26 de dezembro de 2017

Capítulo 2

Uma das coisas mais extraordinárias da vida é o tipo de lugares nos quais ela está preparada para sobreviver. Seja nos mares inebriantes de Santragino V, com peixes que parecem não dar a mínima para onde estejam nadando, nas tempestades de fogo em Frastra, onde, segundo dizem, a vida começa aos 40.000 graus, ou simplesmente entocada no intestino grosso de um rato pela mais pura diversão, a vida encontra uma maneira de ir levando as coisas em qualquer lugar.
Ela suporta viver até mesmo em Nova York, embora seja difícil entender o porquê. No inverno a temperatura cai para muito abaixo do limite legal, ou pelo menos cairia, se alguém tivesse o bom senso de estipular um limite legal.
A última vez em que fizeram uma pesquisa sobre as cem características mais marcantes dos nova-iorquinos, o bom senso foi parar em septuagésimo nono lugar.
No verão é quente pra burro. Uma coisa é ser uma dessas formas de vida que florescem no calor e achar, como os frastranos, que uma temperatura entre 40.000 e 40.004 graus é muito agradável. Outra coisa completamente diferente é ser um animal que precisa se enrolar nas peles de diversos outros animais quando seu planeta está em um ponto da órbita para descobrir, meia órbita mais à frente, que sua própria pele está fervendo.
Há um enorme exagero quanto à primavera. Muitos habitantes de Nova York se vangloriam orgulhosamente dos prazeres da primavera, mas, se entendessem o mínimo que fosse dos tais prazeres da primavera, saberiam que existem 5.983 lugares melhores do que Nova York para desfrutá-la — e isso sem sair da mesma latitude.
Mas o pior mesmo é o outono.
Poucas coisas são piores do que o outono em Nova York. Alguns dos seres que vivem no intestino grosso dos ratos talvez discordem, mas a maioria das coisas que vivem nos intestinos grossos de ratos são bastante desagradáveis — então podemos e iremos ignorar sua opinião. Durante o outono, Nova York cheira como se alguém tivesse fritado cabras por lá e, se você estiver realmente precisando respirar, a melhor solução é abrir uma janela e enfiar a cara em um prédio.
Tricia McMillan adorava Nova York. Vivia repetindo isso para si mesma. O Upper West Side. Midtown. Boas lojas. O SoHo. O East Village. Roupas. Livros. Sushi. Comida italiana. Delicatessens. Isso aí. Filmes. Isso aí, também.
Tricia acabara de ver um filme de Woody Allen sobre a angústia de ser neurótico em Nova York. Como ele já tinha feito um ou dois filmes explorando o mesmo tema, Tricia se perguntou se ele já tinha pensado em se mudar dali, mas ficou sabendo que ele abominava essa ideia. Então: mais filmes, adivinhou ela.
Tricia adorava Nova York porque adorar Nova York era uma boa estratégia para a sua carreira. Boa em termos de lojas, de restaurantes, não tão boa em termos de táxis e qualidade das calçadas, mas definitivamente uma das maiores e melhores estratégias para a sua carreira. Tricia era âncora de tevê e a maior parte das tevês do mundo estão ancoradas em Nova York. Até então Tricia só havia sido âncora na Inglaterra: reportagem local, depois jornal da manhã e daí jornal da tarde. Se o idioma permitisse, poderia se dizer que era uma âncora em rápida ascensão, mas... bolas, aquilo era tevê, então qual o problema? Ela era uma âncora em rápida ascensão. Tinha tudo o que precisava ter: um cabelo sensacional, uma compreensão profunda de uso estratégico de brilhos labiais, inteligência suficiente para entender o mundo e uma pequena e secreta apatia interior que fazia com que ela se lixasse. Todo mundo tem uma grande oportunidade na vida. Se você por acaso perde a única que realmente interessa, todo o resto se torna assustadoramente fácil.
Tricia perdera apenas uma oportunidade na vida. Naqueles tempos já nem estremecia mais quando se lembrava dela. Achava que tinha a ver com a parte que tinha ficado apática.
A NBS precisava de uma nova âncora. Mo Minetti estava deixando o programa matinal Bom Dia Estados Unidos para ter um bebê. Haviam lhe oferecido uma quantia absurda para que o parto fosse transmitido ao vivo, mas ela surpreendentemente recusou a proposta, alegando zelar pela sua privacidade e bom gosto. Equipes de advogados da NBS vasculharam minuciosamente o seu contrato para verificar se aquelas eram alegações legítimas, mas, no fim das contas, tiveram que deixá-la ir embora, não sem uma certa relutância. Aquilo era particularmente odioso para eles, porque em geral “deixar alguém partir com uma certa relutância” não passava de um eufemismo educado para demiti-lo.
Começou a circular o boato de que talvez, apenas talvez, estivessem procurando um sotaque britânico. O cabelo, a cor da pele e a prótese dentária seriam de acordo com os padrões das emissoras americanas, mas havia muitos sotaques britânicos nos Estados Unidos agradecendo às suas mães na cerimônia do Oscar, sotaques britânicos cantando na Broadway e um público considerável acompanhando sotaques britânicos com perucas no Masterpiece Theatre. Sotaques britânicos contavam piadas no programa do David Letterman e no Jay Leno. Ninguém entendia as piadas, mas estavam gostando do sotaque, então talvez, apenas talvez, fosse a hora certa de inserir um sotaque britânico no Bom Dia Estados Unidos. E daí?
Era por isso que Tricia estava lá.
Era por isso que adorar Nova York era uma boa estratégia para sua carreira.
Esse não era, é claro, o motivo oficial. A sua emissora de tevê no Reino Unido jamais teria bancado a passagem de avião e a conta do hotel para ela sair caçando emprego em Manhattam. Como ela estava procurando algo que pagasse umas dez vezes o seu salário atual, poderiam ter pensado que ela teria condições de se manter por conta própria. Então, ela arrumou uma história, arrumou um pretexto, ficou bem quieta quanto às suas pretensões e eles bancaram a viagem. Bilhete executivo, é claro, mas seu rosto já era conhecido e ela conseguiu um upgrade com alguns sorrisos. Com jeitinho, ela conseguiu um bom quarto no Hotel Brentwood e lá estava ela, esquematizando o seu próximo passo.
Conhecer gente era uma coisa; fazer contatos era outra completamente diferente. Tinha alguns nomes, alguns telefones, mas tudo o que conseguira até o momento era ficar aguardando na linha por um tempo indeterminado algumas vezes. Estava de volta à estaca zero.
Sondou aqui e ali, deixou alguns recados, mas, até o momento, ninguém havia retornado as suas ligações. O trabalho que ela disse que fora fazer tinha terminado em uma manhã; o trabalho dos seus sonhos brilhava hipnoticamente em um horizonte inalcançável.
Merda.
Pegou um táxi do cinema de volta para o Brentwood. O táxi não pôde deixá-la mais perto da calçada porque uma limusine gigantesca estava ocupando todo o espaço livre, de modo que ela teve de se espremer para ultrapassá-la. Saiu do ar fétido, com cheiro de cabra frita, e adentrou no abençoado frescor do lobby. O delicado algodão de sua blusa estava grudado como fuligem no seu corpo. O seu cabelo parecia algodão-doce comprado em uma feirinha. Perguntou na recepção se tinha algum recado, desanimada.
Havia um.
Humm...
Bom.
Tinha funcionado. Ela foi ao cinema especificamente para fazer com que o telefone tocasse. Não aguentava ficar sentada em um quarto de hotel esperando.
Hesitou. Será que devia abrir o recado ali mesmo? Suas roupas estavam grudentas e ela queria se livrar delas e ficar deitada na cama. Deixara o ar-condicionado ligado na temperatura mais baixa possível e com a maior ventilação possível. O que mais desejava no mundo naquele momento era ficar arrepiada de frio.
Depois, um banho bem quente, seguido de um banho bem frio e depois ficar deitada só de toalha na cama, deixando o corpo secar no ar-condicionado. Então leria o recado.
Talvez mais arrepios. Talvez todo tipo de coisa.
Não. O que mais desejava no mundo era um emprego em uma rede de tevê americana que pagasse dez vezes o seu salário atual. Mais do que qualquer outra coisa no mundo. No mundo inteiro. O que ela desejava mais do que qualquer outra coisa não existia mais.
Sentou-se em uma poltrona no lobby, sob uma palmeira kentia e abriu o pequeno envelope com uma abertura em papel celofane.
“Favor entrar em contato” — estava escrito. “Triste” — e um número de telefone. O nome da pessoa era Gail Andrews.
Gail Andrews.
Não era um nome pelo qual estivesse esperando. Foi pega de surpresa.
Conseguia reconhecê-lo, mas não sabia o porquê. Seria a secretária de Andy Martin? A assistente de Hilary Bass? Martin e Bass eram os contatos mais importantes que fizera, ou tentara fazer, na NBS. E o que significava aquele “Triste”? “Triste?”
Estava completamente passada. Seria Woody Allen tentando contatá-la usando um pseudônimo?
O código de área era 212. Alguém de Nova York. Que estava triste.
Bom, aquilo reduzia um pouco as possibilidades, não? Voltou até a recepção.
— A mensagem que o senhor me entregou está um pouco estranha — disse ela. — Alguém que não conheço tentou me ligar e disse que estava triste.
O recepcionista olhou para o recado e franziu a testa.
— A senhora conhece essa pessoa? — perguntou ele.
— Não — respondeu Tricia.
— Hum — disse o recepcionista. — Parece que ela não está feliz com alguma coisa.
— Pois é — concordou Tricia.
— Parece que deixou o nome aqui — disse ele. — Gail Andrews. A senhora conhece alguém com esse nome?
— Não — disse ela.
— Você sabe por que ela não está feliz?
— Não — respondeu Tricia.
— Já tentou ligar para este telefone? Tem um número aqui.
— Não — repetiu Tricia. — O senhor acabou de me dar esse recado. Estou tentando levantar mais informações antes de retornar a ligação. Seria possível falar com a pessoa que anotou o recado?
— Humm — fez o recepcionista, analisando cuidadosamente o recado. — Acho que não temos nenhuma Gail Andrews trabalhando aqui, não.
— Sim, eu sei disso — disse Tricia. — Eu só...
— Eu sou Gail Andrews.
A voz veio por trás de Tricia. Ela se virou.
— Como?
— Eu sou Gail Andrews. Você me entrevistou hoje cedo.
— Ah. Ah, meu Deus, é verdade — disse Tricia, um pouco envergonhada.
— Deixei um recado para você há algumas horas. Como não tive nenhuma resposta, resolvi vir até aqui. Não queria que nos desencontrássemos.
— Ah, sim. Claro — disse Tricia, esforçando-se para entender logo o que estava acontecendo.
— Estou um pouco confuso com isso — disse o recepcionista, para quem entender logo não era importante. — Você deseja que eu ligue para esse número agora?
— Não, tudo bem, obrigada — disse Tricia. — Eu posso resolver isso sozinha.
— Posso ligar para esse quarto aqui para você, se for ajudar — disse o recepcionista, olhando para o recado novamente.
— Não, não vai ser necessário, obrigada — assegurou Tricia. — Esse número é do meu próprio quarto. O recado era para mim. Acho que já resolvemos isso, não?
— Tenha um bom dia, então — disse o recepcionista.
Tricia não estava particularmente interessada em ter um bom dia. Estava ocupada demais para isso. Também não queria conversar com Gail Andrews. Tinha limites bem definidos quanto a bater papo com os “cristãos”. Seus colegas chamavam de cristãos as pessoas que ela entrevistava e costumavam se benzer quando os viam entrando inocentemente no estúdio para encarar Tricia, especialmente quando ela estava sorrindo calorosamente e mostrando os dentes.
Virou-se e deu um sorriso glacial, tentando definir o que ia fazer.
Gail Andrews era uma quarentona bem cuidada. As suas roupas estavam dentro dos limites de um bom gosto caro, mas definitivamente amontoadas na parte mais extravagante dos limites. Ela era astróloga — famosa e, se os boatos eram de fato verdadeiros, influente, já tendo supostamente influenciado diversas decisões do falecido presidente Hudson, desde o sabor de cobertura que ele deveria colocar em suas sobremesas em cada dia da semana até a sua decisão de bombardear ou não Damasco.
Tricia realmente havia pegado pesado com ela. Não sobre a veracidade das histórias sobre o presidente, aquilo já estava mais do que batido. Na época, Gail Andrews negara enfaticamente ter aconselhado o presidente Hudson em qualquer assunto além de questões pessoais, espirituais e dietéticas, o que, aparentemente, não tinha nada a ver com bombardear Damasco. (“NADA PESSOAL, DAMASCO!” alardearam os jornais na época.)
Não, aquilo era peixe pequeno perto das perguntas que Tricia preparara sobre a questão da astrologia em si. A Sra. Andrews não estava exatamente preparada para aquilo. Tricia, por outro lado, não estava exatamente preparada para um segundo round no lobby do hotel. O que fazer?
— Posso esperá-la no bar, se precisar de um tempinho — sugeriu Gail Andrews. — Mas gostaria de conversar com você e estou indo embora hoje à noite.
Ela parecia um pouco aflita, mais do que magoada ou irada.
— O.k. — respondeu Tricia. — Me dá uns dez minutinhos.
Subiu para o quarto. Antes de mais nada, confiava tão pouco na capacidade do sujeito da recepção para lidar com uma coisa tão complicada como um recado que precisava se certificar se havia algum outro debaixo da porta. Não seria a primeira vez em que os recados da recepção e os debaixo da porta discordariam completamente um do outro.
Não havia nada.
Mas uma luz no telefone estava piscando.
Ela apertou o botão de recados e foi transferida para a operadora do hotel.
— Você tem uma mensagem de Gary Andress — disse ela.
— Pois não — disse Tricia. Um nome desconhecido. — Qual é?
— Traste — disse ela.
— Como é que é? — perguntou Tricia.
— Traste. É o que está escrito aqui. O sujeito diz que é um traste. Acho que queria que você soubesse disso. Quer que eu passe o telefone?
Assim que a telefonista começou a ditar o número, Tricia percebeu subitamente que aquela era apenas uma versão deturpada do recado anterior.
— Está bem, está bem — disse ela. — Mais algum recado pra mim?
— Qual o número do quarto?
Tricia não conseguia compreender por que a operadora decidira perguntar o número do quarto àquela altura da conversa, mas respondeu assim mesmo.
— Qual o seu nome?
— McMillan, Tricia McMillan — soletrou, pacientemente.
— Não é o Sr. MacManus?
— Não.
— Acabaram seus recados. — Click.
Tricia suspirou e discou novamente. Desta vez, disse o número do quarto e o seu nome novamente, de cara. A operadora não demonstrou o menor indício de lembrar que haviam acabado de se falar há dez segundos.
— Estarei no bar — explicou Tricia. — No bar. Se aparecer alguma ligação para mim, a senhora pode pedir, por gentileza, que transfiram para o bar?
— Qual o seu nome?
Repetiram tudo novamente, até Tricia ter certeza absoluta de que tudo que eventualmente poderia ser esclarecido havia sido tão esclarecido quanto possivelmente pudesse ser.
Tomou uma ducha, colocou roupas limpas e retocou a maquiagem com a rapidez de uma profissional. Suspirou ao olhar para a sua cama e saiu do quarto.
Chegou a pensar em sair de fininho e se esconder.
Não. Que nada.
Olhou-se no espelho do hall enquanto esperava o elevador. Parecia tranquila e no comando da situação; se conseguia enganar a si mesma, conseguia enganar qualquer um.
Bastava ser dura com Gail Andrews. Tudo bem, pegara pesado com ela. Sentia muito, mas era parte do jogo — essas coisas. Gail concordara em dar a entrevista porque estava prestes a lançar um livro novo, e exposição na tevê era publicidade gratuita. Mas tudo na vida tem um preço. Não, ia cortar aquela parte.
O que tinha acontecido era o seguinte: Na semana anterior, astrônomos anunciaram que haviam finalmente descoberto um décimo planeta, bem longe, além da órbita de Plutão. Há anos procuravam por ele, guiados por determinadas anomalias orbitais nos planetas mais externos e, agora que haviam encontrado, estavam incrivelmente felizes e todos estavam incrivelmente contentes por eles e etc. e tal. O planeta foi batizado de Perséfone, mas rapidamente ganhou o apelido de Rupert, por causa do papagaio de um dos astrônomos — havia uma bela história tediosamente sentimental por trás disso tudo —, e aquilo era lindo e maravilhoso.
Tricia acompanhara os acontecimentos com muito interesse, por vários motivos. Então, quando estava procurando uma boa desculpa para viajar para Nova York às custas de sua emissora, um press-release sobre o novo livro de Gail Andrews, Você e os seus planetas, chamou sua atenção.
Gail Andrews não era muito conhecida na Inglaterra, mas bastava mencionar o presidente Hudson, cobertura para doce e a amputação de Damasco (o mundo havia evoluído desde os ataques com precisão cirúrgica — o termo oficial havia sido “Damascotomia”, significando a “remoção” de Damasco), que todo mundo sabia de quem se tratava.
Tricia percebeu que havia uma brecha e convenceu seu produtor. Com certeza a ideia de que blocos gigantescos de pedra rodopiando no espaço poderiam saber algo a respeito do seu dia que você mesmo não sabe deve ter sido impactado com a descoberta súbita de um novo bloco de pedra que ninguém conhecia. Isso deve ter invalidado alguns cálculos, certo? E todos aqueles mapas astrais, movimentações planetárias e etc. e tal? Todos nós sabemos (a princípio) o que acontece quando Netuno está em Virgem e por aí vai, mas o que será que acontece quando Rupert está em ascendência? Será que a astrologia como um todo não teria de ser repensada? Quem sabe não fosse uma boa hora para admitir que aquilo tudo não passava de uma baboseira e se dedicar à criação de porcos, cujos princípios eram, ao menos, baseados em fundamentos racionais? Se soubéssemos da existência de Rupert há três anos, será que o presidente Hudson teria comido calda de chocolate às quintas-feiras em vez de às sextas? Será que Damasco ainda estaria de pé? Esse tipo de coisa.
Gail Andrews aceitara tudo numa boa. Estava começando a se recuperar do primeiro ataque quando cometeu o erro de tentar enrolar Tricia com uma conversa fiada sobre arcos diurnos, ascensões diretas e algumas das áreas mais obscuras da trigonometria tridimensional.
Ficou chocada ao descobrir que Tricia rebatia todas as suas frases com mais efeito do que ela podia enfrentar. Ninguém avisara a Gail que ser uma perua de televisão representava, para Tricia, uma segunda oportunidade de ser alguém na vida. Por trás da sua maquiagem Chanel, seu coupe sauvage e suas lentes de contato azuis cristalinas havia um cérebro que havia adquirido, em uma fase antiga e abandonada da sua vida, um respeitável diploma em matemática e um doutorado em astrofísica.
Ao entrar no elevador, Tricia percebeu que estava levemente preocupada por ter esquecido a bolsa no quarto e pensou se devia voltar depressa e apanhá-la. Não. Provavelmente estaria mais segura lá dentro e, de qualquer forma, não havia nada na bolsa que ela estivesse precisando. Deixou a porta fechar-se atrás de si. Além do mais, repetiu para si mesma, respirando fundo, se havia uma coisa que a vida a ensinara era isso: nunca volte para buscar sua bolsa.
Enquanto o elevador descia, ela olhou para o teto com uma certa obstinação.
Qualquer pessoa que não conhecesse bem Tricia McMillan teria dito que era exatamente daquele jeito que as pessoas às vezes olham para cima quando querem conter as lágrimas. Ela devia estar observando a minúscula câmera de segurança montada no teto.
Saiu do elevador com passos enérgicos e dirigiu-se novamente à recepção.
— Veja bem, eu vou anotar isso aqui — explicou ela — porque não quero que nada dê errado.
Escreveu o seu nome em letras garrafais em um pedaço de papel.
Depois acrescentou o número do seu quarto e a mensagem “ESTOU NO BAR” e entregou o papel ao recepcionista, que o examinou.
— Caso haja alguma mensagem para mim. Está bem?
O recepcionista continuou examinando o pedaço de papel.
— A senhora quer que eu verifique se ela está no quarto? — perguntou ele.
Dois minutos depois, Tricia acomodou-se no bar ao lado de Gail Andrews, que estava sentada diante de uma taça de vinho branco.
— Você me pareceu o tipo de pessoa que prefere sentar-se no bar a ficar quietinha numa mesa — disse ela.
Aquilo era verdade e deixou Tricia um pouco surpresa.
— Vodca? — perguntou Gail.
— Sim — respondeu Tricia, desconfiada. Estava quase perguntando “como é que você sabe?” quando Gail respondeu:
— Perguntei ao barman — explicou ela, com um sorriso simpático. O barman preparou a vodca e deslizou elegantemente o copo sobre a mesa lustrada de mogno.
— Obrigada — agradeceu Tricia, mexendo sua bebida com gestos curtos.
Não sabia o que aquela gentileza repentina significava e estava determinada a não se deixar enganar por ela. As pessoas em Nova York não eram gentis umas com as outras à toa.
— Olha — disse ela, firme —, sinto muito se a senhora está triste. Sei que deve estar achando que eu fui muito dura hoje pela manhã, mas a astrologia, no final das contas, não passa de uma diversão popular e, até aí, tudo bem. Faz parte do showbiz e é uma coisa que a senhora faz muito bem, lhe desejo boa sorte. É divertido. Contudo, não é uma ciência e não devemos confundir as coisas. Acho que isso é algo que nós duas conseguimos demonstrar muito bem hoje cedo e ainda proporcionamos diversão popular aos outros, que é exatamente o nosso trabalho. Lamento muito se isso a desagrada.
— Estou bem feliz — disse Gail Andrews.
— Ué — disse Tricia, sem saber o que pensar. — Seu recado dizia que estava triste.
— Não — respondeu Gail Andrews. — Eu deixei um recado dizendo que achava que você estava triste e fiquei curiosa para saber o porquê.
Tricia se sentiu como se tivesse levado um chute na nuca. Piscou os olhos.
— O quê? — perguntou ela, baixinho.
— Os astros. Você me pareceu muito irritada e triste em relação aos astros e aos planetas quando estávamos discutindo hoje cedo e isso está me incomodando. Por isso eu vim até aqui, para ver se você estava bem.
Tricia olhou fixamente para ela.
— Senhora Andrews — começou ela, e então percebeu que tinha soado exatamente irritada e triste, o que iria tirar o valor de seu protesto.
— Por favor, pode me chamar de Gail, se preferir.
Tricia parecia desnorteada.
— Eu sei que astrologia não é uma ciência — disse Gail. — Claro que não é. Não passa de um conjunto de regras arbitrárias como xadrez ou tênis, ou... qual é mesmo o nome daquela coisa esquisita de que vocês ingleses brincam?
— Humm... críquete? Autodepreciação?
— Democracia parlamentar. As regras meio que surgiram do nada. Não fazem o menor sentido, a não ser quando pensadas no próprio contexto. Mas, quando a gente começa a colocar essas regras em prática, vários processos acabam acontecendo e você começa a descobrir mil coisas sobre as pessoas. Na astrologia, as regras são sobre astros e planetas, mas poderiam ser sobre patos e gansos que daria no mesmo. É apenas uma maneira de pensar sobre um problema que permite que o sentido desse problema comece a emergir. Quanto mais regras, quanto menores, mais arbitrárias, melhor fica. É como assoprar um punhado de poeira de grafite em um pedaço de papel para visualizar os entalhes escondidos. Permite que você veja as palavras que haviam sido escritas sobre o papel que estava por cima e que foi removido. O grafite não é importante. É apenas uma maneira de revelar os entalhes. Então, veja, a astrologia de fato nada tem a ver com a astronomia. Tem a ver com pessoas pensando sobre pessoas.
Ela continuou:
— Então, quando você ficou tão, sei lá, tão emocionalmente concentrada nos astros e nos planetas hoje de manhã, eu comecei a pensar: ela não está irritada com a astrologia, está irritada e triste com os astros e os planetas. As pessoas normalmente só ficam assim, tristes e irritadas, quando perdem alguma coisa. Isso foi tudo o que eu consegui imaginar e não passei desse ponto. Então vim ver se você estava bem.
Tricia estava embasbacada.
Uma parte do seu cérebro já havia começado a funcionar a pleno vapor. Estava ocupada construindo várias réplicas malcriadas sobre como os horóscopos de jornal eram ridículos e como usavam truques estatísticos para pegar as pessoas.
Mas, aos poucos, aquilo tudo foi desaparecendo, porque percebeu que o resto do seu cérebro não estava ouvindo. Ela estava completamente embasbacada.
Uma total desconhecida acabara de lhe dizer algo que ela mantivera em segredo por dezessete anos.
Virou-se para Gail.
— Eu...
Parou.
Uma minúscula câmera de segurança acima do bar girou para acompanhar o seu movimento.
Aquilo a deixou completamente baratinada. A maioria das pessoas não teria sequer notado. Não era feita para ser notada. Não havia sido projetada para sugerir que atualmente até mesmo um hotel caro e elegante em Nova York não tinha certeza de que sua clientela não iria puxar uma arma subitamente ou deixar de usar uma gravata.
Mas, apesar de cuidadosamente escondida atrás de uma garrafa de vodca, não podia enganar o instinto apurado de uma âncora de tevê que deveria saber exatamente quando uma câmera estava girando em sua direção.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Gail.
— Não, é que eu... eu tenho que admitir que você me deixou espantada — disse Tricia.
Decidiu ignorar a câmera de segurança. Devia ser apenas a sua imaginação pregando-lhe uma peça por estar tão obcecada com televisão naquele dia. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Estava convencida de que uma câmera de monitoramento de trânsito tinha se virado para acompanhar o seu andar e que uma outra, de segurança, na Bloomingdale’s, tinha feito questão de vigiá-la enquanto experimentava uns chapéus. Estava ficando doida, é claro. Chegara até mesmo a imaginar que um passarinho no Central Park havia encarado-a de propósito.
Decidiu tirar aquilo da cabeça e tomou um gole da vodca. Um sujeito estava andando pelo bar perguntando quem era o Sr. MacManus.
— O.k. — disse Tricia, decidindo colocar tudo para fora. — Não sei como foi que você descobriu isso, mas...
— Eu não descobri nada, ao contrário do que você diz. Apenas escutei o que você estava dizendo.
— O que eu perdi, acho eu, foi uma outra vida inteira.
— Acontece com todos nós. A cada momento de cada dia. Cada decisão que tomamos, cada vez que respiramos, abre algumas portas e fecha várias outras. Não percebemos a maioria, mas notamos algumas. Acho que você percebeu uma delas.
— Ah, sim, e como — respondeu Tricia. — Vamos lá, eu vou contar. É muito simples. Há vários anos eu conheci um cara em uma festa. Ele disse que era de outro planeta e perguntou se eu queria ir embora com ele. Eu disse tá, tudo bem. Era uma senhora festa. Pedi pra ele esperar um pouquinho enquanto eu ia buscar minha bolsa, depois iria com ele numa boa para outro planeta. Ele disse que eu não ia precisar da bolsa. Respondi que ele com certeza devia vir de um lugar muito atrasado ou então saberia que uma mulher sempre precisa carregar sua bolsa. Ele ficou meio impaciente, mas eu não ia me fazer de fácil só porque ele tinha dito que era de outro planeta. Fui até o segundo andar. Demorei um tempo para encontrar a bolsa e depois o banheiro estava ocupado. Quando desci, ele tinha ido embora.
Tricia fez uma pausa.
— E...? — perguntou Gail.
— A porta do jardim estava aberta. Fui lá fora. Havia umas luzes, uma coisa brilhante. Cheguei a tempo de vê-la levantar voo, partir silenciosa pelas nuvens e desaparecer. E foi isso. Fim da história. Fim de uma vida, início de outra. Mas não passo um minuto desta vida sem imaginar como teria sido a outra Tricia. A que não teria voltado para apanhar a bolsa. Fico achando que ela está lá fora, em algum lugar, e que sou apenas a sua sombra.
Um membro da equipe do hotel estava rondando o bar perguntando se alguém era o Sr. Miller. Ninguém era.
— Você realmente acredita que essa... pessoa era de um outro planeta? — perguntou Gail.
— Com certeza. Eu vi a nave. E, ah, ele tinha duas cabeças.
— Duas? E ninguém mais percebeu?
— Era uma festa à fantasia.
—Ah, tá...
— E ele havia coberto a outra cabeça com uma gaiola. Com um pano por cima. Fingia ter um papagaio. Ficava batendo na gaiola, falando aquelas bobagens de “Dá o pé, louro” e grunhindo. Mas teve uma hora em que ele jogou o pano para trás e deu uma gargalhada. Havia outra cabeça lá dentro, gargalhando também. Foi um momento bem estranho, devo dizer.
— Eu acho que você fez a coisa certa, minha querida. Não acha? — disse Gail.
— Não — respondeu Tricia. — Não, não fiz. E também não consegui continuar a fazer o que estava fazendo na época. Eu era astrofísica, sabe. Não dá para continuar sendo uma astrofísica decente após ter conhecido um sujeito de outro planeta com uma segunda cabeça disfarçada de papagaio. É impossível. Eu, pelo menos, não consegui.
— Deve ser difícil, de fato. E provavelmente é por isso que você tende a ser um pouco dura com pessoas que falam coisas que parecem absurdas.
— Pois é — concordou Tricia. — Acho que você tem razão. Desculpe.
— Tudo bem.
— Você é a primeira pessoa para quem conto isso, por sinal.
— Imagino. Você é casada?
— Ah, não. Difícil saber se alguém é casado nos nossos dias, não? Mas sua pergunta faz sentido, porque provavelmente foi essa a causa. Cheguei bem perto algumas vezes, sobretudo porque queria ter um filho. Mas todos os caras sempre acabavam perguntando por que eu ficava olhando constantemente por sobre os ombros deles. O que eu ia dizer? Cheguei a pensar em ir até um banco de esperma e tentar a sorte. Ter o filho de alguém, aleatoriamente.
— Você não faria isso de fato, faria?
Tricia riu.
— Provavelmente, não. Nunca cheguei a ir para ver como seria. Nunca consegui. Minha vida é sempre assim. Nunca cheguei a fazer algo de verdade. Suponho que seja por isso que estou trabalhando na televisão, sabe? Nada é real.
— Com licença, senhora, o seu nome é Tricia McMillan?
Tricia virou-se, surpresa. Havia um homem parado diante dela usando um chapéu de chofer.
— É — disse ela, aprumando-se instantaneamente.
— Senhora, estou há uma hora procurando-a. O hotel disse que não tinha ninguém com esse nome, mas eu confirmei com o escritório do Sr. Martin e eles afirmaram que a senhora realmente estava hospedada aqui. Então perguntei novamente e eles continuaram dizendo que nunca tinham ouvido falar na senhora. Depois consegui que fossem procurá-la, mas não conseguiram encontrá-la. Acabei pedindo para o escritório enviar um fax com uma foto sua para o carro e saí procurando-a pessoalmente.
Ele deu uma olhadela no relógio.
— Talvez seja tarde demais agora, mas a senhora quer ir assim mesmo?
Tricia estava em estado de choque.
— Sr. Martin? Você diz, Andy Martin, da NBS?
— Isso mesmo, senhora. Teste de vídeo para o programa Bom Dia Estados Unidos.
Tricia levantou-se de supetão. Não podia nem pensar em todos aqueles recados que havia escutado para o Sr. MacManus e o Sr. Miller.
— Mas temos que correr — disse o chofer. — Pelo que ouvi, o Sr. Martin acha que vale a pena testar um sotaque britânico. O chefe dele na emissora, o Sr. Zwingler, é completamente contra a ideia. Eu sei que ele vai viajar hoje no final do dia, porque sou eu quem deve buscá-lo e levá-lo ao aeroporto.
— O.k. — disse Tricia. — Estou pronta. Vamos lá.
— Está bem, senhora. É a limusine grandona estacionada aqui na porta.
Tricia virou-se para Gail.
— Sinto muito — disse ela.
— Vai, vai! — disse Gail. — E boa sorte, hein? Gostei de conversar com você.
Tricia fez menção de apanhar a bolsa para pegar um dinheiro.
— Droga — disse ela. Deixara a bolsa lá em cima.
— Os drinques são por minha conta — insistiu Gail. — Sério. Foi muito interessante.
Tricia deixou escapar um suspiro.
— Olha, sinto muito por hoje de manhã e...
— Não diga mais nada. Estou bem. É só astrologia. É inofensivo. Não é o fim do mundo.
— Obrigada. —Tricia abraçou-a, impulsivamente.
— Está pronta, senhora? — perguntou o chofer. — Não quer ir buscar a bolsa ou algo assim?
— Olha, se tem uma coisa que a vida me ensinou — disse Tricia — é jamais voltar para buscar a bolsa.
Mais ou menos uma hora depois, Tricia estava sentada em uma das camas do seu quarto de hotel. Por alguns minutos, não se moveu. Apenas ficou encarando a sua bolsa, que repousava inocentemente em cima da outra cama.
Estava segurando um bilhete de Gail Andrews, que dizia: “Não fique muito decepcionada. Ligue, se quiser falar a respeito. Se eu fosse você, ficaria em casa amanhã à noite. Descanse um pouco. Mas não me dê ouvidos e não se preocupe. É só astrologia. Não é o fim do mundo. Gail.”
O chofer estava coberto de razão.
Para falar a verdade, o chofer parecia saber mais sobre os bastidores da NBS do que qualquer outra pessoa da empresa que ela conhecera. Martin estava a fim, mas Zwingler, não. Tivera uma única oportunidade de provar que Martin tinha razão e estragara tudo.
Tudo bem. Tudo bem, tudo bem, tudo bem.
Hora de voltar para casa. Hora de ligar para a companhia aérea e ver se ainda dava tempo de pegar o voo noturno para Heathrow naquela noite. Pegou o enorme catálogo.
Ah. Precisava fazer uma coisa antes.
Largou o catálogo, apanhou a bolsa e a levou ao toalete. Apoiando-a, catou o pequeno estojo de plástico onde guardava suas lentes de contato, sem as quais não havia conseguido ler nem o texto nem o teleprompter.
Enquanto encaixava as lentes nos olhos, refletiu sobre uma coisa: se havia algo que a vida lhe ensinara, era que existem momentos em que você não deve voltar para apanhar a bolsa e outros momentos em que deve. Agora só faltava a vida lhe ensinar a distinguir entre os dois.

Um comentário:

  1. Oi Karina.Poderia por favor postar:Tartarugas até lá embaixo do JG e Jogo de espelhos da Cara Delevingne? Por Favor eu quero muito ler!!!

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Boa leitura :)