor brotavam sobre as sobrancelhas de Zaphod, primeiro devido à concentração, depois à frustração, e por fim ao embaraço.
Finalmente, ele deixou escapar um grito furioso, largou as mãos de Trillian e de Ford e golpeou o interruptor de luz.
— Ah, estava começando a achar que vocês nunca iam acender a luz — disse uma voz. — Não, por favor, não muito claro, meus olhos não são mais os mesmos.
As quatro figuras sacudiram-se nas cadeiras. Viraram lentamente as cabeças para olhar, embora seus couros cabeludos mostrassem uma decidida propensão a ficar no lugar onde estavam.
— Agora, quem é que está me incomodando a essa hora? — disse a pequena figura esquálida e curvada que estava em pé junto aos vasos de samambaia na ponta da ponte de comando. Suas duas cabeças de cabelos ralos pareciam tão velhas como se pudessem guardar vagas lembranças do próprio nascimento das galáxias. Uma cochilava e a outra olhava-os de soslaio. Se seus olhos já não eram os mesmos, então deviam ter sido capazes de cortar diamantes.
Zaphod gaguejou de nervoso por um momento. Fez o complexo aceno duplo de cabeças que é o gesto betelgeusiano tradicional de respeito familiar.
— Ah... ahn... oi, Bisavô... — disse, ofegante.
O velhinho moveu-se em direção a eles. Despontou em meio à luz turva. Apontou um dedo ossudo para seu bisneto.
— Ah — disse ele bruscamente —, Zaphod Beeblebrox. O último de nossa estirpe. Zaphod Beeblebrox Nadésimo.
— Primeiro.
— Nadésimo — disse a figura com veemência. Zaphod odiava sua voz. Sempre lhe parecia uma unha arranhando um quadro-negro de algo que ele gostava de pensar como sendo sua alma.
Ajeitou-se incomodamente em sua cadeira.
— Ahn, tá — resmungou. — Ahn, olha, desculpa pelas flores, eu ia mandar, sabe, mas é que não tinha mesmo nenhuma coroa na floricultura e aí...
— Você esqueceu! — cortou Zaphod Beeblebrox Quarto.
— Bom...
— Ocupado demais. Nunca pensa nos outros. Os vivos são todos iguais.
— Dois minutos, Zaphod — sussurrou Ford em tom de respeito.
Zaphod estava nervoso e irrequieto.
— É, mas eu tinha intenção de mandá-las — disse. — E também vou escrever para minha bisavó, é só a gente sair dessa...
— Sua bisavó... — murmurou consigo mesmo a esquálida criatura.
— É — disse Zaphod. — Como ela está? Sabe de uma coisa, eu vou fazer uma visita para ela. Mas antes a gente tem que...
— Sua falecida bisavó e eu estamos muito bem, obrigado — ralhou Zaphod Beeblebrox Quarto.
— Ah. Oh.
— Mas muito desapontados com você, Zaphod, meu rapaz...
— Bom, né... — Zaphod sentia-se estranhamente sem poderes de tomar as rédeas da conversa, e a respiração ofegante de Ford a seu lado lhe dizia que o tempo estava correndo.
O barulho e o sacolejo tinham assumido proporções assustadoras. Ele viu os rostos de Trillian e de Arthur, pálidos e sem piscar, desalentados.
— Ahn, bisavô...
— Temos acompanhado seu progresso com considerável desânimo...
— Certo, mas olha, é que no momento, entende...
— Para não dizer desprezo!
— Será que não dava para me ouvir um momento...
— Quero dizer, o que exatamente você está fazendo da sua vida?
— Estou sendo atacado por uma esquadra vogon! — gritou Zaphod. Era exagero, mas essa tinha sido sua primeira oportunidade até o momento de tocar na questão básica do encontro.
— Não me surpreende nem um pouco — disse o velho, sacudindo os ombros.
— Só que está acontecendo exatamente neste instante, entende? — insistiu Zaphod fervorosamente.
O ancestral espectral balançou a cabeça, apanhou a xícara que Arthur Dent tinha trazido e a observou com interesse.
— Ahn... bisavô...
— Sabia — interrompeu a figura fantasmagórica, fixando um olhar severo sobre Zaphod — que Betelgeuse V desenvolveu agora uma pequena excentricidade em sua órbita?
Zaphod não sabia e achou difícil concentrar-se na informação com todo aquele barulho, a iminência da morte e essas coisas.
— Bom, não... olha... — disse.
— E eu me virando no túmulo! — berrou o ancestral. Atirou a xícara no chão e apontou um dedo ameaçador para Zaphod. — Culpa sua! — disse ele, num guincho.
— Um minuto e meio — murmurou Ford, com a cabeça entre as mãos.
— Tá, olha, bisavô, o senhor pode mesmo ajudar, porque...
— Ajudar? — exclamou o velho como se lhe tivessem pedido a coisa mais absurda do mundo.
— É, ajudar, e já, porque senão...
— Ajudar! — repetiu o velho como se lhe tivessem pedido a coisa mais absurda do mundo ao ponto acompanhada de uma porção de batatas fritas. — Você fica passeando pela Galáxia com seus... — o velho fez um sinal de desprezo — com seus amigos desclassificados, ocupado demais para colocar umas flores no meu túmulo, de plástico que fossem, seria apropriado vindo de você, mas não. Ocupado demais. Moderno demais. Cético demais – até que de repente se encontra numa enrascada e vem todo cheio de boas intenções!
Sacudiu a cabeça, com cuidado para não acordar a outra que estava cochilando.
— Pois bem, não sei, Zaphod, meu jovem — prosseguiu —, acho que vou ter que pensar no assunto.
— Um minuto e dez — disse Ford numa voz cavernosa.
Zaphod Beeblebrox Quarto olhou para ele, curioso.
— Por que esse moço fica falando em números? — perguntou.
— Esses números — disse Zaphod sucintamente — são o tempo que ainda nos resta de vida.
— Ah — disse o bisavô. Falava consigo próprio. — Não se aplica a mim, é claro — disse ele e foi até um canto menos iluminado da ponte de comando procurando um outro objeto para ficar brincando.
Zaphod sentia-se à beira da loucura, e pensava se não era melhor acabar tudo de uma vez.
— Bisavô — disse ele. — Aplica-se a nós! Nós ainda estamos vivos, e estamos prestes a perder nossas vidas!
— Um belo serviço, também.
— O quê?
— Para que serve a sua vida? Quando penso no que você fez dela a expressão “orelha de porco” me vem irresistivelmente à cabeça.
— Mas eu fui presidente da Galáxia, cara!
— Oh — murmurou seu antepassado. — E que tipo de trabalho é esse para um Beeblebrox?
— O quê? Apenas o de presidente, sabe? Da Galáxia inteira!
— Megacachorrinho convencido!
Zaphod piscou atordoado.
— Eh, onde é que você está querendo chegar, cara? Diga, bisavô.
O velhinho curvado arrastou-se até seu neto e deu-lhe uns tapinhas no joelho. Isso teve o efeito de lembrar Zaphod de que ele estava falando com um fantasma, pois não sentiu nada.
— Você sabe e eu sei o que significa ser presidente. Zaphod, meu jovem. Você, porque já foi, e eu, porque estou morto, o que me dá um ângulo de visão maravilhosamente desobstruído. Temos aqui em cima um ditado: “A vida é desperdiçada ao ser vivida”.
— Tá bom — disse Zaphod amargamente. — Muito bom. Muito profundo. No momento estou precisando de máximas tanto quanto preciso de buracos nas cabeças.
— Cinquenta segundos — disse Ford Prefect.
— Onde eu estava? — disse Zaphod Beeblebrox Quarto.
— Dando um sermão — disse Zaphod Beeblebrox.
— Ah, é mesmo.
— Esse cara pode mesmo — sussurrou Ford baixinho para Zaphod — ajudar a gente?
— Ninguém mais pode — respondeu Zaphod num cochicho.
Ford balançou a cabeça, sem esperanças.
— Zaphod! — era o fantasma falando. — Você se tornou presidente da Galáxia por um motivo. Esqueceu?
— A gente não podia falar sobre isso mais tarde?
— Esqueceu? — insistiu o fantasma.
— É, esqueci! Tinha que esquecer. Eles vasculham seu cérebro quando você pega esse emprego, sabe. Se eles achassem minha cabeça cheia de ideias sacanas eu estaria na rua sem nada a não ser uma gorda pensão, um secretariado, uma frota de espaçonaves e duas gargantas cortadas.
— Ah — disse o fantasma, sacudindo as cabeças de satisfação. — Então você se lembra!
Fez uma pausa momentânea.
— Bom — disse ele, e o barulho parou.
— Quarenta-e-oito segundos — disse Ford. Olhou de novo para o relógio e deu umas pancadinhas. Ergueu então o olhar. — Ei, parou o barulho — disse.
Um brilho malicioso reluziu nos olhinhos do fantasma.
— Eu diminuí a velocidade do tempo por uns instantes — disse —, só por uns instantes, vocês compreendem. Detestaria que vocês perdessem tudo o que eu tenho a dizer.
— Não, escuta aqui, morcego velho — disse Zaphod pulando da cadeira. — A: Obrigado por parar o tempo e essas coisas, joia, maravilhoso, fantástico, mas B: dispenso o sermão, certo? Não sei que coisa grandiosa é essa a que eu estou destinado, e parece que não é para eu saber. E eu fico indignado com isso, certo? O eu antigo sabia. O eu antigo se preocupava com isso. Tudo bem, até aqui, tudo em cima. Mas acontece que o antigo eu se preocupava tanto que entrou dentro do seu próprio cérebro – meu próprio cérebro – e trancou as partes que sabiam e que se preocupavam, porque se eu soubesse e me preocupasse, não seria capaz de fazê-lo. Não seria capaz de ir ser presidente, e não seria capaz de roubar esta nave, que deve ser a coisa mais importante. Mas esse meu antigo ego se matou, não, ao mudar meu cérebro? OK, essa era a minha escolha. Este novo eu tem suas próprias escolhas a fazer, e por uma estranha coincidência faz parte dessas escolhas não saber e não me preocupar com essa coisa grandiosa, seja ela qual for. É isso que ele queria, é isso que ele vai ter. A não ser pelo fato de que esse meu velho ego tentou manter-se no controle, deixando ordens na parte do meu cérebro que ele trancou. Pois bem, eu não quero saber, e não quero ouvi-las. Essa é a minha escolha. Não vou ser fantoche de ninguém, principalmente de mim mesmo.
Zaphod deu um soco furioso no painel, sem notar os olhares atônitos que estava atraindo.
— O velho eu está morto! — exclamou. — Ele se matou! Os mortos não deviam ficar tentando interferir nas questões dos vivos!
— E ainda assim você me evocou para tentar tirá-lo de uma enrascada — disse o fantasma.
— Ah — disse Zaphod, sentando-se novamente. — Aí é diferente, né?
Dirigiu um sorrisinho sem graça para Trillian.
— Zaphod — disse a aparição em voz áspera —, acho que a única razão de eu estar aqui gastando meu fôlego com você é que estando morto não tenho muito o que fazer com ele.
— OK — disse Zaphod. — Por que você não me conta qual é o grande segredo? Tente-me.
— Zaphod, você sabia quando era presidente da Galáxia, assim como também sabia Yooden Vranx antes de você, que o presidente não é nada. Um zero à esquerda. Em algum lugar nebuloso por trás de tudo há um outro homem, um ser, algo, com poder definitivo. Esse homem, ou ser, ou algo, você tem que descobrir – o homem que controla esta Galáxia, e – suspeitamos – outras. Talvez todo o Universo.
— Por quê?
— Por quê? — exclamou o fantasma pasmo. — Por quê? Olhe à sua volta, rapaz. Parece-lhe que está tudo em boas mãos?
— Está tudo bem.
O velho fantasma lançou-lhe um olhar ameaçador.
— Não vou discutir com você. Você vai pegar esta nave, a nave movida a improbabilidade infinita, e vai simplesmente levá-la até onde ela é necessária. Você vai fazer isso. Não pense que pode escapar de seu propósito. O campo de improbabilidade controla você, você está sob seu domínio. O que é isso?
Ele se referia a Eddie, o Computador da Espaçonave, dando tapinhas em um de seus terminais. Zaphod disse isso a ele.
— O que ele está fazendo?
— Está tentando — disse Zaphod, com um maravilhoso autocontrole — fazer chá.
— Ótimo — disse o bisavô —, eu aprovo. Agora, Zaphod — ele virou-se sacudindo um dedo para ele. — Não sei se você é realmente capaz de sair-se bem no seu trabalho. Acho que você não será capaz de evitá-lo. Porém, já estou morto há muito tempo e estou cansado demais para ficar me preocupando tanto como já me preocupei. O motivo principal de eu ter ajudado vocês é que eu não podia suportar a ideia de você e esses seus amigos moderninhos largados pelos cantos aqui em cima. Entendeu?
— Entendi. Valeu, obrigado.
— Ah, e, Zaphod...
— Que é?
— Se você alguma vez achar que precisa de ajuda novamente, se tiver algum problema, se precisar de uma mão salvadora num momento difícil...
— Sim?
— Por favor, não hesite em se danar.
Dentro do espaço de um segundo um raio de luz atravessou das mãos secas do velho fantasma até o computador, o fantasma desapareceu, a ponte de comando foi tomada por uma nuvem crepitante de fumaça, e a nave Coração de Ouro saltou através de dimensões desconhecidas do tempo e do espaço.

Um comentário:

  1. Seção espírita alienígena durante um ataque espacial.

    .-.

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Boa leitura :)